SINDICATO DOS TRABALHADORES DO JUDICIÁRIO FEDERAL E MINISTÉRIO PÚBLICO DA UNIÃO - FUNDADO EM 28 DE NOVEMBRO DE 1998 - FILIADO À FENAJUFE E CUT

DESTAQUE

No Chile, população barra aumento na tarifa de transporte e governo acuado coloca 10 mil militares nas ruas e prende 1500 manifestantes

Depois dos equatorianos, argelinos e dos haitianos, agora são os chilenos que tomam as ruas em seu paí­s para defender sua sobrevivência. A partir da fagulha de um aumento nas tarifas do metrô de Santiago, capital do paí­s, a rebelião popular instalou-se em todo o paí­s, passando a um questionamento amplo ao governo de Sebastián Pií±era.

Os protestos começaram a cerca de 15 dias, liderados por estudantes secundaristas, mas ganharam grandes proporções no final da última semana. Em todo o paí­s as ruas foram tomadas nos últimos dias por milhares de manifestantes, radicalizados pela violenta repressão que o governo adotou como linha para enfrentar os protestos. A força dos protestos levou a população a conquistar uma primeira vitória: no último sábado, 19, o governo anunciou a suspensão do aumento da tarifa, que fora aumentada de 800 pesos (R$ 4,63) para 830 pesos (R$ 4,80).

No mesmo sábado em que revogara o aumento da tarifa do metrô, o governo também decretou estado de emergência e enviou 10 mil militares às ruas para enfrentar os manifestantesé a primeira vez que uma medida assim é acionada desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. Conforme a imprensa local, já são 11 mortos e mais de 1500 presos.

Mesmo com o recuo do governo, as mobilizações continuam e se ampliam: sindicatos de trabalhadores estão convocando uma greve geral em apoio aos protestos e contra a repressão: “vamos para a greve geral até derrubar o estado de emergência, tirar os militares das ruas, derrotar o governo de Pií±era e conquistar cada uma das demandas do povo trabalhador, setores populares, juventude, aposentados e mulheres”, diz a convocatória, que esclarece, ainda, que os protestos não acontecem por causa do preço do transporte, que foi apenas o “detonador” da insatisfação da sociedade com a desigualdade e a falta de esperança no futuro.

Em entrevista ao Blog do Sakamoto, o professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile Andras Uthoff destacou que de fato as pautas vão muito além da tarifa do metrô, passando pelo combate às privatizações, pela defesa de aposentadorias justas e por serviços públicos de qualidade: os manifestantes veem que seus pais e avós recebem aposentadorias de miséria, 80% delas abaixo do salário mí­nimo e 44% da linha de pobreza. Percebem que, dessa forma, não há capacidade de sobreviver dignamente”, disse o economista. E completou: “é uma manifestação contra o abuso que tem significado a privatização de serviços públicos com cobranças que a grande maioria não pode pagar, ficando excluí­da de bons serviços de saúde, educação, transporte, moradia, água, luz, energia”.

Torres de energiaprivatizadas “, sedes de jornais alinhados do governo e estabelecimentos comerciais já foram incendiados e saqueados tanto na capital quanto em outras cidades importantes do paí­s. Dezenas de supermercados, veí­culos, estações de ônibus e de metrô foram saqueados ou queimados. E o governo responde com mais e mais repressão e criminalização: no domingo, Pií±era afirmou, em pronunciamento em que esteve cercado de militares, que “estamos em guerra conta um inimigo poderoso”. As praças e ruas do paí­s seguem ocupadas pelos manifestantes, muitos dos quais exigem a saí­da do governo, especialmente após a escalada de repressão.

Resposta popular à crise e às polí­ticas econômicas

As manifestações no Chile somam-se aos grandes protestos ocorridos no Equador, Argélia, França e no Haiti. Todos eles têm caracterí­sticas nacionais, mas estão ligados pela crise geral do sistema. Tratam-se de levantes populares que surgem a partir de temas como a soberania energética, o preço dos combustí­veis, custo de vida ou as tarifas de transporte público, e desaguam em questionamentos às polí­ticas econômicas adotadas pelos governos desses paí­ses e colocam em questão os próprios governos.

No Brasil, a escalada autoritária, a presença de mais de 2500 militares em postos de chefia e assessoramento do governo federal e a crise permanente com o Congresso dão sinais de para onde o governo Bolsonaro (PSL) se dirige. O estado de exceção constituí­do no golpe de 2016 e a interferência direta do Poder Judiciário nas eleições serviu para preparar o terreno para a aplicação das medidas orientadas pelo FMI (EC 95/2016, reforma trabalhista, reforma da Previdência, etc) e conduzem o paí­s ao caos jogando no desemprego e na desesperança milhões de brasileiros. Mas o limite destes governos está na capacidade de organização da população que se levanta em defesa de seu futuro. No Brasil, precisamos resgatar a democracia para virarmos o jogo e impedirmos o desastre.