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Novo
ataque contra os servidores
Desde o início do ano, o Sintrajufe
denuncia, em seus materiais, novas tentativas
de ataque aos trabalhadores por parte do governo
Lula. Mais especificamente, as propostas de restringir
o direito de greve e de um arrocho premeditado,
por dez anos, nos salários dos servidores
públicos (projeto de lei complementar 01).
No primeiro ano de governo, Lula enviou ao Congresso
Nacional a Reforma da Previdência. Agora,
com o PLP 01, propõe que, até 2016,
a folha de pagamento tenha aumentos anuais de,
no máximo, o IPC mais 1,5%. A proposta
em si já é uma afronta aos trabalhadores,
mas não veio sozinha. A fim de evitar a
avalanche de protestos que certamente viria, o
governo também alinhavou, por meio da Advocacia-Geral
da União, uma proposta draconiana de restrição
ao direito de greve do funcionalismo.
Os trabalhadores prontamente responderam. Em todo
o país, manifestações, protestos,
atos públicos, campanhas na mídia.
O governo mostrou alguns recuos, abriu canais
de negociação. No entanto, os servidores
devem se manter atentos. Tergiversações
não podem nos desviar do principal: o governo
não abriu mão do sustentáculo
de sua proposta, que é limitar a folha
e, inviabilizar a realização da
greve.
Nesta edição do Direito & Avesso,
uma matéria especial mostra o que significa
o PLP 01 e no que o governo recuou depois que
o funcionalismo começou a pressionar pela
retirada do projeto. A postura do sindicato tem
sido a mesma: antes de discutir limitações
à folha e ao direito de greve, deve ser
normatizada a negociação coletiva
no serviço público. Esse direito
fundamental, negado aos servidores, empurrado
de governo a governo, é a discussão
que reivindicamos a fim de ver consolidados os
pleitos dos servidores e, finalmente, poder avançar
efetivamente nas conquistas, evitando que, ano
a ano, sejam retirados direitos dos trabalhadores.
ENTREVISTA:
Carlos Maldonado
Que Estado?
Qual gestão de pessoal?
Rosane Vargas
Qual
a importância da carreira para o servidor
e para o serviço público?
Maldonado: Quando falamos da carreira profissional
de uma pessoa ou categoria, é natural que
achemos que se trata de uma hipótese de
valorização e aposta pessoal e de
algo que se refere aos servidores e não
às instituições. É
natural que se considere assim, pois é
dessa forma que o senso comum a considera. E mais:
nos dias atuais, tem sido vendido, em especial
no mercado de trabalho privado, que carreira é
tarefa individual à luz das oportunidades
de desenvolvimento oferecidas pelas empresas.
Quando se trata do Estado, de seus poderes e instituições,
a carreira é, antes de tudo, um instrumento
de gestão de pessoal. Trata-se de mecanismo
fundamental para a busca dos objetivos e do papel
social da instituição. Essa característica
da carreira é ainda mais importante quando
se trata de uma organização de uso
intensivo de pessoal para a consecução
de seus serviços, como é caso das
unidades de trabalho do Poder Judiciário.
No caso dos servidores, é também
instrumento, posto que, em havendo perspectiva
de carreira ao longo da vida funcional, além
de valorizados, podem, com seu esforço,
construir uma vida funcional produtiva e geradora
de satisfação e reconhecimento profissional.
Assim, podemos afirmar que a carreira não
pode prescindir da identidade institucional e
da definição de metas e objetivos
estratégicos e o seu debate, bem como o
de seus instrumentos, necessita a assunção
de compromissos programáticos, a escolha
de modo de gestão e a opção
por um processo dinâmico de carreira no
lugar de um simples agregado de cargos e salários.
É
possível falar sobre carreira sem ter claro
em que Estado ela será desenvolvida?
Maldonado: O debate acerca da carreira é,
também, o de modelo de Estado e sua gestão.
Não se trata, portanto, de uma bandeira
de luta em que se exige a apresentação
de uma proposta pela administração
e se avalia quanto ganhamos, para decidir se é
bom ou ruim. Ao contrário, exige uma opção
dos trabalhadores acerca de que Estado desejamos,
qual é possível nesta quadra da
história do país e que mecanismos
devem ser utilizados para a sua gestão.
Deve-se saber a que, a quem e para que deve servir
a instituição em que labutamos e,
diante disso, propor seu instrumento de gestão
de pessoal: a carreira.
Há
alguma categoria do funcionalismo que tenha um
plano de carreira que possa ser considerado um
bom exemplo?
Maldonado: Não creio que se possa dizer
que há uma categoria nessa situação,
mas há algumas que têm carreiras
há muitos anos diplomacia, por exemplo
e outras que têm na legislação
de gestão de pessoal embriões que,
se bem tratados, poderão redundar em carreiras
efetivas os servidores da área fazendária,
os das instituições de ensino superior,
os da ciência e tecnologia e, mesmo, o Judiciário.
Há dois elementos fundamentais a discutir
para que o tema possa ser adequadamente tratado:
a adequação dos artigos 37 e 39
da Constituição e a edição
de legislação nacional que trate
das Diretrizes para os tegorias acerca das propostas
que os trabalhadores devem procurar disputar nesse
processo permanente de luta.
Como se dá
a discussão de carreira no serviço
público brasileiro?
Maldonado: Se formos rigorosos, salvo honrosas
exceções, não há discussão
sobre carreira. Há, sim, muito debate sobre
cargos e salários, com objetivo de resolver
problemas de valorização remuneratória
das categorias, dado que por muitas décadas
os vencimentos dos servidores foram submetidos
a toda sorte de desmandos.
Qual o ponto
de partida para se discutir um plano de carreira?
Maldonado: Antes de tudo, é preciso saber
a que modelo de Estado e forma de gestão
ele deve servir. Em segundo lugar, é preciso
conhecer bem a instituição que será
seu objeto e, por fim estudar e construir as propostas
que obtenham legitimidade suficiente na categoria
para validar as propostas pelas quais lutaremos
durante algum tempo, costumeiramente por vários
anos. Não se trata, portanto, de matéria
de atuação conjuntural e, assim,
é importante que a categoria capacite grupos
de trabalho para assessorar o debate e, tendo
em vista as necessidades e as opiniões
da categoria, formule as propostas que irão
armar a luta coletiva por este importante instrumento
de gestão pública.
Por que é
tão difícil que os planos de carreira
sejam elaborados e, uma vez elaborados, cumpridos?
Maldonado: Creio que isso ocorre por dois motivos.
O primeiro é de natureza conjuntural e
tem atingido fortemente o ordenamento institucional
e legal brasileiro. Trata-se da fluidez que tem
se notado acerca de que modelo de Estado se deverá
adotar. Em menos de 50 anos já tiveram
força real na correlação
de forças sociais as idéias patrimonialista,
privatista também conhecida como
gerencial e, mais recentemente, a idéia
de Estado necessário, tendo em vista a
demanda social. O segundo creio que se relaciona
a uma matéria de natureza conjuntural.
Trata-se da prioridade da luta salarial que objetiva
recuperar anos de tempo perdido no que toca à
valorização remuneratória
dos servidores. Há ainda um terceiro motivo,
que me parece menos efetivo, embora não
menos importante, que é a falta de debate
e, por conseqüência, de importância
que esse tema tem para as categorias. Comumente,
é tratado como um item da pauta e não
como prioridade estratégica.
O usuário
dos serviços públicos entra nesse
debate? De que forma?
Maldonado: Em minha opinião, sim e por
meio de mecanismos de representação
organizada. Entretanto, esse debate só
faz sentido se a opção de Estado
for aquele em que o paradigma de organização
é a realização dos direitos
de cidadania e as necessidades dos usuários
dos seus serviços o que não
é possível nas opções
patrimonialista ou gerencial e estiver
claro para as instituições e os
seus servidores que o controle da sociedade sobre
as instituições de Estado é
fundamental para a consecução dos
seus objetivos e do seu papel social.
Claro está que essa opção
impõe um rompimento do pacto da mediocridade
comum às corporações fechadas
e tende a gerar um aumento da demanda social por
serviços, bem como a cobrança por
mais qualidade. Por outro lado, permite-nos maior
valorização do trabalho, possibilidades
de capacitação e desenvolvimento
e o reconhecimento social do trabalho dos agentes
públicos, o que não se tem notícia
que alguma vez tenha existido em nosso país.
Atualmente, cada
setor negocia separadamente. É a maneira
mais adequada, em tua opinião, ou deveria
ser tentada a formatação de um plano
único?
Maldonado: A melhor resposta é depende.
No que toca à matéria constitucional
e às diretrizes para os planos de carreira,
creio que os servidores dos três poderes
e mesmo das diversas esferas de governo devem
atuar unificadamente, tendo em vista que se trata
de questões conceituais gerais e garantias
que devem servir para todos. Entretanto, como
se trata de instrumento de gestão, em minha
opinião, as carreiras devem estar organizadas
por ramo de atividade e, às vezes, em um
mesmo ramo; é preciso considerar que muitas
especificidades implicam carreiras diversas. Noutros
termos, a luta acerca das carreiras deve ter momentos
conjuntos e outros isolados, que podem e devem
ser articulados entre as diversas categorias.
Maldonado é
especialista em gestão, secretário
municipal de Gestão Pública de Várzea
Paulista (SP) e participou do Grupo de Trabalho
sobre Carreira da Fasubra. Foi debatedor sobre
o assunto no 6º Congrejufe
Serviço público
na mira do governo Lula
O Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC)
pode impor estagnação e retrocesso
ao serviço público. Ainda que a
afirmação soe como um paradoxo,
é o que deve ocorrer caso o projeto de
lei complementar (PLP 01/07) do PAC seja aprovado
no Congresso Nacional. O PLP determina que, durante
dez anos, o gasto com a folha de pagamento do
serviço público só poderá
aumentar em 1,5% ao ano, além da reposição
da inflação. A medida é uma
emenda à Lei de Responsabilidade Fiscal
(LRF), que estabelece limites de gastos para municípios,
estados e governo federal. Coincidência
ou não, está sendo relatada na Câmara
pelo deputado José Pimentel (PT-CE), o
mesmo da Reforma da Previdência.
A aprovação do PLP representaria
uma estagnação salarial de dez anos,
um arrocho maior que o promovido pelos oito anos
do governo de Fernando Henrique. O aumento de
1,5%, segundo apontam entidades representativas
dos servidores, seria todo consumido no crescimento
vegetativo do funcionalismo, isto é, somente
as progressões de carreira e as promoções
dariam conta dessa quantia. Para além da
questão salarial, a qualidade do serviço
público ficaria ainda mais comprometida,
já que, com o orçamento engessado,
não seriam permitidas novas contratações,
nem mesmo para reposição de trabalhadores
que se aposentarem. O congelamento de investimentos
públicos por dez anos pode provocar ainda
mais distorções, ampliar disparidades
salariais e gerar a redução do número
de servidores inviabilizando a implantação
de programas anunciados pelo governo como, por
exemplo, nas áreas de saúde, educação,
infra-estrutura e segurança.
Desde o final de março, após pressão
das entidades, a comissão especial da Câmara
dos Deputados que analisa o projeto realizou uma
série de audiências públicas.
Nesses encontros, dirigentes sindicais, parlamentares
e técnicos se posicionaram contra o limitador.
Em uma das audiências, os presidentes do
Conselho Nacional do Ministério Público,
procurador-geral da República Antonio Fernando
de Souza, e daAssociação de Juízes
Federais do Brasil, Walter Nunes, afirmaram que
a aprovação dessa proposta significaria
uma redução ainda maior da obrigação
do Estado em satisfazer às mais básicas
necessidades do povo brasileiro.
A
CUT, em conjunto com as entidades dos servidores
federais, tem-se manifestado publicamente pela
retirada do PLP 01/07, desde fevereiro, quando
foi divulgado. Desde então, várias
atividades foram realizadas para pressionar o
Executivo e o Legislativo, alertando para as conseqüências
da aprovação desse projeto de lei.
A última grande mobilização
foi no dia 15 de agosto, quando milhares de trabalhadores
participaram da Marcha a Brasília. A pressão
possibilitou alguns avanços. Em audiência
da Central com o ministro do Planejamento, Paulo
Bernardo, apesar de o governo se recusar a retirar
o projeto integralmente, houve a garantia de que
o PLP 01 será revisto. Isso é
decisão tomada, vamos fazer, disse
Paulo Bernardo, telefonando na mesma hora para
o relator do projeto na Câmara, o deputado
José Pimentel (PT-CE).
O governo, Pimentel e as entidades dos trabalhadores
fizeram três reuniões para discutir
o PLP 01. Houve recuo do governo em alguns pontos,
mas foi mantida uma firme posição
de não retirar integralmente o projeto.
O governo abriu um espaço de discussão
do conteúdo, mas não se dispôs
a retirar o PLP, diz Lúcia Reis.
No dia 30 de agosto, ocorreu a primeira reunião.
Os dirigentes sindicais manifestaram, de forma
unânime, a necessidade de retirada do PLP
01/07, pois representa uma contradição
às iniciativas de desenvolvimento do país
contidas no Plano de Aceleração
do Crescimento.
O secretário de Recursos Humanos do Ministério
do Planejamento, Duvanier Paiva Ferreira, disse
que é impossível retirar o PLP devido
a uma necessidade de previsibilidade
da despesa pública com pessoal. O vice-líder
do governo na Câmara dos Deputados, deputado
Henrique Fontana (PT-RS), defendeu um regramento
para as despesas do Estado pactuado entre as forças
da sociedade. Por fim, Pimentel disse que estava
convencido da necessidade de uma nova proposta,
que respondesse às diversas preocupações,
e afirmou que haveria mudanças profundas
no conteúdo da iniciativa governamental.
Nos dois encontros seguintes, o relator se mostrou
aberto a algumas exigências (mas sempre
na perspectiva de manter o projeto). As entidades
falaram, por exemplo, sobre a inviabilidade do
prazo de dez anos previsto pelo PLP 01, uma vez
que o Plano Plurianual, que faz parte do PAC,
tem vigência de 2008 a 2011. Também
propuseram estender para a sociedade a discussão
sobre o uso de recursos públicos com pessoal.
A população, que será diretamente
afetada se o PLP 01 passar, tem o direito de conhecer
a proposta e se manifestar sobre ela. Para isso,
seria necessário regulamentar o artigo
39 da Constituição, que trata do
Conselho de Gestão Pública.
As assessoria das entidades estão, como
diz Lúcia, fazendo o seu trabalho.
Elaboraram uma lista de itens que devem ficar
fora de qualquer limitador fiscal. Entre eles
estão a substituição de mão-de-obra
terceirizada, reposição de perdas
salariais, contratações previstas
até 2011.
Segundo Lúcia
Reis, a posição da CUT é
pela retirada do projeto. A força do movimento
impediu o governo de avançar na aprovação
da matéria e o limitador não é
consenso nem dentro do governo, afirma. O PLP
01 vai de encontro, por exemplo, a projetos em
andamento nas áreas de educação
e saúde.
A CUT tem como meta barrar a imposição
de políticas que impeçam acesso
aos serviços públicos e seu oferecimento,
diz Lúcia. Há outras questões
interligadas. Antes de impor limitadores, o governo
deveria regulamentar a negociação
coletiva e a data-base no serviço público.
A regra, nos diversos governos, tem sido primeiro
o servidor ser empurrado para a greve para só
então ser aberto um canal de negociação.
Até para negociar é preciso paralisar.
Os servidores querem o direito à negociação
coletiva, como prevê a Convenção
151 da Organização Internacional
do Trabalho. O Brasil é um dos únicos
países da América do Sul que não
assinou o documento.
Também como resultado das mobilizações
deste ano, o governo finalmente se comprometeu
a enviar a Convenção para aprovação
do Congresso Nacional. No dia 15 de agosto, o
ministro Paulo Bernardo prometeu que entregaria
a proposta até o prazo-limite de 7 de setembro.
Expirou. A informação, segundo Lúcia
Reis, é que ainda nem foi enviada à
Casa Civil. Segundo Duvanier, a demora se deve
à burocracia. A proposta será enviada
direto ao Senado, que terá prazo de um
ano para regulamentá-la.
Neste ponto, a dirigente critica grupos e representações,
citando nominalmente a Conlutas. Essas entidades
se retiraram do Grupo de Trabalho da Negociação
Coletiva, que também busca a recuperação
da mesa ampla dos SPFs. Eles alegam que a saída
foi um protesto contra a atitude do governo de
não retirar o PLP 01.
Lúcia entende que essa atitude é
equivocada e sectária. A Mesa Nacional
de Negociação não pode ser
usada como moeda de barganha, pois é um
espaço fundamental para os servidores conseguirem
avançar não só a negociação
coletiva, mas discutirem conjuntamente suas demandas
e reivindicações.
Cai a relação
Pessoal x PIB
De acordo com o Boletim
Estatístico de Pessoal do Ministério
do Planejamento de setembro de 2006, a relação
entre a Despesa com Pessoal e a Receita Corrente
Líquida foi de 56,2% em 1995. Nota-se
que esse mesmo indicador foi declinando nos
anos seguintes, chegando a alcançar a
relação de, apenas, 30,9% no ano
de 2005, mostrando, assim, que os gastos com
pessoal estão longe de representar o
grande problema das contas públicas,
conclui um estudo da subseção
do Dieese/CUT.
Está contido no PAC que a meta estabelecida
em relação à Despesa de
Pessoal da União é alcançar,
em 2010, um valor equivalente a 4,7% do PIB
(Produto Interno Bruto). Nesse caso, tal
sinalização representará
o mais baixo patamar registrado ao longo do
período de 1999 a 2010, já que
a média projetada do período entre
2007 a 2010 é de uma despesa de pessoal
da ordem de 5%, sendo bastante próxima
da média ocorrida entre 2003 a 2006,
que foi de 4,9%, mas que ficará abaixo
da média verificada no intervalo de 1999
a 2002, cuja média foi de 5,23% e que
representou, justamente, um momento em que os
servidores tiveram muitas dificuldades quanto
à concessão de reajustes pelo
governo federal, informa o estudo.
Uma preocupação levantada pelo
diretor técnico do Departamento Intersindical
de Assessoria Parlamentar (Diap), Flávio
Tonelli, é que o PLP 01 poderá
provocar a terceirização e a privatização
gradual dos serviços públicos
no Brasil. Isso aconteceria uma vez que os investimentos
restringidos pelo PLP não dariam conta
de acompanhar as demandas de um Estado em franco
crescimento.
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Proibir greve de servidor é
inconstitucional
A
Constituição de 1988 reconhece expressamente
a greve como direito fundamental tanto para os
trabalhadores em geral (artigo 9º) quanto
para os servidores públicos civis (artigo
37, VI e VII). Estes foram também contemplados
com o direito à livre sindicalização,
exceto os militares. Desde que a Advocacia-Geral
da União (AGU) lançou uma proposta
de regulamentação do direito de
greve do servidor público, aproveitando-se
da situação caótica do controle
aéreo, várias entidades têm-se
manifestado veementes contra esse abuso constitucional.
Segundo o presidente nacional da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB), Cezar Britto, a intenção
anunciada pelo governo federal de proibir greves
em setores essenciais do serviço público
pode encontrar obstáculos jurídicos.
O direito de greve foi assegurado aos servidores
públicos, afirmou Britto.
É preciso apenas, por via da lei
complementar, estabelecer a forma do seu exercício,
e não a de sua proibição.
Qualquer medida que venha a ser aprovada limitando
ou restringindo o direito de greve fere a Constituição.
O direito de greve dos servidores públicos
está previsto no artigo 37 da Constituição,
mas esse dispositivo ainda não foi regulamentado
por uma lei que deveria estabelecer as regras
para as paralisações.
A CUT e seus
sindicatos que representam os servidores federais,
após muita pressão e mobilização,
conseguiram que o governo federal, por meio da
Secretaria de Recursos Humanos do Ministério
do Planejamento, firmasse um compromisso de que
o anteprojeto de lei sobre regulamentação
do direito de greve produzido pela AGU não
é a proposta do governo. Outro compromisso
é que o sistema de negociação
coletiva e as várias formas de resolução
de conflitos, incluindo as greves, serão
elaboradas em conjunto com os servidores federais,
em um grupo de trabalho (GT).
O GT foi constituído pela portaria 1.486,
de 31 de julho de 2007, da Secretaria de Recursos
Humanos do Ministério do Planejamento.
A primeira reunião aconteceu no dia 1º
de agosto. O grupo está realizando estudos
e pesquisas com vistas a uma proposta para discussão
e votação dos deputados e dos senadores.
Concluídos os trabalhos, a proposição
elaborada será encaminhada ainda à
Casa Civil e ao Ministério do Trabalho
e Emprego. Integram o GT, além do Ministério
do Planejamento, CUT, Fenajufe, Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social,
Condsef, Unafisco Sindical, Unacom, Sindireceita,
Sinasempu, Proifes, Sinait e Fasubra. Cada entidade
participa dos debates com dois integrantes, um
titular e um suplente.
A posição assumida pelo secretário,
em nome do ministério, demonstra que a
combinação entre combatividade e
abertura ao diálogo é eficaz. E
nos dá um pouco de tranqüilidade,
pois demonstra que aquele entulho autoritário
produzido pela AGU não desfruta de apoio
no conjunto do governo e que o respeito à
capacidade de organização e elaboração
dos trabalhadores está mantido, avalia
o presidente da CUT, Artur Henrique. (Katia Marko)
Sintrajufe
lançou uma campanha pioneira no país
Em junho, o Sintrajufe
criou várias peças publicitárias
cujo tema central era o direito dos servidores
públicos à greve. Foi uma continuação
da campanha de sindicalização desenvolvida
pela entidade nos últimos dois anos. Além
de divulgação no material informativo
(boletins e saite), foram criados banners gigantes,
displays para computadores e cartazes. O material
foi distribuído para a categoria em todo
o estado. E chamou a atenção também
de outras entidades sindicais país afora,
que solicitaram o uso da arte, a qual traz a imagem
de um homem amordaçado.
Em 15 de agosto, no Dia Nacional de Mobilização
da CUT, o Sintrajufe voltou ao tema, desta vez
com o mote Não deixe o serviço
público ir pro buraco - Lula, retire o
PLP 01 já!. A campanha contou com
apedido em jornais, spots em rádios e outdoors
e buscou esclarecer a população
sobre a luta dos servidores contra o PLP 01, pela
negociação coletiva e pelo direito
dos servidores à greve.
O PAC e a restrição
ao direito de greve
Cristiano
Moreira
O Programa de
Aceleração do Crescimento, embora
venha acompanhado de um grande aparato de marketing,
como a mais importante medida do governo Lula
no segundo mandato, não passa de mais um
ataque aos trabalhadores, seguindo a política
iniciada em 2003 com a Reforma da Previdência.
O PLP 01, por exemplo, que faz parte do aludido
programa, significa a institucionalização,
por meio de lei, do arrocho salarial dos servidores.
É a primeira vez que um governo oficializa
o congelamento salarial do funcionalismo, pois,
com o PLP 01, os gastos com a folha de pagamento
não poderão crescer além
de 1,5% acima da inflação durante
dez anos. Como o próprio crescimento vegetativo
da folha consome praticamente todo esse percentual,
significa, portanto, o congelamento salarial por
uma década!
A retirada de recursos do FGTS para investimentos
no programa é mais uma das medidas que
acompanham o PAC. O salário mínimo
também é outro alvo, pois seu aumento
é limitado à inflação
mais a variação real do PIB de dois
anos atrás, o que implica um aumento, em
2008, de ínfimos 2,8%. Fica claro qual
o tipo de crescimento proposto com
PAC. Não modifica em uma vírgula
sequer o modelo econômico, que continua
a destinar 42% do orçamento para o pagamento
dos juros da dívida pública, pagos
ao custo da retirada de nossos direitos.
Se, com uma mão, Lula retira nossos direitos,
com outra busca impedir nossa mobilização,
com a restrição à greve dos
servidores, classificada pelo próprio presidente
como férias. Nenhum outro governo
ousou propor tamanho absurdo. Eis mais uma prova
da traição de alguém que,
curiosamente, teve sua trajetória política
construída ao longo de greves e lutas sociais.
A proposta de regulamentação
prevê que seriam necessários dois
terços da categoria presentes em assembléia
para deflagração de greve, o que,
na prática, inviabiliza qualquer possibilidade
de iniciar o movimento. Além disso, todos
os serviços públicos passam a ser
considerados essenciais, sendo necessário
que 30% da categoria permaneça trabalhando
durante a greve. Outros elementos presentes na
medida são o não-pagamento dos dias
parados, fator que sempre foi objeto de negociação
ao fim dos movimentos, e a contratação
de funcionários temporários para
suprir a ausência dos grevistas.
A greve, principal instrumento de luta da classe
trabalhadora, será fundamental no próximo
período para barrar ataques como o PAC.
Obviamente, é por isso que querem retirar
mais este direito. Mas é por isso, também,
que precisamos barrar essa medida em seu nascedouro!
Não podemos aceitar qualquer tipo de regulamentação,
que sempre significará a restrição
desse direito. Em tempos em que usineiros e ministros
são chamados de heróis
por Lula, parece que já foram eleitos os
vilões: curiosamente, são
aqueles membros da classe a quem um dia o presidente
pertenceu, mas que acabou por trair com medidas
como essas.
Nossa resposta será a nossa luta.
Vamos barrar os ataques de Lula!
* Cristiano
é servidor da 2ª Vara Trabalhista
de Canoas
As
contradições do PAC
Magda Nunes
Ávila
No
dia 28 de janeiro deste ano, o governo Lula lançou
seu Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC), o qual, de acordo com sua equipe econômica,
tem como objetivo a melhoria das condições
de vida da população brasileira.
No plano das intenções, o conjunto
de medidas é destinado a incentivar
o investimento privado, aumentar o investimento
público em infra-estrutura, e remover os
obstáculos - burocráticos, administrativos,
normativo-jurídicos e legislativos - ao
crescimento. Essa redação
se encontra na plataforma oficial do programa.
A iniciativa de um programa de desenvolvimento
entusiasma, sem dúvida, a sociedade de
nosso país, que vivencia, há décadas,
uma estagnação econômica e
suas conseqüentes exclusões sociais
. É positivo o governo chamar para si responsabilidades,
como a de ampliação de linhas de
crédito para habitação popular
e a de investimentos na infra-estrutura, na logística
e no desenvolvimento urbano.
A meta é a expansão da economia
de 5% ao ano. As cifras, a serem aplicadas
em fundos sociais são bilionárias.
Há um cenário que mostra que, desde
2003, as operações de crédito
estão em significativa expansão,
o que aponta a ascensão no fluxo de recursos
destinados ao setor imobiliário; alubram,
portanto, que, com algumas outras medidas de incentivo,
ocorrerão melhoras no ambiente de investimentos.
Medianos conhecimentos
a respeito de mercado e economia bastam para se
perceber que o PAC é uma receita confeitada,
coberta de boas intenções, mas recheada
de contradições.
Os ingredientes e as medidas para agilizar os
processos licitatórios, ampliar a fiscalização
de tributos, elevar a eficiência do poder
público à proteção
do meio ambiente, fundar mais de 150 escolas técnicas
em quatro anos e retomar as antigas Sudam e Sudene
exigem um aporte orçamentário e
ampliação de quadro funcional. No
entanto, o PAC não o prevê. Pelo
contrário.
O projeto é
claro quando propõe controle da expansão
das despesas de pessoal para cada um dos
poderes da união e corta gastos de custeio-investimentos.
Sabe-se que somente o crescimento vegetativo da
folha dos servidores públicos, para 2008,
superará o índice de 1,5% (números
do Ministério do Planejamento). Se o PAC
prevê esse mesmo índice como limite
de gastos de pessoal, está explícito
um imenso arrocho salarial aos servidores públicos,
que são a chave-mestra para o êxito
deste projeto do governo.
A contratação de novos servidores
e a estrutura para os avanços de gestão,
citados no projeto, não estão previstas
nas metas do Programa. Tampouco estão indicadas
as fontes para a reestruturação
dos órgãos públicos já
existentes e extremamente sucateados.
Sabe-se que investir
na máquina pública é garantir
o serviço gratuito e demonstrar o destino
dos impostos arrecadados à população.
A histórica falta de investimento no serviço
público é o que eleva os índices
alarmantes de violência, mortalidade infantil
e de analfabetismo em nosso país.
Se o governo brasileiro pensa em crescimento econômico
sem atender a essas necessidades, o PAC não
passará de mais um prato para servir no
banquete do tão voraz mercado financeiro.
Magda é
servidora da JF e diretora do Sintrajufe
24
anos de luta!
Katia Marko
Ao completar
24 anos, no dia 28 de agosto, a Central Única
dos Trabalhadores (CUT) continua uma referência
nas lutas dos trabalhadores brasileiros. As últimas
manifestações em Brasília
demonstraram que a CUT permanece honrando o compromisso
assumido em sua fundação, a
defesa dos interesses imediatos e históricos
da classe trabalhadora.
As bandeiras levantadas pela Central e seus sindicatos
filiados conseguiram unificar os trabalhadores
do setor público e privado. Nós
realizamos uma série de atos e manifestações
contra a Emenda 3, o PLP 01/07 e em defesa de
uma pauta concreta de reivindicações.
Com isso, colocamos mais de 20 mil trabalhadores
em Brasília, mostrando visibilidade e capacidade
de pressão e articulação
junto ao Executivo, o Legislativo e o Judiciário,
ressaltou o presidente da CUT, Arthur Henrique.
Na avaliação de Arthur, o movimento
sindical cutista está conseguindo retomar
a ação política. No
final dos anos 70 e durante a década de
80, existiam grandes bandeiras políticas
do movimento social, entre os quais a CUT, como
anistia, democratização do país,
contra a tortura e a ditadura e pelas eleições
diretas para presidente. Esse movimento fez com
que a CUT conseguisse ampliar o seu espaço
de representação e se colocasse
como interlocutora não só dos trabalhadores,
mas também dessas bandeiras, lembra.
Já na década de 90 tivemos
um refluxo, avalia ele, os sindicatos
tiveram que se concentrar na luta por direitos
ou pela manutenção deles, dessa
vez, não mais para avançar, mas
sim para resistir. Talvez seja esse o momento
em que a CUT começa a retomar o seu papel.
Arthur acredita que a CUT está novamente
conseguindo espaço para o diálogo
e a visibilidade para disputar hegemonia na sociedade.
A central coloca-se novamente como interlocutora
importante da classe trabalhadora. Para
Arthur, as recentes vitórias cutistas dão
mais energia para esquentarmos os tambores e colocarmos
100 mil na Marcha a Brasília no final do
ano.
Na pauta, agora: institucionalizar
a negociação coletiva
Rogério
Viola Coelho
Os
servidores públicos até hoje são
levados a fazer greves prolongadas para conseguir
negociar porque não está garantido
o seu direito à negociação
coletiva, implicitamente autorizada pela Constituição
de 1988. Ao consagrar o direito à sindicalização
e o direito de greve, ela estabelecia as premissas
para que fosse instituída por lei a negociação
coletiva no âmbito da administração
pública. Mas, logo depois, em 1991, o STF
bloqueava a sua regulamentação acolhendo
Adin contra norma inscrita no artigo 240 do RJU
que a reconhecia formalmente. E, três anos
depois, em 1994, esse tribunal acolhia mandado
de injunção para decretar que a
greve não podia ser exercida enquanto não
fosse regulamentada.
As greves se reiteravam, e prosseguem até
hoje à margem da ordem, mas, estando dotadas
de legitimidade, impõem aos governos a
negociação informal das suas pautas.
As manifestações regressivas do
STF não lograram seu objetivo porque é
impossível deter o avanço da vida
social. Mas remanesce a falta de negociação
prévia, que poderia evitar ou abreviar
paralisações.
O direito havia
instituído os sujeitos sociais que iriam
expressar, na nova ordem jurídica, a autonomia
coletiva dos trabalhadores do Estado, que seria
exercida por meio dos sindicatos, entidades que
o artigo 8º da Constituição
investiu no poder-dever de defender os interesses
coletivos, além dos direitos coletivos
e individuais, das categorias profissionais. E
o direito de greve conferia ao poder social conformado
pelos sindicatos o exercício da autotutela
coletiva na sua forma extrema, deferindo ao legislador
a fixação dos termos e limites em
que ele seria exercido. Eles são reconhecidos
como direitos instrumentais. Ambos positivados
pelo direito com a finalidade de ensejar a negociação
coletiva, adotada no universo das sociedades democráticas
como forma superior de solução dos
conflitos de interesses entre os trabalhadores
e o Estado.
Ante a inscrição da liberdade sindical
nas constituições do segundo Pós-Guerra,
foi geral a institucionalização
da negociação coletiva no continente
europeu. E, em 1978, a OIT editou a Convenção
15l, visando a sua universalização.
Mas em nosso País os poderes constituídos
articulados resistiram ao avanço democrático
positivado pelo poder constituinte, prolongando
a velha ordem que proscrevia a atividade sindical
no setor público.
Ante a regulamentação
provisória do exercício do direito
de greve, já assegurada no julgamento de
mandado de injunção em curso no
STF, torna-se imperiosa para os trabalhadores
do Estado a regulamentação da negociação
coletiva. A motivação da corte,
explicitada por Gilmar Mendes, foi a necessidade
de estabelecer controles sobre as greves de servidores
públicos, consideradas excessivas. Nos
votos em curso, já ficou assentado que
serão adotadas provisoriamente as normas
da lei 7.783/89, que regula o exercício
da greve no setor privado, mas foi proposta por
Eros Grau a sua conversão em greve parcial,
com a imposição da permanência
de uma parte da categoria em atividade, em todos
os setores, para garantia da continuidade dos
serviços públicos.
A normatividade que será editada considera
suspenso o vínculo jurídico com
paralisação consertada do trabalho,
autorizando a suspensão dos salários,
remetendo para a negociação final
o seu pagamento. Além disso, prevê
recurso ao Judiciário, para declaração
de ilegalidade ou abusividade da greve, propiciando
a sua repressão. Isso favorece a estratégia
usada habitualmente pela administração,
de resistência à negociação,
remetendo o conflito para a situação
extrema de confronto representado pela greve,
agora podendo dispor de medidas objetivas de repressão,
formalmente instituídas.
Daí resulta a necessidade de institucionalizar
a negociação coletiva, para obrigar
a administração a conhecer e tratar
as demandas das categorias profissionais antes
das paralisações, antecipando significativamente
as negociações, que atualmente só
são iniciadas depois de um ou dois meses
de greve.
Em face da posição
assumida pelo STF, bloqueando a negociação
coletiva, é necessária emenda na
Constituição que consagre formalmente
a negociação coletiva das relações
de trabalho, essencial para evoluirmos para sua
democratização no interior do Estado.
Já está tramitando na Câmara
uma PEC que tem esse objetivo. Mas ele poderia
também ser obtido com a ratificação
da Convenção 151 da OIT, seguindo
o quórum especial do artigo 5º, parágrafo
3º, para que tenha o estatuto de norma constitucional.
Aprovada a emenda, deve ser editada lei regulamentando
o exercício do direito. Existe mais de
um projeto tramitando na Câmara e são
conhecidas propostas de diretrizes para essa regulamentação
aprovadas pela CUT. No projeto convém observar
que a lei deve:
ser enxuta, sem muitas definições,
tendo apenas as normas necessárias para
garantir a efetivação de um sistema
de negociações, evitando a extensão
dos debates;
instituir um sistema de negociação
permanente, definindo a formação
de mesas centrais e setoriais;
estabelecer que os representantes da administração
serão dirigentes com poder de decisão,
sem necessidade de consulta freqüente aos
escalões superiores no curso das negociações;
remeter para as mesas a definição
das representações das entidades
sindicais e do peso que terá cada uma;
a organização sindical no setor
público tendo sido espontânea, não
existe um sistema que permita predeterminar as
participações;
garantir a licença permanente de
representantes dos trabalhadores para dedicação
integral a essa relevante atividade sindical;
evitar a remessa das matérias versadas
à apreciação do Judiciário;
adotar o instituto da mediação
para superação dos impasses;
estabelecer a obrigatoriedade da negociação
determinando que ela abranja, além das
questões econômicas, normas relativas
à determinação das condições
de trabalho, à saúde e à
segurança no trabalho, às garantias
para a atividade sindical, às questões
relativas à previdência pública
e a outras questões oriundas da relação
de trabalho.
Agora, cabe ao
movimento sindical dos servidores públicos
pautar o debate sobre a negociação
coletiva, mobilizando e convergindo esforços
para institucionalizá-la.
Avanços
O avanço para os trabalhadores do
Estado com a institucionalização
da negociação coletiva é
previsível.
1 Obriga à negociação,
pode, com a sua reiteração, vencer
a resistência secular dos governantes, que
tende a perpetuar a imposição da
vontade unilateral do Estado nas relações
de trabalho, resistência fundada no princípio
de autoridade, que remanesce como ideologia nos
países periféricos.
2vFavorece a mobilização das categorias
profissionais com a repercussão das rodadas
de negociação no espaço público.
3 As mesas de negociação
permanente, integrando-se na arena pública,
conferem visibilidade às demandas das categorias
profissionais, propiciando diálogo com
a sociedade na medida em que as pautas incluem
habitualmente propostas para a defesa e a melhoria
dos serviços públicos.
4 Propicia o equacionamento do conflito,
com a identificação dos pontos de
pauta críticos e os pontos que tendem ao
acolhimento.
5 Estabelece a possibilidade de avanços
na determinação das condições
de trabalho, que via de regra não dependem
de lei, mas apenas de atos administrativos.
6 Favorece a convergência das categorias
profissionais para a formação de
pautas unificadas, abrangendo demandas de interesse
geral, nas Mesas Centrais constituídas.
Rogério
é advogado
Um
balanço positivo
Cristina
Lemos
Esta
edição da revista Direito &
Avesso é a última da gestão
Todos na Luta. Em 31 de agosto, assumiu a nova
diretoria, composta por boa parte dos membros
da gestão anterior, o que demonstra a confiança
da categoria no trabalho realizado.
Os últimos três anos foram marcados
pela luta incessante dos servidores do Judiciário
Federal gaúcho na defesa intransigente
dos seus direitos e na consolidação
das suas conquistas. Os ganhos da categoria, desde
1997, deram-se principalmente com Planos de Cargos
e Salários. A partir de 2004, a gestão
Todos na Luta esteve à frente para a conquista
do maior PCS até então. Naquele
ano, uma greve de 43 dias provocou o pagamento
da Gratificação da Atividade Judiciária
e a criação do Grupo de Trabalho
que elaboraria o futuro PCS (PCS-3).
O caminho foi longo e árduo, mas a vitória
veio, incontestável. Ainda estamos pressionando
pela regulamentação de diversos
pontos, mas não podemos esquecer o valor
de nossa luta para a criação da
lei 11.416/06.
Em todo o país, os servidores se mobilizaram
com paralisações, greves, caravanas
a Brasília. O Sintrajufe foi o único
sindicato a enviar representantes em caráter
permanente e nas convocações da
Fenajufe. Houve momentos em que direção
foi duramente cobrada pela categoria. A demora
dos tribunais superiores em enviar o projeto e
do Congresso em votá-lo, devido ao trancamento
da pauta, aliada ao cansaço natural depois
de greves e tantas atividades, gerou um sentimento
justo de indignação. A direção,
com maturidade, soube direcionar essa sensação
à cúpula do Judiciário, ao
Legislativo, ao Executivo, quando o presidente
Lula adiou ao máximo a sanção.
Foram momentos que engrandeceram a atuação
política dos servidores e que nos fizeram
crescer como categoria. Havia diferenças
entre nós, como acontece em qualquer lugar;
no entanto, soubemos superar as diferenças
em busca do objetivo comum.
A gestão
Todos na Luta impulsionou a formação
e a cultura. Além das tradicionais Sextas
Básicas, mensais, houve uma ampliação
do número de oficinas cultura oferecidas
e a expansão destas para o interior do
estado. Palestras sobre os mais diversos assuntos,
debates e cursos de formação foram
oferecidos.
Nesses três anos, o Sintrajufe teve presença
constante em atividades que buscaram ir além
das fronteiras das demandas específicas.
Dois exemplos fundamentais mostram esse movimento.
Um deles foi a concretização, juntamente
com os sindicatos representativos do funcionalismo
federal, estadual e municipal, do Coletivo de
Servidores Públicos da CUT/RS. Esse fórum
vem se monstrando atuante tanto no debate quanto
no encaminhamento de questões relativas
a esse segmento e aprimorou e qualificou a relação
da Central com os trabalhadores do setor público.
O segundo foi a criação do Fórum
Sindical de Saúde do Trabalhador (FSST).
O sindicato foi um dos únicos representativos
do funcionalismo a fazer parte da criação
da entidade e tem uma atuação destacada.
É um trabalho importante não somente
para nos aliarmos aos trabalhadores da iniciativa
privada, como para levar ao conhecimento desses
companheiros as dificuldades que enfrentamos em
nosso dia-a-dia funcional. O FSST conseguiu avanços
importantes na revisão das perícias
do INSS e promoveu debates sobre previdência.
O sindicato acompanhou os mais diversos grupos
sociais na luta por reforma agrária, educação,
trabalho, cultura, moradia, igualdade de gênero
e etnia... Participou das edições
do Fórum Social Mundial, das edições
do Grito dos Excluídos, da Marcha dos Sem,
enfim, nas atividades em que o foco era a busca
por uma vida melhor, uma sociedade melhor, o Sintrajufe
disse presente. E continuará
a dizer nos próximos três anos. Trabalharemos
por uma sociedade mais justa, igualitária,
sem machismo, sem homofobia e sem assédio
moral.
Boa luta para todos nós!
Cristina
é servidora da JF e diretora do Sintrajufe
O
trabalho adoece e mata, sim!
Mara Weber
Na luta capital
x trabalho, não é só a força
de trabalho que é vendida. Desde o princípio
do capitalismo, os patrões se julgam donos
dos trabalhadores, a ponto de lhes roubar o mais
necessário para a manutenção
da vida: a saúde. As transformações
tecnológicas aplicadas à lógica
neoliberal trouxeram mais pressão por produtividade,
assédio moral, exclusão, precarização,
enfim, novas formas de adoecer e morrer no trabalho.
Saúde no trabalho é uma questão
de direito humano e deve mover nossa energia,
como entidade sindical, a fim de entender, elaborar
e implementar um combate efetivo a toda forma
de negligência, falta de proteção,
abuso de poder e exploração.
No Brasil, cerca de 500 mil pessoas se acidentaram
e 2.708 morreram em 2005 em decorrência
do trabalho. E esse números representam
só quem tem carteira assinada. Estudos
como os da Fundacentro, vinculada ao governo,
apontam que a subnotificação pode
chegar a 80%. Ainda assim, essa tragédia
não é prioridade. Quando muito aparece
nas páginas policiais, como a morte de
um gari, terceirizado da prefeitura de Porto Alegre.
A observação no final da notícia
era que a morte provocou interrupção
da pista e transtornos ao trânsito. É
um exemplo da coisificação
dos trabalhadores pela lógica do mercado.
Mesmo com a conquista de legislação
protetiva, resultante de mobilizações
históricas do movimento sindical durante,
principalmente, o início do século
XX, a aplicação das leis é
um desafio. Falta fiscalização que
obrigue os empresários a implementar condições
de trabalho que garantam proteção,
treinamento, qualificação permanente
e ambiente humanizado de trabalho. Segundo o Instituto
Observatório Social, ligado à CUT,
os setores mais atingidos são indústria,
serviços e agricultura. Toda a sociedade
paga a conta pela falta de responsabilidade social
do empresariado. Segundo a Previdência,
para cada R$ 1,00 gasto, o país gasta mais
R$ 3,00, decorrentes de desemprego e redução
de produtividade.
Existem outros riscos, invisíveis, mas
não menos devastadores, como transtornos
mentais e assédio moral. Parece Idade Média,
mas em pleno 2006, na região sul do Brasil
temos registro de trabalhadora acorrentada a sua
máquina e só libertada depois de
atingir a meta de produção. É
apenas um relato que a pesquisadora Margarida
Barreto nos traz para desvendar os métodos
utilizados por muitas empresas para que os trabalhadores
sejam mais produtivos.
O serviço público não foge
dessa realidade. Tampouco o Judiciário.
Apesar de avanços na discussão sobre
a saúde, temos muito a fazer. Não
há regulamentação de fiscalização,
política efetiva de prevenção
ou acompanhamento dos trabalhadores adoecidos.
Não temos idéia do estatístico
oficial com adoecimentos por LER/Dort, transtornos
mentais, assédio. O Sintrajufe se guia
por pesquisa própria que aponta questões
sérias: 37,2% já procuraram tratamento
psiquiátrico ou psicológico e 43,2%,
tratamento por algum sintoma relativo a doenças
osteomusculares.
O setor público é particularmente
propício ao assédio moral, devido
ao ambiente rigidamente hierárquico. Sem
falar que os servidores foram vítimas do
que chamo de assédio institucionalizado,
patrocinado por vários governos e apoiado
pela mídia, com o propósito de encolher
os serviços públicos. O abalo da
imagem trouxe sofrimento, vergonha e humilhação
e, aliados a chefias despreparadas, adoecimento.
No Judiciário não há políticas
de prevenção a LER/Dort e, uma vez
adoecidos, os servidores se vêem desamparados,
desrespeitados nas perícias e discriminados
pelos colegas. É preciso enfrentar a situação,
sensibilizar-se com o sofrimento alheio e cobrar
responsabilidades. Todo ser humano deseja ter
prazer e bem-estar físico e mental, inclusive
no trabalho.
Mara
é servidora da JT e diretora do Sintrajufe
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