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AMÉRICA
LATINA
Uruguai costura
acordo com EUA e expõe dilemas do Mercosul
A intenção do governo uruguaio de
firmar ainda este ano um acordo bilateral de livre
comércio com os Estados Unidos pode gerar
uma crise diplomática dentro do Mercosul.
Em uma entrevista concedida ao semanário
uruguaio Búsqueda, o ministro da Economia
do Uruguai, Danilo Astori, confirmou que o país
pretende assinar em 2006 acordos de livre comércio
com os EUA e também com a China, contrariando
o que prevê a decisão 32, adotada
pelo Mercosul em 2000. Essa decisão estabelece
que os países membros do bloco estão
obrigados a negociar em conjunto com os demais,
qualquer acordo bilateral. Astori não parece
muito preocupado com isso. "Um tratado de
livre comércio com os EUA não somente
potencializa possibilidades de investimento como
pode gerar incrementos notáveis no nível
de atividade", defendeu o ministro na entrevista.
Astori também disse que seu modelo econômico
favorito na América Latina é aquele
adotado pelo Chile e descartou seguir o caminho
adotado pela Argentina.
Conforme noticiou o jornal argentino Clarín,
as declarações de Astori despertaram
reação imediata em Buenos Aires.
O subsecretário de Integração
Econômica Americana e Mercosul, da Chancelaria
argentina, Eduardo Sigal, disse que esperava uma
"rápida retificação
(de Astori) para evitar confusão e dano
ao Mercosul e ao processo de integração".
Sigal afirmou ainda que Astori "não
parece bem informado ou não leva em conta
o compromisso estabelecido pela decisão
32", adotada pelo Mercosul em 2000, que fala
do caráter coletivo que deve cercar negociações
bilaterais envolvendo seus membros plenos. A regra
prevê exceções, mas estas
também devem passar por um debate entre
os membros do bloco. O funcionário ressaltou,
porém, que a Argentina não procurará
alimentar uma crise em torno desse tema. Os dois
países já têm uma frente de
conflito hoje envolvendo as fábricas de
celulose que o Uruguai está construindo
ao longo do rio Uruguai, projeto duramente criticado
por ambientalistas.
Grandes
x Pequenos?
E essa frente de conflito pode ser ampliada, a
julgar pelas declarações de Astori
que criticou o comportamento de Brasil e Argentina
no Mercosul. Segundo o ministro uruguaio, um tratado
de livre comércio com os EUA "vai
incrementar as possibilidades de negociação
com a região, onde Argentina e Brasil vêm
tomando decisões bilaterais que prejudicam
as possibilidades dos países pequenos".
As declarações de Astori foram feitas
uma semana após o Congresso uruguaio ter
aprovado o Tratado de Proteção de
Investimentos com os EUA, decisão que provocou
uma crise na aliança política que
apóia o presidente Tabaré Vázquez,
acompanhada de protestos de grupos de esquerda.
A central sindical PIT-CNT criticou frontalmente
as afirmações de Astori sobre a
prioridade em firmar acordos bilaterais de livre
comércio com EUA e China e sobre a associação
de empresas públicas com capitais privados.
Respondendo aos críticos, Astori disse
que é preciso argumentar e convencê-los
de que este é o caminho para alcançar
o objetivo mais importante da esquerda no governo,
a geração de empregos. Segundo o
ministro, a esquerda está fazendo uma aprendizagem
de governo com "um perfil pragmático"
e "está aprendendo que a única
coisa que um tratado de investimentos com os EUA
pode trazer é mais investimentos no país".
Além disso, defendeu a necessidade de estabelecer
um tratado de livre comércio com a China
e estreitar as relações com o gigante
asiático. Hoje, o Chile é o único
país da América Latina que mantém
um acordo deste tipo com a China. Em relação
ao Mercosul, Astori avaliou que a assinatura de
acordos bilaterais com outros países deve
incrementar as possibilidades de negociação
na região, fazendo um contraponto para
equilibrar as negociações com os
dois maiores países da região, Brasil
e Argentina.
Acordos
bilaterais avançam
A decisão do governo uruguaio expõe
o complexo tabuleiro econômico e geopolítico
que compõem hoje o debate sobre o aprofundamento
do Mercosul. O Uruguai não é o único
país do bloco que encaminha negociações
comerciais bilaterais com outros países.
No dia 20 de janeiro, a Argentina deve assinar
com o México a ampliação
do Acordo de Complementação Econômica
(ACE), que permitirá aos dois países
comercializar livremente 2050 novos produtos.
Com isso, cerca de 70% do intercâmbio comercial
entre Argentina e México terão esse
estatuto. Agora, no início de 2006, o Brasil
discute a assinatura de acordos bilaterais com
a Austrália. O Peru, membro associado do
Mercosul, assinou um tratado bilateral de livre
comércio com os EUA. Acordos deste tipo
não são proibidos, no âmbito
do bloco, com a ressalva expressa na decisão
32, que determina discussões coletivas
sobre suas implicações e eventuais
adequações.
Diante do fracasso das negociações
para a criação da Área de
Livre Comércio das Américas (ALCA)
e do impasse na Rodada Doha, da Organização
Mundial do Comércio (OMC), o governo dos
EUA já deixou claro que vai priorizar a
assinatura de acordos bilaterais. Segundo o presidente
do Comitê de Finanças do Senado norte-americano,
o republicano Chuck Grassley, os EUA vão
"cuidar de sua própria vida"
e negociar acordos bilaterais caso a Rodada Doha
não for concluída até o fim
de 2006. Há dois anos, na reunião
da OMC em Cancun, Grassley acusou os membros do
recém-criado Grupo dos 20, liderado pelo
Brasil, de travar as negociações
comerciais. E fez uma clara ameaça: quem
se comportasse mal não teria nenhuma chance
de firmar acordos comerciais com a maior economia
do planeta. Vários países latino-americanos
entenderam o recado e saltaram fora, explícita
ou implicitamente, da agenda do G-20 (Costa Rica
e Peru, por exemplo).
EUA
exploram divergências
O secretário de Comércio dos EUA,
Carlos Gutiérrez, considerou o acordo firmado
com o Perú como "uma prova dos resultados
da estratégia comercial adotada pela Casa
Branca, apesar da oposição dos países
do Mercosul". Ele destacou ainda acordos
semelhantes firmados com Chile, México,
América Central e República Dominicana,
e outros que estão prestes a ser assinados
com o Panamá, a Colômbia e o Equador.
Segundo Gutiérrez, "enquanto o resto
da América Latina decide se apóia
ou não a ALCA, principalmente cinco países
(Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela),
os Estados Unidos chegam a acordos com parceiros
que querem fazer negócios conosco".
Na Cúpula das Américas, realizada
no final de 2005, em Mar del Plata, os cinco países
referidos pelo secretário se opuseram ao
estabelecimento de uma data para retomar as conversações
sobre a ALCA, proposta defendida pelos EUA.
Além de mostrar que a posição
dos cinco países não é monolítica,
a decisão do Uruguai em firmar um acordo
bilateral com os EUA sinaliza que as relações
de Montevidéu com Brasília e Buenos
Aires precisam ser melhor azeitadas, para dizer
o mínimo. O presidente Tabaré Vázquez
não participará da reunião
entre Lula, Kirchner e Chávez, marcada
para os dias 18 e 19 de janeiro, em Brasília.
No dia 18, Lula e Kirchner devem discutir questões
comerciais, entre elas a proposta argentina de
salvaguardas no Mercosul e a assinatura de um
novo acordo automotivo entre os dois países.
No dia seguinte, com a presença de Chávez,
será a vez da agenda da integração
energética regional. Os três presidentes
tentarão avançar nas discussões
sobre a construção de um gasoduto
ligando a Venezuela e a Argentina, passando pelo
Brasil. A realização de estudos
de viabilidade técnica para a realização
da obra foi decidida em 9 de dezembro durante
a última reunião de cúpula
do Mercosul, em Montevidéu.
Amorim
rejeita "eixo do bem"
Também deve integrar a pauta destes encontros
o ingresso da Bolívia como membro-pleno
do Mercosul, proposta que conta com o apoio de
Evo Morales, novo presidente do país. Durante
recente visita a Caracas, Evo e Chávez
defenderam a criação de um "eixo
do bem" na região, para enfrentar
o poderio político, militar e econômico
dos EUA. Na quinta-feira à noite, o chanceler
brasileiro, Celso Amorim, rejeitou a idéia,
classificando-a como "ultrapassada".
"Não creio no eixo do bem e do mal.
São visões simplistas da realidade.
A idéia da confrontação é
velha, antiga, dos anos 70, e não pode
existir num mundo globalizado", disse Amorim,
após participar de uma reunião com
60 embaixadores brasileiros que ocupam postos
no exterior. Acordos bilaterais, desequilíbrios
regionais, diferentes interesses comerciais: esses
são, assim, alguns dos principais desafios
que estão colocados a frente do Mercosul
neste início de 2006. (Fonte: Carta Maior)
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