Nº 808
5 de dezembro de 2005 - 15h


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PRA FINALIZAR
Ação civil pública pede a quebra da patente do Kaletra
Cerca de 170 mil brasileiros portadores de HIV/Aids utilizam medicamentos anti-retrovirais distribuídos pelo Ministério da Saúde e, a cada ano, outras 20 mil pessoas, em média, se somam a eles. Números como esses fazem do programa brasileiro de combate à Aids um modelo para o mundo, por garantir o acesso universal dos portadores da doença aos remédios necessários. Mas sua sustentabilidade está ameaçada por causa do aumento progressivo dos custos dos medicamentos patenteados. Enquanto em 2004 foram gastos R$ 592 milhões, neste ano esse valor subiu para R$ 945 milhões. Por conta disso, o Ministério Público Federal, em parceria com organizações da sociedade civil, entrou com uma ação civil pública, na última quinta-feira, 1º, Dia Mundial de Luta contra a Aids, solicitando o licenciamento compulsório de um desses medicamentos, o Kaletra, fabricado pelo laboratório americano Abbott. Em 2005, os recursos investidos só nesse remédio representaram aproximadamente 30% do orçamento total do Programa Nacional de DST/Aids. A ação propõe a suspensão do monopólio sobre esse medicamento e que os laboratórios nacionais passem a produzir uma versão genérica a custos mais baixos para uso exclusivamente público, pagando à Abbott valores não abusivos.

No primeiro semestre deste ano, o governo federal chegou a ameaçar a quebra da patente desse remédio. Uma portaria do Ministério da Saúde, em junho, declarava que o Kaletra era um medicamento de interesse público e mostrava intenção de adotar o licenciamento compulsório, com respaldo no Acordo da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a Propriedade Intelectual Relacionado ao Comércio, conhecido como acordo Trips, de 1995, e na Lei de Patentes, de 1996. Em julho, no entanto, após negociações com o laboratório, o governo federal conseguiu uma diminuição dos preços do medicamento e fechou um acordo com a Abbott, o que deixou frustradas as ONGs que lidam com a questão.


Uma das principais críticas é a de que o acordo fixa o preço do remédio para os próximos seis anos. Ainda que, no momento, o Brasil esteja pagando valores menores do que outros países da América Latina, os termos da resolução conjunta são considerados abusivos porque o monopólio da patente do Kaletra, que dura vinte anos, expira em 2011. A tendência até lá seria a diminuição dos preços, mas não está previsto nenhum mecanismo que permita novas negociações com o laboratório até essa data, tornando-se uma espécie de “camisa de força” para o governo federal. Além disso, o Brasil garante que não vai mexer na patente do medicamento, independentemente do cenário internacional, e o acordo não prevê a transferência de tecnologia. “Tentamos várias vias de negociação com o governo, falamos sobre as vantagens do licenciamento compulsório como uma via legal, tentamos audiências, apresentamos documentos que mostram a viabilidade da proposta e dados do próprio programa nacional de Aids que comprovam que ele estará em situação de risco depois de 2005. Mas, depois do acordo com a Abbot, notamos que essas vias estavam esgarçadas e consideramos interessante provocar o judiciário para que ele entrasse nessa discussão também”, explica a advogada Renata Reis, assessora de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia) e coordenadora do grupo de trabalho sobre propriedade intelectual da Rede Brasileira pela integração dos Povos (Rebrip).


A maior preocupação das entidades é que acordos nos mesmos termos que o firmado com a Abbot sejam fechados com outros laboratórios, já que o governo federal utiliza o licenciamento compulsório apenas como instrumento de negociação, seguindo a tática do governo FHC. Em agosto, o próprio Conselho Nacional de Saúde (CNS) decidiu pela quebra da patente e pelo início imediato da produção nacional. Porém, o ministro Saraiva Felipe (Saúde), que preside o CNS, não aceitou homologar a decisão do conselho deliberativo. “O Brasil não pode temer as táticas das multinacionais, que levam seu país de origem a ameaçar com retaliações econômicas, compram médicos para questionarem a qualidade do produto nacional e afirmam que, com essa medida, não vai ter mais investimento em pesquisa. Isso não é verdade porque a alta prevalência da doença nos países ricos é garantia certa de mercado”, defende Mário Scheffer, integrante do Grupo Pela Vidda de São Paulo e membro do CNS. Além disso, ele afirma que essas drogas não só cobriram os gastos com a pesquisa como também já renderam grandes lucros.

O Ministério da Saúde, por sua vez, argumenta que o licenciamento compulsório produziria graves prejuízos para o fornecimento de medicamentos aos portadores de HIV/Aids, pois ainda não há capacidade de produzi-los imediatamente sem descontinuidade no fornecimento aos pacientes. “Caso o laboratório Abbott não tivesse apresentado proposta atendendo a necessidade do Ministério da Saúde, estaria plenamente justificado o risco inerente ao processo de produção nacional. No entanto, fora dessa situação, não haveria qualquer vantagem, principalmente para os milhares de usuários do medicamento, que poderiam se encontrar num injustificável cenário de instabilidade”, afirmou, em nota. Para o ministério, o resultado das negociações deixa de justificar o argumento do “interesse público” porque, com a proposta obtida, “é muito improvável que o argumento de inviabilização financeira tivesse qualquer sustentação, o que poderia nos levar a uma derrota jurídica”.

As organizações da sociedade civil que apóiam a ação civil pública discordam. Segundo a advogada da Abia, o Brasil poderia continuar comprando o medicamento da Abbott durante o período de realização de testes. “Acreditamos que os laboratórios brasileiros já mostraram que têm capacidade de produzir esse medicamento. Isso nunca havia sido questionado antes da assinatura do acordo”, argumenta. Quando os portadores da doença iniciam a terapia, começam com remédios mais leves, chamados de primeira linha. Depois, ao adquirirem resistência a eles, passam a tomar os de segunda linha. Os primeiros são produzidos no Brasil na forma de genéricos, enquanto os do segundo tipo estão sob o monopólio de alguns laboratórios e são aqueles que oneram o orçamento do programa brasileiro de combate à Aids, utilizando recursos que poderiam ser investidos na prevenção. De acordo com Michel Lotrowska, representante no Brasil da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais da ONG Médicos Sem Fronteiras, os de segunda linha têm custo de cinco a doze vezes mais alto que os de primeira linha.

“Antes a concorrência com os genéricos funcionava para diminuir os preços, chegando a descontos de mais de 90%. Depois que os países entraram na OMC, com o acordo de patentes, não é mais possível fazer concorrência porque todos os medicamentos inovadores estão sob monopólio e o produtor pede o preço que quer. A situação está insustentável a longo prazo para o resto do mundo também”, denuncia Lotrowska. No ano que vem, a lei que obriga a distribuição dos anti-retrovirais completa dez anos. Como a Aids se tornou uma doença crônica, a cada ano há mais pessoas que precisam desses remédios e a tendência é só aumentarem esses números, já que se estima que existam 600 mil pessoas infectadas com a doença no país. “O Brasil produz sete genéricos, cópias dos remédios criados antes da Lei de Patentes. O país só conseguiu manter o programa de distribuição dos medicamentos até agora por causa disso. Se desde o começo houvesse essa lei, não teria sido possível”, diz Scheffer. Para ele, só o licenciamento compulsório pode resolver esse problema. “É uma discussão ética e humanitária que precisa ser feita no mundo todo. O sistema internacional de propriedade intelectual não é compatível com o acesso a tratamento de Aids em países em desenvolvimento. O direito à saúde e à vida está acima do lucro e do monopólio da patente”, acredita. (Agência Carta Maior)

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