Nº 831
17 de janeiro de 2006 - 16h


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MUNDO
Crises humanitárias são ignoradas pelos meios de comunicação
Para chamar a atenção da comunidade internacional para casos de extrema gravidade (guerras, conflitos ou desastres naturais, deslocamentos forçados de pessoas para campos de refugiados, fome, proliferação de doenças) que estão relegados ao esquecimento em diversas partes do mundo, a ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou uma lista com as dez crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia em 2005.
No norte de Uganda, onde a população local enfrenta um violento conflito há quase duas décadas, mais de 1,6 milhão de pessoas, quase 80% da região, estão em campos de refugiados sem praticamente nenhuma assistência. A pobreza, a alta prevalência de doenças como HIV/Aids e emboscadas violentas contra civis e profissionais de ajuda humanitária, no final de 2005, agravaram ainda mais o quadro.
No Sudão, em janeiro do ano passado, o governo e o Exército Popular de Libertação assinaram um acordo de paz, colocando fim a 20 anos de guerra civil, mas a total falta de infra-estrutura, os combates esporádicos e um provável retorno em massa de refugiados para áreas com pouco ou nenhum acesso a cuidados aprofundam a crise no país. Cerca de 6 milhões de pessoas ainda dependem de doações de alimentos para sobreviver.
Na Costa do Marfim, a guerra iniciada em 2002 causou a morte de milhares de civis e forçou centenas de milhares a fugir. No final de 2004 e início de 2005, a violência se reiniciou, causando mais mortes e deslocamentos. Hoje, a ameaça de violência ainda é constante mesmo com a presença de forças da ONU e francesas. A separação de familiares e a chegada d! e soldados deixaram muitas mulheres e meninas vulneráveis a violência sexual, prostituição e doenças sexualmente transmissíveis.
República Democrática do Congo, Chechênia, Haiti, Somália, Colômbia e Norte da Índia completam a lista. Segundo Simone Rocha, diretora da ONG Médicos Sem Fronteiras no Brasil, a idéia de organizar e divulgar essa lista anual surgiu quando eles perceberam que, apesar do trabalho constante feito por organizações internacionais ao longo dos anos para inserir essas crises humanitárias na pauta da mídia, algumas situações muito sérias e extremas passam anos a fio no esquecimento.
As dez crises mais esquecidas pela mídia foram escolhidas a partir do conhecimento dessas situações pela MSF, que está presente em cerca de 70 países, e de uma análise dos noticiários noturnos das três maiores redes de TVs dos EUA em 2005. De um total de 14.529 minutos, apenas 8 se referem a essas dez situações; 6 minutos dizem respeito à República Democrática do Congo e 2 à Chechênia. As outras oito não foram sequer mencionadas no ano passado. "Quando a mídia se interessa, a população também se interessa e cobra uma reação de seus dirigentes. Isso ocorre principalmente nos países europeus e nos EUA e, em escala bem menor, no Brasil e em outros países da América Latina. A mídia tem o poder de revelar coisas que desconhecemos e de dar voz a populações que normalmente não a teriam", acredita Simone.
Nas crises humanitárias os meios de comunicação podem ter um papel bastante importante, por despertarem a atenção das pessoas para tais problemas. Segundo a diretora da MSF, esse foi o caso de Kosovo, na antiga Iugoslávia, situação que contou com ampla cobertura da mídia internacional, por se tratar de um conflito no coração da Europa e que poderia ter conseqüências graves, já que as duas guerras mundiais se iniciaram nos Bálcãs. "No geral, a mídia internacional se pauta pela mídia e pelos interesses dos EUA, por isso o espaço dedicado ao Iraque e ao Oriente Médio é tão grande, quando, na verdade, a política internacional vai muito além disso", diz Simone. (com informações da Agência Carta Maior)

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