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MUNDO
"Chamada de Bamako"
convoca o sul à luta
contra imperialismo econômico e militar
Em 1955, 29 chefes de Estado de países
asiáticos e africanos que haviam conquistado
recentemente sua independência da Europa
decidiram se reunir para pressionar o mundo pelo
fim da colonização de seus vizinhos
de continente. A Conferência de Bandung,
convocada pelos governos da anfitriã Indonésia,
da Birmânia, do Ceilão, da Índia
e do Paquistão e que contou com a participação
de lideranças como o presidente Nasser,
do Egito, e o primeiro-ministro chinês Chou
En Lai, marcou a entrada do chamado Terceiro Mundo
na cena internacional. Para garantir uma cooperação
econômica, cultural e política entre
os países presentes, Bandung defendeu fortemente
o direito dos povos de escolherem livremente seus
sistemas políticos e econômicos.
E reafirmou princípios como o reconhecimento
da igualdade entre todas as raças e países,
o respeito aos direitos humanos e a paz, e a recusa
à servidão aos interesses de quaisquer
potências e ao uso da força contra
a independência política de um país.
Declarou, portanto, o imperialismo e o colonialismo
males que deveriam rapidamente chegar ao fim.
Cinqüenta anos depois, o espírito
de Bandung e dos chamados altermundistas foi evocado
à véspera da abertura do Fórum
Social Mundial de Bamako, no Mali, para inspirar
os atuais críticos da globalização
neoliberal a reorganizar suas forças. Convocado
pelo Fórum Mundial das Alternativas, o
Fórum do Terceiro Mundo, o Fórum
por um Outro Mali e pela ENDA - uma das maiores
organizações não governamentais
africanas -, o encontro reuniu mais de 300 representantes
de movimentos sociais, sindicatos e ONGs, intelectuais
e parlamentares dos cinco continentes, visando
a criação de uma frente de combate
ao novo imperialismo.
"A Conferência de Bandung foi um dos
eventos mais marcantes da história recente
dos países do sul. Se estamos aqui hoje
é para lembrar o combate que nossos povos
travaram para sair da colonização
e da escravidão, mas a lembrança
não deve parar aí. Todos esses esforços
de igualidade e solidariedade devem refundar a
idéia de estarmos juntos para construir
um outro mundo", disse Taoufik Ben Abdallah,
da ENDA e também membro Secretariado do
Fórum Social Africano.
A idéia é que a reconstrução
dessa frente de países do sul - agora baseada
na organização da sociedade civil
e não necessariamente na cooperação
entre governos, como aconteceu em Bandung - possibilite
um avanço do movimento altermundista em
direção a propostas concretas por
um outro mundo. "O momento agora é
de transformar o que já produzimos em combustível
intelectual para que possamos agir de outra forma.
Para que passemos de um coletivo, que somos hoje,
para a construção de um ator coletivo,
ativo e contra-hegemônico", explica
Ignácio Ramonet, fundador da ATTAC França
e jornalista do Le Monde Diplomatique.
Mas, se os desafios atuais são da mesma
natureza de 50 anos atrás - combater uma
política colonial fundada sobre a desigualdade
entre os povos -, o contexto é bastante
diferente. Agora, a hegemonia norte-americana
provoca o que os participantes do seminário
definiram como um "apartheid em escala mundial".
Para eles, a reversão deste processo exige,
portanto, o desenvolvimento de estratégias
políticas de curto e longo prazo, que passam
pela retomada do internacionalismo dos povos,
do norte e do sul.
O resultado da conferência realizada na
quarta-feira 19/1 em Bamako é um documento
intitulado "Chamada de Bamako" ( "L'Appel
de Bamako" em francês), que traz propostas
para o movimento altermundista. Por trás
delas, dois objetivos centrais: primeiro, a retomada
dos fóruns de gestão do capitalismo
neoliberal - leia-se a transformação
ou substituição de instituições
como a Organização Mundial do Comércio
e o Fundo Monetário Internacional. Na opinião
de Amin, a OMC funciona hoje como um novo "ministério
das colônias". O segundo objetivo é
combater o terrorismo de Estado imposto pelo Estados
Unidos para garantir a manutenção
da ordem vigente. "O sistema neoliberal não
pode funcionar de forma democrática ou
pacífica. Quando 75% da população
do mundo está sob a tutela de poucos milionários,
eles são obrigados a reprimir com violência
qualquer tentativa de oposição",
explica Amin.
O alcance desses dois objetivos centrais passaria
por objetivos estratégicos:
- o combate ao controle do planeta pelos Estados
Unidos e a construção de um sistema
mundial multilateral, baseado na paz, no direito
e na negociação. Os altermundistas
reafirmaram o papel das Nações Unidas
e propuseram a organização de campanhas
contra as bases norte-americanas em todo o mundo
e pela retirada das tropas do Iraque. Uma jornada
internacional de manifestações está
prevista para os dias 18 e 19 de março.
- o combate à globalização
neoliberal e a defesa de uma globalização
negociada, em que o acesso aos mercados seja feito
numa perspectiva de redução das
desigualdades mundiais e de garantia dos direitos
dos trabalhadores. Foi proposta a criação
de um tribunal especial para julgar os crimes
econômicos, de centrais sindicais internacionais
para se contraporem às multinacionais e
o desenvolvimento de campanhas contra os acordos
de cooperação econômica assinados
entre os países africanos e a União
Européia.
- a criação de blocos regionais
que fortaleçam os países do sul
nas negociações globais.
- contra a mercantilização dos recursos
naturais; que sua exploração seja
subordinada ao direito coletivo à vida.
- pela defesa dos pequenos produtores agrícolas,
afirmando a prioridade da soberania alimentar
nas negociações comerciais.
- contra o álibi da democracia eleitoral
e pela construção de uma democratização
de todos os aspectos da vida social: a importância
de se afirmarem os direitos sociais em complementação
aos direitos civis e políticos, a defesa
dos bens comuns e dos serviços públicos.
Se o espírito de Bandung se somar à
determinação de Bamako, que nos
anos 60 esteve na vanguarda da libertação
dos países africanos e foi a primeira capital
do sul do Saara a conseguir sua independência,
o caminho a ser percorrido pelos altermundistas
pode ser longo e sinuoso, mas certamente será
algo por que se vale a pena lutar. (com informações
de Bia Barbosa, Agência Carta Maior)
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