Arroz e Flores: em live com parceria do Sintrajufe/RS, Emicida fala sobre a luta contra o racismo e defende o encontro como caminho


13.Novembro.2020 - 18h47min

O rapper e ativista Emicida participou, nessa quinta-feira, 12, de uma roda de conversa online como parte do 2º Fórum Aberto de Educação Antirracista do TRT4, dentro da programação do Novembro Negro. O Fórum é promovido pelo TRT4, pelo Sintrajufe/RS, pelo Coletivo de Negros e Negras do TRT4, pelo Comitê Gestor de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do TRT4 e pela Escola Judicial do tribunal. Com o tema “Arroz e Flores”, a conversa durou duas horas e passou por diversos temas abordados por Emicida em suas músicas, com um norte claro: o encontro como “superpoder” dos brasileiros e das brasileiras.

Na abertura da conversa, o desembargador Gilberto Souza dos Santos falou sobre a desigualdade de raça no Judiciário e, mais especificamente, no TRT4: negros e negras são apenas 1,3% dos juízes de 1º Grau, 2,1% dos magistrados e 6,5% dos servidores. A presidente do TRT4, desembargadora Carmen Gonzalez também fez uma breve participação, na abertura da atividade, defendendo que “reencontremos no amor e na empatia o elo que nos liga”.

O debate foi coordenado pela juíza Gabriela Lenz de Lacerda, coordenadora do Comitê Gestor de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade e pelos colegas Alexandre Modesto e Roberta Liana Vieira, do Coletivo de Negros e Negras (Roberta também é representante dos servidores e servidoras negros e negras no Comitê). Ao longo de toda a conversa, Alexandre recitou trechos de letras de Emicida, com as perguntas sendo encaminhadas a partir dos temas abordados. As citações, aliás, permearam o bate-papo, das canções de Emicida aos textos de Mário de Andrade – diversas vezes lembrado pelo artista.

Logo no início, o rapper citou o “Canto das Três Raças”, de Clara Nunes, para defender que a cultura popular é o que define a existência civilizatória no Brasil e que “o superpoder do brasileiro é o encontro e, infelizmente, às vezes a gente fica cego para esses encontros e produz o oposto deles”.

Quando disser que vi Deus / Ele era uma mulher preta

A conversa começou com Emicida falando sobre seu pai e sua mãe. Lembrou que perdeu o pai muito cedo, aos seis anos, e que essa relação – nem sempre muito próxima – foi sendo repensada e ressignificada ao longo de sua vida: “Eu encontro barreiras que são intransponíveis no meu imaginário e que não são nada perto das barreiras que o meu pai enfrentou. Eu entendi o que um país e uma sociedade como a nossa faz com pessoas como o meu pai”, disse.

Lembrou também da infância, quando trabalhava com pequenos bicos para ajudar a mãe em casa, com ambos sofrendo constantemente pela pobreza. A mãe, conta, vivia sob forte pressão, com pobreza, vários empregos, e o medo – um grande medo que atravessa tudo. A partir dessas reflexões, Emicida falou sobre a música “Mãe”: “Deus, no nosso entendimento, é uma aposta que a gente faz pra que todo o sofrimento tenha sentido e, depois de ultrapassar todas as barreiras, a gente vi ter um acalanto, um abraço, e era isso o que a minha mãe representava”, disse.

A gente quer se transformar em um ser humano melhor ou em uma engrenagem melhor?

Emicida falou sobre sua gravadora, a Laboratório Fantasma, e a necessidade de construir uma ética de trabalho diferente. Ele citou o músico B.B. King para lembrar o histórico de opressão do povo negro: “quando eu cheguei aqui – diz B.B. King –, quando uma pessoa negra morria, eles diziam ‘vai lá no celeiro e pega outro’”. Para Emicida, “o lugar onde a gente está e onde nossos avós estavam é um lugar muito diferente”, mas “fomos educados de uma forma equivocada a respeito de como deve ser a nossa relação com o trabalho – o estereótipo que diz que pessoas pretas não gostam de trabalhar é alienante inclusive pra nós mesmos”. O rapper lembrou sua visita a um campo de concentração, na Alemanha, e uma placa afixada na entrada, que diz que “o trabalho liberta”. Para Emicida, “a ideia do trabalho como única função do ser humano é completamente alienante. A possibilidade humana é muito mais ampla do que somente a produção. A gente quer se transformar em um ser humano melhor ou em uma engrenagem melhor?”. Arroz e flores, defendeu, são os dois campos em que a vida precisa acontecer: “A gente precisa do alimento, mas não pode perder de vista a beleza. A vida não é só apertar parafuso”.

Sentir o cheiro do café do barraco

Lembrando os textos de Mário de Andrade, Emicida defendeu a necessidade de valorizar tanto os estudos acadêmicos quanto o saber popular: “Eu posso encontrar teorias maravilhosas sobre o Rio de Janeiro dos anos 60 e 70, mas, quando eu escutar o Cartola e o Zé Keti, vou sentir até o cheiro do café do barraco dele. Não são coisas que se conflitam”. Para ele, é necessário reunir o Brasil real e o Brasil oficial para que o povo se encontre.

Parte desse encontro, defendeu, é a consciência sobre a necessidade do cuidar. Ele contou, então, o caso de um homem que plantou diversas árvores na rua e, sabendo da demora para algumas delas crescerem, comentou: “imagina como vai estar daqui a 300 anos”. Para Emicida, esse é um bom exemplo de como pensar o país de forma ampla: “As pessoas querem as coisas em 15 minutos, e a vida não é um miojo”, criticou.

Cotas, violência policial e masculinidade

Emicida exaltou a chamada Geração do Movimento Negro Unificado, da década de 1970, intelectuais que, conforme ele, produziram a “maior conquista do ativismo preto na história”, o reconhecimento de que 54% da população era, de alguma forma, afrodescendente. A partir dessa lembrança, Emicida defendeu a política de cotas como parte da quitação de uma dívida histórica. Para ele, as cotas precisam passar, inclusive, pela distribuição de terras: “Temos que conversar sobre o latifúndio. Por que a gente tem fazenda que é do tamanho de um país? Ela serve a algum país dentro do Brasil? Não, ela serve ao interesse de um grupo minúsculo de pessoas”.

A violência também esteve em pauta na conversa. A violência da masculinidade construída socialmente, a violência policial, a guerra às drogas. Emicida apontou que “a ideia de virilidade precisa se afirmar pela desigualdade, pelo poder de violação. Para combater a violência, temos que combater uma concepção de masculinidade que se alimenta da violência”. Ao mesmo tempo, destacou que a polícia não pode ser o único braço do Estado a chegar nas periferias, “se não, vamos trocar só os corpos, vamos continuar chorando”.

O encontro como superpoder

A arte foi destacada como uma forma importante de luta, mas não a única. Emicida defendeu que há iniciativas de combate ao racismo em diversos espaços, inclusive utilizando o Coletivo de Negros e Negras do TRT4 como um exemplo, assim como a própria atividade de que participava: “É necessária vontade política para que isso aconteça. E vontade política não é uma luz que cai do céu na cabeça do gestor. Ela é resultado de uma série de ações. Tem muita gente, silenciosamente, arregaçando as mangas e construindo essa outra experiência de analisar o mundo e construir o país que queremos dar de presente para os nossos filhos”, ressaltou. Para ele, um tarefa éurgente: “Criar uma ponte para que a gente entenda que o superpoder do brasileiro é o encontro. E a gente não pode abdicar do nosso superpoder”.

Participantes comentam

Para o diretor do Sintrajufe/RS Mário Marques, “Emicida é um ativista e músico que engrandece a negritude. A palestra foi sensacional  e incentivadora. Tratou de racismo, negritude e música.  Ele é um exemplo de pessoa para os mais jovens. Estão  de parabéns o TRT4,  Coletivo de Negros e Negras a Ejud e o Sintrajufe/RS”. Também diretora do Sintrajufe/RS, Luciana Krumenauer, que faz parte do Comitê de Equidade, comenta que “ter um ícone da música brasileira neste Fórum, cujas letras expressam quase tratados de que a vida deve ter amor e ser um elo para amizades, família, luta e trabalho, fortalece  o debate e traz a baila os entendimentos de justiça e igualdade para todas, todos e todes”.

Roberta Liana Vieira, integrante do Comitê de Equidade, ressalta a importância da atividade: “Ouvir o Emicida foi vital. Ele traz assuntos tão sérios e profundos como a fragilidade dos homens negros e a reparação histórica e humanitária pelos efeitos deletérios da escravidão de uma maneira amorosa e serena, alertando que ainda há muita coisa a se fazer, dando dicas de como fazer isso e, o mais importante, nos lembrando que temos uns aos outros. Ele é uma referência para nós, negros e negras. Um intelectual, um griot do nosso tempo. Ele vem de onde a gente vem. Ver ele ali era ver a nós mesmos. A tarde de ontem foi histórica. Foi emocionante. E, como ele mesmo diz ‘há sempre um mundo, apesar de já começado, há sempre um mundo pra gente fazer’. Parabéns a todos, todas e todes envolvidos, envolvidas e envolvides!”.

Alexandre Modesto, do Coletivo de Negros e Negras, aponta que “Emicida, para nós, negros e negras, além de artista e de ícone, é um irmão. Em cada palavra, ele consegue verbalizar o que sentimos, porque vive o que vivemos. Tê-lo dentro do TRT, uma instituição predominantemente branca, foi uma oportunidade única. Ele fala lindamente da dona Maria, que antes de o sol nascer já começou seu dia. É a mãe que deixa seus filhos para cuidar de outros filhos, que deixa sua família para dar atenção e cuidado a outras famílias. Me emocionei neste momento, pois lembrei de mim criança, que, para conseguir me despedir de minha mãe, precisava madrugar com ela. A roda de conversa foi um presente para todos e todas que são empáticos à causa da negritude”.

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