Violência policial, demissões em massa e descaso do Estado: nos EUA e no Brasil, o racismo perpassa a crise sanitária e econômica


01.Junho.2020 - 16h59min

“Não consigo respirar.” A frase foi repetida várias vezes pelo segurança negro George Floyd, em Minneapolis, Estados Unidos, no dia 25, antes de morrer asfixiado após ter o pescoço pressionado pelo joelho por Derek Chauvin e outros dois policiais, todos brancos. Desempregado devido à crise ocasionada pela pandemia do novo coronavírus, Floyd, com sua morte, expôs, ainda mais, o racismo estrutural. Nos Estados Unidos e no Brasil, negras e negros são os mais afetados pela crise sanitária e econômica.

Desde a chegada da pandemia, estima-se que foram perdidos mais de 36,5 milhões empregos nos Estados Unidos, um número comparável apenas à Grande Depressão nos anos 1930, dado que revela o barril de pólvora sob qual Donald Trump tenta manter o controle, mesmo que pela força. No Brasil, além do desemprego que dispara, mais de 100 milhões de pessoas entraram com pedido de Auxílio Emergencial (R$ 600,00) num universo de cerca de 210 milhões de brasileiros; é a desigualdade que cresce e atinge níveis insuportáveis.

Há dias, em várias cidades norte-americanos, as ruas estão tomadas por protestos, diante da brutalidade policial. O prefeito de Minneapolis pediu desculpas publicamente, no que foi chamado de “fraco” por Trump, que ameaçou colocar forças federais para conter os protestos. No Brasil, onde a linha governamental parece ser a de aproveitar a pandemia para “passar a boiada”, somente no Rio de Janeiro, desde o início da crise sanitária, 14 pessoas foram baleadas dentro de casa, em ações policiais que vitimaram moradores de favelas, a ponto de o Ministério Público Federal pedir à polícia que cesse as ações durante a pandemia.

Nos primeiros meses da pandemia, eram comuns afirmações de que ela afetava a todos, independentemente de raça ou classe social. A realidade mostra que isso não é uma verdade absoluta. Aqueles com empregos precários, subempregos, informais foram os mais afetados. Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, apesar das diferenças nas formações sociais entre os dois países, pessoas negras estão na base da pirâmide e sofrem mais duramente as consequências.

Negros e negras são os mais afetados pela covid-19

Nos EUA, o Comitê de Advogados pelos Direitos Civis sob a Lei está solicitando que as informações sobre as vítimas da covid-19 incluam raça. De acordo com relatório preliminar do Centro para Controle e Prevenção de Doenças, um órgão do governo, apesar de os negros representarem 13% da população norte-americana, são 33% dos afetados pela covid-19 no país. Outro estudo, da Fundação de Pesquisa sobre Aids, também dos Estados Unidos, mostra que, nos condados com maior número de residentes negros, estes respondem por 52% das infeções pelo novo coronavírus e 58% das mortes por covid-19.

Estados Unidos e Brasil estão no grupo dos quatro países com mais mortos por covid-19. Têm em comum a postura de seus presidentes: negação, descaso pela saúde, defesa de abertura da economia em detrimento da vida e como afetam a população negra. Nos EUA, a presidente do Comitê de Advogados, Kristen Clarke, afirma que “os apelos agressivos” do governo Trump para reabrir a economia representam uma ameaça direta à vida dos negros. Para ela, “os Estados não devem colocar lucros sobre as pessoas e devem tomar medidas que ajudarão a salvar vidas”.

No Brasil, no início de maio, a Justiça Federal do Rio de Janeiro havia determinado que as notificações de morte pela covid-19 tivessem informações sobre raça e cor das pessoas infectadas. A liminar foi suspensa a pedido da União. Apesar de esse registro ser obrigatório, 30% das notificações não apresentam essas informações. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas, reconheceu que “semanalmente o número de mortos vai aumentando muito na periferia”. Como é na periferia que vive a maioria das famílias negras, fica evidente que negros e pobres são os mais afetados; 80% de negras e negros brasileiros é usuária do Sistema Único de Saúde, a falta de recursos para o SUS afeta diretamente a imensa maioria da população negra no país.

Análise de quase 30 mil casos de internações por covid-19, feita pelo Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde da PUC-Rio mostra o impacto das desigualdades sociais na letalidade da doença. Quanto maior o nível de escolaridade, maiores as chances de recuperação, embora os negros, mesmo que tenham a mesma faixa de escolaridade, apresentem uma proporção de mortes em média 37% maior do que os brancos. Entre os pacientes internados de cor branca, 62,07% se recuperaram, enquanto 37,93% morreram. Entre negros, a situação se inverte: são 54,78% de mortes e 45,22% de recuperados. As chances de um paciente negro e analfabeto morrer em decorrência do novo coronavírus no Brasil são 3,8 vezes maiores do que as de um paciente branco e com nível superior.

O racismo afeta a população negra até mesmo nas medidas de proteção

Em cartilha de orientação sobre a covid-19, a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC) alerta que, assim como bonés, capuzes, capacetes e até guarda-chuvas, as máscaras tornam os homens negros “suspeitos” pela polícia, pois cobrem parte do rosto. Por isso, a orientação é que, “se, por qualquer razão, você tiver acesso a máscaras industrializadas descartáveis, prefira essas. Elas são associadas à saúde não à criminalidade”. O mesmo não vale para um homem branco.

Para o diretor do Sintrajufe/RS Mario Augusto Silva Marques, "o congelamento dos salários e dos concursos públicos só agrava a situação”. O dirigente ressalta que a pandemia mostrou que a população precisa de mais serviço público e não menos; mais postos de saúde, testagem em massa, proteção dos empregos e salários, pesquisa nas universidades. “Infelizmente tudo nos leva a crer que o governo brasileiro aposta no caos. E, para conter o caos, prepara o aumento da já brutal violência policial que tanto afeta a população negra e pobre no Brasil. A situação é insuportável para milhões de brasileiros", afirma o diretor sindical.

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