Na última quarta-feira, 15, o Sintrajufe/RS foi sede de um importante debate sobre racismo, reunindo dezenas de colegas, magistrados e ativistas. O encontro teve como tema “Eu sou racista? Um diálogo com servidores e servidoras”, tendo sido estimulado pelo recente caso de uma postagem racista de um servidor do TRT4. Foram seis painelistas, que se revezaram ao microfone dando o tom para o debate geral, com espaço para falas dos demais presentes: Pietra Ferreira, advogada especialista em direito do trabalho e previdenciário; Marcelo Carvalho, criador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol; Gleidson Dias, advogado, membro da coordenação nacional do Movimento Negro Unificado; Luana Pereira, sócia fundadora do escritório Pereira, Pinheiro e FaéAdvocacia Feminista, LGBT+ e Antirracista; Larissa Poyarzabal, professora e ciberativista; e Ana Naiara Malavolta, servidora do TRT4 e integrante da Marcha Mundial das Mulheres e do Núcleo de Diversidade Sexual do Sintrajufe/RS (Nuds).
O debate, organizado pelo Coletivo de Negros do TRT4, começou com falas de integrantes do Coletivo, que destacaram a importância de avançar nessas discussões. Gládis Marques, Roberta Vieira, Rogério Vargas, Alexandre Farias e Vladimir Rodrigues resgataram o trabalho do grupo e ponturam questões históricas das lutas do povo negro contra o racismo e as diversas formas de opressão e dominação.
A primeira painelista a falar foi a advogada Pietra Ferreira. “Temos que nos afirmar como negros, temos uma história de luta e de orgulho que precisamos contar”, disse, lembrando que, embora os negros sejam 54% da população brasileira, não estão representados em todos os espaços. Nesse sentido, citou como exemplo o próprio Judiciário, onde há pouca representatividade negra entre servidores e, especialmente, entre magistrados. Conforme explicou, é o racismo institucional que cria barreiras para o acesso dos negros, obrigando a uma luta “difícil, mas na qual temos que nos empoderar, sabendo nossos direitos”. Esclareceu, ainda, que esse não deve ser um problema apenas dos negros, mas do conjunto da sociedade, e que é preciso convencer os brancos a ouvir sobre essa realidade.
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Em seguida, quem falou foi Marcelo Carvalho, do Observatório da Discriminação Racial no Futebol. Marcelo contou que o projeto surgiu a partir de diversos casos de racismo no futebol que começaram a ganhar destaque na mídia, como o do árbitro Márcio Chagas da Silva e o do goleiro Aranha. Conforme o painelista, há um mito de democracia racial no futebol, um espaço, na verdade, onde os negros seguem excluídos de cargos como dirigentes e treinadoresnão há, hoje, nenhum goleiro negro entre os vinte titulares dos times da Primeira Divisão. Goleiros negros também são raros no Brasil, graças a uma ideia de que os negros não são confiáveis. Marcelo informou que, em 2014, foram enumerados 20 casos de racismo no futebol brasileiro divulgados pela mídia, número que chegou a 49 em 2017. Boa parte desses casos, destacou, aconteceram no Rio Grande do Sul. O ativista falou ainda do caso do goleiro Aranha, que sofreu racismo por parte de torcedores do Grêmio em 2014. Para ele, Aranha é um símbolo, já que decidiu não se calar: “ele teve a coragem de levantar a voz contra o racismo”, afirmou.
Gleidson Dias, do Movimento Negro Unificado, falou na sequência, apresentando um panorama histórico sobre a dominação dos negros no Brasil. Lembrou, por exemplo, a construção da ideia de “raça brasileira”, mestiça, um verdadeiro apagamento da realidade de desigualdade entre brancos e negros no país. Ao mesmo tempo, destacou conquistas, ressaltando que igualdade racial de fato “se constrói com política e disputa”. Uma das grandes necessidades, afirmou, é combater a subumanização dos negros, enfrentando racismo estrutural e estruturante da sociedade brasileira, onde o preconceito contra os negros atravessa todos os âmbitos. “Temos que fazer também a disputa estrutural”, defendeu.
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Luana Pereira, advogada de causas feministas, LGBT+ e antirracistas, por sua vez, lembrou que o racismo é muito dinâmico e se constitui de diversas formas, em diferentes âmbitos. Luana tratou da questão do “lugar de fala”, explicando que é preciso desconstruir a noção de que o branco é neutro e universal: “todo mundo fala de algum lugar”, disse. Criticou a relativização do racismo por pessoas brancas: “todos os brancos são beneficiários do pacto racial, mas nem todos precisam ser signatários desse pacto. Para não serem, é preciso que se abram para a mudança”.
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Depois de Luana, quem falou foi a professora e ciberativista Larissa Poyarzabal, que contou que a rede de ciberativistas negras surgiu no ano passado com o objetivo de debater o enfrentamento ao racismo, mas que vem atuando mais para responder ataques a ativistas, que se multiplicam. Ela informou que as denúncias de racismo na internet vêm aumentando no Brasil, em boa medida porque os negros estão, de acordo com ela, “em um processo de tirar as Máscaras de Flandres [máscaras que escravos eram obrigados a usar para não poderem falar] e conseguir falar, denunciar”. Ao mesmo tempo, o racismo encontra terreno fértil na internet porque ali as pessoas se sentem à vontade, protegidas para falar o que quiserem, inclusive com falas de ódio. Por isso a importância de seguir denunciando casos como o do servidor do TRT4 que desencadeou o debate. “Precisamos levar essa luta adiante. Continuem tirando as suas Máscaras de Flandres mesmo em lugares difíceis”, pediu.
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A última painelista a falar foi Ana Naiara Malavolta, servidora do TRT4. única branca a falar como painelista, destacou a necessidade de solidarizar-se com a luta dos negros e buscou apontar caminhos para isso: “Reconheço meu privilégio, sei que usufruo dele, mas tento matar a branca dentro de mim para me juntar a essa luta”, disse, defendendo que “temos que parar de relativizar essa dor ancestral que todos os negros e negras sentem”. Ressaltou, nesse sentido, que é necessário que os brancos falem sobre o racismo também nos locais que não são acessados pelos negros, servindo como “escudos” da luta antirracista.
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Em dois momentos do debate, todos os presentes tiveram a oportunidade de falar. Nesses momentos, falaram de suas próprias experiências positivas e negativas, relataram casos e realidades de seus locais de trabalho e de suas vidas particulares, e defenderam, fundamentalmente, a necessidade de se falar cada vez mais sobre o problema do racismo como forma de combatê-lo. Como ocorreu justamente na noite de quarta-feira, no Sintrajufe/RS.
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Falando em nome da direção do Sintrajufe/RS, o diretor Cristiano Moreira abordou alguns casos específicos, ocorridos no futebol e no próprio sindicatoquando uma servidora fez um comentário racista a respeito de uma funcionáriapara lembrar que “ninguém tem salvo-conduto”, ou seja, não importa o ambiente em que ocorre ou mesmo o histórico pessoal de cada um, nenhuma forma de racismo pode ser admitida ou relativizada: “o racismo é um problema geral, estrutural, e deve ser combatido em todos os espaços, independente de preferências futebolísticas, políticas, partidárias ou de amizade”.
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Também diretor do Sintrajufe/RS, Ruy Almeida agradeceu aos integrantes do Coletivo de Negros do TRT4 pela confiança em procurar o sindicato como primeira medida. O diretor disse que um sindicato precisa ser aliado nesses momentos e a atividade, principalmente por ter reunido tanta gente, representa um fortalecimento importante da posição antirracista, colocando mais uma vez o Sintrajufe/RS à disposição dos denunciantes.












