| |
Há
um cheiro estranho nas últimas notícias
sobre o PT
15/6/2005
Fui à Venezuela duas vezes no último
período. Ambas as visitas foram de
aproximadamente quinze dias. A primeira
foi na semana seguinte à tentativa
de golpe. Estive lá com o fotógrafo
Satoru Takaesu. Chegamos ao país
com apenas um contato, o do secretário-geral
do Sindicato Nacional dos Trabalhadores
da Impresa, Gregório Salazar. Ele
foi nosso guia. Gentil, prestativo e antichavista,
nos apresentou tudo o que em sua opinião
tornava a tentativa de golpe ao presidente
de seu país, de certa forma, justificável.
Exatamente isso, um jornalista de postura
solícita e que parecia de fato acreditar
em valores democráticos defendia
o movimento golpista. Apontava excessos
por parte da turma de Pedro Carmona, o líder
empresarial que fechou o Congresso, destituiu
a Suprema Corte, rasgou a Constituição
e durou 28 horas na presidência, mas
entendia que aquelas posturas se justificavam,
já que do outro lado estava Cháve!
z. Em todos os programas de televisão
e nos jornais e revistas de maior circulação
da Venezuela, as palavras de Salazar pareciam
ter sentido. A mídia local veiculava
em uníssono seu ódio antichavista.
A cobertura midiática dos últimos
episódios que apontam para um suposto
esquema de corrupção na formação
da base do atual governo brasileiro está
ganhando contornos muito semelhantes ao
que ocorreu no país vizinho. Com
uma sutileza: ela não é personalizada
na figura do presidente da República,
como no caso venezuelano, mas no seu partido
político, o PT.
É fato que há uma denúncia
que precisa ser apurada e do bom jornalismo
espera-se uma investigação
com base em entrevistas e reunião
de documentos. Faz bem à democracia
que a imprensa assim atue. É isso
o que dela se espera.
Como se esperava também que assim
fosse quando ocorreu o processo de privatização
das telefônicas e de outras empresas
públicas do país. Naquele
momento, os escândalos não
precisavam ser abafados pe! lo governo ou
deputados governistas. O midiático
poder brasileiro se e ncarregava disso.
O falecido jornalista Aloysio Biondi, de
forma quixotesca, tentava "destampar
a panela", mas seus artigos, publicados
duas vezes por semana na Folha de S. Paulo,
não recebiam sequer chamada de primeira
página. Ao contrário, uma
vez me confidenciou que quando recebeu convite
para ir trabalhar no então Diário
Popular, ganhando um pouco mais, mas tendo
uma coluna diária, recebeu como contraproposta
da Folha ganhar mais para escrever apenas
uma única coluna semanal. Entendeu
aquilo como um cala-boca e foi para o Diário.
Seu livro, o Brasil Privatizado, repleto
de provas escandalosas, vendeu mais de 100
mil exemplares e mereceu apenas registros
pontuais nos veículos. Não
impulsionou nenhum movimento anti-PSDB nos
veículos de comunicação.
É disso que se trata. Anuncia-se
na mídia brasileira uma campanha
sanguinolenta contra o PT. Se vier a acontecer
em sua plenitude, será contra tudo
o que partido representa. Ou mesmo o que
um dia representou com mais firmeza. Nã!
o será uma campanha contra o que
pode haver de podre na agremiação.
Sugere-se em editorias e opiniões
de articulistas e parlamentares tucanos
que Lula precisará se livrar do PT
caso queira terminar o mandato. Justifica-se
a pressão por conta de o tesoureiro
do partido estar sendo acusado de comprar
toda a bancada de deputados do PL e do PP.
O curioso é que desses deputados
acusados nada se fala. Alguns são
bastante famosos, como Delfim Neto e o próprio
presidente da Câmara, Severino Cavalcanti.
Mas nenhum foi emparedado por veículos
de comunicação para dar explicações.
Ao contrário, o presidente do PT,
José Genoino, tem sido acuado com
ironias e grosserias em muitas de suas participações
em programas de rádio e TV.
Não se espera que o midiático
poder brasileiro se comporte como em relação
a Eduardo Jorge Caldas, secretário-geral
da Presidência da República,
que, entre outras coisas, foi acusado de
participar de suposto esquema de liberação
de verbas no valor de R$ 169 mi! lhões
para o Tribunal Regional do Trabalho (TRT)
de São Paulo, e de cr iar caixa-dois
para a reeleição de FHC. Naqueles
dias, tudo era debatido via jornais e revistas
com excesso de cuidado além da conta.
Espera-se que se vá mais a fundo,
como manda o bom jornalismo, no escândalo
do suposto mensalão.
Mas é bom que se saiba que no ataque
ao PT o que está na mira não
é só a sigla, mas algumas
de suas bandeiras históricas e também
de amplos setores da esquerda. A campanha
para renovar o fôlego da onda das
privatizações como maneira
de diminuir a corrupção no
Estado já começou. Porta-vozes
do mercado têm tratado do assunto
sem corar ou gaguejar. Atenção
aos artigos e/ou comentários de rádio
e TV de certos articulistas econômicos.
Ao mesmo tempo que ataca o PT por suposto
envolvimento em corrupção,
o midiático poder também joga
contra sua credibilidade política.
Mesmo sendo avalista da atual política
econômica, nos últimos tempos
passou a ampliar a voz daqueles que criticam
o partido por ter traído princípios
históricos e se rendido à
lógica d! o capital. Há uma
clara tentativa de misturar as coisas para
que tudo pareça resultado de uma
mesma confusão. Na Venezuela, o sangramento
público midiático de Chávez
durou quase dois anos até que se
buscasse o golpe que a revista Fórum
denominou de midiático-militar. A
imagem de um Chávez autoritário
e fanfarrão, como grifou a revista
Veja na edição de 12 de setembro
de 2002 ("A queda do presidente fanfarrão")
foi cuidadosamente trabalhada.
Aqui no Brasil algo começa a ser
construído nesse sentido. Até
a cartilha do Politicamente Correto, que
de fato merece ser criticada pelo que representa
de estapafúrdia, foi apontada como
mais um lance do autoritarismo do atual
governo petista, que pretenderia cercear
até a língua portuguesa. Ignorou-se
que ela em nenhum momento, mesmo sendo uma
grande bobagem, tinha como único
objetivo divulgar termos supostamente preconceituosos.
Nada mais.
Em nome da liberdade de imprensa, a revista
Veja desta semana faz uma matéria
sem uma únic! a fonte em on acusando
a ex-prefeita Marta Suplicy de também
comprar v otos na Câmara Municipal.
O título da matéria é
sintomático da venezuelização
do midiático poder brasileiro: "O
mensalão da perua". A liberdade
de imprensa de Veja nunca permitiria que
um de seus funcionários escrevesse
algo como "Picolé de chuchu
repete as mesmas balelas em relação
ao caos na Febem".
Evidente que se trata de uma liberdade assistida,
onde quem pode de fato exercê-la não
são os jornalistas, mas os donos
dos veículos e seus capitães
do mato, que tratam repórteres à
base da chibata, como bem sabem aqueles
que vivem ou viveram experiências
de dia-a-dia em redações.
Que também sabem o quanto essas empresas,
paladinas da moralidade, respeitam, por
exemplo, as leis trabalhistas. Ou mesmo
o quanto não fazem de acordos comerciais
que garantem espaços editoriais aos
tais clientes. E ao mesmo tempo mantém
uma relação sabuja com eles.
O fato de investigar o PT e seus dirigentes
faz bem à democracia. Fiscalizar
o governo também. A imprensa deve
ter liberdade para i! sso. Precisa fazer
o seu papel. Mas há um limite entre
investigação, fiscalização
e perseguição. Na sociedade
contemporânea, onde a cidadania é
garantida de certa forma pela informação
que se recebe, quando o setor midiático
- associado a um espectro da política
- resolve fazer uma campanha persecutória
contra um partido ou governo, sem tratar
com rigor e responsabilidade o que publica,
não há outro nome para designar
tal movimento. Busca-se nesse caso um golpe
midiático. E para que isso aconteça
basta ao midiático poder brasileiro
acompanhar o toque editorial da última
edição de Veja. Estará
desenhado o cenário. E o cheiro podre
que vem da Veja pode infestar a democracia
brasileira. E não será a primeira
vez que a "liberdade de imprensa"
participa de um golpe no Brasil. Com a diferença,
que desta vez, nada indica que os quartéis
serão acionados. Na atualidade é
mais aconselhável, para parecer democrático,
que o midiático poder aja sozinho.
Renato Rovai -
Revista Fo! rum - La Insignia
|