"Tire seu racismo do caminho que eu quero passar com a minha cor" – debate no Sintrajufe/RS focou no fortalecimento da identidade negra para a resistência


03.Dezembro.2018 - 19h08min

No dia 28 de novembro, o Sintrajufe/RS realizou mais uma atividade referente ao Novembro Negro. Depois de todo um mês de debates, palestras e ações culturais, o sindicato promoveu o debate "Tire seu racismo do caminho que eu quero passar com a minha cor", tendo na mesa o ativista cultural Rafa, do grupo de hip hop Rafuagi, e duas representantes do Coletivo de Mulheres Negras Atinuké, Nina Fola e Milena Cassal. Mediou o painel o diretor do Sintrajufe/RS Leandro Costa.

O primeiro a falar foi Rafa, do Rafuagi. Ele elogiou a iniciativa do Sintrajufe/RS, destacando a parceria entre o sindicato e o Rafuagi, que já gerou diversas ações conjuntas. Falou, em especial, da Casa da Cultura Hip Hop, projeto cultural que o Rafuagi coordena em Esteio e que acaba de completar um ano, contando com uma celebração que teve a presença de mais de 1500 pessoas. "O que pra nós importa é que a gente valide todo o saber popular que a gente tem gerado dentro das periferias", disse, referindo-se ao trabalho "em rede" que tem construído junto a ativistas de diversas partes do mundo e ao processo de construção, no Brasil, de uma Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS), através do "Movimento Pró UPMS". O objetivo é construir uma alternativa educacional que conecte os saberes populares aos da academia, validando aqueles perante o conjunto da sociedade.

Para Rafa, o trabalho em rede será fundamental para que se possa chegar a mais pessoas e rediscutir a sociedade a partir das perspectivas do povo. "Resistência não é ficar no nosso canto, acuado. É se cuidar, mas também ir para o ataque, construir ações que voltem como dignidade para a população", defendeu, ressaltando que com luta e organização é possível construir melhorias para a maioria da população. "Nossa geração está incumbida de uma missão importantíssima, de construir dignidade pras nossas próprias vidas, mas também para os nossos filhos, e fazer com que isso não demore tanto tempo", ressaltou.

Quem primeiro falou em nome do Coletivo de Mulheres Negras Atinuké foi Nina Fola. Ela explicou que o coletivo é composto por 45 mulheres, todas acadêmicas, buscando disputar o espaço de poder do conhecimento. "Sou da cultura popular e me vi querendo buscar essa troca com a academia. E vi que a academia despreza tudo aquilo que eu conhecia. Como eu potencializo o meu conhecimento desse lugar?", questionou, contando que a ideia do coletivo é fortalecer os estudos a partir do pensamento de mulheres negras: "O pensamento da mulher negra não se faz somente para as mulheres negras nem somente para o povo negro. Como diz Conceição Evaristo, nós somos água, e água se infiltra e desestabiliza as estruturas de conhecimento que a sociedade tem". Assim, trata-se de uma "proposta de humanidade", buscando igualdade de oportunidades com o reconhecimento das diferenças. Ressaltou, ainda, que, quando uma mulher negra consegue acesso à universidade, não se trata de uma conquista pessoal, mas coletiva: "A nossa história é da coletividade. Entender-se nesse espaço de mulheres acadêmicas é entender que ela não está ali por ela mesma, ela não está ali para ela mesma e ela não está ali para construir somente para si", pontuou.

Milena Cassal, também integrante do mesmo coletivo, contou que as mulheres que fazem parte do coletivo trabalham em lugares variados, levando a vivência do coletivo para dentro de diversos espaços. "Vemos hoje a presença feminina dentro da academia, dentro dos quilombos - as mulheres são a maioria das lideranças quilombolas, pelo menos aqui em Porto Alegre -, temos lideranças femininas nas associações de bairro... A gente sai da academia e tem uma mulherada fazendo coisas incríveis pelas suas comunidades, pelos seus jovens", destacou. Milena também falou da trajetória do coletivo, que tem crescido cada vez mais e, assim, vem ampliando sua abrangência e sua força: "lá a gente lê, a gente discute e a gente se cuida – é um processo de entender que nós, mulheres negras, somos fortes, mas precisamos também de cuidado, de um outro olhar, de entender que nem sempre a gente precisa ser forte, e se olha e se cuida", disse.

Ainda antes das falas dos painelistas, a atividade fora aberta por apresentações poéticas de mulheres negras do Coletivo Poetas Vivos. Poemas com caráter de denúncia, resistência e luta apresentados pelas próprias poetas: Agnes Cardoso, Natália Xavier e Ariele Rodrigues. Elas retornaram à voz logo depois da mesa, encerrando o dia com cultura de luta.

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