I Seminário Sintrajufe/RS de Mulheres trata de empoderamento e resistência


01.Outubro.2018 - 18h25min

Igualdade, solidariedade, respeito, luta e resistência são algumas das palavras que dão a tônica do que foi o I Seminário Sintrajufe/RS de Mulheres. O evento aconteceu na sede do sindicato, na noite da sexta-feira, 28, e na manhã e tarde do sábado, 29. O Seminário ocorreu na forma de uma conversa entre as painelistas e debatedoras e as pessoas presentes, formato que facilitou a participação.

Ao fazer sua saudação inicial, a diretora do Sintrajufe/RS Camila Breda lembrou que o Seminário havia sido adiado, em maio, devido à greve dos caminhoneiros. Para ela, foi “uma feliz coincidência” o evento acontecer justamente na véspera dos atos #EleNão, convocado pelas mulheres em todo o Brasil contra o retrocesso e o fascismo. Logo depois, a também diretora Alessandra Krause reforçou a importância deste momento de resistência e leu uma moção proposta pelas mulheres do coletivo Luta Sintrajufe e aclamada pelas pessoas presentes. De acordo com o texto, o apoio ao movimento do dia 29 de setembro, com vários atos públicos em todos o país, também chamado de Primavera Feminista, é para não deixar dúvidas de que “escolhemos a liberdade contra a opressão, que respeitamos as diferenças e a diversidade. Que encampamos a igualdade, contra o racismo. Que defendemos a equidade entre mulheres e homens e que a paz deve ser sobreposta à violência”.

A conjuntura e a situação das mulheres

 “Análise de conjuntura nacional e internacional e a situação das mulheres” foi o tema da primeira conversa, ainda na sexta-feira à noite. Para fazer exposições, estavam presentes a advogada e militante do coletivo Alicerce Elisa Torelly e a servidora pública e coordenadora da Assufrgs Bernadete Menezes. Elisa fez uma análise jurídica das propostas e manifestações do candidato Jair Bolsonaro (PSL), que, segundo ela, trariam grandes prejuízos às mulheres, como revogação da lei 12.845, que aprimora o atendimento integral no SUS, de mulheres vítimas de violência sexual, a liberação das armas de fogo (o que pode aumentar a violência doméstica, da qual as mulheres são as maiores vítimas) e a defesa da redução da licença-maternidade e da diferença salarial entre homens e mulheres. “Deveríamos estar lutando para coibir esse tipo de coisa”, afirmou a advogada. Lembrando a tripla jornada feminina, de trabalho e cuidado da casa e dos filhos, ela defendeu que apenas uma rede de solidariedade e divisão de tarefas garantirá às mulheres a oportunidade de ascender na carreira e cuidar de sua formação. “Só se os homens absorverem uma parte dessas tarefas teremos uma vida digna”, concluiu.

Bernadete Menezes fez um panorama sobre os acontecimentos recentes no país, como o aumento da violência, o assassinato em massa de jovens negros, a entrega das riquezas nacionais ao capital estrangeiro, as reivindicações dos jovens nas Jornadas de Junho de 2013, às quais nem setores da esquerda nem o então governo Dilma Rousseff conseguiram responder. Ela também falou sobre o projeto conservador que se investiu de poder depois do impeachment, em 2016, aprovando a reforma trabalhista e a terceirização irrestrita, bem como a tentativa de reforma da Previdência. Segundo a dirigente sindical, é preciso unidade do movimento sindical e popular para avançar e derrotar o fascismo e a agenda de aniquilação de direitos. Para isso, enfatizou que é preciso, também, apoiar as mulheres, para que elas tenham voz e participem ativamente da política e outras instâncias de discussão e poder.

Logo depois, foi aberto espaço para manifestação das pessoas presentes. Nas falas, as mulheres ressaltaram a gravidade do momento atual, as ameaças para os direitos dos trabalhadores e, especificamente, das mulheres. Por outro lado, afirmaram que as mulheres mostraram sua força, unificando-se em torno de uma pauta comum, contra o fascismo, a exploração e a opressão e por liberdade. A noite terminou com uma confraternização, com venda de quitutes e cerveja produzida pela cervejaria Ceva por Elas. A música ficou a cargo do show das Três Marias, seguido da DJ Grasi Colombo.

Feminismo e as mulheres no movimento sindical

No sábado, 29, pela manhã, a programação do Seminário iniciou-se com a fundadora da Casa da Mãe Joanna, experimento feminista de educação e comunicação sobre gênero, mestra em Gênero Mídia e Cultura Joanna Burigo. De maneira didática, ela apresentou uma breve história do feminismo, com os marcos iniciais, as chamadas ondas feministas e as discussões sobre gênero e interseccionalidade. Ao tratar de mulheres que, desde o século XVIII, de alguma forma manifestavam a discriminação e a opressão que sofriam por serem mulheres, a painelista ressaltou o apagamento sistemático das intervenções das mulheres ao longo da história. Ao traçar essa linha do tempo Joanna ressaltou que o feminismo jamais matou alguém: “a violência, efetivamente, é do patriarcado”, afirmou. O feminismo também traz o privado para a esfera pública, uma vez que a violência contra a mulher desvela uma série de agressões sistemáticas e estruturais fazendo com que o corpo violado da mulher e sua busca por dignidade também sejam ações políticas. Portanto, concluiu, “o que nos une é a dor da violência”. Para Joanna, a internet é uma ferramenta que deve ser usada cada vez mais, para dar voz, denunciar. Disseminar as ideias feministas também é se colocar politicamente e combater a opressão; para ela, “é no discurso que a gente vai fazer essa revolução”.

 

Segunda a falar no período da manhã, a dirigente do Sindppd Vera Guasso falou sobre como as sociedades foram se modificando, transformando-se, e como as mudanças sociais e econômicas refletiram nas relações sociais que resultaram em um aumento do controle e da exploração das mulheres. A painelista falou sobre avanços importantes conseguidos na luta das mulheres organizadas nas fábricas ainda no século XIX e início do XX, por redução da jornada de trabalho e contra o trabalho infantil, sobre as lutas até se chegar a que, pelo menos no papel, fosse estabelecida a igualdade salarial entre homens e mulheres, mas as condições sempre foram e são adversas, pois a mulher enfrenta a tripla jornada, não tem creches para colocar os filhos e é quase sempre a primeira a ser atingida pelo desemprego. Vera afirmou que também no meio sindical o assunto da equidade enfrentou resistência e ainda hoje se vê a mulher participando em menor número e em cargos considerados menores nas direções sindicais. “Nós, mulheres, vivemos a exploração e a opressão”, afirmou, e não é por acaso que lideram a resistência ao fascismo no Brasil atual: “temos uma unidade histórica de luta; dizemos ‘ele não’ porque queremos direitos, não queremos ser agredidas, somos trabalhadoras, lutadoras, não queremos mais fascismo e ditadura em nosso país”.

Violências contra a mulher

A conversa da tarde abordou várias formas de violência contra mulher. A dinâmica utilizada, como na parte da manhã, foi de que o plenário poderia se manifestar, com perguntas e observações, durante as intervenções das debatedoras, dando mesmo um tom de conversa ao evento.

Quem abriu a conversa foi a diretora de base da Justiça do Trabalho de Canoas Elaine Craus. Ela falou brevemente sobre o Comitê de Equidade de Gênero, Raça e Diversidade do Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região, o qual ela integra, e campanhas já realizadas, como participação na #HeforShe e na Trensurb, esta sobre o assédio no transporte público. A ativista dos movimentos negro e feminista e pós-graduanda em Direito Público Winnie Bueno falou sobre interseccionalidade como um conceito desenvolvido pelas mulheres negras, que geralmente têm suas vozes abafadas e silenciadas. Para ela, as opressões apresentam diversas dinâmicas, como étnica, racial, de gênero, classe e idade, e precisam ser pensadas considerando-se essas diferenças. “A interseccionalidade atua como ferramenta para a justiça social”, afirmou. Winnie ressaltou que o feminismo não pode ser pensado apenas a partir de um lugar, de um grupo de mulheres, e, da mesma forma, a justiça social: “ou é para todo mundo ou não se está pensando em justiça social”.

A advogada integrante da ONG Themis Gênero, Justiça e Direitos Humanos Renata Jardim falou sobre políticas de enfrentamento da violência e as dificuldades do Judiciário para dar conta dessa questão, principalmente no que tange à interseccionalidade. Para ela, sempre haverá relações desiguais de poder, por isso é preciso sempre avançar. A psicóloga Thaís da Silva Vieira atuou na Ocupação Mulheres Mirabal e levou sua experiência para a conversa. Segundo ela, a legislação coloca a violência de gênero como programa de Estado e não protege as mulheres. Para atender mulheres em situação de violência, ela diz que é necessário exercitar a alteridade, empatia, “reconhecer no outro as experiências que lhe são significativas”.

A colega aposentada e integrante do Núcleo da Diversidade Sexual do Sintrajufe/RS Ana Naiara Malavolta Saupe falou que a sexualidade “é um ponto central na destruição do patriarcado”. Ressaltou que o número de assassinatos de lésbicas no Brasil é igual ao de suicídios desse grupo de mulheres, o que se configura em um “assassinato social”. O Brasil não tem sequer o levantamento do número de crimes por orientação sexual, pois os boletins de ocorrência não trazem o campo “orientação sexual”, uma reivindicação de mais de 20 anos. Sem essa informação, não há dados e, portanto, o Estado se exime de desenvolver políticas. Para ela, o que unifica as mulheres “é o nosso feminismo, a unidade que precisamos ter pode ser construída a partir dessa concepção”. Estudante de Saúde Pública e integrante da Rede Parto do Princípio, Lara Werner falou sobre a violência obstétrica, que atinge de maneiras diferentes mulheres de classes (e raças) diferentes. Enquanto as que possuem melhores condições financeiras reivindicam um parto humanizado, o  direito  de, por exemplo, não fazer cesariana, as mais pobres buscam o básico, o acompanhamento pré-natal e o acesso à tecnologia necessária. Em ambos os casos, a violência obstétrica está presente, com o silenciamento das mulheres.

A conversa da tarde foi adiantada em uma hora para que as pessoas presentes pudessem participar do ato #EleNão, logo depois. O Sintrajufe/RS colocou um ônibus à disposição para levar os presentes até a Redenção, onde o ato reuniu cerca de 50 mil pessoas, a maioria mulheres.

 

Moção das mulheres do coletivo Luta Sintrajufe

Nós mulheres do Coletivo Lutra Sintrajufe fazemos parte e apoiamos o movimento #MulheresUnidasContraBolsonaro #MUCB, organizado há, aproximadamente, duas semanas através das redes sociais, somando quase 4 milhões de membras.

O grupo reúne mulheres brasileiras de todas as cores ideológicas, residentes ou não no País, em busca de ações e alternativas para que o discurso de ódio machista, misógino, racista, homofóbico, xenofóbico e de toda a ordem de preconceito não saia vencedor nas eleições à Presidência do Brasil deste 2018.

As hashtags #eleNão, #eleNunca, #eleJamais viralizaram ao ponto de os apoiadores do referido candidato, na tentativa de calar as mulheres, praticarem o crime cibernético de usurpação do grupo no facebook.

Contando com a Delegacia de Crimes Virtuais, com o Ministério Público e com a equipe do Facebook Brasil, o grupo foi recuperado e nossa intenção de derrotar o preconceito multiplicada.

A resistência iniciada com o grupo estava estabelecida e atos presenciais sendo organizados por todo o País.

Definiu-se o dia 29 de setembro como o dia da mobilização nas ruas. No Brasil inteiro e em muitos Países pelo mundo, mulheres farão atos de protesto contra uma proposta de retrocessos dos direitos das mulheres.

O MUCB gerou a unidade das lutas das negras e negros e de LGBT+, todos fortemente atacados pelo projeto preconceituoso do candidato em questão.

Diante dessa conjuntura, trazemos ao I Seminário de Mulheres do Sintrajufe a moção de apoio ao movimento e participação nos atos do 29S, também chamado de Primavera Feminista, para deixar claro que escolhemos a liberdade contra a opressão, que respeitamos as diferenças e a diversidade. Que encampamos a igualdade, contra o racismo. Que defendemos a equidade entre mulheres e homens e que a paz deve ser sobreposta à violência.

Chamamos a todas e todos para lutar conosco contra o retrocesso e o preconceito: #eleNão #eleNunca #eleJamais

Mulheres do Coletivo Luta Sintrajufe

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