Nº 834
20 de janeiro de 2006 - 16h


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MUNDO
"Chamada de Bamako" convoca o sul à luta
contra imperialismo econômico e militar

Em 1955, 29 chefes de Estado de países asiáticos e africanos que haviam conquistado recentemente sua independência da Europa decidiram se reunir para pressionar o mundo pelo fim da colonização de seus vizinhos de continente. A Conferência de Bandung, convocada pelos governos da anfitriã Indonésia, da Birmânia, do Ceilão, da Índia e do Paquistão e que contou com a participação de lideranças como o presidente Nasser, do Egito, e o primeiro-ministro chinês Chou En Lai, marcou a entrada do chamado Terceiro Mundo na cena internacional. Para garantir uma cooperação econômica, cultural e política entre os países presentes, Bandung defendeu fortemente o direito dos povos de escolherem livremente seus sistemas políticos e econômicos. E reafirmou princípios como o reconhecimento da igualdade entre todas as raças e países, o respeito aos direitos humanos e a paz, e a recusa à servidão aos interesses de quaisquer potências e ao uso da força contra a independência política de um país. Declarou, portanto, o imperialismo e o colonialismo males que deveriam rapidamente chegar ao fim.
Cinqüenta anos depois, o espírito de Bandung e dos chamados altermundistas foi evocado à véspera da abertura do Fórum Social Mundial de Bamako, no Mali, para inspirar os atuais críticos da globalização neoliberal a reorganizar suas forças. Convocado pelo Fórum Mundial das Alternativas, o Fórum do Terceiro Mundo, o Fórum por um Outro Mali e pela ENDA - uma das maiores organizações não governamentais africanas -, o encontro reuniu mais de 300 representantes de movimentos sociais, sindicatos e ONGs, intelectuais e parlamentares dos cinco continentes, visando a criação de uma frente de combate ao novo imperialismo.
"A Conferência de Bandung foi um dos eventos mais marcantes da história recente dos países do sul. Se estamos aqui hoje é para lembrar o combate que nossos povos travaram para sair da colonização e da escravidão, mas a lembrança não deve parar aí. Todos esses esforços de igualidade e solidariedade devem refundar a idéia de estarmos juntos para construir um outro mundo", disse Taoufik Ben Abdallah, da ENDA e também membro Secretariado do Fórum Social Africano.
A idéia é que a reconstrução dessa frente de países do sul - agora baseada na organização da sociedade civil e não necessariamente na cooperação entre governos, como aconteceu em Bandung - possibilite um avanço do movimento altermundista em direção a propostas concretas por um outro mundo. "O momento agora é de transformar o que já produzimos em combustível intelectual para que possamos agir de outra forma. Para que passemos de um coletivo, que somos hoje, para a construção de um ator coletivo, ativo e contra-hegemônico", explica Ignácio Ramonet, fundador da ATTAC França e jornalista do Le Monde Diplomatique.
Mas, se os desafios atuais são da mesma natureza de 50 anos atrás - combater uma política colonial fundada sobre a desigualdade entre os povos -, o contexto é bastante diferente. Agora, a hegemonia norte-americana provoca o que os participantes do seminário definiram como um "apartheid em escala mundial". Para eles, a reversão deste processo exige, portanto, o desenvolvimento de estratégias políticas de curto e longo prazo, que passam pela retomada do internacionalismo dos povos, do norte e do sul.
O resultado da conferência realizada na quarta-feira 19/1 em Bamako é um documento intitulado "Chamada de Bamako" ( "L'Appel de Bamako" em francês), que traz propostas para o movimento altermundista. Por trás delas, dois objetivos centrais: primeiro, a retomada dos fóruns de gestão do capitalismo neoliberal - leia-se a transformação ou substituição de instituições como a Organização Mundial do Comércio e o Fundo Monetário Internacional. Na opinião de Amin, a OMC funciona hoje como um novo "ministério das colônias". O segundo objetivo é combater o terrorismo de Estado imposto pelo Estados Unidos para garantir a manutenção da ordem vigente. "O sistema neoliberal não pode funcionar de forma democrática ou pacífica. Quando 75% da população do mundo está sob a tutela de poucos milionários, eles são obrigados a reprimir com violência qualquer tentativa de oposição", explica Amin.
O alcance desses dois objetivos centrais passaria por objetivos estratégicos:
- o combate ao controle do planeta pelos Estados Unidos e a construção de um sistema mundial multilateral, baseado na paz, no direito e na negociação. Os altermundistas reafirmaram o papel das Nações Unidas e propuseram a organização de campanhas contra as bases norte-americanas em todo o mundo e pela retirada das tropas do Iraque. Uma jornada internacional de manifestações está prevista para os dias 18 e 19 de março.
- o combate à globalização neoliberal e a defesa de uma globalização negociada, em que o acesso aos mercados seja feito numa perspectiva de redução das desigualdades mundiais e de garantia dos direitos dos trabalhadores. Foi proposta a criação de um tribunal especial para julgar os crimes econômicos, de centrais sindicais internacionais para se contraporem às multinacionais e o desenvolvimento de campanhas contra os acordos de cooperação econômica assinados entre os países africanos e a União Européia.
- a criação de blocos regionais que fortaleçam os países do sul nas negociações globais.
- contra a mercantilização dos recursos naturais; que sua exploração seja subordinada ao direito coletivo à vida.
- pela defesa dos pequenos produtores agrícolas, afirmando a prioridade da soberania alimentar nas negociações comerciais.
- contra o álibi da democracia eleitoral e pela construção de uma democratização de todos os aspectos da vida social: a importância de se afirmarem os direitos sociais em complementação aos direitos civis e políticos, a defesa dos bens comuns e dos serviços públicos.
Se o espírito de Bandung se somar à determinação de Bamako, que nos anos 60 esteve na vanguarda da libertação dos países africanos e foi a primeira capital do sul do Saara a conseguir sua independência, o caminho a ser percorrido pelos altermundistas pode ser longo e sinuoso, mas certamente será algo por que se vale a pena lutar. (com informações de Bia Barbosa, Agência Carta Maior)

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