Governo Bolsonaro admite que está espionando grupos da sociedade civil para conter oposição


11.Fevereiro.2019 - 16h51min

Em reportagem desse domingo, 10, o jornal O Estado de São Paulo mostrou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e os comandos militares estão espionando a Igreja Católica, vista como uma liderança na oposição ao governo de Jair Bolsonaro (PLS). De acordo com a reportagem, o governo avalia que a Igreja é uma tradicional aliada do PT e estaria se articulando para influenciar debates antes protagonizados pelo partido no interior do país e nas periferias.

Líderes da Igreja estão sendo monitorados, o que está registrado em informes da Abin e dos comandos militares. Há relatos inclusive de reuniões de cardeais com o papa Francisco, no Vaticano, para discutir a realização do Sínodo sobre Amazônia, que acontecerá em Roma, em outubro. Sínodo é um encontro global de bispos no Vaticano para discutir a realidade de índios, ribeirinhos e demais povos da Amazônia, políticas de desenvolvimento dos governos da região, mudanças climáticas e conflitos de terra. Serão 23 dias de debates de assuntos que o governo considera “agenda da esquerda”.

Escritórios da Abin em cidades da região Norte em que há conflitos de terras estão sendo mobilizados para acompanhar reuniões preparatórias para o Sínodo em paróquias e dioceses. Ou seja, todos os movimentos dos líderes católicos estão sendo investigados. O governo alega ter preocupação de que o Sínodo amplie, internacionalmente, críticas ao governo Bolsonaro a partir do chamado “clero progressista”. “Estamos preocupados e queremos neutralizar isso aí”, disse o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, para quem discutir esses assuntos seria uma “interferência em assunto interno do Brasil”. Durante a campanha eleitoral, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) criticou propostas do então candidato Bolsonaro de criminalização dos movimentos sindicais e sociais e quanto a questões como meio ambiente e demarcação de terras indígenas.

Depois da publicação da reportagem, o GSI divulgou nota na qual afirma que a Igreja “não é objeto de qualquer tipo de ação por parte da Abin” e que existe “preocupação” com alguns pontos da pauta do Sínodo. Apesar de afirmar que não há qualquer tipo de ação, o governo brasileiro tentará convencer o governo italiano a interceder junto à Igreja a fim de que o Sínodo não faça ataques à política ambiental, conforme notícia de O Estado de São Paulo. Membros da CNBB já manifestaram que são contra a presença de representantes do governo no evento.

A amplitude da vigilância sobre os movimentos de lideranças católicas acende o sinal amarelo para todos os movimentos sociais e de trabalhadores organizados no Brasil que fazem oposição ao governo. No país e no exterior, o governo elegeu os “inimigos”, tal como durante a ditadura. Em um período em que os trabalhadores se organizam pela manutenção de direitos previdenciários e contra um recrudescimento ainda maior da perda de direitos trabalhistas, o governo pode se outorgar o direito de espionar assembleias, atos públicos e monitorar lideranças. É algo que não pode ter lugar em uma democracia; é uma característica de Estados de exceção que precisa ser denunciada.

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