Cloroquina e pressão sobre prefeitos: receita das entidades empresariais gaúchas para a covid-19


21.Julho.2020 - 18h15min

Em documento enviado ao governador Eduardo Leite (PSDB) nessa segunda-feira, 20, entidades que reúnem o empresariado do Rio Grande do Sul expressa o alinhamento com as políticas de Jair Bolsonaro (sem partido) para a pandemia do novo coronavírus. Entre as medidas defendidas pelas entidades estão a liberdade para os prefeitos decidirem as melhores políticas, a “parceria” com o governo federal e a disponibilização de “tratamento precoce”, ou seja, o uso de remédios como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, sem nenhuma comprovação de eficácia e que, conforme especialistas, podem colocar em risco a vida dos pacientes. O documento é assinado pelos presidentes da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), da Federação de Entidades Empresariais do RS (Federasul), da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do  RS (Fecomércio) e da Federação das Indústrias do Estado do RS (Fiergs). Também assinam a carta o presidente da Assembleia Legislativa, Ernani Polo (PP) e o líder da bancada federal do RS, Giovani Cherini (PL).

O documento reconhece que há uma piora no quadro da pandemia no Rio Grande do Sul. É um dos estados com maior crescimento de casos confirmados e mortes neste momento. Até o fechamento desta matéria, são 47.449 casos e 1.285 vidas perdidas no estado. Para os empresários que assinam a carta, porém, o problema “nada tem a ver com a reabertura gradual da economia”. O que os empresários chamam de “reabertura gradual” é, na verdade, o modelo de “distanciamento controlado” implementado por Eduardo Leite no estado. O modelo foi colocado em uso no dia 11 de maio, quando o RS tinha 4.580 casos, 113 mortes e uma curva lenta de crescimento. Hoje, pouco mais de dois meses depois, são quase 50 mil casos, 1.285 mortes e um avanço descontrolado do vírus na capital e no interior, um verdadeiro fracasso. A “reabertura gradual” tem custado a saúde e as vidas de muitos gaúchos e gaúchas e levado um grande número de famílias e amigos à perda de pessoas queridas. A constante troca de cores das bandeiras e das referências utilizadas para essas caracterizações, resultado da pressão dos empresários, é a demonstração de que o modelo está subordinado não a decisões técnicas e científicas, mas sim às pressões empresariais que, agora, as entidades querem transferir para os prefeitos.

 

 

Mesmo assim, as entidades empresariais defendem que é “hora de darmos um passo adiante”. O documento sugere três medidas. Uma delas é que a política do distanciamento controlado, com as bandeiras em diferentes cores, seja meramente indicativa, sem poder de imposição, “ficando sua execução a critério das Associações Regionais de Municípios”. Ou seja, querem que o governo estadual se omita, ou se preserve, e deixe aos prefeitos a decisão sobre as políticas para a pandemia. Os prefeitos são os agentes que estão ainda mais sujeitos às pressões políticas do empresariado. É a mesma linha seguida nacionalmente por Bolsonaro: nada de planejamento e enfrentamento centralizado.

O alinhamento com o governo federal, aliás, é do que trata o segundo item de reivindicações dos prefeitos. Eles defendem que “haja uma parceria ainda maior com o Governo Federal” para “substituir o fechamento de empresas por uma política ampla e robusta de testagem”.

A testagem em massa pode ser um instrumento eficaz para o controle da doença, mas há um enorme descompasso entre o que os empresários defendem e o que fazem. Nos frigoríficos gaúchos os empresários resistiram até onde puderam na exigência de testagem de seus trabalhadores. Já nos hospitais, os empresários fazem um jogo de empurra com o governo do estado quando se trata de testar todos os trabalhadores da saúde. Ademais, Bolsonaro já demonstrou que é contra a testagem. O Brasil testou até agora dez vezes menos pessoas que os Estados Unidos se compararmos o número de testes por milhão de habitantes.

Obscurantismo das elites gaúchas revela o desprezo pela vida dos trabalhadores

A OMS não recomenda, também, a utilização do que tem sido chamado de “tratamento precoce”, com medicamentos sem eficácia comprovada e que podem trazer outros problemas graves de saúde para os pacientes. Mesmo assim, as entidades empresariais apostam na ideia: “entendemos ainda que o Governo deve disponibilizar o tratamento precoce, nos casos onde houver decisão do médico e desejo do paciente em utilizá-lo”, diz o documento. Ignoram, assim, recomendações de especialistas e da Organização Mundial da Saúde e buscam chancelar o discurso adotado por Bolsonaro, de defesa anticientífica de remédios como a cloroquina.

Sem qualquer apoio científico, as entidades empresariais buscam pressionar o governo para afrouxar ainda mais as medidas de combate à pandemia no Rio Grande do Sul. Deixam de lado os riscos a que querem submeter os trabalhadores, priorizam os lucros acima das vidas e buscam, conforme o próprio documento divulgado, a retomada da “vida normal”, uma ilusão ou um engano deliberado em um momento em que o estado e o país empilham e choram seus mortos. Assim, Bolsonaro e as elites empresariais arrastam o povo brasileiro para a morte.

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