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MUNDO
Crises humanitárias são ignoradas
pelos meios de comunicação
Para chamar a atenção
da comunidade internacional para casos de extrema
gravidade (guerras, conflitos ou desastres naturais,
deslocamentos forçados de pessoas para
campos de refugiados, fome, proliferação
de doenças) que estão relegados
ao esquecimento em diversas partes do mundo, a
ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou
uma lista com as dez crises humanitárias
mais negligenciadas pela mídia em 2005.
No norte de Uganda, onde a população
local enfrenta um violento conflito há
quase duas décadas, mais de 1,6 milhão
de pessoas, quase 80% da região, estão
em campos de refugiados sem praticamente nenhuma
assistência. A pobreza, a alta prevalência
de doenças como HIV/Aids e emboscadas violentas
contra civis e profissionais de ajuda humanitária,
no final de 2005, agravaram ainda mais o quadro.
No Sudão, em janeiro do ano passado, o
governo e o Exército Popular de Libertação
assinaram um acordo de paz, colocando fim a 20
anos de guerra civil, mas a total falta de infra-estrutura,
os combates esporádicos e um provável
retorno em massa de refugiados para áreas
com pouco ou nenhum acesso a cuidados aprofundam
a crise no país. Cerca de 6 milhões
de pessoas ainda dependem de doações
de alimentos para sobreviver.
Na Costa do Marfim, a guerra iniciada em 2002
causou a morte de milhares de civis e forçou
centenas de milhares a fugir. No final de 2004
e início de 2005, a violência se
reiniciou, causando mais mortes e deslocamentos.
Hoje, a ameaça de violência ainda
é constante mesmo com a presença
de forças da ONU e francesas. A separação
de familiares e a chegada d! e soldados deixaram
muitas mulheres e meninas vulneráveis a
violência sexual, prostituição
e doenças sexualmente transmissíveis.
República Democrática do Congo,
Chechênia, Haiti, Somália, Colômbia
e Norte da Índia completam a lista. Segundo
Simone Rocha, diretora da ONG Médicos Sem
Fronteiras no Brasil, a idéia de organizar
e divulgar essa lista anual surgiu quando eles
perceberam que, apesar do trabalho constante feito
por organizações internacionais
ao longo dos anos para inserir essas crises humanitárias
na pauta da mídia, algumas situações
muito sérias e extremas passam anos a fio
no esquecimento.
As dez crises mais esquecidas pela mídia
foram escolhidas a partir do conhecimento dessas
situações pela MSF, que está
presente em cerca de 70 países, e de uma
análise dos noticiários noturnos
das três maiores redes de TVs dos EUA em
2005. De um total de 14.529 minutos, apenas 8
se referem a essas dez situações;
6 minutos dizem respeito à República
Democrática do Congo e 2 à Chechênia.
As outras oito não foram sequer mencionadas
no ano passado. "Quando a mídia se
interessa, a população também
se interessa e cobra uma reação
de seus dirigentes. Isso ocorre principalmente
nos países europeus e nos EUA e, em escala
bem menor, no Brasil e em outros países
da América Latina. A mídia tem o
poder de revelar coisas que desconhecemos e de
dar voz a populações que normalmente
não a teriam", acredita Simone.
Nas crises humanitárias os meios de comunicação
podem ter um papel bastante importante, por despertarem
a atenção das pessoas para tais
problemas. Segundo a diretora da MSF, esse foi
o caso de Kosovo, na antiga Iugoslávia,
situação que contou com ampla cobertura
da mídia internacional, por se tratar de
um conflito no coração da Europa
e que poderia ter conseqüências graves,
já que as duas guerras mundiais se iniciaram
nos Bálcãs. "No geral, a mídia
internacional se pauta pela mídia e pelos
interesses dos EUA, por isso o espaço dedicado
ao Iraque e ao Oriente Médio é tão
grande, quando, na verdade, a política
internacional vai muito além disso",
diz Simone. (com informações da
Agência Carta Maior)
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