Inauguração de exposição de cartuns censurada na Câmara reúne dezenas de pessoas no Sintrajufe/RS


26.Setembro.2019 - 16h57min

O Sintrajufe/RS inagurou, nessa quarta-feira, 25, a exposição "Independência em risco: resistência – Desenhos de humor", em sua galeria a céu aberto e no Salão Multicultural Alê Junqueira, ambos na sede do sindicato. O evento de inauguração recebeu dezenas de pessoas da categoria, da direção do Sintrajufe/RS, cartunistas, representantes de outras entidades e interessados em geral e construiu-se como um ato político em defesa da liberdade de expressão e da liberdade artística. A mostra, que não tem data de encerramento definida, pode ser visitada gratuitamente na rua Marcílio Dias, 660, bairro Menino Deus.

A exposição "O riso é risco: Independência em risco – Desenhos de humor", organizada pela Grafistas Gráficos Associados (Grafar), foi inaugurada no dia 2 de setembro, na Câmara de Vereadores, e fechada no dia seguinte, por determinação da presidente da Casa, vereadora Mônica Leal. Ela atendeu a solicitação do vereador Valter Nagelstein (MDB), segundo o qual algumas obras possuíam "teor ofensivo" contra o presidente Jair Bolsonaro (PSL). A censura teve grande repercussão. Mesmo depois de determinação judicial para que a mostra voltasse à Câmara, o que acabou ocorrendo, foi definida uma estratégia de fazer com que os trabalhos chegassem a um número ainda maior de pessoas. Como resultado, houve uma multiplicação de “Independência em risco” em vários lugares, não apenas no Rio Grande do Sul.

No Sintrajufe/RS, a mostra traz cópias em grande formato de 15 dos 36 trabalhos em charge e cartum, na galeria a céu aberto. Outros desenhos estão, ainda, expostos no Salão Multicultural. A mostra tem curadoria da jornalista e historiadora da arte Rosane Vargas e produção do chargista e produtor gráfico Leandro Dóro, ambos funcionários do sindicato.

O diretor do Sintrajufe/RS Paulinho Oliveira, que coordena a secretaria de Cultura, falou em nome do sindicato na abertura da exposição. Destacando a importância de receber uma exposição como essa – crítica ao governo Bolsonaro e que foi censurada na Câmara de Vereadores – em um sindicato de trabalhadores do Judiciário, Paulinho lembrou o papel desempenhado pela cúpula do Poder no golpe de 2016, sublinhando o simbolismo deste momento. "A arte é resistência", defendeu, admitindo que o ideal seria receber uma exposição de cartuns em uma conjuntura melhor, de avanços de direitos e da democracia, mas que, dada a situação do país, o papel da cultura é essencial para defender a liberdade.

Em seguida, o cartunista Leandro Dóro falou aos presentes. Ele lembrou que as informações sobre a exposição circularam bastante pelas redes sociais online, mas que "nos encontrarmos pessoalmente, como hoje, é muito importante para trocarmos ideias". Dóro também elogiou a decisão judicial que garantiu o retorno da exposição à Câmara de Vereadores, o que embargou a abertura de um precedente perigoso de censura à arte.

A curadora Rosane Vargas avaliou que a arte e a cultura são sempre os primeiros setores atacados por governos autoritários, que querem limitar a liberdade de expressão para benefício próprio. Ela citou o caso da exposição Queermuseu, de 2017, também vítima de perseguição política em Porto Alegre, para alertar para a necessidade de defender a liberdade artística. Destacou, ainda, a força dos cartuns na denúncia dos problemas sociais, ampliada por sua linguagem simples e direta, capaz de refletir o Brasil atual e estimular o questionamento sobre essa realidade. O mesmo vale para o humor: "Os poderosos têm medo do humor porque ele mostra sem mediações o que as elites não querem que seja mostrado", apontou.

O cartunista Leandro Bierhals, presidente da Grafar e organizador da exposição, foi o último a falar, criticando a atitude autoritária dos vereadores que censuraram a mostra na Câmara e a tentativa de determinar o que é bom e o que é ruim, o que é belo e o que não é, o que é digno e o que é indigno: "Essa exposição é mais um exemplo de que a gente pode se unir" para questionar essa lógica, ressaltou.

Após as falas, 15 dos presentes posicionaram-se cada um em frente a um dos painéis para, em seguida, descerrar as obras e inaugurar oficialmente a exposição, depois apreciada por todos e que será mantida na sede do Sintrajufe/RS como um símbolo de resistência e de defesa da liberdade e da democracia.

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