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FÓRUM
SOCIAL MUNDIAL
A agenda do FSM e a luta contra o Império
Uma brevíssima
história do Fórum Social Mundial
poderia ser contada tomando como ponto de partida
o ano de 1998, com a derrota do projeto do Acordo
Multilateral sobre Investimentos (AMI), e, logo
em seguida, em 1999, com o êxito das manifestações
de Seattle contra a reunião de cúpula
da Organização Mundial do Comércio
(OMC). O AMI foi uma iniciativa dos países
da Organização para Cooperação
e Desenvolvimento Econômico (OCDE), iniciada
nos anos de 1990 e que teve sua negociação
suspensa devido, entre outros fatores, a constantes
desacordos entre seus membros, principalmente
no que se refere a temas como nacionalização,
exceção cultural, desregulamentação,
propriedade intelectual e segurança. E
Seattle foi um ruidoso desmentido das teses dos
defensores do fim da história. Foram duas
derrotas inesperadas para os defensores da globalização
neoliberal, que pregavam o aprofundamento da desregulamentação
econômica em todo o mundo, com ampla liberdade
de circulação de capitais.
Animado por essas importantes vitórias,
um conjunto de movimentos sociais de vários
países começou a discutir a necessidade
de realizar um encontro internacional para se
contrapor ao Fórum Econômico Mundial
de Davos, que reúne os ideólogos
do atual modelo de globalização.
Nascia, assim, o Fórum Social Mundial,
em Porto Alegre, um movimento internacional por
outra forma de globalização. Um
movimento que não parou de crescer. A capital
gaúcha foi escolhida como sede do FSM em
função das políticas de participação
popular implementadas pelas administrações
petistas na cidade. A primeira reunião
do Fórum Social Mundial foi marcada pela
idéia de estabelecer um contraponto a Davos.
O sucesso foi tamanho que, já no ano seguinte,
o caráter anti-Davos começou a ser
substituído por uma agenda própria,
de caráter propositivo, que iria se internacionalizar
e se aprofundar nos anos seguintes.
A internacionalização do Fórum
Em 2001 e em 2002, os organizadores e participantes
do FSM trataram de, como observou o jornalista
Ignácio Ramonet, criar "uma reunião
paralela simétrica, mas de sinal político
inverso", ao Fórum Econômico
Mundial, que todos os anos reúne, em Davos,
na Suíça, os "donos do mundo",
preocupados em aumentar seus lucros e negócios
sem levar em conta os custos políticos,
sociais, ecológicos e culturais. O lema
"Outro mundo é possível"
ganhou repercussão e múltiplos significados
em todo o mundo, surpreendendo aqueles que identificavam
o novo movimento como uma nuvem passageira que
iria se dissipar rapidamente no ar. Mas, ao invés
de se dissipar, o FSM acabou se espalhando no
ar, o que ficaria evidenciado em suas edições
seguintes, em 2003 (mais uma vez em Porto Alegre),
e, em 2004, em Mumbai, na Índia. A internacionalização
do Fórum foi aumentando a cada ano, incorporando
crescentemente novos temas e agentes sociais.
Em 2003, a crise política internacional
gerada pelos atentados de 11 de setembro de 2002
em Nova York e a iminente invasão do Iraque
pelos Estados Unidos impuseram uma agenda prioritária
ao FSM: a luta contra a guerra e pela paz. A incorporação
desse tema não se deu apenas por um caráter
conjuntural. Ficava cada vez mais evidente a relação
entre o atual estágio do sistema capitalista
internacional e a lógica da guerra e do
unilateralismo como mecanismo de resolução
de conflitos. A militarização da
agenda política das nações
mostrava-se como a outra face da globalização
neoliberal. Deste modo, lutar por um "outro
mundo possível" significa, entre outras
coisas, lutar contra a política unilateral
e imperialista comandada pela maior potência
do planeta, os EUA, e por seus aliados. Em 2003,
milhões de pessoas saíram às
ruas em todo o mundo para protestar contra a guerra
e contra a transformação da "guerra
ao terrorismo" em uma guerra pelo controle
do mundo.
Para dar maior densidade e articulação
política a essa luta, o Fórum Social
identificou como uma tarefa estratégica
o aprofundamento de seu caráter internacional.
Foi assim que, em 2004, saiu de Porto Alegre e
foi para Mumbai, na Índia. O FSM ganhou
em diversidade e em internacionalização.
A luta contra a guerra e pela paz esteve mais
uma vez no centro dos debates, mas a novidade
mais importante foi a participação
massiva de movimentos sociais e atores políticos
que não haviam participado dos três
fóruns anteriores em Porto Alegre. Mas
não foi meramente o deslocamento para a
Índia que garantiu o êxito desse
processo de internacionalização.
Antes de Mumbai, dezenas de fóruns regionais
e temáticos foram realizados em diversos
países e continentes, incorporando cada
vez mais novas organizações e temas
ao universo do FSM, que se consolidou como um
movimento de caráter global, com crescente
capacidade de articulação política.
A luta contra o Império
Mas esse crescimento não foi apenas quantitativo.
Na quinta edição do Fórum,
que retornou a Porto Alegre, em 2005, a evolução
política qualitativa do movimento altermundista
ficou evidente. Essa evolução manifestou-se
pelo amadurecimento de propostas concretas para
a construção de um outro modelo
de globalização, uma globalização
solidária dos povos e não exclusivamente
do capital. Um grupo de intelectuais e movimentos
sociais lançou a Carta de Porto Alegre,
apresentando propostas nesta direção.
Ao todo, foram apresentadas 352 propostas das
mais diferentes organizações do
planeta. De um espaço de contraponto ao
Fórum de Davos, o FSM tornou-se definitivamente
um espaço de construção de
propostas, passando da resistência e dos
protestos à elaboração de
alternativas. Totalmente autogestionadas, as atividades
de 2005 deram um vigoroso impulso às mobilizações
contra a política imperial dos EUA, implementada
pelo governo de George W. Bush.
Em 2006, essa luta deve ganhar contornos ainda
mais nítidos, com a articulação
entre movimentos sociais e governos de esquerda
para a criação de uma frente internacional
anti-imperialista. No dia 18 de janeiro, na véspera
da abertura do Fórum de Mali (19 a 23 de
janeiro), em Bamako, será realizada a Jornada
Internacional sobre a Reconstrução
do Internacionalismo dos Povos e da Frente Antiimperialista".
A mesma pauta será discutida, de 24 a 29
de janeiro, no Fórum de Caracas. De 2001
a 2006, evoluiu a consciência de que a luta
pela construção de um "outro
mundo" passa, necessariamente, pela luta
contra as políticas imperiais dos EUA e
de seus aliados, que vêm aumentando dramaticamente
a instabilidade política, social e ambiental
no planeta. A luta anti-Davos gerou uma agenda
própria, mas a implementação
dessa agenda em caráter global assume cada
vez mais o caráter de uma luta contra o
Império, que tem nome, sobrenome e sede
própria.
A participação e o recado da juventude
A evolução quantitativa e qualitativa
da agenda política do Fórum Social
anda de mãos dadas com um fenômeno
que desmente, de diferentes modos, os ideólogos
do fim da história e da política:
a impressionante participação da
juventude. Os acampamentos internacionais realizados
nas edições dos FSM revelaram uma
inegável vontade de participação
política. Revelaram, por outro lado, o
desgaste das formas tradicionais de fazer política.
O recado aos partidos políticos de esquerda
é muito claro: ou mudam - e mudam profundamente
-, ou se tornarão estruturas obsoletas
do ponto de vista daqueles que vêem o FSM
como um espaço para a construção
de políticas alternativas à ordem
global dominante. E a juventude que participa
desse movimento já deixou bem claro também
que não vai ficar esperando sentada por
essas mudanças. Nos acampamentos e nos
diversos espaços do Fórum, trabalham
pela construção de alternativas
aqui e agora.
O movimento do software livre, a adoção
de práticas de construção
e gestão ambientalmente sustentáveis,
a valorização da autogestão
como prática organizativa são algumas
das novidades, cujos atores têm uma faixa
etária de vinte e poucos anos. A necessidade
de expressão política e cultural
manifesta-se de um modo cada vez mais diversificado.
Entender o significado mais profundo dessa tendência
é outro elemento que desafia as formas
tradicionais de representação e
ação política. A política
não morreu e a história não
acabou. Mas é preciso despertar do sono
dogmático que parece dominar muitos agentes
políticos que, no discurso, defendem o
ideário do FSM, mas, na prática,
comportam-se como zumbis a repetir grunhidos que
não são mais ouvidos pela imensa
massa de jovens que participa, em número
crescente, dos encontros altermundistas que se
multiplicam pelo planeta. A história do
FSM deixa isso bem claro para quem quiser ver
e ouvir. (Agência Carta Maior)
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