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Novo
ataque contra os servidores
Desde o início do ano, o Sintrajufe
denuncia, em seus materiais, novas tentativas
de ataque aos trabalhadores por parte do governo
Lula. Mais especificamente, as propostas de restringir
o direito de greve e de um arrocho premeditado,
por dez anos, nos salários dos servidores
públicos (projeto de lei complementar 01).
No primeiro ano de governo, Lula enviou ao Congresso
Nacional a Reforma da Previdência. Agora,
com o PLP 01, propõe que, até 2016,
a folha de pagamento tenha aumentos anuais de,
no máximo, o IPC mais 1,5%. A proposta
em si já é uma afronta aos trabalhadores,
mas não veio sozinha. A fim de evitar a
avalanche de protestos que certamente viria, o
governo também alinhavou, por meio da Advocacia-Geral
da União, uma proposta draconiana de restrição
ao direito de greve do funcionalismo.
Os trabalhadores prontamente responderam. Em todo
o país, manifestações, protestos,
atos públicos, campanhas na mídia.
O governo mostrou alguns recuos, abriu canais
de negociação. No entanto, os servidores
devem se manter atentos. Tergiversações
não podem nos desviar do principal: o governo
não abriu mão do sustentáculo
de sua proposta, que é limitar a folha
e, inviabilizar a realização da
greve.
Nesta edição do Direito & Avesso,
uma matéria especial mostra o que significa
o PLP 01 e no que o governo recuou depois que
o funcionalismo começou a pressionar pela
retirada do projeto. A postura do sindicato tem
sido a mesma: antes de discutir limitações
à folha e ao direito de greve, deve ser
normatizada a negociação coletiva
no serviço público. Esse direito
fundamental, negado aos servidores, empurrado
de governo a governo, é a discussão
que reivindicamos a fim de ver consolidados os
pleitos dos servidores e, finalmente, poder avançar
efetivamente nas conquistas, evitando que, ano
a ano, sejam retirados direitos dos trabalhadores.
ENTREVISTA:
Carlos Maldonado
Que Estado?
Qual gestão de pessoal?
Rosane Vargas
Qual
a importância da carreira para o servidor
e para o serviço público?
Maldonado: Quando falamos da carreira profissional
de uma pessoa ou categoria, é natural que
achemos que se trata de uma hipótese de
valorização e aposta pessoal e de
algo que se refere aos servidores e não
às instituições. É
natural que se considere assim, pois é
dessa forma que o senso comum a considera. E mais:
nos dias atuais, tem sido vendido, em especial
no mercado de trabalho privado, que carreira é
tarefa individual à luz das oportunidades
de desenvolvimento oferecidas pelas empresas.
Quando se trata do Estado, de seus poderes e instituições,
a carreira é, antes de tudo, um instrumento
de gestão de pessoal. Trata-se de mecanismo
fundamental para a busca dos objetivos e do papel
social da instituição. Essa característica
da carreira é ainda mais importante quando
se trata de uma organização de uso
intensivo de pessoal para a consecução
de seus serviços, como é caso das
unidades de trabalho do Poder Judiciário.
No caso dos servidores, é também
instrumento, posto que, em havendo perspectiva
de carreira ao longo da vida funcional, além
de valorizados, podem, com seu esforço,
construir uma vida funcional produtiva e geradora
de satisfação e reconhecimento profissional.
Assim, podemos afirmar que a carreira não
pode prescindir da identidade institucional e
da definição de metas e objetivos
estratégicos e o seu debate, bem como o
de seus instrumentos, necessita a assunção
de compromissos programáticos, a escolha
de modo de gestão e a opção
por um processo dinâmico de carreira no
lugar de um simples agregado de cargos e salários.
É
possível falar sobre carreira sem ter claro
em que Estado ela será desenvolvida?
Maldonado: O debate acerca da carreira é,
também, o de modelo de Estado e sua gestão.
Não se trata, portanto, de uma bandeira
de luta em que se exige a apresentação
de uma proposta pela administração
e se avalia quanto ganhamos, para decidir se é
bom ou ruim. Ao contrário, exige uma opção
dos trabalhadores acerca de que Estado desejamos,
qual é possível nesta quadra da
história do país e que mecanismos
devem ser utilizados para a sua gestão.
Deve-se saber a que, a quem e para que deve servir
a instituição em que labutamos e,
diante disso, propor seu instrumento de gestão
de pessoal: a carreira.
Há
alguma categoria do funcionalismo que tenha um
plano de carreira que possa ser considerado um
bom exemplo?
Maldonado: Não creio que se possa dizer
que há uma categoria nessa situação,
mas há algumas que têm carreiras
há muitos anos diplomacia, por exemplo
e outras que têm na legislação
de gestão de pessoal embriões que,
se bem tratados, poderão redundar em carreiras
efetivas os servidores da área fazendária,
os das instituições de ensino superior,
os da ciência e tecnologia e, mesmo, o Judiciário.
Há dois elementos fundamentais a discutir
para que o tema possa ser adequadamente tratado:
a adequação dos artigos 37 e 39
da Constituição e a edição
de legislação nacional que trate
das Diretrizes para os tegorias acerca das propostas
que os trabalhadores devem procurar disputar nesse
processo permanente de luta.
Como se dá
a discussão de carreira no serviço
público brasileiro?
Maldonado: Se formos rigorosos, salvo honrosas
exceções, não há discussão
sobre carreira. Há, sim, muito debate sobre
cargos e salários, com objetivo de resolver
problemas de valorização remuneratória
das categorias, dado que por muitas décadas
os vencimentos dos servidores foram submetidos
a toda sorte de desmandos.
Qual o ponto
de partida para se discutir um plano de carreira?
Maldonado: Antes de tudo, é preciso saber
a que modelo de Estado e forma de gestão
ele deve servir. Em segundo lugar, é preciso
conhecer bem a instituição que será
seu objeto e, por fim estudar e construir as propostas
que obtenham legitimidade suficiente na categoria
para validar as propostas pelas quais lutaremos
durante algum tempo, costumeiramente por vários
anos. Não se trata, portanto, de matéria
de atuação conjuntural e, assim,
é importante que a categoria capacite grupos
de trabalho para assessorar o debate e, tendo
em vista as necessidades e as opiniões
da categoria, formule as propostas que irão
armar a luta coletiva por este importante instrumento
de gestão pública.
Por que é
tão difícil que os planos de carreira
sejam elaborados e, uma vez elaborados, cumpridos?
Maldonado: Creio que isso ocorre por dois motivos.
O primeiro é de natureza conjuntural e
tem atingido fortemente o ordenamento institucional
e legal brasileiro. Trata-se da fluidez que tem
se notado acerca de que modelo de Estado se deverá
adotar. Em menos de 50 anos já tiveram
força real na correlação
de forças sociais as idéias patrimonialista,
privatista também conhecida como
gerencial e, mais recentemente, a idéia
de Estado necessário, tendo em vista a
demanda social. O segundo creio que se relaciona
a uma matéria de natureza conjuntural.
Trata-se da prioridade da luta salarial que objetiva
recuperar anos de tempo perdido no que toca à
valorização remuneratória
dos servidores. Há ainda um terceiro motivo,
que me parece menos efetivo, embora não
menos importante, que é a falta de debate
e, por conseqüência, de importância
que esse tema tem para as categorias. Comumente,
é tratado como um item da pauta e não
como prioridade estratégica.
O usuário
dos serviços públicos entra nesse
debate? De que forma?
Maldonado: Em minha opinião, sim e por
meio de mecanismos de representação
organizada. Entretanto, esse debate só
faz sentido se a opção de Estado
for aquele em que o paradigma de organização
é a realização dos direitos
de cidadania e as necessidades dos usuários
dos seus serviços o que não
é possível nas opções
patrimonialista ou gerencial e estiver
claro para as instituições e os
seus servidores que o controle da sociedade sobre
as instituições de Estado é
fundamental para a consecução dos
seus objetivos e do seu papel social.
Claro está que essa opção
impõe um rompimento do pacto da mediocridade
comum às corporações fechadas
e tende a gerar um aumento da demanda social por
serviços, bem como a cobrança por
mais qualidade. Por outro lado, permite-nos maior
valorização do trabalho, possibilidades
de capacitação e desenvolvimento
e o reconhecimento social do trabalho dos agentes
públicos, o que não se tem notícia
que alguma vez tenha existido em nosso país.
Atualmente, cada
setor negocia separadamente. É a maneira
mais adequada, em tua opinião, ou deveria
ser tentada a formatação de um plano
único?
Maldonado: A melhor resposta é depende.
No que toca à matéria constitucional
e às diretrizes para os planos de carreira,
creio que os servidores dos três poderes
e mesmo das diversas esferas de governo devem
atuar unificadamente, tendo em vista que se trata
de questões conceituais gerais e garantias
que devem servir para todos. Entretanto, como
se trata de instrumento de gestão, em minha
opinião, as carreiras devem estar organizadas
por ramo de atividade e, às vezes, em um
mesmo ramo; é preciso considerar que muitas
especificidades implicam carreiras diversas. Noutros
termos, a luta acerca das carreiras deve ter momentos
conjuntos e outros isolados, que podem e devem
ser articulados entre as diversas categorias.
Maldonado é
especialista em gestão, secretário
municipal de Gestão Pública de Várzea
Paulista (SP) e participou do Grupo de Trabalho
sobre Carreira da Fasubra. Foi debatedor sobre
o assunto no 6º Congrejufe
Serviço público
na mira do governo Lula
O Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC)
pode impor estagnação e retrocesso
ao serviço público. Ainda que a
afirmação soe como um paradoxo,
é o que deve ocorrer caso o projeto de
lei complementar (PLP 01/07) do PAC seja aprovado
no Congresso Nacional. O PLP determina que, durante
dez anos, o gasto com a folha de pagamento do
serviço público só poderá
aumentar em 1,5% ao ano, além da reposição
da inflação. A medida é uma
emenda à Lei de Responsabilidade Fiscal
(LRF), que estabelece limites de gastos para municípios,
estados e governo federal. Coincidência
ou não, está sendo relatada na Câmara
pelo deputado José Pimentel (PT-CE), o
mesmo da Reforma da Previdência.
A aprovação do PLP representaria
uma estagnação salarial de dez anos,
um arrocho maior que o promovido pelos oito anos
do governo de Fernando Henrique. O aumento de
1,5%, segundo apontam entidades representativas
dos servidores, seria todo consumido no crescimento
vegetativo do funcionalismo, isto é, somente
as progressões de carreira e as promoções
dariam conta dessa quantia. Para além da
questão salarial, a qualidade do serviço
público ficaria ainda mais comprometida,
já que, com o orçamento engessado,
não seriam permitidas novas contratações,
nem mesmo para reposição de trabalhadores
que se aposentarem. O congelamento de investimentos
públicos por dez anos pode provocar ainda
mais distorções, ampliar disparidades
salariais e gerar a redução do número
de servidores inviabilizando a implantação
de programas anunciados pelo governo como, por
exemplo, nas áreas de saúde, educação,
infra-estrutura e segurança.
Desde o final de março, após pressão
das entidades, a comissão especial da Câmara
dos Deputados que analisa o projeto realizou uma
série de audiências públicas.
Nesses encontros, dirigentes sindicais, parlamentares
e técnicos se posicionaram contra o limitador.
Em uma das audiências, os presidentes do
Conselho Nacional do Ministério Público,
procurador-geral da República Antonio Fernando
de Souza, e daAssociação de Juízes
Federais do Brasil, Walter Nunes, afirmaram que
a aprovação dessa proposta significaria
uma redução ainda maior da obrigação
do Estado em satisfazer às mais básicas
necessidades do povo brasileiro.
A
CUT, em conjunto com as entidades dos servidores
federais, tem-se manifestado publicamente pela
retirada do PLP 01/07, desde fevereiro, quando
foi divulgado. Desde então, várias
atividades foram realizadas para pressionar o
Executivo e o Legislativo, alertando para as conseqüências
da aprovação desse projeto de lei.
A última grande mobilização
foi no dia 15 de agosto, quando milhares de trabalhadores
participaram da Marcha a Brasília. A pressão
possibilitou alguns avanços. Em audiência
da Central com o ministro do Planejamento, Paulo
Bernardo, apesar de o governo se recusar a retirar
o projeto integralmente, houve a garantia de que
o PLP 01 será revisto. Isso é
decisão tomada, vamos fazer, disse
Paulo Bernardo, telefonando na mesma hora para
o relator do projeto na Câmara, o deputado
José Pimentel (PT-CE).
O governo, Pimentel e as entidades dos trabalhadores
fizeram três reuniões para discutir
o PLP 01. Houve recuo do governo em alguns pontos,
mas foi mantida uma firme posição
de não retirar integralmente o projeto.
O governo abriu um espaço de discussão
do conteúdo, mas não se dispôs
a retirar o PLP, diz Lúcia Reis.
No dia 30 de agosto, ocorreu a primeira reunião.
Os dirigentes sindicais manifestaram, de forma
unânime, a necessidade de retirada do PLP
01/07, pois representa uma contradição
às iniciativas de desenvolvimento do país
contidas no Plano de Aceleração
do Crescimento.
O secretário de Recursos Humanos do Ministério
do Planejamento, Duvanier Paiva Ferreira, disse
que é impossível retirar o PLP devido
a uma necessidade de previsibilidade
da despesa pública com pessoal. O vice-líder
do governo na Câmara dos Deputados, deputado
Henrique Fontana (PT-RS), defendeu um regramento
para as despesas do Estado pactuado entre as forças
da sociedade. Por fim, Pimentel disse que estava
convencido da necessidade de uma nova proposta,
que respondesse às diversas preocupações,
e afirmou que haveria mudanças profundas
no conteúdo da iniciativa governamental.
Nos dois encontros seguintes, o relator se mostrou
aberto a algumas exigências (mas sempre
na perspectiva de manter o projeto). As entidades
falaram, por exemplo, sobre a inviabilidade do
prazo de dez anos previsto pelo PLP 01, uma vez
que o Plano Plurianual, que faz parte do PAC,
tem vigência de 2008 a 2011. Também
propuseram estender para a sociedade a discussão
sobre o uso de recursos públicos com pessoal.
A população, que será diretamente
afetada se o PLP 01 passar, tem o direito de conhecer
a proposta e se manifestar sobre ela. Para isso,
seria necessário regulamentar o artigo
39 da Constituição, que trata do
Conselho de Gestão Pública.
As assessoria das entidades estão, como
diz Lúcia, fazendo o seu trabalho.
Elaboraram uma lista de itens que devem ficar
fora de qualquer limitador fiscal. Entre eles
estão a substituição de mão-de-obra
terceirizada, reposição de perdas
salariais, contratações previstas
até 2011.
Segundo Lúcia
Reis, a posição da CUT é
pela retirada do projeto. A força do movimento
impediu o governo de avançar na aprovação
da matéria e o limitador não é
consenso nem dentro do governo, afirma. O PLP
01 vai de encontro, por exemplo, a projetos em
andamento nas áreas de educação
e saúde.
A CUT tem como meta barrar a imposição
de políticas que impeçam acesso
aos serviços públicos e seu oferecimento,
diz Lúcia. Há outras questões
interligadas. Antes de impor limitadores, o governo
deveria regulamentar a negociação
coletiva e a data-base no serviço público.
A regra, nos diversos governos, tem sido primeiro
o servidor ser empurrado para a greve para só
então ser aberto um canal de negociação.
Até para negociar é preciso paralisar.
Os servidores querem o direito à negociação
coletiva, como prevê a Convenção
151 da Organização Internacional
do Trabalho. O Brasil é um dos únicos
países da América do Sul que não
assinou o documento.
Também como resultado das mobilizações
deste ano, o governo finalmente se comprometeu
a enviar a Convenção para aprovação
do Congresso Nacional. No dia 15 de agosto, o
ministro Paulo Bernardo prometeu que entregaria
a proposta até o prazo-limite de 7 de setembro.
Expirou. A informação, segundo Lúcia
Reis, é que ainda nem foi enviada à
Casa Civil. Segundo Duvanier, a demora se deve
à burocracia. A proposta será enviada
direto ao Senado, que terá prazo de um
ano para regulamentá-la.
Neste ponto, a dirigente critica grupos e representações,
citando nominalmente a Conlutas. Essas entidades
se retiraram do Grupo de Trabalho da Negociação
Coletiva, que também busca a recuperação
da mesa ampla dos SPFs. Eles alegam que a saída
foi um protesto contra a atitude do governo de
não retirar o PLP 01.
Lúcia entende que essa atitude é
equivocada e sectária. A Mesa Nacional
de Negociação não pode ser
usada como moeda de barganha, pois é um
espaço fundamental para os servidores conseguirem
avançar não só a negociação
coletiva, mas discutirem conjuntamente suas demandas
e reivindicações.
Cai a relação
Pessoal x PIB
De acordo com o Boletim
Estatístico de Pessoal do Ministério
do Planejamento de setembro de 2006, a relação
entre a Despesa com Pessoal e a Receita Corrente
Líquida foi de 56,2% em 1995. Nota-se
que esse mesmo indicador foi declinando nos
anos seguintes, chegando a alcançar a
relação de, apenas, 30,9% no ano
de 2005, mostrando, assim, que os gastos com
pessoal estão longe de representar o
grande problema das contas públicas,
conclui um estudo da subseção
do Dieese/CUT.
Está contido no PAC que a meta estabelecida
em relação à Despesa de
Pessoal da União é alcançar,
em 2010, um valor equivalente a 4,7% do PIB
(Produto Interno Bruto). Nesse caso, tal
sinalização representará
o mais baixo patamar registrado ao longo do
período de 1999 a 2010, já que
a média projetada do período entre
2007 a 2010 é de uma despesa de pessoal
da ordem de 5%, sendo bastante próxima
da média ocorrida entre 2003 a 2006,
que foi de 4,9%, mas que ficará abaixo
da média verificada no intervalo de 1999
a 2002, cuja média foi de 5,23% e que
representou, justamente, um momento em que os
servidores tiveram muitas dificuldades quanto
à concessão de reajustes pelo
governo federal, informa o estudo.
Uma preocupação levantada pelo
diretor técnico do Departamento Intersindical
de Assessoria Parlamentar (Diap), Flávio
Tonelli, é que o PLP 01 poderá
provocar a terceirização e a privatização
gradual dos serviços públicos
no Brasil. Isso aconteceria uma vez que os investimentos
restringidos pelo PLP não dariam conta
de acompanhar as demandas de um Estado em franco
crescimento.
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Proibir greve de servidor é
inconstitucional
A
Constituição de 1988 reconhece expressamente
a greve como direito fundamental tanto para os
trabalhadores em geral (artigo 9º) quanto
para os servidores públicos civis (artigo
37, VI e VII). Estes foram também contemplados
com o direito à livre sindicalização,
exceto os militares. Desde que a Advocacia-Geral
da União (AGU) lançou uma proposta
de regulamentação do direito de
greve do servidor público, aproveitando-se
da situação caótica do controle
aéreo, várias entidades têm-se
manifestado veementes contra esse abuso constitucional.
Segundo o presidente nacional da Ordem dos Advogados
do Brasil (OAB), Cezar Britto, a intenção
anunciada pelo governo federal de proibir greves
em setores essenciais do serviço público
pode encontrar obstáculos jurídicos.
O direito de greve foi assegurado aos servidores
públicos, afirmou Britto.
É preciso apenas, por via da lei
complementar, estabelecer a forma do seu exercício,
e não a de sua proibição.
Qualquer medida que venha a ser aprovada limitando
ou restringindo o direito de greve fere a Constituição.
O direito de greve dos servidores públicos
está previsto no artigo 37 da Constituição,
mas esse dispositivo ainda não foi regulamentado
por uma lei que deveria estabelecer as regras
para as paralisações.
A CUT e seus
sindicatos que representam os servidores federais,
após muita pressão e mobilização,
conseguiram que o governo federal, por meio da
Secretaria de Recursos Humanos do Ministério
do Planejamento, firmasse um compromisso de que
o anteprojeto de lei sobre regulamentação
do direito de greve produzido pela AGU não
é a proposta do governo. Outro compromisso
é que o sistema de negociação
coletiva e as várias formas de resolução
de conflitos, incluindo as greves, serão
elaboradas em conjunto com os servidores federais,
em um grupo de trabalho (GT).
O GT foi constituído pela portaria 1.486,
de 31 de julho de 2007, da Secretaria de Recursos
Humanos do Ministério do Planejamento.
A primeira reunião aconteceu no dia 1º
de agosto. O grupo está realizando estudos
e pesquisas com vistas a uma proposta para discussão
e votação dos deputados e dos senadores.
Concluídos os trabalhos, a proposição
elaborada será encaminhada ainda à
Casa Civil e ao Ministério do Trabalho
e Emprego. Integram o GT, além do Ministério
do Planejamento, CUT, Fenajufe, Confederação
Nacional dos Trabalhadores em Seguridade Social,
Condsef, Unafisco Sindical, Unacom, Sindireceita,
Sinasempu, Proifes, Sinait e Fasubra. Cada entidade
participa dos debates com dois integrantes, um
titular e um suplente.
A posição assumida pelo secretário,
em nome do ministério, demonstra que a
combinação entre combatividade e
abertura ao diálogo é eficaz. E
nos dá um pouco de tranqüilidade,
pois demonstra que aquele entulho autoritário
produzido pela AGU não desfruta de apoio
no conjunto do governo e que o respeito à
capacidade de organização e elaboração
dos trabalhadores está mantido, avalia
o presidente da CUT, Artur Henrique. (Katia Marko)
Sintrajufe
lançou uma campanha pioneira no país
Em junho, o Sintrajufe
criou várias peças publicitárias
cujo tema central era o direito dos servidores
públicos à greve. Foi uma continuação
da campanha de sindicalização desenvolvida
pela entidade nos últimos dois anos. Além
de divulgação no material informativo
(boletins e saite), foram criados banners gigantes,
displays para computadores e cartazes. O material
foi distribuído para a categoria em todo
o estado. E chamou a atenção também
de outras entidades sindicais país afora,
que solicitaram o uso da arte, a qual traz a imagem
de um homem amordaçado.
Em 15 de agosto, no Dia Nacional de Mobilização
da CUT, o Sintrajufe voltou ao tema, desta vez
com o mote Não deixe o serviço
público ir pro buraco - Lula, retire o
PLP 01 já!. A campanha contou com
apedido em jornais, spots em rádios e outdoors
e buscou esclarecer a população
sobre a luta dos servidores contra o PLP 01, pela
negociação coletiva e pelo direito
dos servidores à greve.
O PAC e a restrição
ao direito de greve
Cristiano
Moreira
O Programa de
Aceleração do Crescimento, embora
venha acompanhado de um grande aparato de marketing,
como a mais importante medida do governo Lula
no segundo mandato, não passa de mais um
ataque aos trabalhadores, seguindo a política
iniciada em 2003 com a Reforma da Previdência.
O PLP 01, por exemplo, que faz parte do aludido
programa, significa a institucionalização,
por meio de lei, do arrocho salarial dos servidores.
É a primeira vez que um governo oficializa
o congelamento salarial do funcionalismo, pois,
com o PLP 01, os gastos com a folha de pagamento
não poderão crescer além
de 1,5% acima da inflação durante
dez anos. Como o próprio crescimento vegetativo
da folha consome praticamente todo esse percentual,
significa, portanto, o congelamento salarial por
uma década!
A retirada de recursos do FGTS para investimentos
no programa é mais uma das medidas que
acompanham o PAC. O salário mínimo
também é outro alvo, pois seu aumento
é limitado à inflação
mais a variação real do PIB de dois
anos atrás, o que implica um aumento, em
2008, de ínfimos 2,8%. Fica claro qual
o tipo de crescimento proposto com
PAC. Não modifica em uma vírgula
sequer o modelo econômico, que continua
a destinar 42% do orçamento para o pagamento
dos juros da dívida pública, pagos
ao custo da retirada de nossos direitos.
Se, com uma mão, Lula retira nossos direitos,
com outra busca impedir nossa mobilização,
com a restrição à greve dos
servidores, classificada pelo próprio presidente
como férias. Nenhum outro governo
ousou propor tamanho absurdo. Eis mais uma prova
da traição de alguém que,
curiosamente, teve sua trajetória política
construída ao longo de greves e lutas sociais.
A proposta de regulamentação
prevê que seriam necessários dois
terços da categoria presentes em assembléia
para deflagração de greve, o que,
na prática, inviabiliza qualquer possibilidade
de iniciar o movimento. Além disso, todos
os serviços públicos passam a ser
considerados essenciais, sendo necessário
que 30% da categoria permaneça trabalhando
durante a greve. Outros elementos presentes na
medida são o não-pagamento dos dias
parados, fator que sempre foi objeto de negociação
ao fim dos movimentos, e a contratação
de funcionários temporários para
suprir a ausência dos grevistas.
A greve, principal instrumento de luta da classe
trabalhadora, será fundamental no próximo
período para barrar ataques como o PAC.
Obviamente, é por isso que querem retirar
mais este direito. Mas é por isso, também,
que precisamos barrar essa medida em seu nascedouro!
Não podemos aceitar qualquer tipo de regulamentação,
que sempre significará a restrição
desse direito. Em tempos em que usineiros e ministros
são chamados de heróis
por Lula, parece que já foram eleitos os
vilões: curiosamente, são
aqueles membros da classe a quem um dia o presidente
pertenceu, mas que acabou por trair com medidas
como essas.
Nossa resposta será a nossa luta.
Vamos barrar os ataques de Lula!
* Cristiano
é servidor da 2ª Vara Trabalhista
de Canoas
As
contradições do PAC
Magda Nunes
Ávila
No
dia 28 de janeiro deste ano, o governo Lula lançou
seu Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC), o qual, de acordo com sua equipe econômica,
tem como objetivo a melhoria das condições
de vida da população brasileira.
No plano das intenções, o conjunto
de medidas é destinado a incentivar
o investimento privado, aumentar o investimento
público em infra-estrutura, e remover os
obstáculos - burocráticos, administrativos,
normativo-jurídicos e legislativos - ao
crescimento. Essa redação
se encontra na plataforma oficial do programa.
A iniciativa de um programa de desenvolvimento
entusiasma, sem dúvida, a sociedade de
nosso país, que vivencia, há décadas,
uma estagnação econômica e
suas conseqüentes exclusões sociais
. É positivo o governo chamar para si responsabilidades,
como a de ampliação de linhas de
crédito para habitação popular
e a de investimentos na infra-estrutura, na logística
e no desenvolvimento urbano.
A meta é a expansão da economia
de 5% ao ano. As cifras, a serem aplicadas
em fundos sociais são bilionárias.
Há um cenário que mostra que, desde
2003, as operações de crédito
estão em significativa expansão,
o que aponta a ascensão no fluxo de recursos
destinados ao setor imobiliário; alubram,
portanto, que, com algumas outras medidas de incentivo,
ocorrerão melhoras no ambiente de investimentos.
Medianos conhecimentos
a respeito de mercado e economia bastam para se
perceber que o PAC é uma receita confeitada,
coberta de boas intenções, mas recheada
de contradições.
Os ingredientes e as medidas para agilizar os
processos licitatórios, ampliar a fiscalização
de tributos, elevar a eficiência do poder
público à proteção
do meio ambiente, fundar mais de 150 escolas técnicas
em quatro anos e retomar as antigas Sudam e Sudene
exigem um aporte orçamentário e
ampliação de quadro funcional. No
entanto, o PAC não o prevê. Pelo
contrário.
O projeto é
claro quando propõe controle da expansão
das despesas de pessoal para cada um dos
poderes da união e corta gastos de custeio-investimentos.
Sabe-se que somente o crescimento vegetativo da
folha dos servidores públicos, para 2008,
superará o índice de 1,5% (números
do Ministério do Planejamento). Se o PAC
prevê esse mesmo índice como limite
de gastos de pessoal, está explícito
um imenso arrocho salarial aos servidores públicos,
que são a chave-mestra para o êxito
deste projeto do governo.
A contratação de novos servidores
e a estrutura para os avanços de gestão,
citados no projeto, não estão previstas
nas metas do Programa. Tampouco estão indicadas
as fontes para a reestruturação
dos órgãos públicos já
existentes e extremamente sucateados.
Sabe-se que investir
na máquina pública é garantir
o serviço gratuito e demonstrar o destino
dos impostos arrecadados à população.
A histórica falta de investimento no serviço
público é o que eleva os índices
alarmantes de violência, mortalidade infantil
e de analfabetismo em nosso país.
Se o governo brasileiro pensa em crescimento econômico
sem atender a essas necessidades, o PAC não
passará de mais um prato para servir no
banquete do tão voraz mercado financeiro.
Magda é
servidora da JF e diretora do Sintrajufe
24
anos de luta!
Katia Marko
Ao completar
24 anos, no dia 28 de agosto, a Central Única
dos Trabalhadores (CUT) continua uma referência
nas lutas dos trabalhadores brasileiros. As últimas
manifestações em Brasília
demonstraram que a CUT permanece honrando o compromisso
assumido em sua fundação, a
defesa dos interesses imediatos e históricos
da classe trabalhadora.
As bandeiras levantadas pela Central e seus sindicatos
filiados conseguiram unificar os trabalhadores
do setor público e privado. Nós
realizamos uma série de atos e manifestações
contra a Emenda 3, o PLP 01/07 e em defesa de
uma pauta concreta de reivindicações.
Com isso, colocamos mais de 20 mil trabalhadores
em Brasília, mostrando visibilidade e capacidade
de pressão e articulação
junto ao Executivo, o Legislativo e o Judiciário,
ressaltou o presidente da CUT, Arthur Henrique.
Na avaliação de Arthur, o movimento
sindical cutista está conseguindo retomar
a ação política. No
final dos anos 70 e durante a década de
80, existiam grandes bandeiras políticas
do movimento social, entre os quais a CUT, como
anistia, democratização do país,
contra a tortura e a ditadura e pelas eleições
diretas para presidente. Esse movimento fez com
que a CUT conseguisse ampliar o seu espaço
de representação e se colocasse
como interlocutora não só dos trabalhadores,
mas também dessas bandeiras, lembra.
Já na década de 90 tivemos
um refluxo, avalia ele, os sindicatos
tiveram que se concentrar na luta por direitos
ou pela manutenção deles, dessa
vez, não mais para avançar, mas
sim para resistir. Talvez seja esse o momento
em que a CUT começa a retomar o seu papel.
Arthur acredita que a CUT está novamente
conseguindo espaço para o diálogo
e a visibilidade para disputar hegemonia na sociedade.
A central coloca-se novamente como interlocutora
importante da classe trabalhadora. Para
Arthur, as recentes vitórias cutistas dão
mais energia para esquentarmos os tambores e colocarmos
100 mil na Marcha a Brasília no final do
ano.
Na pauta, agora: institucionalizar
a negociação coletiva
Rogério
Viola Coelho
Os
servidores públicos até hoje são
levados a fazer greves prolongadas para conseguir
negociar porque não está garantido
o seu direito à negociação
coletiva, implicitamente autorizada pela Constituição
de 1988. Ao consagrar o direito à sindicalização
e o direito de greve, ela estabelecia as premissas
para que fosse instituída por lei a negociação
coletiva no âmbito da administração
pública. Mas, logo depois, em 1991, o STF
bloqueava a sua regulamentação acolhendo
Adin contra norma inscrita no artigo 240 do RJU
que a reconhecia formalmente. E, três anos
depois, em 1994, esse tribunal acolhia mandado
de injunção para decretar que a
greve não podia ser exercida enquanto não
fosse regulamentada.
As greves se reiteravam, e prosseguem até
hoje à margem da ordem, mas, estando dotadas
de legitimidade, impõem aos governos a
negociação informal das suas pautas.
As manifestações regressivas do
STF não lograram seu objetivo porque é
impossível deter o avanço da vida
social. Mas remanesce a falta de negociação
prévia, que poderia evitar ou abreviar
paralisações.
O direito havia
instituído os sujeitos sociais que iriam
expressar, na nova ordem jurídica, a autonomia
coletiva dos trabalhadores do Estado, que seria
exercida por meio dos sindicatos, entidades que
o artigo 8º da Constituição
investiu no poder-dever de defender os interesses
coletivos, além dos direitos coletivos
e individuais, das categorias profissionais. E
o direito de greve conferia ao poder social conformado
pelos sindicatos o exercício da autotutela
coletiva na sua forma extrema, deferindo ao legislador
a fixação dos termos e limites em
que ele seria exercido. Eles são reconhecidos
como direitos instrumentais. Ambos positivados
pelo direito com a finalidade de ensejar a negociação
coletiva, adotada no universo das sociedades democráticas
como forma superior de solução dos
conflitos de interesses entre os trabalhadores
e o Estado.
Ante a inscrição da liberdade sindical
nas constituições do segundo Pós-Guerra,
foi geral a institucionalização
da negociação coletiva no continente
europeu. E, em 1978, a OIT editou a Convenção
15l, visando a sua universalização.
Mas em nosso País os poderes constituídos
articulados resistiram ao avanço democrático
positivado pelo poder constituinte, prolongando
a velha ordem que proscrevia a atividade sindical
no setor público.
Ante a regulamentação
provisória do exercício do direito
de greve, já assegurada no julgamento de
mandado de injunção em curso no
STF, torna-se imperiosa para os trabalhadores
do Estado a regulamentação da negociação
coletiva. A motivação da corte,
explicitada por Gilmar Mendes, foi a necessidade
de estabelecer controles sobre as greves de servidores
públicos, consideradas excessivas. Nos
votos em curso, já ficou assentado que
serão adotadas provisoriamente as normas
da lei 7.783/89, que regula o exercício
da greve no setor privado, mas foi proposta por
Eros Grau a sua conversão em greve parcial,
com a imposição da permanência
de uma parte da categoria em atividade, em todos
os setores, para garantia da continuidade dos
serviços públicos.
A normatividade que será editada considera
suspenso o vínculo jurídico com
paralisação consertada do trabalho,
autorizando a suspensão dos salários,
remetendo para a negociação final
o seu pagamento. Além disso, prevê
recurso ao Judiciário, para declaração
de ilegalidade ou abusividade da greve, propiciando
a sua repressão. Isso favorece a estratégia
usada habitualmente pela administração,
de resistência à negociação,
remetendo o conflito para a situação
extrema de confronto representado pela greve,
agora podendo dispor de medidas objetivas de repressão,
formalmente instituídas.
Daí resulta a necessidade de institucionalizar
a negociação coletiva, para obrigar
a administração a conhecer e tratar
as demandas das categorias profissionais antes
das paralisações, antecipando significativamente
as negociações, que atualmente só
são iniciadas depois de um ou dois meses
de greve.
Em face da posição
assumida pelo STF, bloqueando a negociação
coletiva, é necessária emenda na
Constituição que consagre formalmente
a negociação coletiva das relações
de trabalho, essencial para evoluirmos para sua
democratização no interior do Estado.
Já está tramitando na Câmara
uma PEC que tem esse objetivo. Mas ele poderia
também ser obtido com a ratificação
da Convenção 151 da OIT, seguindo
o quórum especial do artigo 5º, parágrafo
3º, para que tenha o estatuto de norma constitucional.
Aprovada a emenda, deve ser editada lei regulamentando
o exercício do direito. Existe mais de
um projeto tramitando na Câmara e são
conhecidas propostas de diretrizes para essa regulamentação
aprovadas pela CUT. No projeto convém observar
que a lei deve:
ser enxuta, sem muitas definições,
tendo apenas as normas necessárias para
garantir a efetivação de um sistema
de negociações, evitando a extensão
dos debates;
instituir um sistema de negociação
permanente, definindo a formação
de mesas centrais e setoriais;
estabelecer que os representantes da administração
serão dirigentes com poder de decisão,
sem necessidade de consulta freqüente aos
escalões superiores no curso das negociações;
remeter para as mesas a definição
das representações das entidades
sindicais e do peso que terá cada uma;
a organização sindical no setor
público tendo sido espontânea, não
existe um sistema que permita predeterminar as
participações;
garantir a licença permanente de
representantes dos trabalhadores para dedicação
integral a essa relevante atividade sindical;
evitar a remessa das matérias versadas
à apreciação do Judiciário;
adotar o instituto da mediação
para superação dos impasses;
estabelecer a obrigatoriedade da negociação
determinando que ela abranja, além das
questões econômicas, normas relativas
à determinação das condições
de trabalho, à saúde e à
segurança no trabalho, às garantias
para a atividade sindical, às questões
relativas à previdência pública
e a outras questões oriundas da relação
de trabalho.
Agora, cabe ao
movimento sindical dos servidores públicos
pautar o debate sobre a negociação
coletiva, mobilizando e convergindo esforços
para institucionalizá-la.
Avanços
O avanço para os trabalhadores do
Estado com a institucionalização
da negociação coletiva é
previsível.
1 Obriga à negociação,
pode, com a sua reiteração, vencer
a resistência secular dos governantes, que
tende a perpetuar a imposição da
vontade unilateral do Estado nas relações
de trabalho, resistência fundada no princípio
de autoridade, que remanesce como ideologia nos
países periféricos.
2vFavorece a mobilização das categorias
profissionais com a repercussão das rodadas
de negociação no espaço público.
3 As mesas de negociação
permanente, integrando-se na arena pública,
conferem visibilidade às demandas das categorias
profissionais, propiciando diálogo com
a sociedade na medida em que as pautas incluem
habitualmente propostas para a defesa e a melhoria
dos serviços públicos.
4 Propicia o equacionamento do conflito,
com a identificação dos pontos de
pauta críticos e os pontos que tendem ao
acolhimento.
5 Estabelece a possibilidade de avanços
na determinação das condições
de trabalho, que via de regra não dependem
de lei, mas apenas de atos administrativos.
6 Favorece a convergência das categorias
profissionais para a formação de
pautas unificadas, abrangendo demandas de interesse
geral, nas Mesas Centrais constituídas.
Rogério
é advogado
Um
balanço positivo
Cristina
Lemos
Esta
edição da revista Direito &
Avesso é a última da gestão
Todos na Luta. Em 31 de agosto, assumiu a nova
diretoria, composta por boa parte dos membros
da gestão anterior, o que demonstra a confiança
da categoria no trabalho realizado.
Os últimos três anos foram marcados
pela luta incessante dos servidores do Judiciário
Federal gaúcho na defesa intransigente
dos seus direitos e na consolidação
das suas conquistas. Os ganhos da categoria, desde
1997, deram-se principalmente com Planos de Cargos
e Salários. A partir de 2004, a gestão
Todos na Luta esteve à frente para a conquista
do maior PCS até então. Naquele
ano, uma greve de 43 dias provocou o pagamento
da Gratificação da Atividade Judiciária
e a criação do Grupo de Trabalho
que elaboraria o futuro PCS (PCS-3).
O caminho foi longo e árduo, mas a vitória
veio, incontestável. Ainda estamos pressionando
pela regulamentação de diversos
pontos, mas não podemos esquecer o valor
de nossa luta para a criação da
lei 11.416/06.
Em todo o país, os servidores se mobilizaram
com paralisações, greves, caravanas
a Brasília. O Sintrajufe foi o único
sindicato a enviar representantes em caráter
permanente e nas convocações da
Fenajufe. Houve momentos em que direção
foi duramente cobrada pela categoria. A demora
dos tribunais superiores em enviar o projeto e
do Congresso em votá-lo, devido ao trancamento
da pauta, aliada ao cansaço natural depois
de greves e tantas atividades, gerou um sentimento
justo de indignação. A direção,
com maturidade, soube direcionar essa sensação
à cúpula do Judiciário, ao
Legislativo, ao Executivo, quando o presidente
Lula adiou ao máximo a sanção.
Foram momentos que engrandeceram a atuação
política dos servidores e que nos fizeram
crescer como categoria. Havia diferenças
entre nós, como acontece em qualquer lugar;
no entanto, soubemos superar as diferenças
em busca do objetivo comum.
A gestão
Todos na Luta impulsionou a formação
e a cultura. Além das tradicionais Sextas
Básicas, mensais, houve uma ampliação
do número de oficinas cultura oferecidas
e a expansão destas para o interior do
estado. Palestras sobre os mais diversos assuntos,
debates e cursos de formação foram
oferecidos.
Nesses três anos, o Sintrajufe teve presença
constante em atividades que buscaram ir além
das fronteiras das demandas específicas.
Dois exemplos fundamentais mostram esse movimento.
Um deles foi a concretização, juntamente
com os sindicatos representativos do funcionalismo
federal, estadual e municipal, do Coletivo de
Servidores Públicos da CUT/RS. Esse fórum
vem se monstrando atuante tanto no debate quanto
no encaminhamento de questões relativas
a esse segmento e aprimorou e qualificou a relação
da Central com os trabalhadores do setor público.
O segundo foi a criação do Fórum
Sindical de Saúde do Trabalhador (FSST).
O sindicato foi um dos únicos representativos
do funcionalismo a fazer parte da criação
da entidade e tem uma atuação destacada.
É um trabalho importante não somente
para nos aliarmos aos trabalhadores da iniciativa
privada, como para levar ao conhecimento desses
companheiros as dificuldades que enfrentamos em
nosso dia-a-dia funcional. O FSST conseguiu avanços
importantes na revisão das perícias
do INSS e promoveu debates sobre previdência.
O sindicato acompanhou os mais diversos grupos
sociais na luta por reforma agrária, educação,
trabalho, cultura, moradia, igualdade de gênero
e etnia... Participou das edições
do Fórum Social Mundial, das edições
do Grito dos Excluídos, da Marcha dos Sem,
enfim, nas atividades em que o foco era a busca
por uma vida melhor, uma sociedade melhor, o Sintrajufe
disse presente. E continuará
a dizer nos próximos três anos. Trabalharemos
por uma sociedade mais justa, igualitária,
sem machismo, sem homofobia e sem assédio
moral.
Boa luta para todos nós!
Cristina
é servidora da JF e diretora do Sintrajufe
O
trabalho adoece e mata, sim!
Mara Weber
Na luta capital
x trabalho, não é só a força
de trabalho que é vendida. Desde o princípio
do capitalismo, os patrões se julgam donos
dos trabalhadores, a ponto de lhes roubar o mais
necessário para a manutenção
da vida: a saúde. As transformações
tecnológicas aplicadas à lógica
neoliberal trouxeram mais pressão por produtividade,
assédio moral, exclusão, precarização,
enfim, novas formas de adoecer e morrer no trabalho.
Saúde no trabalho é uma questão
de direito humano e deve mover nossa energia,
como entidade sindical, a fim de entender, elaborar
e implementar um combate efetivo a toda forma
de negligência, falta de proteção,
abuso de poder e exploração.
No Brasil, cerca de 500 mil pessoas se acidentaram
e 2.708 morreram em 2005 em decorrência
do trabalho. E esse números representam
só quem tem carteira assinada. Estudos
como os da Fundacentro, vinculada ao governo,
apontam que a subnotificação pode
chegar a 80%. Ainda assim, essa tragédia
não é prioridade. Quando muito aparece
nas páginas policiais, como a morte de
um gari, terceirizado da prefeitura de Porto Alegre.
A observação no final da notícia
era que a morte provocou interrupção
da pista e transtornos ao trânsito. É
um exemplo da coisificação
dos trabalhadores pela lógica do mercado.
Mesmo com a conquista de legislação
protetiva, resultante de mobilizações
históricas do movimento sindical durante,
principalmente, o início do século
XX, a aplicação das leis é
um desafio. Falta fiscalização que
obrigue os empresários a implementar condições
de trabalho que garantam proteção,
treinamento, qualificação permanente
e ambiente humanizado de trabalho. Segundo o Instituto
Observatório Social, ligado à CUT,
os setores mais atingidos são indústria,
serviços e agricultura. Toda a sociedade
paga a conta pela falta de responsabilidade social
do empresariado. Segundo a Previdência,
para cada R$ 1,00 gasto, o país gasta mais
R$ 3,00, decorrentes de desemprego e redução
de produtividade.
Existem outros riscos, invisíveis, mas
não menos devastadores, como transtornos
mentais e assédio moral. Parece Idade Média,
mas em pleno 2006, na região sul do Brasil
temos registro de trabalhadora acorrentada a sua
máquina e só libertada depois de
atingir a meta de produção. É
apenas um relato que a pesquisadora Margarida
Barreto nos traz para desvendar os métodos
utilizados por muitas empresas para que os trabalhadores
sejam mais produtivos.
O serviço público não foge
dessa realidade. Tampouco o Judiciário.
Apesar de avanços na discussão sobre
a saúde, temos muito a fazer. Não
há regulamentação de fiscalização,
política efetiva de prevenção
ou acompanhamento dos trabalhadores adoecidos.
Não temos idéia do estatístico
oficial com adoecimentos por LER/Dort, transtornos
mentais, assédio. O Sintrajufe se guia
por pesquisa própria que aponta questões
sérias: 37,2% já procuraram tratamento
psiquiátrico ou psicológico e 43,2%,
tratamento por algum sintoma relativo a doenças
osteomusculares.
O setor público é particularmente
propício ao assédio moral, devido
ao ambiente rigidamente hierárquico. Sem
falar que os servidores foram vítimas do
que chamo de assédio institucionalizado,
patrocinado por vários governos e apoiado
pela mídia, com o propósito de encolher
os serviços públicos. O abalo da
imagem trouxe sofrimento, vergonha e humilhação
e, aliados a chefias despreparadas, adoecimento.
No Judiciário não há políticas
de prevenção a LER/Dort e, uma vez
adoecidos, os servidores se vêem desamparados,
desrespeitados nas perícias e discriminados
pelos colegas. É preciso enfrentar a situação,
sensibilizar-se com o sofrimento alheio e cobrar
responsabilidades. Todo ser humano deseja ter
prazer e bem-estar físico e mental, inclusive
no trabalho.
Mara
é servidora da JT e diretora do Sintrajufe
Meio
ambiente
Índices de poluição do RS
negam passado de pioneirismo na luta ambiental
Sirlei
Pastore
O
Rio Grande do Sul é berço de personalidades
e entidades pioneiras na elucidação
de questões ambientais. Entre os representantes
mais ilustres estão Luís Henrique
Roessler, fundador da União Protetora da
Natureza (UPN), José Lutzenberger, idealizador
da Associação Gaúcha de Proteção
ao Ambiente Natural (Agapan), e Balduíno
Rambo, um dos criadores do Museu de Ciências
Naturais da Fundação Zoobotânica
do estado.
Na década de 70, quando pouco se falava
em ecologia, surgiu um grupo de ambientalistas,
liderados pelo agrônomo José Lutzenberger,
que obteve muitas conquistas em termos de legislação
ambiental e regulamentação no uso
de pesticidas e de defensivos agrícolas.
Segundo a professora do departamento de Ecologia
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Catarina da Silva Pedrozo, muitos progressos
nessa área foram resultado do engajamento
desses ambientalistas gaúchos.
Em 2000, o Rio Grande do Sul foi o primeiro estado
a implementar uma Secretaria Estadual de
Meio Ambiente. No mesmo ano, também foi
aprovado o Código Estadual de Meio Ambiente.
O pioneirismo ecológico do Rio Grande do
Sul teve reflexo não apenas na política
ambiental do Estado, mas também na elaboração
da Constituição do país.
Faça
o que eu digo, não faça o que eu
faço. Apesar de o Rio Grande do Sul
ser referência pelo seu pioneirismo no ativismo
ambiental, no esclarecimento e na mobilização
da sociedade pelas questões ecológicas,
é um dos estados que registra maior índice
de poluição e contaminação,
por sua alta industrialização, inclusive
na agricultura, lembra a presidente da Fundação
Gaia, Lara Lutzenberger.
O estado não se diferencia muito da média
brasileira no que diz respeito à questão
ambiental. Segundo a Pesquisa Nacional
de Saneamento Básico (PNSB), realizada
em 2000, enquanto São Paulo oferece rede
de esgotos para 75,3% da população,
no Rio Grande do Sul o percentual de pessoas atendidas
é 2,7 vezes menor. Porto Alegre trata apenas
27% de todo o esgoto que produz. Isso significa
que 73% são jogados diretamente no Guaíba
sem qualquer tipo de tratamento prévio;
nesse montante existem resíduos de todos
os tipos, entre eles, os industriais, os esgotos
domésticos e os provenientes de hospitais.
O agravante é que a capital dos gaúchos
utiliza a água do lago para o abastecimento
público, alerta Catarina Pedrozo, professora
do departamento de Ecologia da Ufrgs. Quando se
leva em conta que aproximadamente 80% das enfermidades
no Brasil são causadas pelas más
condições de saneamento básico
e pela falta de água potável, é
possível visualizar a importância
que esse quesito tem para a qualidade ambiental.
O uso de produtos agrotóxicos também
é prática comum nos pampas. Dados
do Sistema Nacional de Informações
Tóxico-Farmacológicas (Sinitox)
de 1999 apontam para 66.584 casos notificados
de intoxicação humana no país.
O Sudeste aparece com uma proporção
de 42,37% do total das ocorrências registradas
e o Sul, com 33,65%. O alarmante é
que a contaminação resultante desse
processo produtivo agrícola não
fica restrita à área ou aos trabalhadores,
sendo exportada por meio da contaminação
ambiental (ar e água) e dos alimentos,
adverte a professora.
Mesmo sendo precursor em questões ecológicas,
o Rio Grande do Sul não tem cumprido a
legislação ambiental em vigor. O
zoneamento ambiental para a silvicultura do eucalipto
no Estado, elaborado por especialistas, está
sendo desconsiderado. Esse é um triste
retrocesso, lamenta Catarina.
Ambientalismo
é tratado como entrave ao desenvolvimento
No Dia Mundial
do Meio Ambiente, comemorado em 5 de junho, o
Núcleo Amigos da Terra Brasil (NAT Brasil),
movimentos populares e entidades sindicais divulgaram
uma carta aberta ao povo gaúcho com o objetivo
de denunciar a falta de uma política ambiental
séria no Rio Grande do Sul, que realmente
defenda o meio ambiente.
Segundo a coordenadora geral do NAT Brasil, Lúcia
Ortiz, no Rio Grande do Sul, assim como nos demais
estados da Federação, o processo
de licenciamento ambiental tem sido considerado
um entrave ao desenvolvimento econômico
do país. O licenciamento é um dos
instrumentos de gestão ambiental estabelecidos
pela lei federal 6.938/81, também conhecida
como Lei da Política Nacional do Meio Ambiente.
Os empresários reclamam das exigências
legais e ambientais para a implantação
dos seus negócios e esse lobby corporativo
tem influenciado a política ambiental do
Estado.
De acordo com Lúcia, instituições
como a Fundação Estadual de Proteção
Ambiental (Fepam) são pressionadas pela
Assembléia Legislativa e pelo atual governo
do Estado, que não possui um projeto de
desenvolvimento sustentável. Esses
organismos sofrem pressões das grandes
corporações, especialmente do setor
de papel e celulose.
Segundo o Secretário Estadual do Meio Ambiente,
Carlos Otaviano Brenner de Moraes, o número
de licenças emitidas pela Fepam aumentou
em decorrência da força-tarefa, criada
pela governadora Yeda Crusius, para enfrentar
a demanda que há muito tempo está
represada. Ao contrário do que afirmam
ambientalistas, Moraes garante que o atual governo
possui um projeto de desenvolvimento sustentável
e que esse faz parte do conjunto dos programas
ambientais. De acordo com o secretário,
o objetivo da política ambiental do estado
é assegurar o equilíbrio do meio
ambiente e a sustentabilidade em todas as suas
iniciativas.
O confronto entre ecologistas e governo acontece
também na esfera federal. Para Ricardo
Baitelo, integrante da comissão de energias
renováveis do Greenpeace, o governo precisa
reconhecer o trabalho dos ambientalistas e deixar
de acusá-los de atrapalhar o desenvolvimento
do país. Baitelo admite que o governo Lula
conseguiu reduzir pela metade o desmatamento,
mas lembra que ainda há um longo caminho
a ser trilhado pelos ambientalistas.
Catarina Pedrozo, professora de Ecologia da Ufrgs,
concorda que na visão dos governantes os
ambientalistas são um obstáculo
ao crescimento do país. Hoje é
notório que um ambiente sadio se reflete
na vida do cidadão. A professora
afirma que não existe desenvolvimento a
qualquer custo e que o progresso precisa estar
acompanhado da qualidade ambiental.
Brasil investe
em tecnologia para produzir energias alternativas
Apenas 10 dos
países mais ricos consomem cerca de 80%
da energia produzida no mundo. A matriz energética
é composta por petróleo (35%), carvão
(23%) e gás natural (21%). O Brasil está
investindo em tecnologia para produzir energias
alternativas. Os biocombustíveis são
fontes de energias renováveis, derivados
de produtos agrícolas como a cana-de-açúcar,
plantas oleaginosas, biomassa florestal e outras
fontes de matéria orgânica.
Atualmente, Brasil e Estados Unidos respondem
por 70% da produção mundial de etanol,
somando cerca de 35 bilhões de litros por
ano. O consumo mundial de combustíveis
de origem agrícola representa apenas 1%
do mercado global, dominado pelos combustíveis
fósseis.
A presidente da Fundação Gaia, Lara
Lutzenberger, considera os biocombustíveis
uma alternativa de produção energética
mais limpa, mas com limitações.
Ela explica que não há combustível
cuja eficiência se equipare à dos
fósseis e tampouco pode-se cultivar todo
o Brasil para a produção de energia.
É preciso reorganizar nossa sociedade,
atribuir um novo significado à riqueza
e fomentar negócios em uma escala mais
humana e localizada para garantir emprego, renda
e dignidade às pessoas.
O Greenpeace é a favor do uso da biomassa
como combustível de transição,
com utilização moderada e somente
para atender a demanda interna. A organização
é contra a exportação de
etanol para o resto do mundo porque entende que
dessa forma o Brasil estaria esgotando seus recursos
naturais para atender países que não
estão preocupados em rever seus hábitos
de consumo.
A professora da UFRGS, Catarina Pedrozo, quer
acreditar que a preservação
ambiental é a maior preocupação
das pessoas envolvidas na pesquisa que busca alternativas
limpas para a geração de novos tipos
de combustíveis, mas lembra que décadas
de produtos químicos desenvolvidos
com a idéia de que fossem eficientes a
um baixo custo geraram muitos passivos
ambientais.
*
Sirlei é jornalista
Iniciativas
energéticas fazem parte
de estratégias políticas e militares
Paulo Fagundes
Vizentini
A questão
energética deve ser colocada em perspectiva,
pois a globalização representa uma
luta dos países desenvolvidos (membros
da OCDE e G-7) para conservarem sua liderança,
retardando o desenvolvimento dos países
médios, aspirantes a uma posição
de desenvolvidos. Como estratégias anteriormente
empregadas (via regimes internacionais) para esse
fim falharam, ao menos parcialmente, a questão
da energia (um elemento vital para o desenvolvimento
econômico) passou a ser enfocada em termos
políticos e militares.
A luta militar é pelo domínio de
jazidas de petróleo e gás para manter
o controle do fornecimento de energia. Nesse contexto,
há uma tentativa de legitimar novas iniciativas
energéticas, disseminando o pânico
do aquecimento global. Obviamente a sociedade
de consumo piora as condições ambientais,
mas geologicamente são normais as ondas
de aquecimento e resfriamento, independente da
atividade humana. Nesse cenário existem
estratégias das grandes potências
e iniciativas localizadas das médias e
pequenas, como no caso do etanol.
O presidente Bush necessita conjunturalmente do
etanol, mas isso pode mudar rápido. Para
nós, o etanol é importante como
uma alternativa parcial, pois o petróleo
é finito. Há outras iniciativas,
de outros países, que também são
válidas, contribuições parciais
para uma futura matriz energética múltipla.
Porém, o essencial da questão é
evitar cair na armadilha de ondas de pânico
induzidas, visões simplistas e politicamente
corretas. Os países do Terceiro Mundo
têm o direito ao desenvolvimento e a certo
nível de consumo, e qualquer cálculo
sobre produção de poluição
deve ser per capita e não nacional. Afinal,
há tempos já temos o princípio
um cidadão, um voto; por que
não estender o princípio para a
área socioeconômica?
Mas a solução definitiva do problema
pode iniciar por uma campanha contra o consumismo
excessivo que caracteriza as elites e classes
médias (e dos países ricos), particularmente
desenhando um cenário substitutivo para
a chamada era do automóvel
como forma de transporte de massa, que representa
um absurdo econômico-ambiental. Sem isso,
continuaremos gerando mais problemas que soluções.
 |
Consumo
consciente faz a diferença
As dicas
dos especialistas para a preservação
do meio ambiente que podem ser incorporadas à
rotina do dia-a-dia são muito parecidas
com aquelas recomendações que se
ouve desde criança dos pais apagar
a luz, fechar a torneira e não demorar
no banho e estão intrinsecamente
ligadas aos hábitos de consumo.
Para o representante do Greenpeace, Ricardo Baitelo,
as pessoas podem começar por atuar em duas
frentes: desmatamento e energia. Como os gases
produzidos pela queima de árvores são
os grandes responsáveis pelo efeito estufa,
é importante verificar a procedência
da madeira na hora da compra.
Substituir
as lâmpadas comuns pelas fluorescentes é
uma alternativa ecológica e mais eficiente.
Utilizar aquecedor
solar para o banho no lugar do chuveiro elétrico
é outra opção, mas pouca
explorada no Brasil.
O Greenpeace
também incentiva o uso de carros a álcool
ou dos chamados automóveis flex, mas Baitelo
lembra que uma mudança de comportamento
efetiva seria as pessoas usarem mais transportes
coletivos, bicicletas ou se organizar em caronas.
As recomendações
da professora da Ufrgs Catarina Pedrozo são
simples e fáceis de serem implementadas.
Ações como não produzir tanto
lixo ou simplesmente separá-lo e não
desperdiçar água na hora de escovar
os dentes ou tomar banho.
No entanto diante
da crise ambiental que a humanidade atravessa
e da conseqüente exploração
equivocada dos recursos naturais, as questões
referentes ao meio ambiente adquiriram tal importância
que cada um fazer a sua parte já não
é suficiente. As pessoas precisam
tomar consciência de que a situação
está se tornando muito grave e cobrar dos
governantes o comprometimento com a qualidade
de vida da população e não
apenas com a precária situação
econômica do Estado.
Para a presidente da Fundação Gaia,
Lara Lutzenberger, poupar luz e água é
tão importante quanto priorizar produtos
duráveis, orgânicos e de produção
local. O mercado globalizado, que estimula
a produção em locais de menor carga
tributária, de mais fácil acesso
à rapinagem dos recursos naturais, em piores
condições de trabalho e que demanda
um investimento enorme em logística de
transporte e refrigeração, é
perverso e absolutamente insustentável.
Para Lara, cada um de nós precisa rever
seus valores, sua atitude cotidiana, buscando
minimizar seu impacto no planeta sob uma perspectiva
ampliada de tempo e espaço.
A representante do NAT Brasil, Lúcia Ortiz,
defende a redução dos padrões
de consumo e a valorização de alimentos
e derivados produzidos no local onde se vive.
Segundo ela, essas atitudes contribuem com o desenvolvimento
sustentável e refletem um consumo consciente.
Lúcia também incentiva as pessoas
a se engajarem em movimentos coletivos porque
algumas ações, como cobrar do governo
políticas ambientais mais eficientes, dependem
da sociedade organizada.
 |
Recursos
hídricos: colapso iminente
Alexandre
Junqueira
O encontro do
G-8, no dia 6 de junho deste ano, em Heligendamm,
Alemanha, reuniu os chefes de Estado dos países
mais ricos do mundo e, por conseqüência,
os maiores poluidores do planeta. Um dos temas
foram questões ligadas ao aquecimento global.
A agenda atual deveria destacar o vínculo
existente entre as questões que envolvem
o meio ambiente e o combate à pobreza.
Importante resgatarmos que, nas décadas
de 80 e 90, ou seja, apenas há duas décadas,
os ambientalistas que bradavam que o mundo sofreria
os efeitos do aquecimento global eram chamados
de ecochatos apocalípticos.
Atualmente, essa realidade não só
está presente como começa a pautar
o binômio desenvolvimento econômico/desenvolvimento
sustentável.
Agora, esses mesmos especialistas alertam para
o colapso iminente de nossos recursos hídricos.
Em 22 de março de 2001, no Dia Mundial
da Água, a ONG Tearfund, da Grã-Bretanha,
alertava que duas entre três pessoas em
todo o mundo correm o risco de ficar sem água
até 2025 e que, no último século,
o consumo mundial de água havia crescido
duas vezes mais rapidamente que a população
mundial. Atualmente, 1 bilhão de pessoas
já não têm acesso à
água e 2,2 milhões morrem anualmente
de doenças relacionadas a essa escassez,
segundo a ONG internacional Water Aid. Metade
da população mundial, mais de 3
bilhões, enfrenta problemas de abastecimento
de água.
A ONU estima que o suprimento de água diminuirá
em um terço em 20 anos devido ao aumento
da população, à poluição
e às mudanças climáticas
e que os dez rios mais ameaçados estão,
em sua maioria, na Ásia, na África,
na Austrália e na Américas, respectivamente.
A ONU também atenta ao fato de que a
cada ano, milhões de seres humanos em todo
o mundo são obrigados a recorrer a fontes
de abastecimento de água potencialmente
nocivas, o que perpetua uma crise humanitária
silenciosa. Expõe que hoje doenças
como a diarréia, decorrentes da baixa qualidade
da água consumida no mundo ou de sua falta,
matam mais do que a Aids e conclui: A escassez
de água é um dos maiores desafios
do século XXI.
Mas o dado mais alarmante talvez seja o de que
70% do recurso mundial de água é
consumido na agricultura, seguido pelo setor industrial.
Segundo a Tearfund, até 2025 o volume de
água para produção de comida
deveria aumentar em 50%, diante do crescimento
populacional, mas que, na realidade, haverá
redução da produção
de alimentos em 10% por absoluta falta de recursos
hídricos. Afirma que, com cada vez menos
água disponível, os países
pobres terão de fazer uma clara opção:
usá-la para a irrigação ou
para o dia-a-dia da população. E
o aumento de preços dos alimentos é
uma decorrência óbvia desses fatos.
O Brasil detém 11,6% de toda a reserva
de água doce disponível no mundo.
E, mesmo assim, segundo a Pesquisa Nacional de
Saneamento Básico (2000), do IBGE, 60%
das doenças que acometem a população
têm origem no uso de água de má
qualidade. O glaciólogo Jefferson Simões,
da Ufrgs, alerta que as geleiras dos Andes desaparecerão,
por conta do aquecimento global, em 15 anos. Simões
lembra que os rios da Bacia Amazônica são
quase que exclusivamente alimentados por águas
provenientes dessas geleiras, em seu processo
cíclico de degelo, e que esses reflexos
já são vistos na alteração
de regime de chuvas e no aumento da estiagem na
Região Centro-Oeste do país.
Para enfrentar esse desafio, o Grupo de Trabalho
das Nações Unidas para o Projeto
do Milênio em matéria de água
e saneamento reconhece que o desenvolvimento e
a gestão integrada de recursos hídricos
são essenciais para o êxito ou o
fracasso das metas a serem alcançadas para
evitar esse colapso. Os países em desenvolvimento
devem priorizar os investimentos e o gerenciamento
nessa área. É dado o momento de
haver uma conscientização urgente
do correto uso dos recursos hídricos, inclusive
no uso doméstico, pois vale lembrar que
80% da água que chega às casas é
descartada como esgoto.
Estamos diante de uma opção muito
clara: a de considerarmos esses dados como mais
uma investida dos ditos ecochatos
ou a de encararmos a situação como
algo muito grave e que exige providências
urgentes.
Alexandre
é taquígrafo do TRF e diretor de
base
Previdência
Um novo ataque ao funcionalismo?
Antônio
Augusto de Queiroz
Antes
mesmo da aprovação da lei complementar
requerida na Constituição para definir
as áreas em que podem ser criadas fundações
públicas, o governo encaminhou ao Congresso
o projeto de lei (PL 1.992/2007) que institui
o regime de previdência complementar para
os servidores públicos federais e cria
a fundação responsável por
sua administração. A definição
das áreas em que podem ser instituídas
ou autorizadas a criação de fundações,
objeto do projeto de lei complementar (PLP) 92/2007,
tem precedência em relação
à criação das fundações
por lei ordinária e, portanto, só
poderá ser submetida à deliberação
após a aprovação da lei complementar
exigida.
A criação da Fundação
de Previdência Complementar do Servidor,
sem a aprovação do projeto de lei
complementar que autoriza sua instituição,
não encontra amparo legal. Se a criação
de fundação não dependesse
de especificação de sua área
de atuação em lei complementar,
o governo não teria incluído tal
previsão do inciso VII do artigo 1º
do PLP 92/2007, como já mencionado. De
qualquer forma, o projeto de lei (1.992/2007)
que institui a previdência complementar
e cria a fundação responsável
por sua administração deve ser analisado
e esclarecido, já que afeta milhares de
servidores públicos federais, atuais e
futuros, inclusive de estados e municípios,
se optarem por aderir ao fundo da União,
que será multipatrocinado.
A conseqüência imediata da criação
e do funcionamento da previdência complementar
será a limitação da cobertura
do regime próprio, que atualmente equivale
à totalidade da remuneração
dos servidores dos três poderes e dos membros
do Poder Judiciário, do Ministério
Público e do Tribunal de Contas da União,
ao mesmo teto praticado pelo Regime Geral, a cargo
do INSS, atualmente fixado em R$ 2.894,28. Isso
significa que ao servidor admitido a partir dessa
data aplica-se, obrigatoriamente, esse limite
máximo, sendo-lhe facultado complementar
sua aposentadoria mediante adesão à
previdência complementar.
As mudanças são significativas entre
o regime próprio e o complementar. O primeiro,
que ficará limitado ao teto do INSS, é
de repartição, enquanto o segundo,
que será facultativo para a parcela da
remuneração que exceda ao teto do
INSS, é de capitalização.
Os planos de benefícios, no regime próprio,
são de benefício definido, o servidor
sabe previamente quanto terá de aposentadoria;
na previdência complementar, são
de contribuição definida, o servidor
sabe com quanto contribui, mas não tem
idéia de quanto terá de aposentadoria
ou pensão, o que depende da gestão
do fundo e do montante capitalizado.
A contribuição para o regime próprio
continuará de 11% e a da previdência
complementar será de, no máximo,
7,5%. No regime próprio da União,
o governo deve contribuir com o dobro do que contribui
o servidor, enquanto, no regime complementar,
a contribuição máxima do
empregador, no caso o governo federal, será
equivalente à contribuição
do servidor. Os atuais servidores que tenham ingressado
no serviço público até o
dia anterior ao início do funcionamento
da entidade de previdência complementar
poderão, mediante prévia e expressa
opção, aderir ao novo regime. Terão
o prazo de 180 dias após a instalação
do fundo de pensão dos servidores. Quem
optar pelo novo regime passará a contribuir
para o regime próprio (11%) até
o teto do INSS e, na parcela que exceder ao valor
de R$ 2.894,28, contribuirá para a previdência
complementar (7,5%).
Ao atual servidor que optar pela previdência
complementar será assegurado um benefício
especial, calculado com base nas parcelas das
contribuições recolhidas ao regime
de previdência acima do teto do regime geral,
a cargo do INSS, que será atualizado pelo
Índice de Preços ao Consumidor Amplo
IPCA. O servidor nessa condição
terá três benefícios na aposentadoria:
a) no regime próprio, limitado ao teto
do INSS, b) um complementar, equivalente às
reservas que acumular no fundo de pensão,
e c) o benefício especial, relativo ao
tempo em que contribuiu para o regime próprio
pela totalidade da remuneração.
A natureza pública
da previdência do servidor, requerida explicitamente
no parágrafo 15 do artigo 40 da Constituição,
que pressupunha a instituição de
uma fundação de direito público,
e não de direito privado, está sendo
contornada pela submissão à legislação
federal sobre licitações e contratos
administrativos, pela realização
de concurso público para contração
de pessoal, que será regido pela CLT, e
a publicação de demonstrativos contáveis,
atuariais, financeiros e de benefícios,
além da fiscalização do órgão
de regulador e fiscalizador da previdência
complementar. As despesas, inclusive de pessoal,
instalações e remuneração
da diretoria executiva, do conselho deliberativo
e do conselho fiscal da futura fundação,
serão custeadas com as contribuições
dos participantes, assistidos e do patrocinador
(União), dos resultados financeiros das
aplicações e de doações
e legados de qualquer natureza. A União,
no ato de criação, promoverá
um aporte de R$ 50 milhões a título
de adiantamento de contribuições
futuras.
O projeto de
lei 1.992/07, que institui o regime de previdência
complementar para os servidores públicos
federais, tem como relator o deputado Nelson Marquezelli
(PTB-SP)
Antônio
é jornalista e faz parte do corpo técnico
do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar
Conjuntura
O peleguismo no movimento sindical
Elmo Wyse
Rodrigues
Sidnei Rodrigues Vieira
1. Para quem
ainda não andou num cavalo dessa forma
encilhado, o pelego é das últimas
peças que se coloca sobre o lombo do animal,
para montá-lo.
Sua função é amaciar a cavalgada,
de modo que o cavaleiro não sofra, diretamente
no seu corpo, o efeito do contato das patas da
cavalgadura com o solo.
Daí então ter surgido, no Rio Grande
do Sul, essa imagem tão forte do sindicalista
pelego, que, com sua omissão ou atuação
do lado do governo ou do patrão, favorece
a manutenção do status quo, já
que tenta amenizar as contradições
advindas da questão social.
2. Pois foi no período de 1930-45, chamado
de Era Vargas, que se criou no Brasil essa forma
de conciliação de classes, de modo
que a grande maioria dos sindicatos brasileiros
serviu de correia de transmissão entre
o governo getulista e os trabalhadores.
No fundo, a idéia formulada por Getúlio
serviu também para enfraquecer e desmoralizar
os sindicatos, ainda que houvesse resistência.
3. Daí
se vê, conseqüentemente, que o peleguismo,
no seu bojo, tem duas características.
Uma delas é a defesa canina do governo
ou do patrão, mesmo que eles estejam retirando
direitos dos trabalhadores. A outra característica
é a sua permanente desmobilização
e alienação relativamente aos movimentos
grevistas. Afinal, se fossem organizar as categorias
contra os governos ou os patrões, e dando
nomes aos bois, não seriam pelegos.
4. Por esses
motivos, surgem em nosso meio várias interrogações.
Por exemplo, a CUT, sendo governista, ainda nos
representa? E os sindicatos a ela filiados não
deveriam discutir essa situação?
E a direção do Sintrajufe, estando
atrelada ao governo Lula, não deveria ser
mais questionada?
Isso tudo faz muito sentido. Há um marco
recente no movimento sindical do Judiciário
Federal, que é a Reforma da Previdência
do governo Lula/FMI, em 2003. Foi ela que dividiu
os servidores públicos e estabeleceu dois
lados. Um, que pensava poder tergiversar e dizer
que não queria aquela reforma,
mas não falava de sua autoria! Que pensava
ser possível estar do lado dos servidores
e, ao mesmo tempo, do lado do governo Lula/FMI.
O outro lado dizia, claramente, não querer
a reforma capitalista da Previdência, porque
era prejudicial aos servidores públicos
federais. Mais tarde, tendo vindo à tona
as denúncias do mensalão,
ficou esclarecido como ocorreu a compra dos parlamentares
que votaram contra nós, como também
se estabeleceu, nesse processo, uma grande crise
no Partido dos Trabalhadores.
5. Desde há
muito tempo, passando-se por Getúlio Vargas,
até os dias de hoje, continua-se a montar
em cavalos bem encilhados, com pelegões
vistosos.
Mas há muitos trabalhadores, estudantes,
desempregados que, ao observar essas cenas, dizem
que isso não pode mais continuar assim!
Elmo é
oficial de justiça da JT
Sidnei é
analista judiciário da JE e diretor de
base
Conjuntura
6º Congrejufe: turismo sindical e descaso
com os rumos da categoria
Ruy
Almeida
Do
Congrejufe, instância máxima de deliberação
da Fenajufe, a categoria espera pelos resultados
da discussão política, que norteiem
a luta pelos nossos direitos. Entretanto, no 6º
Congrejufe, realizado em março, a postura
da organização foi de total descaso
com o cronograma, enxugando debates sobre as nossas
necessidades. Essa postura fez com que a plenária
paralela do Luta Fenajufe fosse o único
evento de franco debate sobre nossos direitos.
Ademais, o excessivo luxo do Hotel Serrano e a
conveniente estrutura turística ensejaram
o esvaziamento do Congrejufe, denotando o viés
da escolha de Gramado como sede (por que não
Porto Alegre?). Vergonhoso.
No 1º dia
do evento, na apreciação de recurso
contra a fraude na eleição de delegados
do RJ (em que foram "eleitos" 12 delegados
a mais), a direção do sindicato
fluminense (pertencente à DS, corrente
do PT que detém a direção
do Sintrajufe/RS) tentou intimidar o plenário,
com o apoio de seus pares do RS. Entretanto, o
plenário aprovou o recurso, causando a
ruptura na direção do Sintrajufe
da época, entre os que defenderam a fraude
no RJ (DS) e os que bancaram o golpe das eleições
para a Fenajufe (CSC, do PCdoB), que se refletiu
nas eleições de junho para o nosso
sindicato. Ainda assim, ambas as forças
agiam em unidade para votar contra a consulta
à categoria sobre a CUT, mas não
sem antes entoar cantos da campanha de Lula. A
CUT é aparelho do governo Lula, e o Sintrajufe
foge do debate por temer a resposta.
Três chapas
disputaram a direção da Fenajufe:
de um lado, as chapas 1 e 3 (ambas compostas por
forças políticas ligadas ao governo
Lula), pregando a filiação à
CUT e toda a sua política imobilista; de
outro, a Chapa 2 - Luta Fenajufe, defendendo uma
alternativa autônoma em relação
a governos e de luta pelos direitos dos trabalhadores
do Judiciário e do MPU, da qual participaram,
representando a delegação gaúcha,
os colegas Cristiano Moreira (2ª VT de Canoas)
e Fagner Azeredo (JF de Novo Hamburgo), integrantes
do Coletivo Luta Sintrajufe.
O golpe sujo
e rasteiro da força majoritária
da Fenajufe foi a gota d'água. Ao verificar
ter perdido votos em relação ao
que se esperava (devido à ruptura da chapa
governista e ao fortalecimento do Luta Fenajufe),
foi proposta alteração no regimento
depois de encerrada a eleição, rompendo
o pacto realizado entre todas as forças
lá presentes, sob protestos das chapas
2 e 3, que retiraram-se do plenário. Essa
manobra acabou repetida pela DS na direção
do Sintrajufe que, de forma ilegítima,
cassou a proporcionalidade da direção
recém eleita, desrespeitando nosso estatuto.
Lá e aqui, a disputa por cargos se sobrepõe
aos reais interesses e necessidades da nossa categoria.
Apesar da consolidação
do Luta Fenajufe como movimento nacional independente
de luta pelos nossos direitos, restou do 6º
Congrejufe o sentimento de que os quase R$ 1 milhão
nele gastos pouco serviram para fortalecer a Fenajufe
para o próximo triênio.
Ruy é
servidor da 10ª VT de PoA e integra o Coletivo
Luta Sintrajufe
Conjuntura
As eleições de 2006
Gládis
Lorinda Ludwig
O governo Luiz
Inácio Lula da Silva, desde sua posse,
em 2003, praticou uma política neoconservadora,
afastou-se dos setores avançados dos trabalhadores,
envolveu-se numa crise institucional e preparou
o terreno para sua própria derrota no primeiro
turno das eleições presidenciais.
Assim, a oposição de direita, representada
por Geraldo Alckmin, pôde obter uma vitória
parcial, realizando sua meta de chegar ao segundo
turno. Ao mesmo tempo, o expressivo resultado
obtido por Heloísa Helena mostrou que a
esquerda, apesar de experimentar uma das piores
situações de sua história,
continuava bem viva e com respaldo popular.
A direita oposicionista encontrou fraca contestação
real por parte de uma esquerda em geral paralisada,
enfraquecida e desunida, uns pela prática
da adesão subalterna, outros por ainda
estarem dispersos, em fase de reorganização
e com base social restrita. Ademais, o nome palaciano
se beneficiou, no auge da crise institucional,
do refluxo nos movimentos de massas e da grande
tolerância com que as multidões pobres
aprovavam suas medidas compensatórias.
Foi absolvido pelo povo que comparou seu desempenho
com as mazelas tradicionais da sociedade política
brasileira. Deteve a máquina do Planalto
em suas mãos e a usou como quis, tendo
o primeiro mandato para se consolidar e
caso quisesse dizer a que veio. Os eleitores
negaram-lhe um cheque em branco, obrigando-o a
submeter-se ao segundo turno, e então viram-se
diante de apenas duas opções com
o mesmo conteúdo em seus aspectos fundamentais.
Uma representava a direita articulada diretamente
pelos interesses e forças políticas
do imperialismo estadunidense, dos magnatas financeiros,
da grande burguesia associada e do latifúndio,
as mesmas forças que haviam constituído
e sustentado os governos de Fernando Henrique
Cardoso, com seus métodos e propósitos
gerencial-privatistas, associados à corrupção
endêmica que assola, há muito e estruturalmente,
o capitalismo e o Estado brasileiros. Por sua
vez, a outra opção, a despeito da
origem social e histórica de seu representante,
de suas pretensões reformadoras anteriores
e de certos compromissos eleitorais firmados em
2002, adequou-se à sociedade política
e à hegemonia vigentes, deslizando, afinal,
para o discurso e a prática, predominantemente,
liberal-ortodoxos pela via social-liberal, caindo
na vala comum da pior tradição e
reproduzindo as mazelas de sempre.
Isso não quer dizer que as duas candidaturas
eram idênticas em tudo e por tudo. Na política
concreta, guardavam diferenças consideráveis,
algumas de certa importância no cenário
interno, de repercussão nas relações
exteriores e com incidência tática
nos combates sociais. Não por outro motivo,
vastas parcelas de nosso povo, há muito
condenadas a uma situação de abandono,
superexploração, discriminação,
sofrimento, humilhação e confusão
política, nutriam a intenção
de manter alguns dos projetos e posturas oficiais,
na esperança de melhorias em suas condições
de vida, ainda que superficiais e passageiras,
assim como na crença em resultados progressistas
por meio de uma disputa de rumos dentro do governo.
A eventual vitória do bloco PSDB-PFL consagraria
o velho estilo truculento e sem mediações
e traria de volta ao governo central a fração
mais hostil da grande burguesia paulista, que
tem, no seu currículo, entre outras características,
uma ligação direta com a cruzada
contra Cuba, o movimento operário-popular,
as forças progressistas e o fluxo revolucionário
na América Latina.
A idéia de omitir-se ou escolher o pior
teria penalizado mais ainda os pobres, enfraquecido
as forças de esquerda e relegitimado uma
variante já derrotada da hegemonia burguesa.
Portanto, no segundo turno, as correntes de esquerda
estavam diante, não de um dilema principista
ou de uma escolha moralista e abstrata, mas de
um problema típico de tática eleitoral
numa conjuntura concreta. A direita saiu derrotada
e isolada. Houve uma vitória não
simplesmente da política dos partidos governistas,
mas, no plano simbólico, do conjunto da
esquerda e do povo. Sem dúvida, o sentido
prático desse resultado se encontra limitado
pela hegemonia conformada nas candidaturas e na
coligação eleitoralmente majoritários,
cujos partidos e políticos controlarão
os postos mais importantes no Executivo e na Câmara.
Mesmo assim, o desfecho desse processo, não
exatamente previsto nos roteiros neoliberal e
social-liberal, acentuou as contradições
no campo situacionista e introduziu novos ingredientes
à crise da sociedade política burguesa,
alterando seus contornos, acelerando seu ritmo
e inaugurando uma nova conjuntura no país.
Gládis
é servidora da 30ª VT de Porto Alegre
e diretora de base
Conjuntura
O que Lula nos prepara?
David Landau
O
ministro Tarso Genro já disse: para ele,
não existe direito adquirido. Você
liga a televisão e ouve falar em corrupção
ou em reformas. Você já
viu o governo propor alguma reforma
para melhorar a nossa vida? Lula impõe
um congelamento salarial na lei para os próximos
dez anos, quer instituir uma nova idade mínima
para a aposentadoria e acabar com a integralidade.
Se o Congresso, o governo e todos os grandes partidos
vivem em função dos interesses econômicos
de uma minoria, quais são as armas que
temos para nos defender? Dentro da CUT estavam
todos aqueles que denunciavam o verdadeiro caráter
neoliberal, pró-elitista, antifuncionário
público e corrupto do governo FHC. E hoje?
Lula consegue ir além, fazer tudo o que
o governo anterior gostaria de ter feito. Você
já viu algum dirigente sindical do nosso
sindicato ou da CUT chamar o Lula de direitista
ou neoliberal?
Qual é
a nossa alternativa? Os dirigentes que continuam
ligados aos partidos do governo e à CUT,
como os da atual direção do nosso
sindicato (chapa 1), não armam o movimento
sindical para enfrentar o verdadeiro caráter
do governo Lula. No máximo, chegam a criticar
pontualmente uma medida aqui ou lá, para
parecer independentes. Vendem a idéia de
que o governo está sendo disputado, de
que se equivoca, de que só com uma negociaçãozinha
e um conselho nosso Lula pode acertar o rumo.
Na verdade, a CUT ajuda a elaborar e a legitimar
as reformas que tiram direitos dos trabalhadores.
Lula sabe muito bem quais os interesses que está
defendendo.
Mas, se você já está percebendo
isso, milhares de trabalhadores em todo o Brasil
também estão. Centenas de sindicatos
vêm rompendo com a CUT e construindo um
novo espaço para lutar contra o governo.
Onde isso ainda não aconteceu, oposições
como a nossa chapa 2 se organizam como alternativa
para os grandes embates que teremos para preservar
nossos direitos. Em nível nacional, a principal
alternativa é a Conlutas, uma nova central
sindical democrática e combativa. Em maio,
essa Central promoveu um encontro com mais de
6 mil representantes do movimentos sindical e
popular de todo o país, no qual se deliberou
por um calendário de mobilizações.
No último
23 de maio, a jornada de lutas contra o governo
mobilizou milhares de ativistas em todo o país
(mais de 3 mil pessoas em Porto Alegre, 3 mil
em Salvador, 5 mil em Florianópolis, 5
mil em Belém, 7 mil no Rio de Janeiro).
Na tentativa de realizar atos unificados, chegou-se
a se redigir um manifesto junto com a CUT no qual,
por pressão da Conlutas, ficava expressa
a crítica à política econômica
de Lula. Porém, na maioria das capitais,
a Central governista preferiu dividir as manifestações
para poupar o governo, e as suas iniciativas acabaram
redundando em fracasso.
Isso demonstra que, hoje, romper com a CUT não
é se isolar no movimento sindical. Pelo
contrário, significa somar forças
com os setores mais dinâmicos e que mais
crescem.
David é servidor do TRT e diretor de base
O
império das CPIs
Paulo
Martins de Lima Neto
Não
é de hoje que as CPI´s possuem um
importante papel no sentido de fiscalização,
do Legislativo e da sociedade sobre o poder Executivo.
A diferença é que antigamente a
Policia Federal não apurava quase nada.
As CPI´s se originavam de denúncias
de revistas e jornais muitas vezes, como no caso
PC Farias, com entrevista de Pedro Collor à
revista Veja e outros casos.
As coisas mudaram no Brasil, hoje em dia está
se falando em criação de CPI´s
após as prisões e inquéritos
efetuados pela PF, em diversas operações.
Então, se a própria Polícia,
que pertence ao poder Executivo está apurando
os fatos, se torna desnecessário que se
criem tantas CPI´s, como neste ano estão
sendo criadas. A oposição ao governo,
não se conformando com a reeleição
do presidente Lula, parece desesperada na tentativa
de criar fatos políticos e se esqueceu
que a função primordial do poder
Legislativo é criar e aprovar leis. A reforma
Tributária está empacada. A reforma
política não sai do papel, e alguns
deputados só pensam em criar CPI´s
e mais CPI´s, que em alguns casos trazem
poucos ou nenhum resultado, como a recente CPI
do mensalão em que apenas 3 ou 4 deputados
foram casados, mesmo condenados pela comissão
de ética do Congresso.
As Comissões Parlamentares de Inquérito
continuam sendo importante instrumento de fiscalização,
porém não podem ser usadas como
palanque eleitoral ou como palco para exposição
de deputados que querem aparecer, sob pena de
perderem sua credibilidade.
Paulo é
servidor da 2ª VT de São Leopoldo
Republicano
e democrático
Paulo Ribeiro
Montano
Fala-se
muito em governo republicano e democrático,
mas há, certamente, algumas divergências
quanto à concepção do que
seja uma república democrática.
Em primeiro lugar, cumpre lembrar que o termo
república significa coisa pública
e que o termo democracia significa governo do
povo. Daí em diante, prosperam as divergências,
pois o que é republicano e democrático
para uns não é para outros. Isso
é normal numa sociedade com classes sociais
antagônicas, em que o que parece bom para
uma classe pode não ser bom para outra.
As divergências no que tange à concepção
do que seja republicano e democrático começam
nos nomes dos partidos. O PFL, por exemplo, recentemente
mudou o nome para Democratas. Mas qual será
a sua concepção de democracia? Certamente,
não deve ser a mesma do PT, que traz em
seu nome a classe que pretende representar. Isso
para não falar nos partidos mais à
esquerda, que, dependendo da origem, podem (ou
podiam) pensar até em partido único
como sendo democrático.
Vejamos, também, os governos latino-americanos
identificados com a esquerda, como o de Chávez
na Venezuela, Evo Morales na Bolívia e
Rafael Correa no Equador. Esses presidentes foram
democraticamene eleitos pelo povo, mas há
quem os chamem de populistas e antidemocráticos.
Isso porque, para alguns, a palavra democracia
significa governo que me favorece
e não governo do povo. Não entrarei
na discussão sobre populismo, mas entendo
que, em não se tratando de Perón
na Argentina e Vargas no Brasil, é temerário
falar em populismo na América do Sul.
Mas, voltando à questão da concepção
de democracia, creio que a mudança de nome
dos liberais (ex-PFL) para Democratas tenha alguma
coisa a ver com o avanço da esquerda na
América Latina, pois, além dos três
presidentes anteriormente referidos, vale, também,
a referência a Daniel Ortega na Nicarágua,
bem como aos governos, de centro-esquerda, de
Lula no Brasil, Kirchner na Argentina, Tabaré
Vázquez no Uruguai e Michele Bachelet no
Chile. Acho que os liberais (hoje autodenominados
democratas), por se oporem a governos populares
(e não populistas, como querem fazer crer),
afirmam abertamente que estes não são
democráticos. Isso porque, para eles, democracia
não combina com conquistas populares.
A concepção
de república e do que seja republicano
também tem interpretações
divergentes. Vejamos, por exemplo, a atuação
recente da Polícia Federal no Brasil, que,
por meio de mandados assinados por juízes
federais, não escolhe nome nem posição
social. Para mim, a Polícia e o Judiciário
Federal têm dado demonstrações
de atuação republicana; porém,
há quem diga que estão sendo cometidos
excessos.
O próprio governo Lula, como um todo (incluindo
o Ministério da Justiça e a Polícia
Federal), tem dado demonstrações
de que é um governo republicano e democrático.
Mas não falta quem critique o perigo da
hegemonia de um grande partido. Na verdade, é
impossível agradar a todos, pois, como
já foi dito, a sociedade é dividida
em classes que têm interesses antagônicos.
Creio, entretanto, que o governo Lula, apesar
de também apresentar contradições,
tem se posicionado a favor dos mais pobres. Vejam-se,
por exemplo, os programas populares como o Programa
Universidade para Todos (ProUni) e o Bolsa-Família
(emergencial), que têm trazido benefícios
incontestáveis para as camadas mais pobres
da população. Por outro lado, o
governo Lula e o Banco Central têm sido
conservadores no que se refere à adoção
de uma política de crescimento econômico.
O Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC) é muito tímido e não
prevê a criação de empregos,
em número suficiente, de modo a atender
à demanda de desempregados no Brasil.
Todavia, isso
não retira o caráter republicano
e democrático do governo Lula, se comparado
aos últimos governos brasileiros (principalmente
Collor e Fernando Henrique). É claro que
se pode dizer que o governo Lula poderia ser ainda
mais republicano e democrático, mas o fato
é que o atual governo brasileiro fez renascer
a esperança de um povo sofrido. Aliás,
talvez, seja esta a grande obra do governo Lula:
levantar a auto-estima do povo pobre com atos
e medidas pautadas por um incontestável
espírito republicano e democrático.
Paulo
é analista judiciário da 27ª
VT de Porto Alegre
A
esquerda fora de foco
Silvana
Klein
Após
décadas de hegemonia do programa neoliberal
no mundo, ao contrário do que seus arautos
apregoavam, as condições de vida
da humanidade pioraram substancialmente. E não
poderia ser diferente. Trata-se de um programa
feito pelos grandes capitalistas para os grandes
capitalistas, com o objetivo de aumentar seus
lucros. As privatizações já
deram seus frutos aumentaram o patrimônio
da iniciativa privada tão somente. Ao contrário
de reduzirem a dívida pública, todos
os governos neoliberais entregaram a seus sucessores
Estados ainda mais endividados e com os serviços
públicos sucateados. O questionamento a
este modelo cresce em todos os cantos do planeta,
em especial na América Latina. E qual o
papel da esquerda frente a este quadro. Para mim,
de uma forma muito simples, é o de atuar
política e cotidianamente para transformar
em realidade a utopia de uma sociedade onde os
postulados democráticos, libertários
e de justiça social estejam realmente presentes.
Associar as reivindicações imediatas
do(a)s trabalhadore(a)s com a necessidade de um
programa de longo prazo para a humanidade é
tarefa histórica.
Alguns setores da esquerda, porém, parecem
não ter compreendido ainda o seu papel:
esquecem das reivindicações imediatas,
do cotidiano do(a)s trabalhadore(a)s; têm
dificuldade em identificar o real inimigo; agem
de forma autoritária e arrogante, reivindicando-se
donos da verdade revolucionária. Diz-se
que a mudança dos valores culturais é
mais traumática para a humanidade do que
a mudança dos referenciais econômicos.
Superar o machismo, o individualismo, o racismo,
tão entranhados em nossa cultura, é
essencial para construirmos uma nova sociedade.
Militantes que se dizem de esquerda e socialistas
não têm o direito de reproduzir estes
valores. Mas isso ocorre freqüentemente,
pois, para muitos, a militância de esquerda
se reduz hoje à luta contra o Governo Lula,
a CUT e o PT. Seus discursos não fazem
mais qualquer referência à igualdade,
solidariedade, generosidade, justiça social.
Perderam o conteúdo ideológico.
Este reducionismo tem levado à fragmentação
da classe trabalhadora, pois quem de algum modo
e em alguma medida se identifica com um daqueles
três monstros, é pelego,
traidor(a), imobilista, etc... E para fazer valer
suas opiniões vale tudo: votar contra questões
de interesse imediato da categoria para desgastar
a direção sindical (quem não
lembra do voto contrário ao PCS dos setores
vinculados ao Conlutas, sob os argumentos de que
havia um privilégio às gratificações
e de que deveríamos priorizar o reajuste
geral, na Plenária da Fenajufe, em junho
de 2005?); semear dúvidas sobre a honestidade
e o compromisso da direção sindical
com a transparência e a democracia; distorcer
fatos e plantar inverdades para confundir a categoria.
Como integrante da gestão que se encerra,
não tenho receio de reconhecer os erros
que cometemos, mas não aceito as críticas
inverídicas, pois nunca deixamos de estar
ao lado da categoria na defesa dos seus direitos
e da pauta construída coletivamente. E,
felizmente, isso foi reconhecido pela maioria.
Uma
boa luta para todos nós!
Silvana
é servidora da JT e diretora do Sintrajufe
Redução
da maioridade penal: Crime e castigo
Alan Carlos
da Silva
Neste momento,
tendo em vista a enorme crise ética, política
e econômica que atravessa a Nação,
a tendência dos medíocres é
a busca incessante de culpados para o fracasso
do sistema econômico capitalista. Mais uma
vez, o parlamento brasileiro cumpre seu papel
de defensor das classes dominantes e massacra
a maioria do povo, tenta impor à juventude
as responsabilidades pela barbárie que
as elites produzem.
A sociedade preconceituosa não
tem uma solução mágica que
justifique seus princípios, em especial
o da exploração indiscriminada e
da sua cruzada pelo lucro a qualquer custo. Essa
sociedade conservadora, que é a única
responsável pelo caos promovido e alicerçado
na lógica da propriedade privada dos meios
de produção, quer a condenação
do futuro deste país.
Agora, almeja a redução da maioridade
penal e a condenação sumária
dos jovens despossuídos. A Comissão
de Constituição e Justiça
do Senado Federal aprovou a redução
da maioridade penal de 18 para 16 anos de idade.
Todavia, é de nossa responsabilidade repassar
alguns dados estatísticos oficiais que
serão fundamentais para o debate: apenas
10% dos delitos são praticados por crianças
e adolescentes.
O verdadeiro arrastão político provocado
pela grande mídia, que faz acirrada campanha
hipócrita e falaciosa, distorce a realidade
e joga o povo contra seus próprios filhos,
pois a maioria dos delitos, cerca de 7% do total
dos 10%, são pichações e
outras traquinagens da mesma natureza, ou seja,
contra o deus patrimônio e não
contra as pessoas. Outro dado oficial é
de que, desde 1950, os crimes de adolescentes
não chegam a 8%.
Como se não bastasse o desemprego estrutural,
a exclusão do sistema educacional, agora
querem cadeia para os explorados. É impossível
enfrentarmos as mazelas da sociedade brasileira
olhando a violência como um fim, sem entender
que o problema precisa ser enfrentado com coragem
e vontade política. Devemos ousar mais
e exigir políticas que impeçam a
cooptação dos jovens pelo crime
organizado. Porém, o que está em
jogo é uma velha conhecida, a famosa luta
de classes desse sistema corrupto e assassino
que pune os já condenados, em especial
a população das periferias, constituída
majoritariamente por negros e operários.
Pratica-se uma luta sem tréguas pela exclusão
da juventude negra e pobre do sistema educacional,
bombardeiam-se as cotas raciais nas universidades
públicas, criticam-se os programas governamentais
de inclusão educacional no sistema privado.
Pretende-se impedir que os pobres entrem no competitivo
mercado de trabalho e ocupem os espaços
reservados para os filhos das elites. As concessões
com relação ao lazer passam por
deixar as crianças soltar pandorgas e foguetes,
mas somente se estiverem a serviço dos
bandidos. O tráfico dá a elas a
oportunidade que os empresários negam,
a de participar na divisão das riquezas
com seu trabalho ilícito. Permite
também que brinquem de mocinho e bandido
e que as armas sejam de verdade, assim podem morrer
mais rápido. As estatísticas mostram
essa realidade.
Preceitos constitucionais que garantem direitos
fundamentais são costumeiramente desrespeitados
pelas famílias, pelo Estado e pela sociedade.
A juventude é vítima da omissão
e da ausência de políticas básicas;
porém, quando dizemos isso, acusam-nos
de demagogos e até de defensores
dos direitos humanos, o que tornaram como
um conceito pejorativo no meio dos humanos.
Aos jovens pobres é permitido que freqüentem
ambientes promíscuos, onde podem exercitar
suas carências afetivas agredindo uns aos
outros e usando drogas, onde a venda de bebida
alcoólica é livre e o sexo, livre
e sem limites. Enfim, precisam aprender a ser
homens e mulheres desde cedo. Criadas
as condições mais perversas, empurram
a juventude para o atoleiro do vício e
da corrupção e, agora, querem sua
condenação sumária. O que
essas atitudes garantem é que os verdadeiros
bandidos, corruptos, fraudadores, ladrões
do dinheiro público fiquem esquecidos.
Toda a indignação popular é
dirigida contra a classe operária e seus
filhos esquecidos. É preciso que nos unamos
para defender a juventude brasileira e derrotar
a proposta das elites, verdadeiro crime contra
a Nação.
Alan
é servidor da JT e diretor do Sintrajufe
Saindo
do armário
ocupando as ruas!
Silvana
Conti
Sempre
foi proibido desejar outra mulher e, ainda hoje,
a sociedade e os moralistas de plantão
consideram o amor entre duas mulheres um pecado,
uma anormalidade, um desejo proibido.
O Papa ainda afirma que o divórcio é
uma praga, entende que o grande papel da mulher
é procriar e cuidar da família e
que as lésbicas e os gueis são pessoas
que necessitam de ajuda da medicina.
Todas as mulheres têm direito à liberdade,
ao respeito, à dignidade, à saúde,
à educação, à assistência
social e à cultura, independentemente da
sua orientação sexual. A orientação
sexual é um direito humano!
Em certos países
muçulmanos, uma relação amorosa
e sexual entre duas mulheres merece um castigo
que vai da flagelação pública
à pena de morte. Afeganistão, Arábia
Saudita, Barein, Irã, Kuwait, Qatar, Chechênia,
Sudão e Iêmen: nesses países,
a vida das lésbicas está gravemente
ameaçada. No Paquistão, podem ser
castigadas com prisão perpétua e
com chicotadas.
Nos Estados Unidos e em muitos países,
recorreu-se a terapias de conversão,
a fim de, sob pressão, transformar a orientação
sexual lésbica na heterossexualidade normativa.
Em numerosos países, as lésbicas
são submetidas a tratamentos psiquiátricos
sob o pretexto de que seu amor pelas mulheres
é uma patologia. Esse diagnóstico
contraria os parâmetros da Organização
Mundial de Saúde (OMS), que reconhece,
sem julgar, a diversidade de orientações
sexuais.
Na Turquia, o governo proibiu a realização
do primeiro congresso de solidariedade homossexual
que deveria ter ocorrido em Istambul. Na Índia,
salas de cinema foram incendiadas pela multidão
enfurecida, por exibirem o filme Fogo e desejo,
em 1998, que narra a relação amorosa
entre duas indianas.
A maioria dos países não adotou
uma lei que proíba a discriminação
por orientação sexual. Não
reconhece os casais de mulheres, nem social nem
juridicamente. Muitas lésbicas perdem seu
emprego; outras, a guarda de seus filhos. Algumas
têm negado o acesso a moradia. Em muitos
países, incluindo os ocidentais, uma mulher
não pode declarar seu amor por outra mulher
sem correr o risco de provocar o repúdio
de sua família, de sua comunidade, sem
arriscar-se a ser trancada num hospital psiquiátrico
ou numa prisão ou ser condenada à
pena de morte. Outros fatores que igualmente limitam
a possibilidade das mulheres de escolherem livremente
viver seu amor por outras mulheres são
a lesbofobia, a intolerância, os preconceitos
nos textos religiosos, nos meios de comunicação
e na literatura, a falta de informação
objetiva e de campanha de educação
sobre a orientação sexual. Todos
esses meios de coerção freqüentemente
obrigam ao casamento heterossexual mulheres que
sentem atração por outras mulheres.
A questão
não é ser lésbica, mas, sim,
a lesbofobia que enfrentamos a cada dia, que exclui
e tão brutalmente destrói vidas
e sentimentos, impedindo que nos expressemos livremente.
É preciso considerar o processo de exclusão
existindo a partir de determinadas opções
ideológicas, de classe social, gênero,
raça/etnia, orientação e
expressão sexual, condições
sociais e individuais exigidas para atingir as
suas necessidades. Portanto, é um processo
múltiplo que se compõe de situações
de apartação de condições
de autonomia do desenvolvimento humano, qualidade
de vida, dignidade e igualdade de direitos.
Temos que avançar para além
da solidariedade, pois só haverá
justiça social quando as questões
da livre orientação e expressão
sexual se tornarem uma bandeira de toda a sociedade
brasileira. A busca do respeito pela diferença
e a promoção da felicidade devem
ser vistas como fundamentais para uma agenda social
neste milênio.
Temos que continuar nos desafiando e lutando por
políticas públicas que incluam ao
invés de excluir. Quem sabe possamos construir
algumas alternativas no final deste artigo, em
nossas vidas, em nossa comunidade, no Brasil,
no mundo... Quem sabe? Pensando numa possível
resposta, Clarice Lispector já dizia:
Liberdade é pouco. O que eu desejo
ainda não tem nome.
Referências
Documento de informação
sobre o direito das lésbicas do comitê
de reconhecimento das lésbicas da Federação
de Mulheres de Quebec. Montreal, 1998.
CONTI, Silvana.
Opressão de gênero e lesbofobia:
até quando? 29 de agosto Dia Nacional da
Visibilidade Lésbica! Porto Alegre, 2006.
(mimeo).
KOTLINSKI, Kelly.
Legislação e jurisprudência
LGBTT. Brasília: Letras Livres, 2007.
POCAHI, Fernando.
Um mundo de injúrias e outras violações:
reflexões sobre a violência heterosexista
e homofóbica a partir da experiência
do Centro de Referência em Direitos Humanos.
Rompendo o silêncio, Nuances, 2007.
Silvana é
filha da Oxum, lésbica feminista, educadora
da rede municipal de ensino de Porto Alegre, presidente
do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher e
membro da executiva nacional da Liga Brasileira
de Lésbicas
Projeto
leva discussão de sexualidade para as escolas
Marcelo
Antunes
Em
2004, a Unesco realizou uma pesquisa nacional
com 5 mil docentes das redes pública e
privada. O levantamento apontou que a homossexualidade
é um comportamento considerado inadmissível
por quase 60% dos entrevistados. A resposta a
esse cenário foi o projeto Construindo
Identidades, que objetiva qualificar professores
e funcionários das escolas públicas
na questão da diversidade de expressão
e da orientação sexual, para que
esse profissional saiba lidar com a sexualidade
dos alunos, com a homofobia em sala de aula, com
o preconceito e com a discriminação
no ambiente escolar,
Desenvolvido pelo grupo Somos Comunicação,
Saúde e Sexualidade, o projeto foi formatado
entre 2005 e 2006 e conseguiu o financiamento
do Ministério da Educação
para capacitar 50 gestoras de escolas públicas
estaduais de Porto Alegre e Região Metropolitana
no combate à homofobia e à discriminação
em razão do gênero. E realmente o
fez após cinco meses de intensa negociação
com a Secretaria Estadual de Educação.
A parceria possibilitou que o projeto fosse levado
a professoras de 25 escolas de Porto Alegre, Alvorada,
Canoas, Gravataí, Cachoeirinha, Viamão,
Novo Hamburgo, São Leopoldo e Charqueadas.
É um trabalho subjetivo, em que não
há o certo e o errado. O importante é
fazer refletir e entender a sua prática,
afirma Cláudia Penalvo, coordenadora técnica.
O projeto, para alcançar os fins, usou
como meios oficinas, filmes, clipes, notícias,
seminários e CD-ROM contendo textos selecionados,
propostas de atividades, história do movimento
GLBT, testes sobre a temática abordada,
dúvidas mais freqüentes e expressões
mais utilizadas, entre outros.
Ao mesmo tempo em que, entre as escolas, as realidades
eram as mais diferentes possíveis, Claúdia
afirma que no início também havia
muita desconfiança por parte dos docentes.
As professoras achavam que o projeto se
resumia a aulas e que ficariam ouvindo uma pessoa
falando sobre o tema. No final do processo, notamos
que as professoras também estavam mudando,
na utilização de maquiagem, na mudança
no corte do cabelo ou no uso de roupas mais transadas.
E as gestoras começaram a notar mais as
diversas situações ligadas ao preconceito
e à homofobia. E o que é melhor:
começaram a intervir. Para trabalhar
essas questões, é necessário
que a pessoa tenha isso resolvido dentro de si.
Ao começar a se perceber, percebe o outro,
afirma Cláudia.
O projeto foi
selecionado para a II Mostra Nacional de Saúde
e Prevenção nas Escolas, realizada
em junho na Universidade de Brasília (UnB).
Se Construindo Identidades foi positivo para os
professores e escolhido para ser apresentado em
uma mostra nacional, o mesmo não aconteceu,
no início de 2007, no governo Yeda Crusius.
Procurada para dar início às tratativas
para a continuidade do projeto em outras escolas
da rede estadual, a chefia do gabinete pedagógico
da Secretaria de Educação (SEC)
foi clara: o projeto não interessava ao
novo governo e não era prioridade para
a gestão que ali se iniciava.
Mas a negativa não arrefeceu os ânimos
do grupo em continuar com o trabalho. Em agosto,
o projeto foi reiniciado, em parceira com a Faculdade
de Psicologia da Universidade Federal do RS. No
total, são 80 professores, divididos em
três grupos que participam dos trabalhos.
Passados alguns meses da recusa da SEC em continuar
a parceria, foi anunciada, em agosto, sua prioridade
em relação à política
educacional no estado: unir turmas para lotar
classes com até 50 alunos como forma de
escamotear a falta de professores.
Saiba
mais: www.somos.org.br
Marcelo
é jornalista
Caso
RCTV abre debate sobre caixa-preta das concessões
públicas
Katia Marko
A não-renovação
da concessão da emissora privada Radio
Caracas Televisión (RCTV), que venceu em
27 de maio, pelo governo da Venezuela tem gerado
muita polêmica. E se tornou um terreno bastante
fértil para um debate que a mídia
brasileira não parece disposta a encarar:
as concessões de canais de rádio
e TV.
As concessões são públicas,
têm prazo de validade e podem ser canceladas
pelo Congresso Nacional, embora isso não
seja comum, já que no Brasil são
necessários votos de 3/5 dos parlamentares
para não renovar uma concessão.
E, por incrível que pareça, apenas
em 2006, foi possível conseguir do Ministério
das Comunicações dados sobre quem
detêm as concessões no Brasil. Isso
era considerado segredo de Estado.
Um fato novo
surgiu. A Comissão de Ciência, Tecnologia,
Comunicação e Informática
da Câmara dos Deputados aprovou, no dia
30 de maio, um relatório com propostas
de mudanças na tramitação
de concessões de rádio e TV e apontamentos
para ampliar o controle da população.
As normas valem para os processos que chegaram
à Câmara a partir do dia 1 de julho
e devem acelerar a tramitação de
renovação e outorga de rádios
e TVs, segundo a relatora, a deputada Maria do
Carmo Lara (PT-MG).
No ato normativo que orienta a atuação
da comissão a partir de julho, fica eliminada
a possibilidade de devolução do
processo ao Ministério das Comunicações
para solução de eventuais pendências.
Se, no prazo de 90 dias, as pendências detectadas
na Câmara não forem resolvidas pelas
emissoras, o processo será distribuído
para relatoria com recomendação
pela rejeição.
A comissão também vai criar, no
sítio da Câmara, um sistema de consulta
sobre a propriedade das rádios e TVs no
país. A expectativa é que o sistema
comece a ser alimentado ainda no segundo semestre
deste ano. Inicialmente, estarão disponíveis
os dados referentes aos processos que chegarem
à Casa.
Somente neste
ano, por exemplo, vencem as outorgas de estações
controladas diretamente pela Rede Globo (Recife,
Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro
e Belo Horizonte), pela TV Cultura, pela Record,
pela Bandeirantes (todas de São Paulo)
e as estações do grupo gaúcho
RBS em Porto Alegre e Florianópolis. E
mais 80 emissoras de rádios FM e 73 de
rádios AM.
Segundo o professor da PUC/RS Pedrinho Guareschi,
pela Constituição, televisão
e rádio são um serviço outorgado,
isto é, não podem ter donos,
são concessões dadas
por um determinado período de tempo para
prestar serviços como educação,
arte, cultura, respeitando os valores éticos
e sociais (art. 221). Os meios de comunicação
social não podem, direta ou indiretamente,
ser objeto de monopólio ou oligopólio
(art. 220, parágrafo 5º). Mas
o caso brasileiro registra uma escandalosa concentração
dos meios de comunicação nas mãos
de poucos.
Katia é
jornalista
 |
ENTREVISTA: Beto Almeida
Concessões
públicas não são vitalícias
O governo venezuelano não
renovou a concessão da emissora RCTV
em maio. Desde então, ouvem-se muitas
críticas na imprensa mundial. O que não
se ouve é que a RCTV é o canal
com mais infrações e suspensões
de transmissão entre 1976 e 1989. Os
motivos vão de difusão de notícias
falsas e tendenciosas a material pornográfico.
Há ainda os processos por sonegação
fiscal e veiculação dos discursos
militares a favor do golpe de 11 de abril de
2002. Enganar o Fisco e incitar o povo a um
golpe de Estado são ações
puníveis constitucionalmente em qualquer
democracia. Pior se for uma concessão
pública.
Também é pouco que só não
foi renovada a concessão para uma das
emissoras do grupo 1BC (1 Broadcasting Caracas),
que continua operando com empresas de rádio,
TV a cabo, internet e fonográficas. Na
opinião do diretor multinacional da Telesur,
o jornalista brasileiro Beto Almeida, o governo
Hugo Chávez quebrou um tabu ao não
renovar a concessão da RCTV na Venezuela.
Confira a entrevista exclusiva ao Direito &
Avesso.
Qual
sua opinião sobre a decisão do
governo venezuelano de não renovar a
concessão da RCTV?
Almeida: Ela representa quebrar um tabu de intocabilidade
do controle das oligarquias sobre as concessões
públicas que elas consideram que sejam
vitalícias, mas não são.
Como isso nunca é discutido, o tabu se
instala. A decisão retira o véu
que impedia de vermos que o espaço radioelétrico
é patrimônio público.
Hugo Chavez tinha noção
da reação que enfrentaria?
Almeida: Com certeza. Justamente por isso esperou
o esgotamento do prazo da concessão e
usou a prerrogativa que a Constituição
confere ao Executivo. A Venezuela é o
único país com uma lei específica
que responsabiliza a mídia. A histeria
da oligarquia deve-se ao fracasso dos partidos
de oposição, que têm sido
sucessivamente derrotados nas urnas. Os verdadeiros
partidos da oligarquia vinham sendo os meios
de comunicação, cujo caso mais
evidente era o da RCTV.
Tem sido divulgado que Chávez
fechou o canal...
Almeida: Há uma grande diferença
entre não renovar e fechar um canal.
A empresa RCTV continua intacta e pode produzir
programas e transmiti-los por cabo, internet
ou satélite. Mas não pode mais
fazê-lo pelo espaço radioelétrico
público. É importante chamar a
atenção para decisões idênticas
adotadas por vários países, entre
eles, os EUA por mais de uma centena de vezes
desde 1934. E mais recentemente por Inglaterra,
França, Espanha e Chile. Em nenhum desses
casos houve essa campanha histérica.
Por quê?
Almeida: Porque o que está em jogo é
uma campanha contra uma transformação
social. A Venezuela paga o maior salário
mínimo da América Latina. Erradicou
o analfabetismo, dado confirmado pela Unesco,
recuperou para o patrimônio público
os setores antes privatizados. Reduziu drasticamente
a mortalidade infantil, anunciou um cronograma
de redução da jornada para 6 horas
até 2010 e está levando a cabo
uma reforma agrária de fato.
Também está
sendo criticada a criação da TV
Pública, a Teves.
Almeida: É fundamental destacar que não
houve o fechamento de um canal e sim a abertura
de uma nova TV, obedecendo ao princípio
legal que obriga a criação de
uma TV de serviço público. Com
a Teves, está sendo oferecida uma possibilidade
de exibição para toda uma produção
independente que estava silenciada. E pasmem
os críticos, na Venezuela existem 48
TVs abertas controladas pelo setor privado e
somente duas pelo Estado. E não são
raras as vezes que o setor privado critica Chávez.
Que conseqüências
essa decisão pode ter no Brasil?
Almeida: A sociedade foi alertada de que o espaço
radioelétrico é concessão
pública, não vitalícia.
Pode-se perguntar quando terminarão as
atuais concessões ou quanto pagam pelo
uso desse espaço, se é que pagam.
O debate deve ser trazido à tona pelas
entidades dos trabalhadores. Fica patente a
necessidade de uma discussão de fundo.
Devolver a concessão para a RCTV resolve
o problema do oligopólio dos meios de
comunicação nas mãos das
elites? Sob a lógica concentracionista
do mercado, é possível garantir
à sociedade a liberdade de expressão?
E a discussão maior: o que é a
liberdade de imprensa, que não pode ser
confundida com liberdade de empresas se expressarem
ao arrepio da lei. Isso é libertinagem
empresarial, e não liberdade de imprensa.
Dia 5 de outubro
expira o prazo da Globo
O Seminário
da Coordenação dos Movimentos Sociais
(CMS) sobre Comunicação, dia 24
de agosto, em São Paulo, definiu 5 de outubro
quando expiram as concessões da
Globo como data simbólica para ações
de rua e no Congresso que fortaleçam a
campanha pela democratização da
mídia. O mote Concessão pública
só com controle social, questiona
a manipulação privada e ressalta
a necessidade de parâmetros legais mais
rígidos e transparentes para as emissoras.
O controle público é fundamental,
pois antes de um negócio, a comunicação
é um serviço, disse o representante
do Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicacão, Celso Schroeder.
Saiba mais
O ex-repórter
da Globo Luiz Carlos Azenha disponibilizou em
seu sítio (http://viomundo.globo.com/)
o documentário
A revolução não será
televisionada, filmado e dirigido pelos irlandeses
Kim Bartley e Bonnacha OBrien.
As razões
que levaram o governo de Hugo Chávez a
não renovar a concessão pública
da RCTV estão expostas no ocumento Libro
blanco, que pode ser acessado em www.mct.gob.ve.
Fique
por dentro
Homens contra
a violência
Neste ano, o
Brasil vai registrar, pela primeira vez, o Dia
Nacional de Mobilização dos Homens
pelo Fim da Violência contra as Mulheres,
em 6 de dezembro. A data foi instituída
pela lei 11.489/07 e lembra o massacre de mulheres
em Montreal. Em 6 de dezembro de 1989, um estudante
de 25 anos entrou armado na Escola Politécnica
da Universidade de Montreal gritando que queria
acertar apenas as feministas. Após matar
14 alunas, o homem deixou um bilhete no qual dizia:
As mulheres são responsáveis
pelos fracassos dos homens; toda mulher que cruza
o caminho de um homem bem-sucedido deve ser castigada;
e as mulheres bem-sucedidas não aceitam
serem protegidas por um homem.
As mulheres assassinadas tornaram-se um símbolo,
uma representação trágica
da injustiça praticada por homens violentos
e inspiraram a Campanha do Laço Branco.
Trata-se de uma mobilização mundial
de homens pelo fim da violência contra as
mulheres. A principal meta é estimular
a mudança de atitude e comportamento dos
homens. A campanha é desenvolvida nos Estados
Unidos, na Espanha, na Noruega, na Austrália,
na Namíbia, na Finlândia, no Japão,
na Dinamarca e na Suécia, entre outros.
A
violência não é natural. É
um comportamento aprendido.
Marcos Nascimento, do Instituto Promundo
A
orelha de Van Gogh
O
conto A orelha de Van Gogh, do escritor gaúcho
Moacyr Scliar, foi adaptada para os quadrinhos.
A história integra a coletânea de
quadrinhos Tempero verde, do cartunista e produtor
gráfico do Sintrajufe, Leandro Dóro.
O lançamento foi na 12ª Jornada Nacional
de Literatura de Passo Fundo. A orelha de
Van Gogh é um conto que me fascina desde
a adolescência. O pai sonhador e o filho
com consciência das loucuras do progenitor
sempre me tocaram, diz o autor.
A revista apresenta mais sete histórias,
ambientadas entre as décadas de 30 e 50.
Mademoiselle Marchand é em homenagem à
música de mesmo título de Júpiter
Maçã. Amazona e Efebo apresenta
é uma história policial de amor
com seres antropomorfos, no caso, cavalos. Gotijo
e New Kids são memórias da infância
e da adolescência do cartunista. Sputnik
lembra os 50 anos do satélite russo; Outros
carnavais mostra a relação entre
descendentes de italianos e negros no Carnaval
de Passo Fundo; Dois iguais, sobre o contrabando
e os pracinhas da FEB na Segunda Guerra Mundial.
Saiba mais:
Revista em papel reciclado
44 páginas
Vendas: e-mail leandrodoro8@hotmail.com
Valor: R$ 5,00, com frete incluso, para o RS,
e R$ 7,00 para os demais estados
Web: www.leandrodoro.zip.net
Trabalho escravo
A Organização
Internacional do Trabalho, o Instituto Ethos e
a ONG Repórter Brasil desenvolveram um
sistema de busca facilitado com base no Cadastro
de Empregadores da Portaria 540 de 15/10/2004,
conhecida como lista suja, divulgada pelo governo
federal. Dessa forma, as empresas signatárias
do Pacto Nacional para a Erradicação
do Trabalho Escravo podem consultar se determinada
propriedade ou seus fornecedores estão
na relação. O acesso a esse banco
de dados é livre e as informações
são constantemente atualizadas com base
nas informações fornecidas pela
Secretaria de Inspeção do Trabalho
do Ministério do Trabalho e Emprego.
O endereço é http://www.reporterbrasil.org.br/listasuja/index.php
O velho e
bom rock
Em tempos de
mesmice, regravações, acústicos
e afins, é no cenário independente
que surgem as novidades musicais que mostram que
o rock está longe de morrer. Reunindo em
doses bem medidas o folk de Bob Dylan, o rock
histriônico do The Who, a melodia bem acabada
dos Beatles e o bom humor da música italiana
mistura que, bem feita, está longe
de ser indigesta cinco gaúchos com
muita experiência musical e milhares de
quilômetros de estrada no currículo
se uniram para dar origem aos Locomotores. A banda
é formada por Jerônimo Bocudo
no baixo, Maurício Fuinha e
Márcio Petracco nas guitarras, Alexandre
Papel Loureiro na bateria e Luciano
Szafir Leães nos teclados.
O grupo apresenta um rock honesto e sem firulas.
Na internet, www.locomotores.com e www.locomotores.com/hotsite,
pode-se ouvir todas as músicas do primeiro
CD, que leva o nome do grupo. Os integrantes continuam
trabalhando em outros grupos, mas têm na
Locomotores sua grande aposta e dedicação.
Vale a pena se emocionar. O e-mail do grupo é
contato@locomotores.com.
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Um libelo contra a cultura
do vencer sempre
Marcelo Antunes
Na
cultura estadudinense, cuja tese propalada aos
quatro ventos e acreditada pela maioria dos
mortais é a que todos têm a sua
chance na terra da liberdade e da prosperidade,
poucas coisas são piores do que ser visto
como um looser (perdedor). Esse é o mote
(ou pelo menos deveria ser) do filme Pequena
Miss Shunshine (Little Miss Sunshine, EUA, 2006),
dos diretores Jonathan Dayton e Valerie Faris.
Na película, uma família que a
maior parte da cobertura da mídia brasileira
colocou como estranha, diferente,
embarca em uma Kombi para atravessar o país
e ir atrás de mais um concurso de miss
infantil para a caçula do clã,
Olive (Abigail Breslin). O estranho e diferente
da família é que ela é
composta por um pai (Greg Kinnear) que tenta
vender uma receita de sucesso espécie
de kit de auto-ajuda que inclui livro, palestra,
CD e DVD, mas um fracasso comercial ,
um avô (Alan Arkin) viciado em heroína,
um tio (Steve Carell), expert em Proust e com
tendências suicidas, um filho (Paul Dano)
leitor apaixonado por Nietzsche que resolveu
não pronunciar mais nenhuma palavra enquanto
não for aprovado em teste para piloto
de caça, uma mãe (Toni Collette)
não muito diferente das que conhecemos
e, finalmente, uma garotinha que tem tudo para
ser muita coisa, menos miss do que quer que
seja.
No início do filme,
levando-se em conta o ritmo e o estilo de vida
da maioria dos filhos de George Whasington,
a tendência é acreditar, sim, que
aquela família não passa de um
grupo de perdedores ou de desajustados. Não
somente isso, mas também de pessoas sem
um pingo de senso crítico em relação
a si mesmas ou às coisas que as cercam.
Mas, com o desenrolar inicial, o que fica em
nossa mente é a espera do tal concurso,
para o qual a apresentação da
menina, com fixação em ser miss
infantil, está sendo supervisionada (e
treinada) pelo avô. E é justamente
na apresentação de Olive que todas
as diferenças familiares convergem para
um único e memorável ponto.
Espécie de road movie que de certa forma
repete os cacoetes do gênero (transformações
dos personagens na linha de tempo em que dura
a viagem), Pequena Miss Sunshine nos mostra
o quanto se deve fazer ou querer para ser aceito,
ou não, dentro deste que é o modelo
mais claro do american dream. Pequena Miss...
é de uma simplicidade desconcertante
que desfere um tapa na cara da hipocrisia americana
(e na nossa também).
Entre prêmios e indicações,
Pequena Miss Sunshine fez, digamos, uma carreira
brilhante no circuito internacional de festivais.
No mais comercial e de maior abrangência,
o Oscar, levou Melhor Ator Coadjuvante (Alan
arkin) e Melhor Roteiro Original, além
de ter sido indicado nas categorias de Melhor
Filme e Melhor Atriz Coadjuvante (Abigail Breslin).
Também agregou ao currículo o
César de Melhor Filme Estrangeiro, Prêmio
de Público nos festivais de San Sebastian
e de Estocolmo, Prêmio Especial no Festival
de Deauville e Melhor Diretor, Atriz e de Público
no Festival de Tóquio. Como se não
bastasse, a equipe de Pequena Miss... também
foi agraciada com estauetas ou indicações
no Independent Spirit Awards, no Bafta, no MTV
Movie Awards e no Grammy.
Nada mal para um filme realizado fora dos padrões
de Hollywood e que, por problemas financeiros,
levou cinco anos até ficar pronto. A
demora se deu, principalmente, pela desistência
do estúdio Focus Features em rodar a
história depois de ter comprado os direitos.
A solução viria com a recompra
pelo produtor Marc Turtletaub. A rendenção
não estava distante. Após aparecer
no Sundance Film Festival, a todo-poderosa Fox
Searchlight sentiu cheiro de dinheiro e pagou
US$ 10,5 milhões para distribuí-lo,
ante os apenas US$ 8 milhões
do seu custo.
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Lila Ripoll
mulher de lira e de luta
Landro Oviedo
A
poesia de Lila Ripoll não é dada
a experimentalismos formais e lingüísticos,
à metapoesia. É toda ela um coração
aberto, pulsando livre, falando tanto do leitor
quanto dela mesma. Seu temas são universais,
o amor, a infância, a solidão,
o tempo inexorável, a rebeldia, o inconformismo
diante de uma realidade excludente e injusta,
o massacre dos valores de solidariedade. Sobre
Lila, assim se referiu Manoelito de Ornellas
em Máscaras e murais da minha terra (1967):
Se a poesia de Lila pode servir a uma
causa, o motivo que arrebata o poeta para o
canto incisivo e contundente não estará
no enumerado dogmático de um programa,
mas na vida palpitante das criaturas humanas,
nas ruas da cidade ou nos múltiplos conflitos
do mundo.
Os versos de Lila têm cadência,
ritmos, assonâncias, aliterações,
soluções naturalmente encontradas
na inspiração, no brotar espontâneo
da amealhação textual. Os versos
heptassílabos de Canção
do esconde, esconde, do livro Coração
descoberto, mostram de sua maestria na tessitura
do poema.
Solidão brinca comigo
um jogo de esconde, esconde.
Desaparece um momento
e surge não sei de onde.
........................................
Solidão se esconde e volta,
mói a vida, o sonho, o amor.
Ai! jogo de esconde-esconde
Esconde também a dor.
Os poemas sobre a infância
mostram que a Lila poetisa já habitava
a pequena e melancólica Lila que percorria
o reduzido mundo da casa na bucólica
Quaraí. A poetisa vê na natureza
um refúgio diante de um mundo hostil,
uma reiteração de si mesma nos
elementos da natureza. Outro tema recorrente
pode ser sintetizado em Piedade para os meus
mortos, de Céu vazio (1941). Ela canta
o abandono dos entes idos, que um dia foram
a afirmação da vida e hoje estão,
indefesos, inertes, sob a ação
indiferente da chuva, do frio e da instável
memória dos vivos.
(...) Eu tenho pena dos meus mortos.
Está chovendo tanto agora.
Deve haver frio nos outros portos.
A chuva cai . Nossa Senhora
tenha piedade dos meus mortos.
A solidão existencial
está desnuda, inteira, a consumi-la no
soneto Quase sem mudança..., do livro
De mãos postas. Nele, ela inventaria
sua vida com o realismo dos desesperançados.
Sozinha. Sem ninguém para querer
ou desprezar... Sozinha pelos dias,
pelas noites... Se o sol vai-se a morrer
ou se a sombra estendeu melancolias...
Sozinha. Nenhum laço
a me prender.
Nem ódio. Nem amor. As mãos vazias.
Sem gestos para o adeus. Olhos sem ver...
Fantasma, a suspirar por alegrias...
Voltar à terra quase
sem mudança.
Corpo de velhinho, alma de criança.
A vida, os meus brinquedos escondeu...
Voltar à terra como
vim: sozinha.
Os cabelos iguais aos da avozinha,
e a alma ingênua: assim como nasceu...
A poesia de Lila Ripoll,
sua força inútil,
como a definia Vinícius de Morais, não
ficará indiferente a um mundo desordenado,
de subjugação do ser humano por
outros seus pares. É preciso dar voz
aos que não têm voz, é preciso
cantar um novo tempo, é preciso sair
do casulo, é preciso dizer que há
dores imanentes à condição
humana e há dores frutos de relações
sociais desvirtuadas, com a ganância de
uns corrompendo a felicidade de outros. Não
há dores justas, mas há dores
injustas. Para estas, a saída é
instaurar um mundo reformado. Então surge
a militante marxista, a poetisa das causas sociais,
como em Primeiro de Maio, um poema avulso editado
como caderno em 1954. Retrata a repressão
a uma passeata de trabalhadores em Rio Grande
(RS), criminosamente reprimida pela Brigada
Militar.
(...) Crianças, homens, mulheres
o povo unido cantava.
O povo simples da rua,
comovido se abraçava.
E o povo toma as ruas:
Espontâneas as filas se formavam
e ergueram-se a cantar.
Em seguida, em nome da lei e da ordem,
a polícia chega para dar o ar da sua
desgraça.
E logo uma palavra subiu clara,
atravessando homens e mulheres,
como um fino punhal.
A polícia,
a polícia, companheiros
E houve um leve arquejar. E alguém falou:
Avançar, companheiros, avançar
Era Recchia investindo desarmado
E a onda contida transbordou.
A pena da poetisa recorreu
às brumas do tempo para eternizar em
versos mais um episódio de crueldade
contra os trabalhadores num país de memória
curta, onde massacres como o de Carajás
(PA), Leme (SP) e Praça da Matriz (RS)
se banalizam sob a indiferença dos donos
do poder, que se acumpliciam sem pudores com
o crime.
A poesia de Lila Ripoll pode ser visualizada
em duas esferas, que se complementam. Uma é
a do poeta voltado para seu mundo interior,
numa herança simbolista, num enfrentamento
meramente emotivo, desproporcional, ao caos
impositivo do mundo circundante. O eu-lírico
tenta inutilmente resistir e sua poesia é
seu sangue a verter em feridas abertas, de cicatrização
duvidosa na chaga individual.
Outra linha da poesia de Lila temos na temática
engajada, de cunho social. Essa produção
é mais ordenada, mais narrativa, mais
cartesiana, pois há um fim pedagógico
nela: registrar e convencer o leitor a aderir
aos seus propósitos. Neste caso, os fins
justificam os meios e os fins são a decorrência
natural dos meios. Uma boa causa não
salva um poeta, já disse alguém.
No caso de Lila, a causa lhe é um tema
caro como qualquer outro e ela sobre ele discorre
com sua costumeira maestria. Diz a poetisa que
considera sua poesia social a parte mais frágil
de sua obra. A crítica apressou-se a
lhe fazer coro. Todavia, nem sempre podemos
crer no que alguém fala de si mesmo,
já alertava Marx. E a temática
social da autora se nutre da mesma seiva de
um Castro Alves, por exemplo, num canto de protesto
pelas mazelas seculares de uma sociedade iníqua.
Houve um tempo em que muito se falou em resgatar
Lila Ripoll, olvidada num país sem leitores.
Em seu favor, bradaram vozes como as de Walmyr
Ayala, Patrícia Bins, Cyro Martins, Lara
de Lemos, Elvo Clemente, Carlos Jorge Appel,
Lea Masina e a professora Maria da Glória
Bordini, responsável pelo fascículo
dedicado à poetisa na coleção
Letras Rio-Grandenses, do Instituto Estadual
do Livro. Também Maria da Glória
Bordini organizaria a antologia temática
Ilha difícil (1987) pela
Editora da Ufrgs.
Em 1998, a dívida com a obra de Lila
foi alentadamente abatida com o lançamento
de sua Obra Completa pelo Instituto Estadual
do Livro, então sob a presidência
do escritor Arnaldo Campos, e Ed. Movimento,
com a decisiva participação das
professoras Alice Campos Moreira e, novamente,
Maria da Glória Bordini.
Hoje, talvez já não se possa mais
alegar descaso com a poesia de Lila. Graças
a alguns abnegados, ela está disponível
para os leitores mais atentos. A poetisa muito
pediu piedade e preces para os seus mortos.
Nós, que por ora habitamos este mundo
emaranhado dos vivos, podemos ler sua obra como
uma homenagem póstuma para quem tanto
se entregou em poesia. A voz de Lila Ripoll
cada vez canta mais alto e é um canto
de sereia para seduzir os corações
abertos dos que encontram em seus versos lenitivos
para as dores da alma e esperanças de
contemplar uma nova aurora onde o dol surja
no horizonte, sem eclipses, para iluminar a
todos.
Breve cronologia
1905
Nasce em Quarai, a 12 de agosto.
1915 Freqüenta o Colégio
Elementar de Quarai.
1927/1928 Muda-se para Porto Alegre e
cursa o conservatório de música,
hoje Instituto de Artes da Ufrgs.
1930 Ingressa no magistério estadual.
1934 Seu primo, irmão de criação
e mentor intelectual Waldemar Ripoll é
morto por conta de suas atividades políticas.
Lila volta-se para o Partido Comunista.
1935 Aprofunda sua ligação
com o movimento da Aliança Nacional Libertadora
e começa sua atuação cultural
e política no Sindicato dos Metalúrgicos.
1938 Lança De mãos postas
pela Barcellos & Bertaso, futura Livraria
do Globo.
1939 Passa a integrar o gabinete do secretário
de Educação do RS, Coelho de Sousa.
1941 Lança Céu vazio pela
Livraria do Globo, Prêmio Olavo Bilac
da Academia Brasileira de Letras.
1944 Casa-se com o engenheiro Alfredo
Luís Guedes, que a apoiou nas atividades
políticas e culturais.
1945 Publica poemas em A Província
de São Pedro a convite de Moysés
Vellinho.
1947 Lança Por quê? pela
Editorial Vitória.
1949 Falece o marido de Lila Ripoll.
1950 Concorre a deputada estadual pelo
Partido Comunista.
1951 Exerce o jornalismo no comitê
editorial da revista Horizonte.
1951 Participa da organização
do 4º Congresso Brasileiro de Escritores.
1953 Participa de um encontro internacional
pela paz em Buenos Aires.
1954 Publica Primeiro de maio, poema
social em quatro cantos.
1955 Vai a Moscou para o Congresso Internacional
dos Partidários da Paz como delegada
do Brasil.
1957 Publica Poemas e canções
em cadernos da Horizontes.
1958 Sua peça Um colar de vidro
estréia no Theatro São Pedro;
sucesso de crítica e público.
1961 Lança O coração
descoberto.
1964 É presa pelo regime militar.
Libertada logo após devido ao seu estado
de saúde, debilitado por um câncer.
1965 Finaliza Águas móveis,
com maior apuro formal, segundo Cyro Martins.
1967 Lançamento de sua Antologia
poética, uma iniciativa do poeta Walmyr
Ayala, com edição conjunta da
Editora Leitura, Instituto Nacional do Livro/MEC.
A autora participa da seleção,
mas não chega a ver a obra impressa.
1967 Morre Lila Ripoll e é enterrada
no cemitério da Santa Casa em Porto Alegre.
Fontes: Coleção
Letras Rio-Grandenses e Obra completa, org.
de Alice Campos Moreira.
Bibliografia
1938 De mãos
postas, poesia.
1941 Céu vazio, poesia
1947 Por quê?, poesia
1951 Novos poemas, poesia
1954 Primeiro de maio, poesia
1957 Poemas e canções,
poesia
1958 Um colar de vidro, teatro, inédita
1961 O coração descoberto,
poesia
1965 Águas móveis, poesia,
com edição posterior
1967 Antologia poética, poesia
1968 Cadernos do Extremo Sul, org. Sérgio
Faraco
1987 Ilha difícil, org. de Maria
da Glória Bordini
1998 Obra completa, poesia e teatro
Obs.: não foram relacionadas aqui obras
coletivas ou textos esparsos de periódicos.
.............................................................
(...) Oh, enveredar
por esse mundo livre
e ser uma entre as árvores
que formam o volume
do teu rosto.
Enveredar por esse mundo livre.
Conhecer a geografia
do teu peito. Misturar-me
à conversa das folhas
e adivinhar o casamento secreto das raízes!
.............................................................
Há uma comunidade
no Orkut sobre a obre de Lila: http://www.orkut.com/Community.spx?cmm=15858641
Chamem
a Lila!
Sabemos
que o livro aproxima as pessoas e, não
raro, forja grandes amizades. A coisa que os
intelectuais descobrem quando chegam a uma cidade.
Foi assim, numa livraria, que conheci a Lila
Ripoll e logo nos identificamos. E a Lila passou
a freqüentar, além da Vitória,
a minha livraria, o meu apartamento, ali na
Lucas de Oliveira, onde minha mulher, Iara,
a recebia como uma lírica mensageira
da liberdade. Aí já estávamos
no início da década de 60 e a
Vitória, a livraria impertinente, já
aprontava das suas. E foi justamente pela impertinência
que a Vitória caiu no gosto da nossa
inesquecível poetisa.
Militante da esquerda revolucionária,
a Lila estava sempre disposta a conquistar o
Palácio, o que era desnecessário,
pois o governador a considerava gente da casa.
Nos sábados, quando acontecia, lá
em casa, o que chamávamos de salsichão
lítero-musical dançante,
a Lila recitava seu poema mais recente. Alguns
do nosso grupo não conseguiam conter
as lágrimas.
Valente Lila, doce Lila, das letras e das músicas,
da guerra e da paz. Os amigos, que eram muitos,
andavam à sua volta, como a protegê-la.
Mas, nas horas difíceis, quando, por
exemplo, algum dos nossos ia preso, o que acontecia
com certa freqüência, a ordem emanada
da cúpula do partido era: Chamem
a Lila!.
Arnaldo Campos, escritor
e amigo pessoal de Lila Ripoll, exclusivo para
esta edição do Direito & Avesso
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