Apagão no Amapá: governo diz que saída é a privatização, mas quem está consertando é uma estatal; colega do TRE-AP relata o caos


10.Novembro.2020 - 20h07min

Oito dias depois de incêndio em um transformador da empresa espanhola Isolux, cerca de 700 mil pessoas em 13 das 16 cidades do Amapá ainda estão sem energia elétrica e sofrem com escassez de água e combustíveis. A empresa é privada, mas quem está fazendo os reparos é a estatal Eletronorte, holding da Eletrobrás, que integra a lista de privatizações do governo Jair Bolsonaro.

A subestação de energia, na capital Macapá, pegou fogo na noite de 3 de novembro. Em plena pandemia do novo coronavírus, cujos números estão em alta no estado, e com um calor de cerca de 40 graus, a cidade vive um caos. Além disso, boa parte da água no estado é captada por poços artesianos, que precisam de energia elétrica para funcionar.

A Eletronorte enviou técnicos dos estados do Pará, Maranhão e Rondônia para ajudar no reparo. O problema é que nem gerador substituto ou peças de reposição a Isolux possui no local. Segundo o diretor do Sindicato dos Urbanitários do Maranhão Wellington Diniz, a Isolux não tem capacidade técnica ou trabalhadores em número suficiente para manutenção nem recompor a energia em pouco espaço de tempo, por isso os técnicos da estatal foram chamados para prestar socorro.  

A maior parte da energia está sendo concentrada em hospitais. O governo federal liberou 21,9 milhões para aluguel de geradores e compra de combustível para operação desses equipamentos. Nos locais em que a energia foi restabelecida, é feito rodízio, ou seja, as famílias têm luz apenas poucas horas por dia. Um dos “negócios” que surgiram em meio à crise foi o aluguel de tomadas, para que as pessoas liguem as geladeiras; uma barra de gelo chega a custar R$ 50,00.

As filas nos supermercados são imensas; a compra de água está sendo racionada, assim como a compra de pão. Nos postos de combustíveis, as filas são formadas por 60 a 50 veículos; vários fecharam, porque as bombas não têm condições de retirar o produto dos poços. Há também o medo de aumento de assaltos ou outros tipos de violência, pois as ruas ficam totalmente escuras à noite.

Colega do TRE-AP diz que a situação piorou com a privatização

Para obter mais informações sobre a situação, o Sintrajufe/RS conversou com Mara Ruth Shaif, analista judiciária do TRE-AP. Ela conta que, quando foi morar em Macapá há 16 anos, o serviço de energia elétrica, ainda público, era precário, com equipamentos sucateados. Mara acredita que isso era para fazer com que a população concordasse mais facilmente com a privatização. Mas, depois de privatizado, não houve melhorias; “pelo contrário, piorou”; ela afirma: “é comum quando chove ou venta mais forte faltar energia”.

Mara Ruth afirma que, embora o serviço fosse instável, nunca se chegou a uma situação parecida com a atual. Quem tem uma situação financeira um pouco melhor comprou geradores, que agora estão em falta no mercado. A população mais carente, além de não ter energia elétrica, não tem água para beber nem para higiene pessoal. A colega dormiu dois dias no carro com a filha; o marido, em outro carro, devido às altas temperaturas dentro de casa. Essa é situação de muitas pessoas, mas ela lembra que é pior para quem não tem nem essa opção. 

A telefonia também está funcionando precariamente. A colega relata que, no TRE-AP, apesar da presença de geradores, ficaram sem telefone e sem internet por pelo menos dois dias. Vários equipamentos foram danificados, e o sistema só começou a se normalizar sábado.

Para Mara, é uma vantagem a Eletronorte não estar privatizada, pois, lembra ela, os técnicos da estatal é que estão fazendo o conserto do problema na empresa privada. “Se não fosse a Eletronorte, a gente estaria em uma situação muito pior”. Até o momento, a Isolux não se manifestou, apesar de decisão liminar para que isso aconteça e os serviços sejam retomados em até três dias. Mara lembra que a empresa está em recuperação judicial; portanto, não há certeza de que tenha capacidade financeira ou que vá honrar a determinação. Segundo o diretor do Sindicato dos Urbanitários do Maranhão Wellington Diniz – em entrevista ao site da CUT –, em 2014, a Isolux deu um prejuízo de US$ 476 milhões ao estado norte-americano de Indiana, onde também prestava serviços. 

Revolta, repressão e privatização

Somente nessa segunda-feira, 9, o ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, visitou o Amapá. Ele deu até dez dias para solucionar o problema, o que é demais para quem já está há uma semana nessa situação.

A população está revoltada. Já foram feitas diversas manifestações nas ruas, inclusive com barricadas, exigindo uma solução. A resposta foi repressão policial, com relatos de pessoas atingidas com balas de borracha pela Polícia Militar, incluindo um adolescente de 13 anos.

Em meio ao apagão causado por problemas em uma empresa privada, Albuquerque deu entrevista, nesta quarta-feira, e assegurou que a privatização da Eletrobras deve ocorrer ainda em 2021. Segundo o ministro, “estamos trabalhando nesse sentido com o Congresso Nacional”; “a quatro mãos” com os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RS), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). Também estão na lista: Correios, Porto de Santos e Pré-Sal Petróleos.

O presidente do Sindicato dos Urbanitários do Amapá, Jedilson Santa Bárbara de Oliveira, critica o desmonte da Eletronorte no estado; em cerca de dez anos, o número de trabalhadores foi reduzido à metade. “A empresa quer incentivar a demissão de trabalhadores experientes por meio de PDVs, mas na hora que mais precisa, são eles que são chamados. As mil demissões que a Eletrobras quer fazer são para baratear os custos para privatizar e entregar ao capital internacional mais uma empresa brasileira superavitária. A Eletrobras teve um lucro no último ano de R$ 20 bilhões", denuncia Jedilson.

Sintrajufe/RS, com informações de CUT e G1.

    Veja também

    Últimas Notícias

    Clique aqui e cadastre-se para receber nossos INFORMATIVOS

    cadastre-se

    Faça seu Login

    Troca de Usuário

    Recuperar Senha / Primeiro acesso

    O e-mail foi enviado com sucesso.

    Ocorreu um erro no envio.