Â
Como parte das atividades da Semana da Consciência Negra, o Sintrajufe/RS realizou, nessa terça-feira, 22, um evento na sede com debate, cinema e música. A atividade reforçou a necessidade de implementar ações constantes de combate ao racismo e em defesa da reparação histórica ao povo negro.
O debate, que abriu a noite, teve a participação da professora Karen Morais do Santos; do advogado trabalhista e militante da Frente Quilombola, Onir Araújo; e da presidente do grupo Unir Raças e conselheira da Igualdade Racial de Esteio, Odete Diogo dos Santos. Mediando a mesa, o diretor Ruy Almeida iniciou os trabalhos destacando a pouca participação dos negros no Judiciário Federal e, por outro lado, conquistas como a implementação de cotas raciais.
Onir Araújo: construir um novo pacto de nação
Â
Â
Onir Araújo foi o primeiro convidado a falar, e sublinhou que a escravidão mal resolvida e o pós-escravidão sem direitos e reparações para os negros deixaram um legado que permanece até hoje. Nesse sentido, lembrou o fato de que o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, da qual os negros são mais de 70%. Na mesma direção, falou do quase um milhão de jovens negros assassinados nos últimos dez anos no Brasil, o racismo institucional presente no país e as decisões recentes do Supremo Tribunal Federal que flexibilizam princípios como a inviolabilidade de domicílio, a presunção de inocência e a imprescritibilidade dos crimes de lesa humanidade: “o Brasil é um país de indígenas, construído por negros a serviço dos brancos europeus. Essa é a essência da nossa História, e um dilema ainda aberto na nossa sociedade”, afirmou.
Â
Por outro lado, o ativista destacou a necessidade de seguir resistindo, de não conformar-se com as medidas paliativas, e de buscar um novo pacto de nação, compartilhado entre os vários povos que construíram o país: “Aqueles filhos e filhas que, através de uma tática, conseguimos botar dentro das universidades, não podem ser absorvidos por essa lógica colonial. Nós não somos nem casa grande, nem senzala, nós temos que ser quilombo. Não podemos confundir empoderamento com empuleiramento institucional”.
Odete Diogo: conscientizar sobre a importância da reparação
Â
Â
Depois de Onir, foi a vez de Odete Diogo conversar com os presentes. Ela iniciou sua fala lembrando que o Brasil concentra a maior população de afrodescendentes fora da áfrica, e que, ainda assim, os negros estão sub-representados nos espaços de poder, na política, no serviço público. Para ela, há uma busca por reparação através das cotas, mas é preciso ir além. Odete explicou que a implementação das cotas no Judiciário Federal foi demorada, e tem duração prevista apenas até 2024, sendo necessário muito mais tempo para construir a reparação merecida, com a qual o Estado e a sociedade devem comprometer-se: “Estamos na quarta geração de negros libertos no Brasil, é muito recente. É importante que o Judiciário Federal e a sociedade como um todo tenham conhecimento disso e saibam que estamos na década do afrodescentente, de 2015 a 2024, com o intuito de fazer justiça ao povo negro”.
Â
A convidada apresentou dados sobre a ausência de negros no Judiciário Federal (no Rio Grande do Sul, 93% dos servidores são brancos), destacando a importância de que esse tipo de problema seja debatido por todos, construindo conscientização sobre a importância da reparação histórica: “Estamos lutando para construir uma sociedade pacífica, com direitos e oportunidades para todos”.
Â
Karen Morais: o racismo é necessário à nossa forma de desenvolvimento econômico
Â
Â
Quem encerrou a primeira parte do debate foi Karen Morais, que destacou, durante toda sua fala, a necessidade de articular as lutas dos trabalhadores, dos sindicatos, com as discussões e o enfrentamento ao racismo: “Essas discussões devem estar na agenda sempre, não apenas em novembro”, ressaltou. Ela tratou de questões da conjuntura política nacional, como a PEC 55/2016 e as terceirizações, explicando que medidas como essas atingem diretamente e em primeiro lugar os trabalhadores negros. Nesse sentido, falou do conceito de “precariado”, empregos precarizados crescentes no Brasil e que estão sendo ocupados majoritariamente por negros, especialmente as mulheres. E ressaltou a importância de que o sindicalismo consiga dialogar com esses sujeitos: “Todos os índices mostram que a população negra está à margem de todos os direitos. Agora o sindicalismo brasileiro está dizendo que direitos estão sendo retirados, mas os negros e negras nunca tiveram esses direitos”.
Para Karen, a inserção dos negros no sistema sempre tem se dado de forma subalterna, fruto do racismo como instrumento necessário à manutenção desse sistema e à forma de desenvolvimento econômico corrente no Brasil. Para enfrentar essa situação, destacou, “o povo negro está organizado, mas não das formas tradicionais da esquerda. O sindicalismo precisa dialogar com esses setores”.
Â
Depois da fala de Karen, diversos presentes fizeram suas manifestações, apresentando dúvidas, propostas e análises e enriquecendo o debate, além de, em seu conjunto, essas manifestações apresentarem um repúdio unânime a todas as formas de discriminação e a consciência sobre a necessidade urgente de transformar essa realidade.
Â
Rafuagi e o Massacre de Porongos
A atividade foi encerrada com a participação do grupo de hip-hop Rafuagi, que, além de um pocket show, fez no Sintrajufe/RS a primeira exibição pública de um documentário a respeito do Massacre de Porongos e do racismo ainda presente no Brasil, juntamente com um clipe da música que, contando a história de Porongos, propõe também uma “nova versão” do hino do Rio Grande do Sul (veja AQUI).
Â
Fotos: Rosane Vargas.









