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Entrevistas
PT
virou "partido-empresa", diz sociólogo
Rudá Ricci - 12/8/2005
>>
'Eles fecham hoje, a gente abre amanhã',
diz Joaquim Carvalho - por Claudia Santiago
- 20/05/2005
>>
O CNJ e o poder disciplinador- Entrevista
com Presidente do STF - 20/05/2005
>>
Cientista político norte-americano
pesquisa leis trabalhistas brasileiros -
18/01/2005
>>
Não se faz política sem ideologia
- disse Celso Furtado na última entrevista
>>
A reforma do Judiciário é
ponto de partida, não de chegada
- 22/11/04
>>
LEGISLAÇÃO - REFORMA TRABALHISTA
PODE NÃO SAIR ATÉ 2006, diz
Ricardo Berzoini - 4/11/04
>>
Bush pratica marxismo-darwinismo, diz mexicano
- 15/09/04
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'Eles
fecham hoje, a gente abre amanhã',
diz Joaquim Carvalho
Por Claudia Santiago
Organizado pela Federação
das Rádios Comunitárias do
Rio de Janeiro, com o apoio do Ibase e da
CUT, foi realizado nos dias 12 e 13 de maio,
na sede da CUT-RJ, um seminário estadual
sobre Rádios Comunitárias.
Na opinião da secretária executiva
da Federação e responsável
pela rádio comunitária Novo
Ar, de São Gonçalo, Maria
das Graças Rocha, o evento foi importante,
principalmente, porque selou a parceria
entre as entidades o promoveram e apoiaram.
Além das já citadas, participaram
a Associação Brasileira de
Radiodifusão Comunitária (Abraço)
e a ONG Criar-Brasil. A secretária-executiva
da Associação Mundial de Rádios
Comunitárias (Amarc) no Brasil, que
está debatendo e desenvolvendo ações
para reverter o quadro de repressão
às rádios, também participou
do Seminário.
Após o seminário,
Joaquim Carvalho, coordenador jurídico
da Abraço, conversou com o Boletim
do NPC.
BoletimNPC.
O fato de este seminário ter sido
realizado dentro da CUT tem algo de especial?
Joaquim Carvalho. O Movimento de
Rádios Comunitárias nasceu
dentro dos sindicatos e dos partidos de
esquerda. Depois houve um afastamento e
os sindicatos não souberam se aproveitar
do rádio como ferramenta nas suas
lutas. Os sindicatos distorceram o princípio
de gestão de uma rádio e tentaram
fazer com que a programação
fosse determinada pelos sindicatos.
BoletimNPC.
Eu não concordo com isso. Os sindicatos
não usam o rádio porque ainda
não despertaram para a sua importância.
Joaquim. A Abraço tem feito
a cobertura de diversos eventos do movimento
social. No momento estamos transmitindo
a Marcha dos Sem-Terra.
Boletim
NPC. Por que você diz rádio
comunitária não é comunicação
alternativa?
Joaquim. Não nos consideramos
imprensa alternativa. Somos mídia
comunitária e popular.
BoletimNPC.
Como assim?
Joaquim. Em São Pedro do Gutiá,
no Rio Grande do Sul, temos um bom exemplo.
Naquele município 92% da população
escuta a rádio comunitária.
A rádio comercial do município
de Chiapete, em Santa Catarina, fechou por
falta de audiência.
BoletimNPC.
Quantas rádios comunitárias
estão funcionando regularmente hoje?
Joaquim. Umas 12 mil.
BoletimNPC.
O que você propõe ao movimento
sindical? Poderíamos cunhar o slogan
Ocupemos as rádios comunitárias?
Joaquim. Sim. Os princípios
da rádio comunitária são
democráticos. O movimento sindical
poderá fazer bom uso delas.
BoletimNPC.
E quanto ao fechamento das rádios.
Qual pescoço vocês querem apertar:
o do Lula, da Anatel ou da Polícia
Federal?
Joaquim. A culpa é do governo.
Se existe repressão é porque
o governo não tomou medidas para
estabelecer seu fim.
BoletinNPC.
Que medidas podem ser tomadas?
Joaquim. Já propusemos. O
Ministério Público deve garantir
a outorga precária a todas as rádios
que estão no ar e montar um grupo
de trabalho para estudar a outorga definitiva.
BoletimNPC.
Qual a resposta do governo?
Joaquim. A realização
de uma Conferência Nacional sobre
Rádios Comunitárias em setembro
ou outubro.
BoletimNPC.
Quantas rádios vão sobrar
até setembro?
Joaquim. Todas. Eles fecham hoje,
a gente abre amanhã. Isto quando
não abrimos no mesmo dia.
BoletimNPC.
Por que as rádios comunitárias
estão sendo reprimidas?
Joaquim. Porque o governo não
manda nas estruturas inferiores da Anatel
e da Polícia Federal.
BoletimNPC.
A serviço de quem estão estas
estruturas inferiores?
Joaquim. Da mídia comercial
que patrocina a repressão. 80 rádios
que têm a participação
de lideranças do movimento de rádio
comunitária foram fechadas, nos últimos
60 dias, em sinal de represália ao
governo que tentou intervir para que a rádio
de Heliópolis, em São Paulo,
não fosse fechada.
BoletimNPC.
E por que o governo interveio no caso desta
rádio?
Joaquim. Porque foi pressionado pelo
movimento. É uma rádio que
funciona numa grande favela e que já
ganhou prêmios, inclusive internacionais.
BoletimNPC.
O movimento de favela usa mais as rádios
comunitárias do que o movimento sindical,
não é?
Joaquim. Sim. Muito Mais.
O CNJ
e o poder disciplinador- Entrevista com
Presidente do STF
Nelson Jobim, presidente
do Supremo Tribunal Federal
A principal função
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ),
órgão criado para tentar "salvar"
o Judiciário, não será
punir juízes corruptos, mas estabelecer
uma política nacional estratégica
para o Poder Judiciário, afirma o
ministro Nelson Jobim, 59 anos, presidente
do Supremo Tribunal Federal (STF) e primeiro
presidente do CNJ. Ele garantiu que nesta
semana serão indicados os nomes que
faltam para compor o CNJ, que ele pretende
instalar no dia 3 de junho.
A punição
de juízes corruptos é a principal
função do CNJ?
Nelson Jobim - Não.
O fundamental do conselho é o poder
disciplinar, é haver um órgão
que possa pensar nacionalmente a política
estratégica do Poder Judiciário.
Esse é o grande objetivo do conselho.
O senhor está
coletando informações sobre
o Judiciário que vão orientar
a política a ser elaborada pelo CNJ.
Como está o trabalho?
- Quase pronto. Dia
12 e 13 faremos um seminário para
o fechamento desses números todos.
Nós conseguimos um bom resultado.
Conseguimos a informação relativa
a 82% do Judiciário. É um
bom número.
Os integrantes do CNJ
terão salário?
- Isto ainda não
foi discutido por nós. O conselho
terá de ser regulado na Lei Orgânica
da Magistratura. Na primeira reunião
do conselho teremos de baixar algumas normas.
Então vamos discutir o assunto.
Os conselheiros terão
assessores?
- Tem que haver um pequeno
grupo de assessores. A informação
que eu tenho é que para o Conselho
Nacional do Ministério Público
já foi enviado um projeto prevendo
60 assessores. Para nós, não
será preciso esse número.
No início, o CNJ funcionará
com a assessoria do Supremo.
O Orçamento tem
recursos reservados para o CNJ?
- No ano passado nós
fizemos uma rubrica com R$ 4 milhões.
O CNJ vai funcionar aqui no STF. Fizemos
um remanejamento de gabinetes.
Quando será instalado
o CNJ?
- Eu quero fazer a instalação
no dia 3 de junho, sexta-feira.
O senhor já recebeu
alguma acusação contra juízes
para ser analisada pelo CNJ?
- Não tem nada
ainda.
O mandato no CNJ é
de dois anos. O senhor pretende ficar todo
esse período?
- O presidente do CNJ
será sempre o presidente do Supremo.
No meu caso, eu assumo a presidência
agora e largo em junho, quando acaba o mandato
na presidência do STF, e passo para
a ministra Ellen Gracie, que assumirá
a presidência do STF em junho de 2006.Por
que o ministro Pádua Ribeiro foi
indicado para ocupar a corregedoria?
- Ele tem uma longa
experiência, já foi presidente
do STJ. Eu trabalhei com ele na Assembléia
Nacional Constituinte. Eu fui, digamos,
o condutor da articulação
política para o desenho do STJ na
Constituinte. O Pádua era o presidente
da comissão que o Tribunal Federal
de Recursos tinha criado para cuidar desse
assunto. Então tive muito contato
com ele naquela época.
E agora, o senhor tem
conversado com ele?
- Vamos ter uma conversa
na semana que vem (esta semana), junto com
o presidente do TST. Vamos já traçar
algumas coisas, discutir o futuro regimento
interno, funcionamento. Temos coisas que
ainda não foram resolvidas. Por exemplo,
tanto Pádua quanto eu estamos dispensados
da distribuição. Mas continuaremos
a trabalhar nos nossos tribunais. Temos
de discutir a situação dos
outros. São problemas diferentes.
A OAB, por exemplo, determinou o impedimento
dos membros. Então temos de discutir
a questão da remuneração.
Na sua opinião,
eles devem ser remunerados?
- Vamos discutir a necessidade
de estabelecer um critério dizendo
que o conselho complementaria o diferencial,
no caso dos juízes. É evidente
que o presidente do STF não vai receber
nada, porque estamos no teto, ao passo que
os outros poderão receber um complemento.
Haverá distribuição
de atribuições no CNJ?
- O primeiro semestre
de trabalho será de implantação.
Nesse prazo teremos de aprovar normas. Temos
de analisar alguns pontos para verificarmos
se são adequados ou não. Como
seremos 15 integrantes, podemos nos distribuir
em grupos, uma turma para isso, outra para
aquilo. (Jornal do Commercio-RJ, País,
2/05/2005)
A
indústria do anticomunismo
Emir Sader*
As reportagens deste
final de semana sobre as relações
entre as Farc e o PT e a validação
de diplomas de Medicina emitidos em Cuba
não passam de estratégia da
grande mídia se desviar das pautas
essenciais e "vender" ao público
o fantasma do comunismo. Um escritor judeu
residente em Nova York chamou de membros
da "indústria do holocausto"
os que vivem às custas do massacre
sofrido pelos judeus - assim como pelos
comunistas e pelos ciganos, tão esquecidos.
São burocratas, "intelectuais",
"religiosos" que vivem da exploração
do tema - literalmente vivem: ganham dinheiro,
prestígio, espaço na imprensa
e nas editoras.
O mesmo se pode dizer do anticomunismo.
O fim da URSS e do campo socialista deixou
um tipo particular de viúva: os que
viviam da "guerra fria". Na Argentina,
no momento da morte de Perón, um
antiperonista radical - do Partido Radical
- escreveu, desconsolado: "Nesse caixão
vai metade da minha ! vida. Eu que cresci
e vivi como antiperonista, o que vai ser
de mim, de onde vou tirar o sentido da minha
vida?" No desespero, sentia-se traído
por Perón, que o abandonava à
sua própria sorte.
Um comunista me dizia
outro dia que se deliciava em ler a sobrevivente
literatura anticomunista, porque dá
a impressão que o mundo está
à beira do comunismo, que os dias
do capitalismo estão contados. Essa
fauna encontra vários exemplares
por aí, viúvas da "guerra
fria", que tratam de viver do anticomunismo:
colunistas de uma (ainda) bem vendida revista
semanal, filho de um marqueteiro; um articulista
de duvidosa existência (há
quem diga que é pseudônimo
de um esquerdista, que criou esse grotesco
personagem para desmoralizar a direita),
um editor cultural promovido por um assassino
- todos personagens jurássicos, deslocados,
que têm que criar o fantasma do comunismo
para aparecerem como valorosos "salvadores
do capitalismo", cobrando polpudos
salários por esse papel que! se auto-atribuem.
A mencionada revista
semanal, saudos a dos tempos da bipolaridade
EUA/URSS, destila periodicamente - entre
capas sobre temas de saúde, de compras,
de variedades, tiradas de revistas estadunidenses
- seus venenos anticomunistas, de que pretende
tirar proveito mostrando serviço
ao grande empresariado e recebendo vantagens
em troca.Pautas como o MST, Cuba, guerrilhas,
PT, Venezuela (lembram-se da grotesca matéria
de capa regozijando-se do golpe contra o
"ditador" Hugo Chávez,
uma das maiores gafes dos últimos
tempo na imprensa brasileira) alternam-se
com matérias fúteis de propaganda
do "american way of life".
Nesta semana, por falta
de pauta - o mundo e o Brasil lhes parecem
suficientemente pobres de interesse - publica-se
com estardalhaço - como se sugeria
nos manuais de propaganda estadunidenses
da "guerra fria" para os órgãos
financiados e promovidos por eles - uma
pífia matéria sobre suposto
financiamento das Farc ao PT.
As Farc são um
prato cheio para os nostálgicos da
"guerra fria". Gu! errilha, América
Latina, Partido Comunista, tentativa de
criminalização acusando-os
de "narcoguerrilhas" - sem nunca
mencionar os reconhecidos vínculos
do presidente colombiano com os paramilitares
e, através destes, com os cartéis
(nunca usaram a expressão "narcopresidente").
A matéria não apresenta nenhuma
prova concreta, refugiando-se em fontes
que teriam desejado não aparecer.
Nada ficará quando a espuma da onda
baixar. Mas a onda está feita, repercutida
em todo o resto da imprensa escrita do fim
de semana, com direito a desmentidos e entrevistas
na televisão.
É esse o papel da imprensa da "guerra
fria". Desvia-se das pautas essenciais
para o povo brasileiro e para o Brasil e
resta o que os monopólios privados
da mídia impõem. Uma senhora
idosa declara, no Estadão, que é
bem atendida pelo médico cubano que
a atende em uma pequena cidade de 3 mil
habitantes no norte de Tocantins - onde
nenhum médico da burguesia vai. Mas
o artigo publicado - sem uma outra vers!
ão, como pede o manual de redação
desse jornal - na Folha de S. Paulo se preocupa
com a validação do diploma
da primeira geração de médicos
pobres no Brasil.
Supostamente preocupados
com a saúde do povo brasileiro, sem
se dar conta de que esses médicos
vão trabalhar em cidades como essa
de Tocantins, na saúde pública,
e que não vão concorrer com
a clientela rica dos Jardins. Se preocupam
com o diploma da Faculdade Latino-americana
de Medicina, em Cuba, país que têm
um dos melhores índices de saúde
do mundo, ao contrário do Brasil,
onde predomina a medicina privada.Mas a
indústria do anticomunismo precisa
levantar os fantasmas da subversão,
para poder vender seus serviços para
uma burguesia covarde, disposta a qualquer
coisa, para não perder nem os dedos,
nem os anéis.
*Emir Sader - Professor
da Universidade de São Paulo (USP)
e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(Uerj), é coordenador do Laboratório
de Políticas Públicas da Uerj
O
jornalismo político exclui o grande
público
As numerosas reações
favoráveis que recebi de colegas
por telefone, por e-mail e pessoalmente
ao artigo "Quem agüenta tanto
noticiário político?",
publicado na edição anterior
deste Observatório (nº 319,
de 8/3/2005, veja remissão abaixo)
- no qual se questiona a desproporção
existente entre a importância conferida
pela mídia a esse tipo de cobertura
e o interesse do público por ela
- reforçou antiga convicção,
baseada em longos anos de experiência,
de que uma grande parcela dos jornalistas
pensa de maneira semelhante.
Curiosamente, o exagero do peso que o noticiário
político merece em todos os veículos
- da TV aos jornais, da internet às
emissoras de rádio - é reconhecido
pelos próprios jornalistas responsáveis
por eles. Dificilmente se encontra um colega
em posto de mando nas editorias políticas
ou em cargo de direção em
publicações, emissoras e portais
na internet que se declare satisfeito com
o tipo de informação po! lítica
que seu veículo está entregando
para o consumidor de informação.
Muitos já tentaram, sem êxito,
mudar esse curso, vários continuam
tentando. Quase todos diagnosticam, com
razão, o problema como sendo "cultural":
algo que vem de longe e que, por várias
razões, continua por inércia.
Mas o jornalismo político estaria
em ótimas condições
se seu problema fosse só esse.
Não nos basta perguntar "quem
lê tanta notícia?", como
na canção Alegria, alegria,
de Caetano Veloso. Precisamos discutir aspectos
adicionais do jornalismo político
praticado no Brasil. Começando por
um básico, essencial: a linguagem
que nele utilizamos. Apesar dos visíveis
e louváveis esforços feitos
por alguns editores, repórteres e
comentaristas para tornar acessíveis
ao cidadão comum os acontecimentos
do mundo político, ainda se recorre
de forma generalizada ao "politiquês"
para relatá-los.
A praga do "politiquês"
O politiquês guarda parentesco próximo
com o igualmente degenerado "economês"
- ! linguagem cifrada, freqüentemente
impenetrável, que passou a assolar
o jornalismo pátrio quando o surto
de crescimento deflagrado no Brasil pelo
regime militar a partir do final dos anos
1960 obrigou a imprensa a investir no antes
incipiente jornalismo econômico.
De início, foram jornalistas que
apelidaram de economês a linguagem
empolada e arrogante com que os economistas
do regime descreviam cenários e fenômenos
macroeconômicos. Os próprios
jornalistas que criticavam essa linguagem,
porém, fizeram-na migrar para suas
matérias. Primeiro, como declarações
entre aspas e muitas vezes desacompanhadas
de maiores explicações. Depois,
como parte integrante do próprio
texto dos jornalistas.
A mesma coisa ocorreu com o politiquês,
embora não seja fácil redigir-lhe
a certidão de nascimento: essa praga
parece ter existido no jornalismo político
brasileiro desde sempre, e continua ativa,
firme e forte. Pode-se qualificar o politiquês
como um dialeto híbrido, uma misturalhada
de termos, conceitos, expressões
e ditados oriundos dos mecanismos da Con!
stituição, da legislação
eleitoral e sobre partidos políticos,
dos regimentos internos das casas legislativas,
da atividade partidária, das campanhas
eleitorais e do folclore pessoal de governantes,
parlamentares e dirigentes de partidos.
Ser didático é que é
nobre
É certo que, além do politiquês
e do economês, existem vários
outros dialetos a perturbar a vida do leitor:
o mais genérico cientifiquês,
o mais específico mediquês,
o militarês (em geral, mas não
apenas, nas matérias sobre guerras),
o futebolês, o automobilês...
Talvez o jornalista esteja freudianamente
atrás de reconhecimento quando utiliza
em larga escala e sem tradução
o jargão da atividade que cobre -
utilizar palavrório idêntico
ao das fontes representaria, assim, uma
forma de também ser "um deles",
de ter a suposta relevância social
"deles".
O fato é que, para não poucos
jornalistas, lançar mão do
jargão acaba sendo uma espécie
de passaporte para uma suposta seriedade,
um atestado de "estar por ! dentro".
O uso do linguajar cifrado, tal qual ocorre
com as dimens ões exageradas do noticiário
político, também terminou
sendo uma questão cultural. Ao longo
de quatro décadas de carreira, em
boa parte chefiando equipes, pude constatar
a dificuldade de incontáveis colegas
em compreender o papel de facilitadores
que temos como jornalistas. Grande parte
já chegava às redações,
mal saídos das faculdades, tendo
como dogma de fé que a simplicidade,
num texto, era um defeito - quando, pelo
contrário, ela talvez seja a suprema
meta a alcançar.
Era (e é) como se a atitude de se
afastar dos jargões, debulhar e decodificar
as informações os diminuísse
como jornalistas, constituísse uma
atividade menos nobre, quase subalterna.
Passei a vida dizendo precisamente o contrário:
a existência da nossa profissão
só tem sentido, só se justifica
se tivermos a capacidade de buscar as informações
e passá-las ao leitor/telespectador/ouvinte/internauta
não apenas de uma maneira atraente,
mas da forma mais didática possível.
Aí reside boa parte da nobreza do
q! ue fazemos.
Escrevemos para as fontes
O jornalismo político está
longe, muito longe disso. Somos muitas vezes
pretensiosos e arrogantes.
Como é possível que não
só colunistas de jornais - com leitorado
menor, mais concentrado nos chamados formadores
de opinião -, mas até mesmo
repórteres tarimbados de televisão,
ao falar para milhões de consumidores
de informação - que incluem
a dona de casa da favela da Rocinha, no
Rio, o produtor rural de Jacarezinho (PR),
o balconista de Taquaritinga (SP), o motoqueiro
de Garanhuns (PE) ou o barnabé de
Brasília -, consigam usar, sem explicar,
termos e expressões como "relator",
"comissão mista", "substitutivo",
"colégio de líderes",
"votação simbólica",
"destaque para votação
em separado" ou "pauta do Congresso
travada por excesso de MPs"?
Na verdade, grande parte dos jornalistas
políticos - como, de resto, do pessoal
que cobre economia e negócios e outros
setores - não parecem produzir suas
matérias pensando, de fato, no !
grande público. Acabam, de forma
automática, escrevendo sobretudo
para suas fontes - e para os colegas.
Pela mão contrária, incidem
exatamente no erro dos políticos
que, ao darem entrevistas, empregam uma
chorumela perfeitamente adequada a seus
colegas, a funcionários da Câmara,
do Senado ou de assembléias legislativas,
mas que soa incompreensível e chatíssima
para seus eleitores. Por quê? Porque
se esquecem de se dirigir a eles, não
falam para eles, mas sim para o jornalista
entrevistador, no idioma comum que os une
e que é sânscrito para o público.
O dever de explicar as instituições
E, no entanto, ser didático não
se trata somente de uma obrigação
técnica - elaborar corretamente a
matéria consoante os cânones
do melhor jornalismo. Ela constitui, ademais,
um dever ético do jornalista. Tem
a ver com os fundamentos da nossa profissão,
com seu papel no mundo, com sua função
social.
No Brasil, esse dever ético - no
jornalismo político - vem acrescido
de um peso especial: ser didático,
no Florão da América, significa
não apenas inf! ormar os fatos, explicá-los
e, conforme a espécie de veículo,
tentar interpretá-los, mas também
procurar ajudar o público a entender
como funcionam as instituições.
Especialmente instituições
confusas, mal estruturadas e em permanente
mutação como as nossas (não
custa lembrar que, com meros 17 anos de
vigência, nossa Constituição
já sofreu meia centena de emendas).
Pouca gente, no Brasil, até entre
as elites, tem idéia de o que são,
como são e como funcionam as instituições.
Com exceção de alguns cursos
superiores, especialmente o de Direito,
esse assunto merece pouca ou nenhuma atenção
dos currículos escolares. Ao jornalismo
não cabe, logicamente, o papel de
substituir a educação nesse
aspecto, mas ele poderia e deveria ajudar,
uma vez que o desconhecimento sobre as instituições
é um permanente fator de diminuição
de cidadania para as pessoas.
O jornalismo político, porém,
não se ressente unicamente dos problemas
expostos nos parágrafos anteriores
- a cobertura de d! imensões desmesuradas,
o uso do jargão impenetrável,
a despreocupação com o didatismo,
a negligência para com o dever de
informar sobre como atuam as engrenagens
do Estado. Há ainda temas como a
relação promíscua entre
certos profissionais e suas fontes, os conflitos
de interesses que se dão com jornalistas
que acumulam funções em veículos
com a atividade de consultoria, a excessiva
proximidade de certos repórteres
com o governo, ou com a oposição,
em detrimento da necessária (tentativa
de) isenção - e outros na
mesma área ética.
Picuinhas x grandes questões
Como, porém, felizmente são
detectáveis numa parcela dos profissionais,
cabe voltar ao aspecto técnico e
comentar pelo menos mais um tópico
mal resolvido no jornalismo político
praticado no Brasil: a ênfase dada
à forma, em prejuízo do conteúdo.
Adoramos cobrir as manobras de bastidores,
mesmo as desimportantes, as desavenças
internas dos partidos, as picuinhas, o diz-que-diz-que
palaciano, o quem-ganhou-quem-perdeu no
episódio tal ou na crise qual, as
intrigas entre adversários! , as
alfinetadas entre aliados.
Deixamos muitas vezes de lado o que os anglo-saxões
chamam de issues - as questões, nem
sempre grandes, mas importantes, que provocaram
toda essa movimentação. Ou
seja, as decisões, programas e leis
que surgem da atividade do Executivo e do
Congresso, suas causas, sua real importância
e o que, enfim, resultará delas para
o cidadão comum.
Esse nosso vício como jornalista
atingiu seu paroxismo, provavelmente, durante
os trabalhos da Assembléia Constituinte
(1987-1988). Para quem não se lembra,
ou não tem idade suficiente para
haver testemunhado ou participado, a mídia
se fartou na época de relatar os
embates entre a aliança conservadora
reunida em torno do chamado "Centrão"
e a esquerda nacionalista, bem como a rivalidade
entre o presidente da Constituinte, Ulysses
Guimarães (PMDB-SP), e o à
época presidente da República,
José Sarney.
Dedicou-se, igualmente, um esforço
enorme para relatar as manobras de Sarney
para que seu mandato e! m curso fosse fixado,
nas Disposições Transitórias
da Carta, em cinco anos, em vez dos quatros
com que se havia comprometido com a nação
o presidente que morreu antes de tomar posse,
Tancredo Neves.
Toda essa atividade política teve
sem dúvida sua importância,
tanto quanto foi útil e revelador
o intenso noticiário sobre o que
fez Sarney para enfim conseguir os 5 anos
- a política fisiológica que
a partir de então se tornou conhecida
como "é dando que se recebe".
Mas nós, jornalistas, não
demos primazia, num momento crucial da história
contemporânea, a um dever maior para
com o leitor: o de decifrar que tipo de
Constituição, enfim, se estava
forjando no Congresso e em que e como ela
poderia mudar a vida do país e dos
cidadãos.
Seria injustiça negar que melhoramos
de lá para cá. Seria injustiça
negar que se observa um esforço,
embora inconstante, por parte dos grandes
veículos para explicitar melhor o
conteúdo do que as decisões
políticas encerram - e um bom exemplo
recente foi a rica cobertura propiciada
pela discussão do projeto que! resultou
na Lei da Biossegurança, abarcando
itens tão fundamentais como os alimentos
transgênicos e a utilização
de células-tronco embrionária
na pesquisa para a cura de doenças
graves.
Tanto nessa questão, porém,
como nas demais comentadas neste artigo
- e em outras mais, que poderiam ser abordadas
-, há muito a caminhar. O vasto noticiário
político que produzimos ainda exclui
o grande público.
Ricardo A. Setti - Observatório
da Imprensa
Cientista
político norte-americano pesquisa
leis trabalhistas brasileiros
por
Gisele Dias, assessora de imprensa da Amatra
12
No dia 12 de janeiro a Amatra 12 (SC) recebeu
a visita do professor Gus B. Cochran, do
Departamento de Ciências Políticas,
Sociologia e Antropologia da Agnes Scott
College, no Estados Unidos. Ele veio acompanhado
da Procuradora Regional do Trabalho Tereza
Cristina Dunkan Rodrigues dos Santos.
O cientista político
veio ao Brasil para desenvolver uma pesquisa
comparativa entre a legislação
trabalhista brasileira e a norte-americana.
O presidente da Amatra12, Ricardo Diniz,
recebeu o pesquisador e o levou para conhecer
as dependências do Tribunal Regional
do Trabalho da 12ª Região.
Leia aqui a entrevista concedia pelo professor
Cochran, em que ele fala das peculiaridades
do sistema judicial trabalhista norte-americano
e tece comentários sobre o sistema
brasileiro.
Fórum Eletrônico - Qual o motivo
de sua visita ao Brasil?
Gus B. Cochran - Eu
estou tentando aprender mais da lei do direito
dos trabalhadores do Brasil. No futuro,
espero poder comparar o direito do trabalho
no Brasil com o direito do trabalho nos
Estados Unidos.
FE - Além de Florianópolis,
o Sr. visitou outras localidades no Brasil?
GBC - Eu vou amanhã
(quarta-feira) para Porto Alegre e na semana
que vem eu vou para Curitiba também.
Faz dois anos que eu fui a Brasília
e no TST.
FE - Qual a impressão que o Sr. tem
do direito trabalhista brasileiro?
GBC - É muito
diferente dos Estados Unidos. Vocês
têm muito mais direitos, muito mais
leis, muito mais regras. Nos Estados Unidos
as relações são mais
definidas pelo mercado, tem muito poucas
regras. Nós temos regras principalmente
contra discriminação, mas
só em poucas bases. É ilegal
discriminar por causa de raça, sexo,
religião, idade, mas outras formas
de discriminação não
são ilegais. Os outros assuntos são
assuntos de contrato, individual ou coletivo,
mas a lei não regula os assunto de
horários, hora de jornada, férias,
estes não são assuntos das
leis.
FE - Qual a impressão que o Sr. está
tendo do Poder Judiciário Trabalhista
no Brasil?
GBC - Acho que é
bem estruturado. Eu gosto da informalidade
do primeiro grau. Acho que é muito
bem formada para conciliar, para decidir
os casos.
FE - E qual a imagem do Poder Judiciário
brasileiro perante a sociedade norte-americana?
GBC - A maioria dos
americanos não sabe muito de nenhum
país de fora e a maioria dos americanos
sabe muito pouco da lei dos Estados Unidos,
que dirá do Brasil. Mas os advogados,
Juízes, que sabem mais, acham que
o sistema do Brasil é bem diferente.
Vocês têm um sistema de código
e nosso sistema é de precedentes,
caso por caso, e por isso, nós temos
um pouco de dificuldade em entender o sistema
de vocês. Mas acho que a imagem que
nós temos de seu sistema não
é má.
FE - Numa comparação entre
o sistema brasileiro e o norte-americano,
qual é o melhor para o trabalhador?
GBC - Este é
o motivo de minha pesquisa. O problema com
o sistema norte-americano é que é
muito difícil para defender o direito
do trabalhador. O reclamante tem que pagar
um advogado particular, tem que fazer uma
reclamação na vara geral,
é muito caro, leva muito tempo, o
risco de perder é muito grande. Então
só os problemas mais graves são
bases para reclamações, muitos
problemas menos graves são perdidos.
Mas se o reclamante ganha, as reparações
são muito grandes. Também,
nos Estados Unidos, nós temos mais
e mais arbitragens, mas é privada.
Esta é uma diferença muito
importante. A arbitragem gera mais soluções
para pequenos problemas. É mais barata,
mais rápida, não tem que ter
um advogado etc, mas as soluções
são pequenas também. Outro
problema é que a arbitragem não
gera precedentes para outros casos. Para
os problemas muito graves a arbitragem não
é boa. Eu tenho a impressão
que com a arbitragem os resultados são
similares ao do Brasil: melhor para muitos
casos, mas não sei se é o
melhor para problemas graves. É isso
que quero descobrir.
Fonte: Site da
Anamatra
Não
se faz política sem ideologia - disse
Celso Furtado na última entrevista
Na
última entrevista, publicada na edição
de Outubro da revista Desafios do Desenvolvimento,
Celso Furtado dizia que o Brasil precisa
desenvolver política próprias
para a globalização, sob pena
de continuar a ser o campeão mundial
da concentração de renda.
Ottoni
Fernandes Jr 20/11/2004
Rio de Janeiro - Nascido em Pombal, no sertão
paraibano, Celso Furtado ganhou reconhecimento
internacional. No ano passado (2003), um
grupo liderado por Carlos Lessa, presidente
do BNDES, propôs seu nome ao Prêmio
Nobel de Economia. Ele não ganhou,
mas mereceu uma homenagem na Conferência
das Nações Unidas para Comércio
e Desenvolvimento (Unctad). A placa que
recebeu está no apartamento em Copacabana
onde concedeu essa entrevista a Desafios
do Desenvolvimento, revista mensal do Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)
e do Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (PNUD). Aos 84 anos,
Celso Furtado segue observando a economia
sob o prisma social. Reconhece a necessidade
do ajuste fiscal para a conquista da confiança
dos investidores, mas não esconde
certa mágoa com essa linha de ação.
Desafios
- O senhor concorda com o rumo que o governo
está dando à política
econômica?
Furtado - Eu penso que Lula está
no caminho certo. Ele assumiu o governo
numa situação difícil.
Faziam terrorismo afirmando que a economia
seria destroçada. As circunstâncias
determinaram a necessidade de um ajuste
fiscal rigoroso, pois era preciso conquistar
apoio dos investidores e firmar uma espécie
de entendimento tácito com a comunidade
financeira internacional. Se o Brasil não
tivesse feito este recuo, deixaria de ser
um interlocutor aceito pela comunidade internacional
e enfrentaria dificuldades.
Desafios
- O Brasil teria outro caminho?
Furtado - A resposta tem de ser ambígua.
Havia sim um outro caminho, mas de alto
risco, pois o Brasil não estava preparado
para uma confrontação internacional.
A Argentina tinha mais recursos e veja a
reação que provocou ao partir
para o confronto com a comunidade financeira
internacional. O caminho escolhido depende
do momento e da circunstância. Se
o presidente tivesse escolhido uma outra
linha econômica, teria de ter optado
por uma equipe totalmente diferente, disposta
a levar adiante uma luta muito incerta.
Poderíamos voltar a uma situação
semelhante à de 1964, com confronto
e ruptura.
Desafios - Por quê?
Furtado - Porque, na realidade, o Brasil
não está preparado para um
confronto deste tipo. O presidente teve
de buscar apoio do centro e dos grandes
empresários.
Desafios
- O senhor esteve duas vezes no governo
e sabe como é difícil conciliar
o conjuntural com a necessidade de mudanças
estruturais.
Furtado - De fato, mas é preciso
lembrar que o Brasil é um país
muito especial, com enorme potencial.
Desafios
- O senhor veio de uma escola que privilegiava
o planejamento. Planejar a longo prazo é
necessário para garantir a sustentabilidade
do crescimento e a inclusão social?
Furtado - Para a inclusão social,
sim. É necessário uma política
no estilo da Cepal, que permitiu um forte
crescimento industrial nos anos 50. Mas
não sei se existe lugar para algo
semelhante no Brasil atual. Seria necessário
que os empresários apoiassem as políticas
públicas que resultassem em novas
formas de governar. Isto é o mais
difícil
Desafios
- Que mudanças são necessárias
para garantir um crescimento sustentável?
Furtado - Para governar um país é
preciso dispor de certos instrumentos. O
mais importante no Brasil, como o passado
demonstrou, é o controle do câmbio,
a disciplina cambial. Fala-se hoje em marchar
no sentido da privatização
do Banco Central e isso seria renunciar
ao controle da política monetária.
Isso deixaria o governo de tal maneira atado
que o desenvolvimento só seria possível
no esquema atual, em que se paga um preço
enorme em termos de concentração
de renda. Se o Brasil renunciar à
política cambial, como está
caminhando para fazer, precisará
contar com a boa vontade externa. E se houver
qualquer conflito financeiro internacional
ficará sem margem de manobra.
Desafios
- O Ministro da Fazenda voltou a colocar
a necessidade de um Banco Central independente.
Qual a sua posição?
Furtado - Sou totalmente contrário.
Na maior parte dos países não
é assim que funciona. Com um Banco
Central independente o Brasil estaria à
mercê dos acontecimentos.
Desafios
- A política industrial que o governo
anunciou em março, com alguns incentivos,
pode garantir o aumento da produção
e a diminuição da concentração
de renda?
Furtado - Não. Essa política
interessa aos empresários, mas é
preciso que eles assumam, junto com outras
forças, um compromisso com a mudança
social.
Desafios
- O Brasil deu um grande salto nas exportações.
O senhor pensa que esse avanço, somado
à recuperação do mercado
interno, pode contribuir para aumentar o
salário real?
Furtado - É evidente que era preciso
voltar a aumentar as exportações.
O que vem ocorrendo é importante,
mas não é suficiente. É
essencial mudar o modelo de desenvolvimento,
pois o Brasil é um país deformado,
com um tipo de mimetismo. A classe média
brasileira reproduz o comportamento de consumo
dos Estados Unidos.
Desafios
- Mas isso não é uma conseqüência
da globalização, não
é um fenômeno geral?
Furtado - Exato, mas é uma globalização
do ponto de vista dos Estados Unidos. Para
os europeus a globalização
é outra coisa. A globalização
não é mecânica, automática,
existem n globalizações. O
Brasil precisa desenvolver políticas
próprias sob pena de continuar dando
esse estranho espetáculo internacional,
de ser o campeão da concentração
de renda.
Desafios
- O senhor viveu na França, acompanhou
a mudança do Partido Socialista,
viu esse agrupamento chegar à presidência.
O senhor acredita que o PT está nesse
caminho?
Furtado - Não conheço bem
o PT, mas acho que ele tem duas faces: uma
orientada por ideais socialistas e outra
que defende os assalariados. Espero que
o PT não repita o que aconteceu com
o Partido Socialista francês, que
renunciou completamente a sua filosofia
e se acomodou. Hoje em dia na França
ninguém acredita mais em socialismo.
Tem um grupo grande de esquerda que está
completamente sem fé. Não
se faz política sem ideologia.
Desafios
- Quando veio o golpe de 1964 o senhor estava
com 40 anos e foi para o exílio.
Como foi essa experiência?
Furtado - Eu fiz uma opção.
Poderia ter ficado no Brasil fazendo alguma
pequena tarefa humilde, porque estava sendo
vigiado. A ditadura chegou até a
alertar universidades norte-americanas para
não me contratarem. Queriam destruir
tudo o que fosse semente de outra visão
do Brasil. Fui para os Estados Unidos dar
aulas na Universidade de Yale como professor
convidado, mas no final de um ano não
renovei o contrato e fui convidado pelos
franceses. Tive a satisfação
de ser nomeado pelo general De Gaulle como
o primeiro professor estrangeiro da Sorbonne
em Paris. Fui recebido muito bem, pois tinha
feito meu doutorado por lá e o meu
orientador ainda estava vivo. Fui recebido
como um copain, como um amigo, um colega.
Desafios
- Vários de seus livros são
dessa época. Mesmo no exterior o
senhor acompanhava o que ocorria no Brasil?
Furtado - Sempre. A primeira vez que eu
voltei ao Brasil, em 1968, vim com garantia
da Câmara dos Deputados para participar
de um debate. Queriam que eu fizesse uma
exposição sobre como sair
do atoleiro daquela época, mas recomendaram
que eu pegasse um vôo direto dos Estados
Unidos para Brasília, pois poderia
ser preso no Rio de Janeiro. Disse aos deputados
que o convite havia sido um ato de coragem,
mas decidi desembarcar no Rio de Janeiro,
que é a minha cidade. Foi um momento
dramático. Eu estava totalmente envolvido
e foi então que escrevi Um projeto
para o Brasil. Depois fiquei com a impressão
de que a ditadura iria durar e seria importante
estudar o Brasil no quadro internacional.
Desafios
- Do ponto de vista econômico, qual
foi o maior erro do governo João
Goulart?
Furtado - O governo Goulart não tinha
política econômica, mas do
ponto de vista do Nordeste fez muito coisa,
através da Superintendência
de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
Desafios
- O senhor entende que a Sudene ainda tem
sentido hoje?
Furtado - O Nordeste é uma região
com um grande atraso acumulado e precisa
de apoio, mesmo que seja através
de subsídios. O Produto Interno Bruto
(PIB) regional em relação
ao do Brasil vinha declinando, no início
da industrialização brasileira.
Logo no início, a Sudene formou muita
gente, agrônomos, geólogos,
para promover o desenvolvimento regional.
Por outro lado, conseguiu atrair empresários,
graças aos incentivos que oferecia.
Atualmente serão necessários
outros meios. Não se pode reproduzir
um modelo do passado.
Desafios
- O projeto de transposição
do rio São Francisco faz sentido?
Furtado - Esse é um projeto muito
importante. A idéia é extraordinária.
É preciso interligar a bacia do São
Francisco com o Amazonas. O Nordeste está
condenado à seca em 15 anos, mesmo
com toda a açudagem. Já há
um certo consenso em torno da idéia.
Mas é essencial calcular o custo
e definir a distribuição do
ônus fiscal.
Desafios
- Como foi a sua experiência como
ministro da Cultura no governo de José
Sarney?
Furtado - Para mim foi agradável,
mas o ministério não era muito
valorizado. O problema é que o mundo
intelectual é muito desunido e é
difícil alcançar um consenso.
Fico muito orgulhoso de ter lançado
as bases de uma política de incentivo
à cultura.
Desafios
- O processo democrático no Brasil
está totalmente consolidado?
Furtado - Nada na História é
consolidado, definitivamente. Ninguém
pode imaginar o que pode acontecer amanhã.
Mas hoje há muito mais percepção
do perigo do processo social. Muita gente
crítica o governo, fala em retrocesso,
mas ninguém quer voltar ao passado.
Desafios
- E quanto à inflação,
o senhor acha que há possibilidade
de uma volta ao passado, ao cenário
de descontrole?
Furtado - Não creio. A todo instante
existe uma ameaça de alta da inflação.
No passado, ela foi um instrumento fundamental
para o desenvolvimento econômico,
para tirar o Brasil da estagnação,
permitindo a industrialização.
Mas atualmente não é possível
usar a inflação da mesma forma.
Enquanto a taxa anual estiver entre 5% e
10% é operacional.
A
reforma do Judiciário é ponto
de partida, não de chegada
O criminalista, quase
50 anos de vitórias nos tribunais
assoberbados, ainda sonha com uma Justiça
sem papel, sem carimbos, sem barbante. "Uma
Justiça assim, informatizada da petição
inicial ao julgamento, ganha em rapidez,
em produtividade, na racionalização,
é um negócio maravilhoso",
diz Marcio Thomaz Bastos, pausadamente,
ao entardecer de sexta-feira na varanda
de seu amplo apartamento no Jardim Europa,
de onde contempla São Paulo cinzenta
e caótica. Thomaz Bastos, ministro
da Justiça, está otimista,
"muito satisfeito mesmo", com
aquilo que considera um avanço na
direção da Justiça
que tanto almeja. "A reforma do Judiciário
é importantíssima", avalia.
Empolga-o, em especial, a criação
do Conselho Nacional de Justiça,
que terá poderes para punir magistrados,
com suspensão, censura e até
recomendação de perda do cargo.
"Essa reforma vinha andando há
13 anos por aí e nunca acabava."
Adverte, no entanto, que as mudanças
ora decretadas pelo Congresso estão
longe de fechar as feridas da Justiça.
"Existem duas falácias no Brasil
que a gente precisa desmanchar", diz
o ministro, de 68 anos, já de volta
à poltrona da sala, servindo-se de
meio copo de água e, depois, de uma
xícara de café amargo. "A
primeira falácia é que a lei
muda a realidade. A segunda, que você
faz as coisas com um passe de mágica."
A noite chega e o ministro vai expondo à
reportagem suas impressões acerca
das mudanças no universo da toga,
as operações espetaculares
da Polícia Federal, que lhe rendem
orgulho e pressões, e a caravana
do desarmamento - périplo por 22
Estados e 51 mil quilômetros para
"pregar a cultura da paz". Também
fala sobre o combate à lavagem de
dinheiro, dos tratados de cooperação
internacional para recuperar o que a corrupção
e as fraudes mandaram para fora do País
- e dos arquivos dos anos de chumbo, que
os generais não querem abrir.
AGÊNCIA ESTADO
- A reforma do Judiciário põe
um fim na lentidão do poder? THOMAZ
BASTOS - É uma coisa extraordinária
para o Brasil, mas é o início
apenas. Não é que a Justiça
vá ficar boa da noite para o dia.
É o ponto de partida para construir
uma nova Justiça no Brasil. É
preciso não deixar só no papel.
Nós temos essa mania. Tenho ouvido
muitas pessoas falando sobre a reforma.
Elas dizem: pronto, resolveu. Outras dizem:
não resolveu. Elas não perceberam
o caráter do processo, não
perceberam que se criou aqui uma ferramenta
fundamental para começar a grande
mudança do Judiciário. Que
ferramenta é essa, ministro?
- O Conselho Nacional
de Justiça, que vai fazer o papel
de corregedor externo do Judiciário,
vai exercer um papel de controle externo.
Mas, muito mais importante que isso, vai
fazer o planejamento do Judiciário,
planejamento orçamentário,
financeiro e estratégico.
Como é isso?
- No Brasil, há
muita Justiça, a criminal, a trabalhista,
a civil, a federal Há também
a primeira instância, a segunda instância,
os tribunais superiores, os tribunais estaduais.
Cada um deles trabalha solto, sem articulação,
sem planejamento. Agora, com o conselho,
vamos fazer o planejamento dessas justiças,
vamos abandonar as rotinas envelhecidas.
Era o programa Nº 1 da nossa agenda.
Quando me convidou para ser ministro, o
presidente Lula já dizia sobre a
necessidade da reforma. A reforma não
acabou, isso é um ponto de partida,
não é um ponto de chegada.
O que vem agora?
- A reforma infraconstitucional,
com a modificação das leis
processuais. Vamos mandar projetos para
o Congresso que reformulam o sistema de
recursos no processo civil.
Está tudo errado
na Justiça?
- Ao contrário.
Temos muitos magistrados competentes, criativos,
que tomam iniciativas surpreendentes. Em
dezembro, vamos outorgar um prêmio
a esses juízes. Isso não tem
nada com modificação de lei,
é simplesmente um esforço
do Ministério da Justiça,
do Governo, estamos identificando boas práticas
do Judiciário. Vamos fazer um compêndio
dessas boas iniciativas e difundir pelo
Brasil inteiro. A gente esperava receber
40 inscrições. Recebemos 450.
Vamos divulgar experiências que deram
certo, que são basicamente de informatização,
de treinamento de pessoal, de administração
e busca por resultados.
O que mais o impressionou?
- No Mato Grosso, reuniram
as varas cíveis de uma região
e puseram todos os dados no computador,
com acesso aberto ao público. Aí,
qualquer cidadão entra no sistema
e confere quantas sentenças o juiz
deu, quantas audiências o juiz presidiu
e quantas sentenças o juiz têm
para dar. Quando o volume de trabalho chega
a um ponto elevado é feito um mutirão
no fim de semana, não como punição
ao juiz, mas para limpar a pauta.
O sr. quer uma Justiça
sem papel?
- A Justiça sem
papel existe em alguns lugares, mas precisa
se espalhar, virar a regra. Aqui em São
Paulo, há o fórum social federal,
que julga as causas previdenciárias,
as causas que atingem a população
mais vulnerável. É uma Justiça
efetivamente sem papel, desde a petição
inicial até o julgamento não
tem uma folha de papel. Essa iniciativa
serve de exemplo. Encontramos também
os juizados itinerantes, formas desburocratizadas
de fazer Justiça.
O que é mais
importante no Conselho de Justiça?
- É a cultura
de gestão. O objetivo de todo mundo
que lida com direito é mudar o padrão,
o paradigma, todos querem que a Justiça
dê um salto de tecnologia, de qualidade,
de rapidez. O conselho é fundamental
como organismo de planejamento, pela possibilidade
de você pensar o Judiciário,
de traçar metas para o Judiciário,
fazer planejamento estratégico, que
nunca houve.
O Conselho pode punir?
- Ele não pode
determinar a perda de cargo. Isso estava
no projeto, mas caiu. De todo modo, o conselho
pode punir, pode propor a perda de cargo,
suspender, censurar, aposentar compulsoriamente.
Pode investigar, fazer todo o trabalho de
corregedoria e, ao mesmo tempo, esse trabalho
de planejamento. O Governo Lula tinha a
reforma como prioridade, forçou a
barra, colocou na agenda. Agora, felizmente,
conseguimos aprovar essa parte da reforma
que tem um sentido prático e simbólico
muito grande. Além do conselho, outra
medida boa é a possibilidade de o
juiz delegar funções administrativas
para funcionário. Não vai
ficar tudo concentrado com o juiz, que poderá
se dedicar mais à tarefa de julgar
do que administrar.
Entidades de classe
dos juízes criticam a reforma, especialmente
a súmula vinculante. Apontam enfraquecimento
do Judiciário.
- Eu era contra a súmula
vinculante, assim como as associações
de juízes de primeira instância,
a OAB também. Mas a súmula
passou. A soberania do Congresso prevaleceu.
Acho que agora o que se tem que fazer é
esperar que a maioria qualificada dos ministros
do Supremo Tribunal Federal exerça
isso com ponderação, como
certamente exercerá. É importante
também que se estabeleçam
as normas pelas quais se determine como
se pode revogar uma súmula, quem
são os atores judiciais que poderão
pedir a revogação. Qual é
o procedimento da revogação.
Eu sempre fui contra a súmula, mas
acho que, entre perdas e ganhos, a criação
do conselho é uma coisa muito importante
para o Brasil. A gente vem lutando por isso
desde a Constituinte, desde 1987. Valeu
a pena a reforma.
A Polícia Federal
já prendeu 750, a maioria de colarinho
branco, em quase 50 operações
de grande envergadura. É o fim do
crime organizado no País?
- Isso é uma
coisa planejada. Antes de tomar posse, fiz
uma longa reunião a respeito da necessidade
de usar a PF dentro desse conceito de segurança
pública, como uma política
de Estado, uma política que não
é de governo, uma política
de País. Política de um trabalho
republicano impessoal que não persegue,
nem protege, que não olha onde é
que vai atingir. Conversei muito com o presidente
Lula sobre isso. Eu disse a ele que esse
era o meu projeto, que a gente ia fazer
isso e começamos a fazer. Escolhemos
o melhor nome para a direção
da corporação, o delegado
Paulo Lacerda, uma liderança tranqüila,
sem vedetismos, sem estrelismos. Ele tem
essas qualidades, a impessoalidade, a objetividade,
espírito público. Não
deixa os sentimentos dele influírem
nas suas linhas.
As operações
atingiram a própria PF, com a prisão
de agentes e delegados.
- Essas operações
são sérias, planejadas. Visam
a autodepuração da PF. Isso
tem que ser feito. No mundo inteiro é
assim. Uma instituição, para
ser eficaz, precisa ser autodepurada, precisa
cortar os galhos ruins, que na PF são
poucos, mas não podem permanecer
ali. A PF olha muito para isso, muito para
a corrupção, para o crime
organizado. Essa é a PF que recebemos,
é a mesma PF do passado, só
que está muito motivada, muito com
foco, com rumo.
O sr. tem o controle
da PF?
- Não quero ter
controle. Não há nenhuma intenção
de controle da PF. Algumas vezes as pessoas
me perguntam: você tem controle da
PF? Eu digo: nem quero ter. Quero que ela
siga o rumo que foi determinado, o rumo
republicano, uma política de segurança
de Estado, política de segurança
impessoal. É isso que estamos fazendo.
Estou muito satisfeito, vamos continuar
assim. Existe um trabalho de inteligência
muito grande. Note que em todas essas dezenas
de operações, com esses nomes
até estranhos, não se ouviu
um tiro. Outro dia a PF pegou um pessoal
da pesada num sítio. Prendeu 18 pessoas
que estavam se preparando para assaltar
um banco, pessoal que já tinha feito
seqüestros. Com um grande trabalho
de inteligência, de monitoramento,
a PF pegou as pessoas logo cedo, quando
elas estavam acordando. Não tiveram
que dar um tiro, então estou muito
satisfeito.
A prisão do publicitário
Duda Mendonça, na rinha de galo,
é prova da impessoalidade da PF?
- Não foi para
mostrar impessoalidade. Eu sou muito amigo
do Duda. Lamentei profundamente aquilo,
mas não foi uma coisa que estivesse
visando o Duda. Como ele estava lá,
aconteceu aquilo e foi feito daquele jeito.
Como se estivesse lá um marqueteiro
do Serra ou um amigo de quem quer que fosse,
aconteceria do mesmo jeito. Essa idéia
da impessoalidade é fundamental,
sem isso não funciona. Você
não pode pensar em usar a PF como
uma guarda pretoriana do Governo, um instrumento
para perseguir o adversário, criar
obstáculos para o adversário.
Isso eu não admito.
Como manter uma polícia
na linha, que não promova perseguições?
- Minha condição
de trabalho é essa, é que
a PF não persiga e também
não proteja. Nenhuma das coisas.
Perseguir é tão ruim como
proteger, proteger é tão ruim
como perseguir. É nesse sentido que
eu falo numa polícia de Estado, acho
que isso é fundamental para que todas
as pessoas do bem possam ter tranqüilidade.
E para que aqueles que estejam no caminho
do mal fiquem intranqüilos. Esse aspecto
da intimidação geral é
muito importante também. Na medida
em que as pessoas sabem que esquemas sofisticados
estão sendo desmontados, elas se
acautelam. O efeito intimidativo geral talvez
seja até mais eficaz que uma condenação.
A polícia recolhe provas e manda
para a Justiça. A PF não passa
disso, não foge dessas balizas e
desse limite, faz o inquérito, procura
recolher o máximo de provas, da autoria
e da materialidade.
A corrupção
pesa na conta do risco Brasil. O País
está sempre na lista dos mais corruptos.
As operações da PF podem mudar
esse quadro?
- O trabalho da PF é
fundamental para baixar esse nível.
Curiosamente, no começo do Governo,
quando a PF começou com essas operações,
surgiu nas pesquisas qualitativas que o
ministro Luiz Gushiken faz na Secom a sensação
de que a corrupção estava
aumentando. Mas não é que
a corrupção está aumentando.
Está aumentando é a perseguição
à corrupção, o desvendamento
da corrupção. Hoje, isso está
bem claro nas pesquisas. As pessoas estão
muito satisfeitas e confortadas de saberem
e verem que o Governo está cumprindo
o seu papel de atingir seja quem for, de
fazer uma polícia com inteligência,
com informações e com integração.
Que integração?
- Isso faz parte do
outro esquema nosso, que é o trabalho
conjunto das polícias estaduais com
a PF. A integração não
acontece num milagre. Todos os governadores
assinaram convênios, todos os Estados
formalmente estão integrados num
sistema único de segurança
pública. Em alguns lugares a integração
está muito bem adiantada, como em
São Paulo, no Rio Grande do Sul,
no Nordeste, no Pará. Mas isso é
um processo lento. Primeiro você tem
que aproximar as polícias Civil e
Militar. Depois, formar um gabinete de gestão
integrada da segurança pública.
A campanha do desarmamento
deu certo?
- No começo havia
aquela pergunta clássica das pessoas:
será que os bandidos vão entregar
as armas? A pergunta do sujeito que é
contra, é o velho discurso. A campanha
é para pegar arma de homem de bem.
Arma de bandido tem que ser tomada de outro
jeito, com as reformas da polícia.
Recebendo essas armas dos homens de bem
você diminui o número de homicídios.
É uma coisa já medida em algumas
cidades, como no Paraná. Em Londrina
e em Maringá, houve uma redução
de até 35% desse tipo de crime. Diminui
a briga de trânsito, a briga de marido
e mulher. Como tem o revólver, em
vez de reconciliar, no auge da briga o cara
dá um tiro. Em Fortaleza, uma mulher
ficou paraplégica. Eu fiquei muito
chocado, comovido. Ela contou que estava
fazendo as pazes com o marido, mas havia
um revólver no criado mudo e ele
atirou.
O sr. percorreu 22 Estados.
Valeu a pena?
- Ganhamos o Prêmio
Unesco 2004 na categoria Direitos Humanos
e Cultura da Paz. Estamos exportando o modelo
para a Argentina. É uma coisa que
o Brasil está fazendo de bom. É
fantástico como a sociedade está
se mobilizando para se desarmar. Quem tem
dado apoio muito grande são os secretários
municipais de saúde. Eles lidam com
o Sistema Único de Saúde (SUS).
Temos tido uma demonstração
muito clara do custo da violência.
Com uma bala de revólver você
manda um sujeito para a UTI. Ele fica lá
durante 40, 50, 60 dias, gastando 500 reais
ou mil reais por dia do SUS, fora todas
as tragédias.
Qual é a meta?
- Tínhamos a
meta de recolher 80 mil armas até
23 de dezembro, que é o prazo da
lei. Já recolhemos 165 mil. Então,
subimos nossa meta para 200 mil e até
ouso pensar em 250 mil. Estamos pensando
numa medida provisória para prorrogar
por seis meses esse prazo, para aí
chegar a recolher 400 mil armas. Estamos
montando em cada Estado um comitê
para o desarmamento, para fermentar esse
negócio. É uma bela campanha.
É a cultura de paz no Brasil. As
pessoas não gostam de ir à
delegacia, então a gente está
fazendo postos de arrecadação
em outros lugares, na igreja, na OAB, nas
emissoras de rádio. No ano que vem
tem plebiscito para saber se o povo quer
ou não proibir a comercialização
de armas de fogo.
O cerco ao crime organizado
passa pelo combate à lavagem de dinheiro?
- A lavagem é
a causa final do crime, que é organizado
porque oculta o dinheiro desviado. A lavagem
recicla e legaliza o dinheiro. A hora que
você corta por aí, pela finalidade,
você diminui demais o estímulo
do sujeito de se meter em quadrilha. Montamos
o Departamento de Recuperação
de Ativos e estamos avançando muito
no combate à lavagem, inclusive fazendo
trabalhos em relação às
autoridades públicas. Vou dar um
exemplo: os departamentos de combate ao
narcótico abrem milhares de inquérito
por tráfico, mas não abrem
inquéritos por lavagem. A lavagem
é uma coisa misteriosa. As pessoas
pensam que lavar dinheiro é mandar
para a Suíça. Na verdade,
basta abrir uma conta no nome de um laranja,
isso é lavar dinheiro. As receitas
estaduais e a federal têm um foco
só no crime que estão atrás.
Não abrem apurações
e não denunciam a lavagem. Elas vêem
a sonegação, não vêem
a lavagem de dinheiro que está ali
ao lado. Por isso, estamos fazendo um trabalho
grande de conscientização,
com realização de cursos de
intercolaboração para mostrar
que a lavagem de dinheiro é um crime
que está presente em todas as atividades.
Como impedir que o dinheiro
da corrupção saia do Brasil?
- Até o fim do
Governo pretendo assinar 50 tratados de
cooperação internacional.
Já assinamos 15. Vamos montar uma
rede que vai tornar cada vez mais difícil
lavar dinheiro no Brasil. Ninguém
guarda dinheiro debaixo do colchão.
O crime organizado recicla o dinheiro, com
imóvel, com factoring, do jeito que
quiser, mandando para paraísos fiscais
ou mantendo aqui mesmo. Na hora que você
fechar isso, você impede, sufoca o
crime.
A reforma política
sai?
- É um gênero
de primeira necessidade. Acredito que 2005
seja o ano adequado, um ano sem eleição,
para se fazer um esforço para a reforma
política, uma reforma que formalize,
que normatize as tendências que a
nação brasileira tem mostrado
através das eleições.
Alguns grandes partidos, dificultando um
pouco os pequenos partidos, para estabelecer
uma fluência melhor do sistema democrático.
Frustrado com a derrota
de Marta Suplicy em São Paulo?
- A derrota da Marta
foi uma grande injustiça na medida
em que talvez tenha sido a grande experiência
de uma administração distributiva
de esquerda no Brasil, bem feita, bem consumada,
com começo, meio e fim. Mas a democracia
é exatamente isso, é você
respeitar os resultados e procurar tirar
as lições que as urnas trazem.
O José Serra é um homem que
tem uma história respeitável,
um homem que tem um passado, um padrão,
mas considero a derrota da Marta profundamente
injusta.
Por que é tão
complicado abrir os arquivos dos militares?
- Eu não sei.
Mas os arquivos devem ser abertos no ritmo
do governo, no ritmo do presidente. Não
podem ser abertos levando em conta circunstâncias
assim, acontecimentos, nem levando em conta
pressões. O Governo tem que tomar
essa decisão, não é
uma instituição isolada do
governo que vai tomar. Tenho confiança
de que o governo vai abrir esses arquivos.
Isso vai significar uma reconciliação
da Nação.
O sr. acredita que os
arquivos possam ter algo além de
bisbilhotagens?
- Não conheço
a extensão desses arquivos. Mas acho
que alguma coisa existe ainda, isso tem
que ser recuperado. Há um trabalho
sendo feito a respeito, há uma comissão
especial interministerial cuidando da questão
do Araguaia. Vamos chegar num momento em
que isso se faça. Como disse o presidente,
sem grito, sem atropelo, sem susto, sem
trauma.
É a favor da
abertura dos arquivos?
- Ah, sou. Sem dúvida.
Acho que esse é o caminho da reconciliação
do País consigo mesmo. Por outro
lado, acho que essa tem que ser uma decisão
de Governo, conduzida pelo presidente Lula.
(Fonte: Jornal do Commercio-RJ)
LEGISLAÇÃO
- REFORMA TRABALHISTA PODE NÃO SAIR
ATÉ 2006
Para
o ministro Ricardo Berzoini, só proposta
de mudança sindical está adiantada
e deve ir ao Congresso em novembro
JULIANNA SOFIA - DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente Luiz Inácio Lula da
Silva poderá chegar ao final de seu
mandato sem realizar uma das principais
reformas prometidas na campanha eleitoral
para o Palácio do Planalto: a trabalhista.
O ministro Ricardo Berzoini (Trabalho) admite
que as mudanças na legislação
podem não ser concluídas até
2006, pois o tema é polêmico
e o tempo, curto.
"Não sei
se dá, sinceramente", declarou
Berzoini em conversa com a Folha na última
quarta-feira. No mesmo dia, três das
seis centrais sindicais que fazem parte
do Fórum Nacional do Trabalho romperam
com o governo.
Força Sindical,
CGT (Central Geral dos Trabalhadores) e
SDS (Social Democracia Sindical) se rebelaram
com uma medida que limita a cobrança
contribuição confederativa
e assistencial dos trabalhadores. O fórum
foi criado em 2003 para discutir as reformas
trabalhista e sindical e conta com a participação
de trabalhadores, patrões e governo.
Folha - As reformas trabalhista e sindical
estão paradas. Por quê?
Ricardo Berzoini - A
reforma sindical teve na fase de redação
várias divergências entre os
atores do Fórum Nacional do Trabalho.
Nós avaliamos que era importante,
mesmo com prejuízo de tempo, dirimir
todas as dúvidas e, onde houvesse
de fato controvérsia, tentar chegar
a um entendimento. Mas agora está
em fase final. Vamos apresentar a proposta
ao Congresso Nacional agora em novembro
com certeza.
Folha - E a reforma trabalhista?
Berzoini - Começou
o debate no fórum. É um debate
muito difícil. Todo mundo sabe as
razões dessa dificuldade. Existe
um desejo empresarial de reduzir regulamentação;
e um temor muito grande por parte dos trabalhadores
de que isso possa produzir redução
de direitos. O governo tem a opinião
de que no Brasil não há necessariamente
excesso de direitos. Há um excesso
de burocracia na forma de aplicar esses
direitos.
Mas eu acredito que
a única forma de fazermos uma reforma
trabalhista que seja capaz de preservar
os direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo,
reduzir a burocracia e incentivar a formalização
é por meio do entendimento entre
empregados e empregadores.
Folha - A reforma sindical, que aparentemente
era mais fácil, levou mais de um
ano para ser debatida. É possível
fechar o projeto da trabalhista em 2005?
Berzoini - Eu acho que
não é impossível. Mas
não vamos trabalhar com a pressa.
O que vai comandar nossas ações
é o objetivo de alcançar um
consenso entre a maior parte do movimento
sindical e do empresariado.
A reforma sindical é
aparentemente mais simples, mas ao mesmo
tempo é complexa porque envolve interesses
de entidades e burocracias que estão
aí há décadas se beneficiando
do imposto sindical. A reforma sindical
já tem um apoio de massa crítica
razoável. A CUT e a Força
apóiam. As principais confederações
empresariais apóiam.
Folha - Mas há divergências.
Berzoini - Há
dois ou três pontos em que o governo
vai arbitrar e mandar para o Congresso a
sua proposta. Um deles é a representação
no local de trabalho. As entidades empresariais
se manifestam contra a existência
compulsória dessa representação.
Eles entendem que isso deve ser objeto de
negociação. Nós entendemos
que a base do sistema democrático
de relações é haver
um patamar mínimo de cidadania dentro
do local de trabalho. É um tema polêmico
em todo o mundo.
Folha - Já que o sr. falou que não
há intenção de conduzir
a reforma trabalhista com pressa, dá
para enviar e aprovar no Congresso até
o final do mandato?
Berzoini - Não
sei se dá, sinceramente. Vai depender
muito da vontade dos atores sociais. O governo
não acredita que haja hoje um problema
de custo de mão-de-obra no Brasil
como fator de restrição à
competitividade. Pelo contrário.
Em várias áreas acreditamos
que o Brasil esteja em condições
mais favoráveis em relação
ao custo da mão-de-obra.
O que existe muito é
a burocracia em relação à
formalização da mão-de-obra,
à gestão de jornada de trabalho.
São fatores que vão ser objeto
de debate. Eu acho que as partes podem acelerar,
com a participação do governo,
a discussão e chegar a um bom termo
talvez antes desse prazo.
Mas a pressa nesse caso
será inevitavelmente inimiga da perfeição.
Como temos o tempo político, o governo,
as eleições, podemos chegar
a um momento que haja dificuldade de conciliar
o calendário geral do país
e do Congresso com a tramitação
da reforma. Mas pior ainda é mandar
algo apressadamente ao Congresso e criar
um ambiente de conflito.
Folha - A impressão que se tem é
que o governo não tem claro qual
é a reforma trabalhista desejada.
Existe consenso sobre isso?
Berzoini - Nós
estamos trabalhando com a idéia de
indução do debate. Mesmo que
tivéssemos uma proposta com pontos
arrolados, a nossa opção é
não apresentar esse tipo de agenda.
Queremos que os trabalhadores e os empresários
construam essa agenda. Já estão
dando os primeiros passos. O ritmo vai depender
da vontade das partes e do governo.
O importante é
não confundir a reforma trabalhista
que moderniza e democratiza com aquela proposta
que circulou no governo passado, que tinha
um foco na retirada de direitos.
Folha - Mas o presidente Lula já
falou a reforma trabalhista poderá
mexer em tudo, exceto férias. Isso
não significa que será possível
negociar direitos?
Berzoini - O presidente
manifestou uma opinião pessoal em
um momento de conversa. Mas ele apóia
integralmente o encaminhamento que estamos
dando. Sempre com a idéia de que
quem formula proposta não é
o governo -é o trabalhador e o empregado,
com a participação do governo.
ELEIÇÃO
NOS EUA
Bush
pratica marxismo-darwinismo, diz mexicano
Carlos Fuentes
afirma que neoconservadores exploram bem
a necessidade de segurança religiosa
dos americanos
J.M. MARTÍ
FONT
DO "EL PAÍS", EM BARCELONA
O escritor mexicano
Carlos Fuentes acaba de publicar "Contra
Bush" [ainda não lançado
no Brasil], que abarca o período
de agosto de 2000 a julho de 2004. São
anos repletos de fatos com os quais Fuentes
traça crítica demolidora à
administração neoconservadora
que "violou o direito internacional,
passou por cima da ONU e ditou os princípios
da guerra preventiva e unilateral".
Pergunta - Bush tem
boas chances de ganhar as eleições.
Carlos Fuentes- A campanha ainda não
terminou. Sempre existe uma reação
depois das convenções -algo
que foi muito leve no caso dos democratas,
porque a convenção democrata
foi muito mal orientada, visando a justificar
a atuação de John Kerry no
Vietnã, enquanto Bush e seu campo
não mediram palavras para falar de
segurança e patriotismo. Agora faltam
os debates, que são muito importantes.
Acho que Kerry será muito melhor
que Bush num debate, mas falta ver como
será.
Pergunta - Não lhe surpreende essa
capacidade de manipulação
da opinião pública que os
neoconservadores ainda têm?
Fuentes- De manipulação e
de intimidação. Assim como
Hitler, em "Mein Kampf", disse
exatamente o que queria, o manifesto neoconservador
assinado por todos eles, de Cheney a Wolfowitz,
de Rumsfeld a Fukuyama, estabelece claramente
o seu programa desde 97. Não é
o caso de nos surpreendermos. Eles sempre
disseram claramente a que vieram.
Pergunta - Como você explica os erros
de cálculo de Bush no Iraque?
Fuentes- Entraram no Iraque passando por
cima de tudo porque são guiados pela
ideologia. Acho que o governo Bush pratica
algo que poderíamos chamar de um
marxismo-darwinismo. Marxismo no sentido
em que ele acredita que a história
é decidida pelos interesses e econômicos,
e darwinismo porque acredita na vitória
do mais forte. E isso foi implantado agitando
a bandeira do patriotismo. Dizia Samuel
Johnson, no século 18, que o patriotismo
é o último refúgio
dos infames. O mais surpreendente é
que um homem que fugiu do serviço
militar se apresente como defensor da segurança
militar dos EUA.
Pergunta - A sociedade americana mudou nos
últimos 20 anos?
Fuentes- Os EUA são muito móveis
e, ao mesmo tempo, possuem certas bases
ideológicas inamovíveis, que
são as que lhe conferem segurança
diante de seu enorme dinamismo. Por exemplo,
a segurança religiosa, algo que Bush
vem explorando muito bem. Outro dia, em
um comício, alguém lhe falou:
"Que Deus o abençoe", e
Bush respondeu: "Ele já me abençoou".
Bush pratica a religião própria
do pecador convertido. Alguns de nós
bem que gostaríamos que voltasse
a beber.
Pergunta - Como tal ideologia lida com o
poder num país diverso e com tanta
capacidade intelectual?
Fuentes - Não gostaria de fazer comparações
odiosas, mas o nacional-socialismo tomou
conta da Alemanha -país de tradição
intelectual, liberal, democrático-
depois da República de Weimar, e
organizou o país na base do militarismo
revanchista, contra o Tratado de Versalhes.
Bush faz algo semelhante: um Estado militarista,
que reprime os direitos humanos, com uma
missão no exterior e fundamentado
no velho puritanismo dos fundadores dos
EUA.
Pergunta - O que poderemos fazer se Bush
ganhar a eleição?
Fuentes- Há a necessidade de criar
uma nova ordem internacional multilateral
fundada no direito. Aí a chamada
velha Europa tem papel fundamental a cumprir,
ao lado da América Latina. (Fonte:
Folha de S. Paulo)
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