Embaixador norte-americano no Brasil antecipa Paulo Guedes e defende acelerar reformas estruturais


22.Junho.2020 - 17h41min

Com uma sincronia que parece combinada, Guedes anuncia um “novo velho” plano econômico enquanto o embaixador estadunidense no Brasil, Todd Chapman, diz, em entrevista, que é momento de “acelerar as reformas” no país. O povo brasileiro vê seus interesses e necessidades ficarem ao largo, cada vez mais combalido pela crise e abandonado à própria sorte pelo governo federal.

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada nesta segunda-feira, 23, o embaixador dos Estados Unidos no Brasil foi claro. Perguntado sobre se é momento de acelerar as reformas estruturais que o governo pretende implementar, mostrou-se entusiasmado: “Com certeza. O bom é que o Paulo Guedes quer, o governo do presidente Jair Bolsonaro quer, o setor privado quer, assim como muita gente no Congresso. Este é o momento de abandonar o avanço paulatino e acelerar”. Para ele, é hora de “investir na modernização da economia brasileira”.

Mas o que significa essa “modernização”? A resposta vem na mesma edição do mesmo jornal: “Equipe econômica prepara agenda para o pós-pandemia – Consenso no Ministério da Economia é de que compromisso com reformas atrairá investidor e empresas”. Esse consenso, porém, tem sua origem facilmente identificável quando voltamos à entrevista do embaixador: “Já recebi diversas mensagens de Nova York, dos grandes fundos, porque trabalhei com eles na minha época de banqueiro. E todos afirmam: ‘Talvez este seja o momento para entrar no Brasil’”. Guedes, Bolsonaro e os e o sistema financeiro mostram-se em perfeita sintonia. Enquanto isso, desprotegidos, os trabalhadores e as trabalhadoras sofrem com o aumento das demissões, das suspensões de contratos e das reduções salariais autorizadas pelo governo.

Carteira Verde Amarela para tirar direitos de todos

Conforme a reportagem d’O Estado de S. Paulo, um dos objetivos do governo para o segundo semestre é promover uma “grande desregulamentação”, para a qual está sendo feito um “pente fino” em normas e obrigações de diversos setores: “A ideia é retirar, simplificar ou reduzir obrigações” para os empresários. Uma ampliação da reforma trabalhista de Michel Temer (MDB), algo que Bolsonaro e Guedes já vêm construindo desde o início de 2019. Um dos itens é a retomada do “Programa Verde Amarelo”, que chegou a ser aplicado para jovens entre 18 e 29 anos e que agora pode ser estendido a todos os trabalhadores e trabalhadoras, na prática acabando com direitos que vão das férias ao 13º salário. Também fazem parte das reformas pretendidas por Guedes e Bolsonaro mudanças em marcos legais de setores estratégicos, como saneamento, energia, ferrovias e independência do Banco Central.

“Solução” para o governo é liquidar as estatais, inclusive hospitais

As privatizações também fazem parte dos planos do governo. No final de abril, o governo disponibilizou no site do Ministério da Economia duas apresentação (AQUI  e AQUI) que detalham o plano e as intenções nesse sentido. Os documentos, que têm por título “A Reconstrução do Estado”, são assinado pela Secretaria Especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados, comandada pelo bilionário Salim Mattar.

Na apresentação, o governo identifica a óbvia crise econômica ampliada pela pandemia do novo coronavírus e aponta três “soluções”: venda de ativos da União, acelerar o programa de concessões e investimentos e realizar reformas estruturantes. O primeiro documento, já abordado em matéria publicada pelo Sintrajufe/RS, atualiza o cronograma de privatizações com o qual já vem trabalhando há meses, tendo como alvo empresas como Eletrobras, Trensurb, Serpro, Dataprev, Correios, Ceitec e Telebras.

Na segunda apresentação, divulgada oito dias depois, são enumerados projetos e propostas que já tramitam no Congresso e que apontariam para as “reformas estruturantes” que o governo pretende implementar. Depois, são detalhadas as ideias para a venda de ativos, incluindo participações, estatais e imóveis, gerando dezenas de bilhões de “desinvestimentos” (alguns já realizados, outros projetados), economia que será direcionada ao pagamento de juros e amortizações da dívida pública, enchendo os bolsos de banqueiros e grandes especuladores.

Uma das “vantagens” que Bolsonaro, Guedes e o bilionário Salim Mattar dizem enxergar nas privatizações é a construção de “um país mais ético”, já que, segundo eles, as medidas visam “acabar com o corporativismo”, “acabar com os privilégios”, “acabar com a corrupção” e “reduzir o ‘toma-lá-dá-cá’”.

Além do embaixador norte-americano, sintonia com orientações do Banco Mundial

Os setores que querem desmontar o Estado tentam enganar a população com a velha fake news do “inchaço”. Como já mostramos em publicação recente, o número de servidores públicos no Brasil é proporcionalmente baixo, especialmente se considerarmos as necessidades da população em um país cheio de pobreza e desigualdade como o nosso. Mas a lenda do Estado grande demais tem um objetivo: direcionar a justa revolta da maioria da população contra os servidores, e não contra os poderosos, e, assim, desmontar os serviços públicos, gerando mais lucro para os mais ricos.

O governo de Bolsonaro e Guedes segue esse caminho, impulsionado por declarações como as do embaixador dos Estados Unidos e por organismos como o Banco Mundial, que, no ano passado, divulgou documento defendendo que o Brasil realizasse reformas estruturais de desmonte dos serviços públicos. A reforma administrativa que, junto com Rodrigo Maia (DEM-RJ), o governo quer emplacar tão logo seja possível, é outro item dessa lista, gerando preocupação imediata nos servidores e servidoras: as carreiras, a estabilidade e os salários estão na mira.

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