Caso Alvorada: RBS envergonha imprensa gaúcha

Na terça-feira, dia 21, apenas uma frase, constrangida: "O secretário de Segurança, Otávio Germano, afirmou que o problema da violência em Alvorada é uma questão social". Cheguei a ficar otimista, será que o RBS Notícias estava ironizando? Será que iniciaria uma polêmica sobre a declaração escorregadia do responsável por organizar (e falhar) a proteção da vida das 50 vítimas de assassinato em Alvorada no primeiro semestre desse ano? Afinal, fosse o ex-secretário Bisol – do governo Olívio Dutra – a fazer tal comentário estaria sendo alvo de editorais da RBS (e de outros conhecidos jornalistas), Conversas Cruzadas seriam encomendadas pela TV Com, Polêmicas, amplos espaços para o sofrido povo de Alvorada seriam abertos nas páginas do Diário Gaúcho e de Zero Hora.

Na quarta-feira, dia 22, a decepção. O RBS Notícias "produz" uma matéria sobre a pobreza de Alvorada. Mostrou que 17% dos moradores vivem abaixo da linha da pobreza (como se fosse novidade!) e tentou, sem ficar ruborizada, traçar uma ponte entre os 50 assassinatos e o poder aquisitivo, eximindo a Secretaria de Segurança de Otávio Germano e Germano Rigotto de qualquer culpa. Mostrou a necessidade de programas sociais para os pobres. E foi mais longe: colocou a culpa nos assassinatos no suposto confronto entre quadrilhas, guerras de gangues, apesar das duas últimas mortes terem sido de um comerciante que tentou proteger seu estabelecimento e de uma jovem de 15 anos vítima de assalto.

Quando Bisol falava que certos casos não mereciam tratamento policial e sim social, costumava ser ridicularizado, cobrado, achincalhado. Agora, o tema entra na pauta como cortina de fumaça para a incompetência pelas mãos de quem antes ridicularizava.

Mas o pior ainda estava por vir, e veio na sexta-feira, dia 24. Confesso que me senti envergonhado como jornalista e me lembrei dos piores momentos dos anos 1970, quando a comecei a trabalhar na imprensa e peguei o final da ditadura militar e a transição da censura oficial para a censura patronal e seus interesses políticos e financeiros. Nova reportagem do RBS Notícias volta a enfocar o tema da violência em Alvorada, agora mostrando programas para ligar as trompas dos ventres produtores de marginais e vasectomias (esterilização do homem) para espermas geradores de futuros assaltantes. A partir da declaração de Germano, a RBS montou a explicação para 50 assassinatos: o excesso de pobres. Defendeu a esterilização das mães pobres e pobres pais como solução para a violência.

Ao invés de coletes à prova de bala, camisinhas a prova de futuros marginais!

Para completar o quadro, na terça-feira, dia 28, no Jornal do Almoço, o comentarista Lasier Martis, comentando o "desbaratamento" de uma quadrilha de assaltantes de bancos (me junto aos cumprimentos), lascou: "Meus parabéns pelo grande trabalho da Brigada Militar e da Polícia Civil, tão criticadas nos últimos dias". Pergunto: criticada? Onde? Na RBS? Onde estão aquelas capas e mais capas cobrando a "insegurança no Estado" durante o governo Olívio? Onde estão as páginas e capas no Diário Gaúcho, dia após dia, cobrando a violência, o número de assaltos, seqüestros relâmpagos etc.

Nesta segunda, dia 27, o RBS Notícias teve que dar uma matéria (porque envolvia seguradoras amigas), meio sem jeito, falando que o seguro para automóveis cresceu 40% em Porto Alegre por causa do aumento assustador no número de roubos de carro. Os telespectadores ficaram surpresos: precisou as seguradoras aumentar o preço do seguro para ficarem sabendo que os roubos de carro cresceram 40% no último ano.

Moral da história: o que estamos vendo é que o esquemão segue firme e bem articulado. O governo de Otávio Germano e Germano Rigotto não precisa se explicar, seus aliados na mídia reforçam suas teses, escondem um governo que nada fez. Quem perde? O povo, que após a saída do PT do governo do Estado e da Prefeitura, ficaram sem a tribuna popular para suas reclamações. Antes mesmo dos primeiros seis meses do governo Olívio, a RBS cobrava: onde está o Seguro Agrícola? Cadê a reforma agrária? Onde estão os empregos? Agora, com três anos de vazio de críticas, pergunto: onde está a cobrança? Antes, quando estava por surgir algum aumento de tarifa pública, a Agência Reguladora se transformava na grande heroína do povo, recebendo páginas e páginas para sua luta contra o "aumento abusivo" das tarifas públicas. Hoje, é aumento atrás de aumento e um cúmplice silêncio.

Onde estão as capas diárias do Diário Gaúcho sobre a situação da saúde em Porto Alegre? Matérias suficientes (84% do total) para o Sindicato Médico montar um dossiê e pedir uma CPI na Câmara de Vereadores? Aquelas matérias da vovó que não consegue remédio, do menino de não "agüenta" mais o gesso, do aposentado que perdeu a perna por falta de atendimento (fatos tristes e condenáveis). Onde estão? Onde? Ou será que, agora, saúde também é problema social, pois se os pobres não se alimentam bem, ficam doentes com maior facilidade...

Os exemplos são muitos, pois o esquemão segue firme e pronto para o próximo embate eleitoral. A prova foi esta semana vergonhosa para a história da imprensa gaúcha no caso Alvorada. Fica o registro apenas como registro, pois a memória é curta. Essa não é a primeira e nem será a última, mas, se das próximas urnas resultar um novo governo democrático e popular, veremos se a questão da violência seguirá sendo um caso social (de coletes à prova de espermas assassinos) ou de incompetência adminitrativa.

Porto Alegre, 28 de junho de 2005.

Caco Schmitt, jornalista