Nº 827
10 de janeiro de 2006 - 17h


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AMÉRICA LATINA
Pinochet assombra o segundo turno das eleições chilenas
O Chile escolherá em 15 de janeiro, no segundo turno, seu próximo presidente, entre Michelle Bachelet, da Concertação (união de partidos da qual os principais são o Socialista e a Democracia Cristã), e o bilionário Sebastián Piñera, candidato da direita. O fato novo dessa eleição parece ser o fim da "transição (à democracia) que não acaba", como dizem os chilenos, ainda marcados pela ditadura sanguinária do general Augusto Pinochet. Como não poderia ser diferente, Pinochet não sai das manchetes. Passou o Natal e o ano novo em prisão domiciliar, sem imunidades e identificado criminalmente. Ele responde a processos por desaparecimento de opositores e corrupção, fonte da sua fortuna de US$ 26 milhões. E pela primeira vez pós-Pinochet, os temas da esquerda allendista, agrupada na frente Juntos Podemos Mais (Partido Comunista, Partido Humanista, Esquerda Cristã, entre outros partidos e movimentos sociais), ganham destaque na decisão eleitoral.
No primeiro turno Bachelet teve 45,9% e Piñera, 25,4% dos votos. Joaquín Lavín, candidato de passado mais identificado a Pinochet, obteve 23,2%. E Tomás Hirsch, da Juntos Podemos Mais, 5,4%. Os votos atribuídos a Podemos são essenciais à eleição de Bachelet, visto que, somados, os candidatos da direita a ultrapassaram no primeiro turno. Lavín dirige agora a campanha de Piñera. Hirsch, do Partido Humanista, considerado por analistas o candidato de melhor desempenho na campanha, votará nulo. Mas o Partido Comunista, a Esquerda Cristã e os movimentos sociais se esforçam por impedir uma vitória de Piñera, dono da companhia aérea Lan Chile e de fortuna de US$ 1,2 bilhão, alcançada com as privatizações. O voto nulo de Hirsch reflete a falta de credibilidade da Concertação diante da esquerda chilena. Bachelet é do Partido Socialista, o mesmo do atual presidente Ricardo Lagos. Allende era do Partido Socialista, mas entre o Partido Socialista, de Allende, e o de Lagos, há pouca coisa em comum além do nome. O Partido Socialista, à época de Allende, era um partido revolucionário. Hoje, o PS disputa com a direita mais tradicional a aplicação da receita neoliberal.
Lagos se empenhou em ser o preferido dos americanos na região: assinou com os EUA um tratado bilateral de livre comércio, danoso à indústria e à balança comercial chilenas, e deu as costas ao Mercosul. No seu governo, o Chile está entre os dez países com pior distribuição de renda no mundo. O desemprego é endêmico e a previdência social inexiste. Os chilenos receberam grande calote: a previdência privada, instituída por Pinochet, reduziu drasticamente as aposentadorias a pouco mais que um salário mínimo. Há graves restrições ao sindicalismo e às negociações coletivas de trabalho.

Sistema binomial
Imposta pela ditadura, segue vigente no Chile a Constituição de 1980, base do sistema eleitoral binomial nas eleições parlamentares. Por essa complicada fórmula, os dois candidatos mais votados em cada distrito são eleitos, desde que o mais votado não tenha pelo menos o dobro dos votos do outro, caso em que a coligação majoritária asseguraria as duas vagas. É o sistema eleitoral dos sonhos da direita chilena. Minoritária em relação à Concertação, garante assim metade das cadeiras na Câmara. E até conseguia superioridade numérica no Senado, pois mais de um quinto dos senadores era biônica, com Pinochet de senador vitalício. Os senadores biônicos e vitalícios acabaram e já não integram a próxima legislatura.
Some-se a divisão casuísta dos distritos. Distritos de 3 milhões de habitantes elegem o mesmo número de senadores que outros de 90 mil. Na eleição de 1997, por exemplo, Gladys Marín, a ex-presidenta do PC, com a alta votação de 175 mil votos, não se elegeu, enquanto candidatos de direita iam para o Senado com 14 mil votos. O sistema binomial acabou com as eleições proporcionais, tradição da política chilena. Mas houve quem, na Concertação, visse virtudes no sistema e teorizasse a "estabilidade democrática assim alcançada". "A Concertação renunciou a avanços, se acomodou muito bem no poder e cooptou também alguns dos seus no mundo dos negócios", avalia o professor de Filosofia Marcos García de la Huerta, autor do premiado livro "Pensar a Política", em entrevista à influente revista Punto Final. PC anunciou que será oposição a um eventual governo Bachelet, mas resolveu votar na candidata, em repúdio à direita, cumpridos cinco pontos mínimos, aos quais ela acenou positivamente. O primeiro, o fim do sistema binomial. Lagos, antes mesmo do fim das apurações do primeiro turno, anunciou envio de mensagem ao Parlamento com tal objetivo, se dispondo a fazer o que não fizera em seis anos. A votação da matéria ocorre na primeira semana de janeiro, com oposição da direita histórica. As outras reivindicações se relacionam à efetiva liberdade sindical e de greve, reajuste das aposentadorias, direitos dos povos indígenas e defesa do meio ambiente, além de um assunto essencial na política chilena: não permitir a impunidade dos torturadores e assassinos de presos políticos. A questão dos direitos humanos marca uma das poucas e importantes diferenças entre a Concertação e a direita. Bachelet é filha do general da Força Aérea Alberto Bachelet, encarregado por Allende de combater o mercado negro que desestabilizava seu governo. O militar, profissional dedicado e apartidário, levou a tarefa a sério. Pinochet não o perdoou: o general foi brutalmente torturado e assassinado em março de 1974. Já Piñera, associado a Lavín, põe obstáculos ao estabelecimento da Justiça, único modo do Chile superar seu trágico passado recente. (Fonte: Carta Maior)


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