Depois dos equatorianos, argelinos e dos haitianos, agora são os chilenos que tomam as ruas em seu país para defender sua sobrevivência. A partir da fagulha de um aumento nas tarifas do metrô de Santiago, capital do país, a rebelião popular instalou-se em todo o país, passando a um questionamento amplo ao governo de Sebastián Pií±era.
Os protestos começaram a cerca de 15 dias, liderados por estudantes secundaristas, mas ganharam grandes proporções no final da última semana. Em todo o país as ruas foram tomadas nos últimos dias por milhares de manifestantes, radicalizados pela violenta repressão que o governo adotou como linha para enfrentar os protestos. A força dos protestos levou a população a conquistar uma primeira vitória: no último sábado, 19, o governo anunciou a suspensão do aumento da tarifa, que fora aumentada de 800 pesos (R$ 4,63) para 830 pesos (R$ 4,80).
No mesmo sábado em que revogara o aumento da tarifa do metrô, o governo também decretou estado de emergência e enviou 10 mil militares às ruas para enfrentar os manifestantesé a primeira vez que uma medida assim é acionada desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. Conforme a imprensa local, já são 11 mortos e mais de 1500 presos.
Mesmo com o recuo do governo, as mobilizações continuam e se ampliam: sindicatos de trabalhadores estão convocando uma greve geral em apoio aos protestos e contra a repressão: “vamos para a greve geral até derrubar o estado de emergência, tirar os militares das ruas, derrotar o governo de Pií±era e conquistar cada uma das demandas do povo trabalhador, setores populares, juventude, aposentados e mulheres”, diz a convocatória, que esclarece, ainda, que os protestos não acontecem por causa do preço do transporte, que foi apenas o “detonador” da insatisfação da sociedade com a desigualdade e a falta de esperança no futuro.
Em entrevista ao Blog do Sakamoto, o professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile Andras Uthoff destacou que de fato as pautas vão muito além da tarifa do metrô, passando pelo combate às privatizações, pela defesa de aposentadorias justas e por serviços públicos de qualidade: os manifestantes veem que seus pais e avós recebem aposentadorias de miséria, 80% delas abaixo do salário mínimo e 44% da linha de pobreza. Percebem que, dessa forma, não há capacidade de sobreviver dignamente”, disse o economista. E completou: “é uma manifestação contra o abuso que tem significado a privatização de serviços públicos com cobranças que a grande maioria não pode pagar, ficando excluída de bons serviços de saúde, educação, transporte, moradia, água, luz, energia”.
Torres de energiaprivatizadas “, sedes de jornais alinhados do governo e estabelecimentos comerciais já foram incendiados e saqueados tanto na capital quanto em outras cidades importantes do país. Dezenas de supermercados, veículos, estações de ônibus e de metrô foram saqueados ou queimados. E o governo responde com mais e mais repressão e criminalização: no domingo, Pií±era afirmou, em pronunciamento em que esteve cercado de militares, que “estamos em guerra conta um inimigo poderoso”. As praças e ruas do país seguem ocupadas pelos manifestantes, muitos dos quais exigem a saída do governo, especialmente após a escalada de repressão.
Resposta popular à crise e às políticas econômicas
As manifestações no Chile somam-se aos grandes protestos ocorridos no Equador, Argélia, França e no Haiti. Todos eles têm características nacionais, mas estão ligados pela crise geral do sistema. Tratam-se de levantes populares que surgem a partir de temas como a soberania energética, o preço dos combustíveis, custo de vida ou as tarifas de transporte público, e desaguam em questionamentos às políticas econômicas adotadas pelos governos desses países e colocam em questão os próprios governos.
No Brasil, a escalada autoritária, a presença de mais de 2500 militares em postos de chefia e assessoramento do governo federal e a crise permanente com o Congresso dão sinais de para onde o governo Bolsonaro (PSL) se dirige. O estado de exceção constituído no golpe de 2016 e a interferência direta do Poder Judiciário nas eleições serviu para preparar o terreno para a aplicação das medidas orientadas pelo FMI (EC 95/2016, reforma trabalhista, reforma da Previdência, etc) e conduzem o país ao caos jogando no desemprego e na desesperança milhões de brasileiros. Mas o limite destes governos está na capacidade de organização da população que se levanta em defesa de seu futuro. No Brasil, precisamos resgatar a democracia para virarmos o jogo e impedirmos o desastre.









