10º Congrejufe: painel com professores da Unicamp debate conjuntura nacional e aponta diálogo e mobilização como único caminho contra retrocessos


28.Abril.2019 - 16h44min
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O primeiro painel do 10º Congresso da Fenajufe (Congrejufe) tratou da conjuntura nacional e internacional e contou com a presença dos palestrantes Plínio de Arruda Sampaio Júnior e Marcio Pochmann, ambos professores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A atividade aconteceu na noite do sábado, 27. O debate girou em torno da crise econômica e política, dos retrocessos e das ameaças do governo Bolsonaro aos trabalhadores e à democracia e da necessidade de unidade e mobilização para a construção de um novo projeto de país, vinculado às lutas e necessidades do povo brasileiro.

Enfrentar o medo para construir o novo

Pochmann foi o primeiro a falar. Ele descreveu o contexto de precarização do trabalho em meio a mudanças tecnológicas que são utilizadas como pretexto para atacar os direitos e o emprego dos trabalhadores. Conforme o professor, o “fim do emprego” não é uma consequência necessária das mudanças tecnológicas, mas pode acontecer se não houver reação social ao modelo social que está sendo implementado. Para ele, não estamos vivendo “apenas um período carregado de mudanças, mas uma mudança de período”, de forma que é preciso “novas lentes” para analisar a conjuntura e, ao mesmo tempo, novas formas de luta para enfrentar os desafios oferecidos.

Pochmann avalia que há um momento de ruptura, com a destruição do modelo industrial que emergiu no Brasil na década de 1930. Neste momento, o que temos é uma economia cada vez mais imaterial, uma economia de serviços. Há uma dispersão do trabalho, o que fere as identidades dos trabalhadores construídas nas últimas décadas e exige uma reorganização da classe trabalhadora. Nesse contexto, partidos, sindicatos e associações estão perdendo força, enquanto igrejas, milícias e crime organizado se fortalecem como espaços de organização de identidade, apontou Pochmann. Eles oferecem discursos de esperança e envolvem a totalidade do indivíduo, e não sua parcialidade, disse, defendendo que “se não entendermos o que está na cabeça dos trabalhadores, nós vamos ficar de fora”. Assim, destacou, há que enfrentar o medo que nos faz repetir o passado: “Somente a luta contra o medo nos ajudará a construir o novo”.

Enfrentar os ataques com intervenção popular

Plínio de Arruda Sampaio Júnior falou em seguida, reforçando a preocupação com a construção do novo. Para ele, o fundamental para entender a situação em que estamos é entender o impacto da crise capitalista no Brasil: na economia, a destruição da economia industrial; na política, o fim da Nova República. “É a briga do velho contra o novo e a disputa do novo: qual é o novo? O que vai ser colocado no lugar do velho?”, questionou. Um dos elementos dessa disputa, encampado por Temer, Guedes e Bolsonaro, é o projeto que vem de Washington e que se traduz no Brasil como “ajuste”, no oferecimento de negócios para o capital, nas privatizações, na reforma da Previdência. Conforme Plínio, se esse projeto “der certo” para o capital o Brasil será transformado em uma “megafeitoria moderna”, em um latifúndio, em uma economia primária exportadora. “Essa é a condição que o capitalismo reserva à periferia (…), querem levar o Brasil para o século XIX”, criticou.

Por outro lado, conforme o professor a democracia não se converteu em grandes transformações para a maior parte do povo brasileiro, o que faz com que o povo não tenha ido às ruas para defender a democracia. Já para os de cima, a democracia é um risco. Há, nesse contexto, uma disputa entre o “Partido Fora Todos reacionário”, que “não combate a corrupção, mas a democracia”, e o “Partido do Salvem-se Todos”, o partido do velho. Essa, para Plínio, é a briga do velho com o novo. Mas há uma segunda briga, que é a disputa do novo, “e a esquerda não disputou o povo porque ficou presa no Lula Livre e o Bolsonaro nadou de braçada se apresentando como o novo”. Conforme o professor, essa caracterização de Bolsonaro como o novo é falsa: “A nova política dele não tem nada de novo. Eles querem resolver de cima pra baixo, na truculência, no porrete. O governo Bolsonaro é o governo Temer com porrete na mão”, criticou. Para enfrentar isso, defendeu, é preciso força, e, para ter força, é preciso ter unidade na classe, ocupando as ruas e apresentando um projeto de país: “eles querem ajuste já, nós queremos direitos já; eles querem intervenção militar, nós queremos intervenção popular”, definiu, ressaltando a necessidade de construção imediata de uma greve geral.

Divergências marcaram debate

Após as falas dos painelistas, foi aberto espaço para as falas dos delegados. Nas intervenções ficou evidente uma divergência em relação às priorizações de pautas no difícil caminho de luta do atual contexto. Por um lado, houve defesa da insígnia “Lula Livre” como um dos motes fundamentais da luta dos trabalhadores. Foi a posição defendida pelos colegas do grupo Democracia e Luta, como Edson Borowski e Mara Weber, ambos do Rio Grande do Sul. Por outro lado, colegas de outros coletivos destacaram que a construção da greve geral e o enfrentamento à reforma da Previdência são as tarefas imediatas de um processo que precisa se fundar na mobilização de base, processo esse que se inicia na construção da greve geral como tática de enfrentamento à conjuntura. Cânticos de “Lula Livre” e de “greve geral” se enfrentaram no Plenário em diversos momentos.

Retornando o microfone aos palestrantes, Plínio tratou especificamente desse tema. Caracterizou a chamada de “Lula Livre” como “defensiva e nostálgica”. Para ele, “a democracia brasileira não vai renascer se o Lula for livre. Ela precisa ser refundada nas ruas”. O professor avalia que o lulismo se exauriu, e que as mudanças agora precisam ser arrancadas da burguesia, que não vai ceder. “A nova política deles é a não-política, é a violência. E a nossa?”, questionou.

Por sua vez, Pochmann apontou que “estamos diante da maior derrota que a esquerda sofreu desde 64” e, se quisermos voltar a ser maioria, “não será apenas com palavras de ordem”. Questionou como chegar ao conjunto da população, pontuando que as palavras de ordem são importantes para motivar, envolver, mas são insuficientes. Além disso, não basta enfraquecer Bolsonaro, é preciso “falar com os corações” e superar a distância das organizações com a sociedade. Sobre Lula, defendeu os programas sociais lulistas, mas destacou que não houve mudança de consciência, o que também era responsabilidade dos sindicatos e movimentos. Assim, finalizou chamando à unidade e ao diálogo ao afirmar que é preciso “humildade para identificar que aquele que fala diferente pode estar falando a mesma coisa com outras palavras”.

Avaliações

Para o colega Edson Borowski, da Oposição Sintrajufe/RS e do coletivo Democracia e Luta, o painel ajudou a categoria localizar-se em meio à tormenta pela qual passa o país. O colega comenta ainda que “o debate teve a importância de reforçar os temas principais que devem mover as lutas, em especial o combate à reforma da Previdência e a defesa da Justiça do Trabalho, atacada pela reforma trabalhista de Temer”, assim como buscar dialogar para além da categoria, chegando ao conjunto da sociedade.

Ruy Almeida, diretor do Sintrajufe/RS e integrante do coletivo Luta Fenajufe, destaca que o painel ajudou a estabelecer bases para o desafio de lutar contra os diversos ataques que os trabalhadores têm sofrido. Para ele, ficou clara a importância de construção de uma forte unidade entre todos os setores, trabalhando as diferenças: “há setores que acreditam que ‘Lula Livre’ é o mais importante, mas entendemos que é preciso focar em construir mobilização e resistência contra a reforma da Previdência e outros ataques”, sem necessidade de “vinculação com pautas que podem ser legítimas, mas não dialogam com as necessidades da classe trabalhadora.

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