Outubro Rosa: para além da mamografia


31.Outubro.2018 - 17h15min

A campanha de prevenção ao câncer de mama organizada anualmente em outubro tem como foco o autocuidado a partir do exame do toque realizado pelas mulheres nas mamas. Prevê, ainda, a realização de exames preventivos. Ambos os cuidados buscam a detecção precoce do surgimento de manifestação da doença. Essas são estratégias válidas e importantes. Contudo, a prevenção do câncer de mama deve ter suas ações ampliadas de modo a considerar que os cuidados à saúde extrapolem a realização de exames e a auto-observação de partes do corpo. É necessário também um olhar para o contexto de vida em que a pessoa está inserida e para as possíveis repercussões na sua saúde mental.

A psicologia entende que o corpo físico não pode ser visto isoladamente da experiência de vida das pessoas e dos determinantes sociais da saúde. Por isso, a abordagem preventiva não pode ser apenas focada no biológico; é necessário dar condições materiais de prevenção ao adoecimento físico e mental.  

Segundo o Conselho Federal de Psicologia, o incentivo à realização de exames, muitas vezes, não é acompanhado do oferecimento desse serviço em larga escala em algumas regiões do país para a população mais vulnerável. Ou seja, além de estimular as mulheres a buscar o acompanhamento de um profissional de saúde, é importante cobrar que o poder público, nas esferas federal, estadual e municipal, ofereça as condições para que essa mulher seja efetivamente assistida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Se não atentarmos para essa questão, então estaremos pavimentando o caminho para que se desenvolva o entendimento equivocado de que o cuidado com a saúde dependa apenas de uma decisão individual da pessoa. Essa concepção acaba por desconsiderar as condições econômicas e sociais que podem facilitar ou não determinados tipos de adoecimento psíquico. A ideia alardeada de que a doença decorre apenas da falta de autocuidado pode promover um sentimento de culpa da pessoa pelo próprio adoecimento.

Estudos1 têm apontado que a primeira preocupação da mulher e sua família após receberem o diagnóstico do câncer de mama é a sobrevivência. Em seguida surge a preocupação com o tratamento e condições econômicas para realizá-lo. Quando o tratamento está em andamento, as inquietações se voltam para a mutilação, a desfiguração e as consequências do tratamento para a sexualidade da mulher. 

O sofrimento psicológico da mulher que passa pela circunstância de ser portadora de um câncer de mama e de ter de acolher um tratamento difícil transcende o sofrimento configurado pela doença em si. É um sofrimento que comporta representações e significados atribuídos à doença ao longo da história e da cultura e adentra as dimensões das propriedades gênero feminino, interferindo nas relações interpessoais, principalmente nas mais íntimas e básicas da mulher. Considerar esses aspectos nas propostas de atenção à mulher com câncer de mama é mais que necessário: é indispensável. 

Por Eduarda Buriol, psicóloga da assessoria de saúde do Sintrajufe/RS

1 GIMENES, M. G. G.; Queiroz, E. As diferentes fases de enfrentamento durante o primeiro ano após a mastectomia. In: GIMENES, M. G. G.; FÁVERO, M. H. (Orgs.). A mulher e o câncer. Campinas: Livro Pleno, 2000. p. 173-195.

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