Abismo social na pandemia: pobres com dificuldades para encontrar assistência, enquanto os ricos fretam jatinhos


20.Julho.2020 - 16h57min

Reportagem publicada na última semana pela BBC Brasil conta que milionários do Mato Grosso têm fretado jatinhos – ou utilizado os seus próprios – para viajar a São Paulo e, em hospitais de luxo, como o Sírio Libanês, encontrar tratamento aos sintomas da Covid-19. Em Mato Grosso, a situação é difícil – para os trabalhadores, como se vê. São mais de 34 mil casos confirmados e mais de 1,3 mil mortes. É um dos estados com maior índice de crescimento de casos e mortes neste momento, e o sistema de saúde está saturado, com problemas tanto no sistema público quanto no privado. Por isso, milionários como o presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, Eduardo Botelho (DEM), e o presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), Guilherme Maluf, que é ex-deputado estadual, ambos alvos de investigações sobre fraudes contra os cofres públicos de Mato Grosso, partiram para São Paulo após serem diagnosticados com o novo coronavírus.

Em uma pesquisa rápida no site Flyadam, que comercializa viagens em jatinhos, é possível ter uma ideia dos custos dessas transferências. Uma viagem para esta terça, 21, apenas de ida, de Campo Grande para São Paulo, pode custar entre R$ 28.820 a R$ 323.400, para uma pessoa. Para um trabalhador que recebe um salário mínimo custear a mais barata dessas opções, teria que guardar todo seu salário durante dois anos e três meses.

No início de maio, reportagem da revista Época trouxe à tona que algo semelhante estava acontecendo em Belém (PA), com empresários partindo para São Paulo em busca de tratamento no Sírio Libanês. A revista relatou casos de uso de UTI aérea, em que a viagem chegava a custar cerca de R$ 120 mil. Isso no início de maio, quando a pandemia trazia menos demanda para o setor. Conforme reportagem do portal UOL, publicada ainda em março, a procura por aluguel de jatos subira 69% no aplicativo Flapper. Em certos casos, esse aluguel foi utilizado para a busca de brasileiros no exterior, em voos que chegaram a custar R$ 4 milhões.

Dados revelam uma situação fora de controle

Em Porto Alegre, conforme dados desse domingo, 19, a ocupação das UTIs já ultrapassa 90%, com alguns hospitais já tendo atingido sua capacidade máxima. O Rio Grande do Sul é um dos estados onde o vírus mais avança neste momento, já contando quase 50 mil casos e mais de 1,2 mil mortes. A pandemia também avança pelo interior do estado, onde há ainda menos leitos de UTI, respiradores e pessoal de saúde para trabalhar no combate às consequências do vírus. A prevenção vem sendo sistematicamente prejudicada pelo sistema de “distanciamento controlado” implementado pelo governador Eduardo Leite (PSDB), bem como pela falta de políticas nacionais que deveriam ser construídas por Jair Bolsonaro (sem partido). Lamentavelmente,  a agenda federal para a pandemia inclui pouco mais do que o “culto à cloroquina”, remédio desaconselhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e a permissão para que empresários suspendam contratos, reduzam salários e demitam trabalhadores e trabalhadoras.

O recorte de classe da pandemia é evidente, assim como os números demonstram que a morte tem cor. Estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, grupo da PUC-Rio, analisou a variação da taxa de letalidade da doença no Brasil de acordo com variáveis demográficas e socioeconômicas da população, considerando cerca de 30 mil casos notificados até 18 de maio. Conforme reportagem da BBC Brasil, “quase 55% de pretos e pardos morreram, enquanto, entre pessoas brancas, esse valor ficou em 38%. A porcentagem foi maior entre pessoas negras do que entre brancas em todas as faixas etárias e também comparando todos os níveis de escolaridade. O estudo também concluiu que, quanto maior a escolaridade, menor a letalidade da covid-19 nos pacientes. Pessoas sem escolaridade tiveram taxas três vezes superiores (71,3%) às pessoas com nível superior (22,5%). Cruzando escolaridade com raça, então, a coisa piora: pretos e pardos sem escolaridade tiveram 80,35% de taxas de morte, contra 19,65% dos brancos com nível superior”. Os mesmos recortes acontecem em outros locais, como os Estados Unidos e o Reino Unido. Os mais pobres e os negros são as maiores vítimas.

O caminho dos setores mais vulneráveis da população em direção à morte pelo novo coronavírus têm duas etapas: o maior risco de infecção e a maior dificuldade em encontrar tratamento adequado. Com o crescimento do desemprego – o Brasil já tem mais desempregados do que empregados entre a população economicamente ativa – e da informalidade, a situação tende a se agravar. Os mais pobres sofrem com a pandemia e com seus efeitos econômicos, enquanto os verdadeiros privilegiados fazem do dinheiro e do poder barreiras sanitárias e financeiras que servem apenas para sua própria proteção.

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