Empresa que amarrou funcionária e a humilhou por sair mais cedo é condenada por racismo pela JT


14.Maio.2020 - 19h06min

Dia 13 de maio marca a abolição, pelo menos oficialmente, da escravidão no Brasil. Um dia antes, na última terça-feira, 12, a 7ª Câmara do TRT15 (Taubaté, SP) condenou a empresa Autoliv a indenizar uma trabalhadora negra em R$ 180 mil. Ela teve os braços amarrados e foi arrastada pelo galpão para servir de exemplo, enquanto ouvia que era uma “negra fujona”.

Em um dia de 2015, a funcionária, hoje com 42 anos, que trabalhava na Autoliv havia 13 anos, cumpriu seu expediente normalmente e saiu, juntamente com outros colegas, mas o relógio ponto de seu posto de trabalho estava atrasado. No dia seguinte, foi abordada pelos líderes do setor, que amarraram seus pulsos e braços com fita e a arrastaram pela fábrica. Os homens alertaram aos demais funcionários que “era isso que acontecia com negro fujão”. Os outros, que saíram no mesmo horário, não foram chamados. Esse foi entre outros episódios de racismo que ela sofreu. Em um deles, ela foi parabenizada pelo chefe e, ao dizer que não estava de aniversário, ouviu: “Por ser o dia do negro, em referência ao Dia da Consciência Negra”. O autor da fala, chamado no processo como “Sr. Paulo”, confessou o que tinha dito à sua funcionária. No entanto, aproveitou para afirmar que conhece pessoas negras em seu âmbito familiar e social e que elas foram igualmente parabenizadas. Segundo a advogada Shayda Daher de Souza, que defende a funcionária, os superiores que cometeram a ação continuam trabalhando na empresa até hoje.

“Passei por vários casos de preconceitos, discriminação e assédios. Mas o que mais doeu, o que foi pior foi ser amarrada na linha de produção para que meus colegas de trabalho pudessem ver que eu estava sendo punida por algo que não havia cometido”, afirmou a trabalhadora. "Discriminações como essa acontecem com qualquer pessoa. Mães solteiras, mulheres negras, pessoas que agem de maneira que não está no padrão que as pessoas acham que é certo. Eles criticam, humilham as pessoas e não veem o que pode causar na vítima. A dor, o desconforto. Que isso sirva de lição, não só para essa fábrica. Isso não se faz, todos nós, independente da cor, somos seres humanos”, desabafou.

No processo, a funcionária apresentou à Justiça do Trabalho outros trabalhadores da empresa que presenciaram a cena e comprovaram o episódio. “Ficaram comprovados dois episódios gravíssimos, no meu entendimento, inadmissíveis, que esta Relatora nunca tinha vislumbrado em qualquer processo e que expuseram a Reclamante diante de seus colegas de trabalho, como relatado acima. É certo que as agressões merecem ser repudiadas e civilmente indenizadas”, disse a relatora do caso, desembargadora Luciane Storel. A empresa pode recorrer ao TST, mas apenas para discutir o valor.

Em nota, a defesa da trabalhadora destacou a importância da decisão para reforçar que há punição para o racismo no ambiente de trabalho. “O racismo existe e é forte no mercado de trabalho. Um caso como esse, escracha essas situações. O chefe, que deveria apoiar a funcionária, era o autor do episódio. Essa decisão mostra o quão importante é a Justiça do Trabalho e seu papel pela integridade do trabalhador” comentou a advogada Shayda Daher de Souza. Além deste caso, Shayda defende outros clientes contra a Autoliv do Brasil. “Isso vai de encontro ao que está acontecendo no Brasil. A destruição dos direitos trabalhistas parece que está tudo bem, mas é notório que não está, por isso a justiça trabalhista é tão importante”, ressaltou Shayda.

Editado por Sintrajufe/RS; fonte: UOL, Carta Capital e Pragmatismo Político.

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