A vida na aposentadoria e os impactos da pandemia no dia a dia de aposentados e aposentadas


21.Janeiro.2021 - 18h02min

Quando um trabalhador ou uma trabalhadora se aposenta, tornam-se livres muitas horas do dia antes dedicadas ao trabalho – ao menos para os que conseguem parar de trabalhar após a aposentadoria. Há, assim, grande impacto na rotina, um impacto que pode ser positivo, permitindo o desenvolvimento de atividades antes dificultadas pela falta de tempo, mas que também traz novos desafios. Nesta semana, o Sintrajufe/RS está publicando uma série de matérias relativas à Semana dos Aposentados e das Aposentadas e, desta vez, o tema é a vida na aposentadoria.

Um terço de nosso dia, costumeiramente, é dedicado ao trabalho, fora o tempo de deslocamento. Quando nos aposentamos, essa atividade desaparece de um dia para o outro. Ou seja, passamos a ter cerca de oito horas a mais para preencher ao longo do dia. Essa liberdade gera, também, em alguns casos, angústia. Aprendemos que é preciso ser “produtivo” e dedicamos nossa vida ao trabalho. Mas a vida é mais do que isso, e adaptar-se à nova realidade, com a aposentadoria, é um desafio.

Saúde

Quando a aposentadoria chega, aos poucos os aposentados e as aposentadas começam a deparar-se com as vantagens da época, mas também novos problemas, como a crescente necessidade de cuidado com a saúde física e mental. O colega Ari Heck, aposentado da Justiça do Trabalho e PCD, aponta que “a aposentadoria teve seus efeitos psicológicos negativos, com a perda do convívio e do contato com os colegas de trabalho. Mas, por outro lado, serviu para pensar um pouco na saúde física e mental. E tenho aproveitado bastante isso: faço hidroterapia todos os dias e cuido mais da minha alimentação, coisa que, quando trabalhava, não conseguia fazer. Sem contar que, na aposentadoria, a gente não fica tão preso ao relógio, o que facilita uma vida mais tranquila”.

A diretora do Sintrajufe/RS Cristina Viana, aposentada em dezembro de 2019, lembra que a questão da saúde tornou-se ainda mais importante com a pandemia: “Ninguém imaginava que, em março, sobreviria a pandemia do coronavirus. Então veio a preocupação com a saúde e a vida dos colegas, especialmente os da ativa que precisavam permanecer no trabalho presencial, pois integro a Secretaria de Saúde e Relações de Trabalho (SSRT). Aumentou a nossa  atenção à saúde mental dos colegas da ativa e aposentados também. Implementamos as inúmeras reuniões por vídeo com colegas, comitês dos órgãos, administrações e as vistorias nos locais de trabalho quando os tribunais decidiram o retorno”.

O colega Elton Luiz Decker segue na ativa, embora já tenha direito à aposentadoria especial. Aos 56 anos de idade, já trabalha no TRT4 há 38 anos. Por ter sido vítima de poliomielite, já teve reconhecido pelo tribunal o direito à aposentadoria especial, mas, por conta dos problemas da regulamentação da modalidade no serviço público, ainda não tem garantida a paridade e integralidade, o que faz com que, neste momento, adie a aposentadoria. Porém, segue lutando, via núcleo de PCDs do Sintrajufe/RS, pela regulamentação da aposentadoria especial para o segmento. Daqui a três anos, Elton terá preenchido todos os requisitos para receber integralidade e paridade, evitando o problema comum da diminuição salarial na aposentadoria: “Até chegar a essa data, já iniciei uma jornada pessoal de reflexão sobre a vida pós-trabalho. Os problemas de saúde que os PCDs enfrentam é um desafio para mim, pois já se apresentam alguns sinais da síndrome pós-pólio, ocasionada pelo desgaste precoce de diversas partes do corpo para acompanhar o ritmo da chamada ‘vida normal’, calcada no produtivismo, eficiência, rapidez, etc. Fora do trabalho, me dedico ao meu violão, à meditação e à leitura. Também atuo como líder na Pastoral da Criança, acompanhando mães e crianças de 0 a 6 anos de idade. Quando chegar a tão esperada aposentadoria, pretendo intensificar e ampliar a dimensão da compaixão, com mais tempo dedicado para atividades de retomada do trabalho de base junto às comunidades, e também junto à Pastoral da Criança. Minha escolha é investir nas crianças e jovens. Também quero conhecer novas coisas, experiências e lugares, vinculado ao turismo comunitário e não comercial”.

A espera pela aposentadoria, as novas rotinas e a continuidade da luta

Carle Martins, colega da Justiça do Trabalho, também ainda não está aposentada. Ela conta que já poderia estar aposentada há quatro ou cinco anos, mas segue trabalhando para se manter ativa, “aprender coisas novas, principalmente em termos de informática e pelo convívio com os colegas”. Ela conta não ter projetos concretos para a aposentadoria, mas diz que “quando resolver me aposentar, espero poder fazer trabalhos assistenciais, aulas de idiomas, de música, cursos e viagens, se meu salário comportar todas essas atividades. Afinal, ao se aposentar, a remuneração diminui bastante e nem sempre conseguimos fazer tudo que desejamos. Eu, particularmente, não gosto do serviço de casa, prefiro um trabalho mais intelectual. Então, o dinheiro é importante, também, na decisão de se aposentar”, explica.

Ana Margareth da Silva trabalhou no TRE-RS e está aposentada desde 2015. Desde lá, conta, “teve início a busca pelo lazer saudável, especialmente por meio do envolvimento com a literatura como escritora e mediadora de escrita criativa. Antes do isolamento social, estava praticando voleibol três vezes por semana com um grupo de mulheres, estudando italiano com afinco e escrevendo muito”. Mas veio a pandemia: “O impacto emocional foi muito grande e a reação veio a partir do segundo semestre, quando decidi participar de atividades promovidas à distância pelo nosso sindicato. Sempre acreditei no papel da instituição sindical em todos os âmbitos da vida do trabalhador e foi justamente onde encontrei o apoio que precisava”. Desde o início da pandemia, o Sintrajufe/RS passou a oferecer suas tradicionais oficinas de cultura de forma online. Essas atividades ajudaram colegas como Ana Margareth a manter rotinas e atividades mesmo à distância, no necessário distanciamento social: “As oficinas de italiano e poesia e o grupo focal literário promovidos pelo Sintrajufe/RS me devolveram a oportunidade de conhecer e interagir com pessoas de uma maneira lúdica”, comemora a colega.

Oralto Correa, colega da Justiça Federal, que atuava como oficial de justiça, está aposentdo desde 2008. Ele conta que, nestes 12 anos, realizou muitos sonhos: “pude me dedicar à família, faço muitas atividades lúdicas, viagens, leituras e os cuidados à saúde, como atividades físicas. Infelizmente, não tenho tido tempo para participar do NAF, em razão da indisponibilidade de horário, porém acompanho virtualmente todas as atividades do sindicato”.

A diretora Cristina Viana lembra que, ao mesmo tempo em que as atividades típicas da aposentadoria são realizadas, há que se dedicar à luta “pelo serviço público e o direito à aposentadoria integral e digna, agora mais difícil pelo isolamento imposto pela pandemia e mais necessária por termos um governo que tem o objetivo de destruir o que se construiu ao longo de muitos anos”. Assim, completa, “é com muito orgulho e coragem que, depois de 30 anos no serviço público, hoje faço parte do sindicato para lutar e apoiar meus colegas na defesa dos direitos conquistados”.

    Veja também

    Últimas Notícias

    Clique aqui e cadastre-se para receber nossos INFORMATIVOS

    cadastre-se

    Faça seu Login

    Troca de Usuário

    Recuperar Senha / Primeiro acesso

    O e-mail foi enviado com sucesso.

    Ocorreu um erro no envio.