|
Tempo
presente
Chega até vocês o D&A,
nossa revista. Após uma greve de 45 dias
pelo PCS, arrancamos um acordo entre o STF e o
governo federal. Nessa batalha, em cada prédio
do Judiciário, estivemos mobilizados em
Porto Alegre e no interior. Os servidores das
justiças Federal, Trabalhista e Eleitoral
mostraram organização e firmeza
na luta pela nossa qualificação.
A vitória no Congresso, com três
meses de pauta obstruída, só se
deu porque a categoria estava atenta, o governo
e os tribunais conheceram nossa força.
Mais que nunca, cumprimentamos as direções
do movimento estadual e nacional, que souberam
o momento certo de avançar e de parar,
sem perder o foco.
No período da greve, quando os trabalhadores
se uniram para alavancar a tramitação
do PCS, assistimos a episódios que nos
causaram pesar. Quando a luta de todos deveria
convergir para a construção de estratégias
objetivas, verificamos que não bastava
visualizar o nosso possível inimigo à
frente, era preciso enfrentar ratos roendo a corda
que nos mantinha unidos. A cada assembléia,
víamos colegas equivocados, com manifestações
que distorciam a interpretação dos
rumos do movimento. Aproveitando o quórum
de assembléias gerais e emocionados pela
presença de tantos colegas mobilizados,
remetiam a discussão para aquilo que mais
lhes convinha. Os alvos foram vários: o
governo Lula, a CUT, o Comando Nacional de Greve,
a Fenajufe. No afã de usar a palavra, não
percebiam que as assembléias se esvaziavam.
Há que se ter responsabilidade para dirigir
a greve e serenidade para entender o que o plenário
tem a dizer. Os trabalhadores do Judiciário
do RS souberam que rumo tomar, o interesse de
todos não foi suplantado pelo de poucos.
A valorização do serviço
público, a jornada de seis horas e a criação
de cargos fazem parte de um contexto de lutas
no país e na América Latina que,
somente organizados e unidos, poderemos obter.
Existe somente uma idade para a gente ser
feliz, somente uma época na vida de cada
pessoa em que é possível sonhar
e fazer planos (...) em que todo o desafio é
mais um convite à luta que a gente enfrenta
com toda disposição de tentar algo
NOVO, de NOVO e de NOVO, e quantas vezes for preciso.
Essa idade tão fugaz (...) chama-se PRESENTE
e tem a duração do instante que
passa (Mario Quintana).
Boa leitura!
Dois anos de luta e uma grande
vitória
Cristina
Feio de Lemos e Marcelo Antunes
Com a aprovação
do projeto pelo plenário da Câmara
dos Deputados (5/9) e pelo Senado (6/9), os servidores
do Judiciário Federal em todo o país
finalmente puderam comemorar esse êxito
na defesa dos seus direitos. Era a última
possibilidade prática de termos o PCS aprovado
antes das eleições de outubro. Contudo,
a vitória, como não poderia deixar
de ser, foi conseguida sob muita luta e organização
daqueles que acreditaram que somente assim, com
mobilização e união, é
que os trabalhadores, sejam do setor público,
sejam do privado, têm seus anseios atendidos.
O projeto prevê que a primeira das seis
parcelas do PCS será retroativa a junho.
A última está prevista para dezembro
de 2008.
Até a aprovação pelo Congresso,
o caminho dos servidores foi trilhado por mais
de dois anos de mobilização nacional,
partindo da criação da Comissão
Interdisciplinar do STF em maio de 2004 até
a tramitação dos projetos no Legislativo.
Para chegar ao resultado final, os sindicatos
filiados venceram um calendário de mobilização,
incluindo-se aí reuniões ampliadas,
plenárias, seminários, debates,
atos públicos e uma grande greve, envolvendo
a categoria de todo o país. Da mesma maneira
como ocorreu com os outros PCSs, esse também
foi resultado da união da categoria, cujo
objetivo era a reestruturação dos
cargos e salários. Para isso, demonstrou
muita disposição em continuar a
luta até o resultado final, fazendo com
que as dificuldades encontradas no meio do caminho
não fossem suficientes para qualquer desânimo.
Esse PCS, juntamente com toda a luta travada pela
sua aprovação, incluindo a paralisação
em novembro do ano passado e a greve realizada
em maio e junho deste ano, pode ser considerado
mais um marco na história do Judiciário
Federal. A Federação lembrou em
sua página na internet, logo após
a aprovação do texto em plenário,
que várias foram as tentativas para
acabar com o movimento, como as retaliações
e a ameaça de corte de pontos, sendo que
em alguns estados os servidores tiveram o ponto
cortado e desconto dos dias parados.
Mas a categoria reagiu. Foram mais de 60 dias
de mobilizações intensas, atos públicos,
assembléias e paralisações
para garantir o avanço na tramitação
do PL 5.845/05. A exemplo de outras mobilizações,
os colegas do interior cumpriram com firmeza a
sua parte. Pararam, fizeram atividades nas suas
cidades e vieram a Porto Alegre nas assembléias
e para grandes atos públicos.
Vários também foram os momentos
de acirramento da luta a partir do dia 31 de agosto
do ano passado, data em que o projeto foi protocolado
na Câmara dos Deputados. Um dos momentos
críticos neste processo ocorreu logo após
o ingresso do projeto na Comissão do Trabalho,
Administração e Serviço Público.
Dois meses depois, sem entrar em votação,
o PL teve a sua tramitação interrompida.
Isso porque, com a constituição
do Conselho Nacional de Justiça (CNJ),
a Lei de Diretrizes Orçamentárias
determinou que os projetos de lei que provocassem
repercussão no orçamento do Judiciário
precisariam de um parecer prévio do CNJ.
Diante de mais de um adiamento da votação
por parte do Conselho, de 24 a 29/11 do ano passado
os servidores pararam suas atividades e deram
um claro recado tanto para o governo como para
a cúpula do Judiciário: ou o projeto
tramitava e era aprovado ou então a categoria
deflagaria uma greve com o propósito de
ter as suas reivindicações atendidas.
A unidade e a mobilização da categoria
naquele momento garantiram a recolocação
do projeto nos trilhos da tramitação.
Desde então, o que vivemos foi a realização
de inúmeros atos públicos, caminhadas
e assembléias, culminando com a entrada
dos servidores na greve nacional. Houve diversas
idas de colegas a Brasília, contato com
todos os parlamentares no Congresso e reuniões
com integrantes do governo e do STF em busca de
uma equação que possibilitasse a
implementação do plano ainda em
2006.
Enfrentamos, por fim, os percalços políticos
de um ano eleitoral, a Câmara teve sua pauta
obstruída por medidas provisórias
e ficou sem votações do plenário
por mais de três meses, com o chamado recesso
branco dos parlamentares. Mas, no fim, tudo isso
valeu a pena. Saímos fortalecidos, conscientes
da força da organização e
da unidade dos trabalhadores e com a certeza de
que unidos em torno de um ideal coletivo estará
assegurada a vitória.
2005
22/8 >> Depois de quase um ano de discussões
e debates, o projeto de reestruturação
do PCS é enviado pelo STF ao Congresso
Nacional e protocolado sob o número 5.845/05
na Comissão de Trabalho, de Administração
e Serviço Público.
14/9
>> O Sintrajufe promove um seminário
sobre a revisão do PCS para os diretores
de base.
Outubro
>> O PL 5.845/05 é aprovado na Comissão
de Trabalho, de Administração e
Serviço Público, mas tem sua tramitação
suspensa. O motivo: a LDO exige que toda proposta
que cause impacto financeiro necessita de parecer
do então recém-criado Conselho Nacional
de Justiça para ser levada ao Congresso.
24
a 29/11 >> Paralisação em
todo o Brasil a fim de pressionar o CNJ a dar
parecer favorável ao PL 5.845/05.
29/11 >>
O CNJ dá parecer favorável ao projeto
e indica o parcelamento em no máximo três
anos. No mesmo dia, no RS, os servidores fazer
uma caminhada no entorno dos prédios da
Justiça Federal em Porto Alegre e assembléia
geral. É o fim de um movimento grevista
vitorioso, mas com a certeza de que a manutenção
da mobilização é fundamental.
2006
30/1 >>
Em reunião com a Fenajufe, o diretor-geral
do STF, Miguel Fonseca, diz que o tribunal iniciou
os contatos com o Ministério do Planejamento
sobre o PCS.
26 e 27/4 >>
A categoria pára por 48 horas e entra em
estado de greve.
3/5 >>
A categoria pára 24 horas e entra em greve
no dia seguinte por tempo indeterminado. O STF
publica em seu sítio que a ministra Ellen
Gracie em reunião com líderes partidários,
teria pedido a aprovação do projeto.
4/5 >>
Primeiro dia de greve.
16/5 >>
Uma caminhada do prédio das VTs até
a Central de Atendimento ao Eleitor reúne
colegas das justiças do Trabalho, Federal
e Eleitoral de Porto Alegre e de algumas cidades
do interior. Os grevistas saborearam um bolo com
velinha em alusão aos dois anos de formação
da Comissão Interdisciplinar no STF que
elaborou o projeto do PCS. Os atores Sandra Possani
e Roberto Oliveira encenaram um esquete mostrando
a importância da greve. No mesmo dia, a
CUT publica um apedido no jornal Correio do Povo
em apoio à greve dos servidores.
17/5 >>
A Comissão de Finanças e Tributação
(CFT) aprova o PL 5.845/05.
7/6 >>
Em assembléia geral, a categoria delibera
pela continuidade do movimento e a intensificação
da mobilização nos locais de trabalho.
É criado o bordão Acorda, Judiciário.
Um esquete para acordar os não-grevistas
passou nos setores da JF, da JE e da JT.
8/6 >>
Representantes do Executivo afirmam que está
sendo feito um estudo em torno da implementação
do PCS e que o governo apresentou a possibilidade
de aumentar o número de parcelas, estendendo
a implementação até 2009,
além de fazer cortes nos valores da proposta
inicial.
12/6 >>
Presidentes dos tribunais rejeitam contraproposta
do governo.
13/6 >>
O PCS é aprovado na CCJC.
16/6 >>
O STF apresenta oficialmente uma proposta de acordo
ao Ministério do Planejamento. Pela proposta,
o plano seria implementado integralmente até
2008.
18/6 >>
Uma caravana de 49 colegas parte parte de Porto
Alegre rumo a Brasília participar das atividades
definidas pelo Comando Nacional de Greve ao lado
de servidores de outros estados.
20/6 >>
O presidente Lula vem ao RS para inaugurar canteiro
de obras em Passo Fundo. Um grupo de colegas de
Carazinho e Passo Fundo conversa com ele sobre
o PCS. Lula diz que está participando das
negociações com a ministra Ellen
Gracie. No mesmo dia, o TSE, com a resolução
22.124, decide que os reajustes de servidores
acima da inflação concedidos após
4 de abril estariam em desacordo com a lei, devido
às eleições. A Fenajufe entende,
porém, que o PL 5.845/05 se enquadrava
em reestruturação do Plano de Cargos
e Salários já existente e não
em revisão geral.
21/6 >> Mais de 1,5 mil servidores realizam
ato público em frente ao Ministério
do Planejamento e ao Palácio do Planalto.
Eles cobram do governo uma proposta de pagamento
do PCS e pressionam para que o Plano seja implementado
ainda este ano.
22/6 >>
O Judiciário e o Executivo acertam o cronograma
de implantação do novo PCS. Assim,
em 2006 serão repassados R$ 600 milhões
com a integralização de 30% do plano
(15% em junho e 15% em dezembro). Para 2007, serão
integralizados mais 30%, com parcelas iguais em
julho e dezembro. Da mesma forma, em 2008, serão
pagos os 40% finais, sendo 20% em julho e a outra
metade em dezembro.
28/6 >>
Em assembléia geral, a categoria suspende
o movimento. Na manhã desse dia, em ofício
enviado ao líder do governo na Câmara,
deputado Arlindo Chinaglia, o ministro do Planejamento
destacava o entendimento de que a proposta de
emenda ao projeto 5.845/05 (substitutivo enviado
pelo STF dia 26 de junho) apresenta viabilidade
orçamentária, não havendo
óbice ao seu prosseguimento.
Julho >>
Deputados e senadores entram em recesso branco.
Como há muitas MPs trancando a pauta do
plenário, dizem que farão esforços
concentrados no início de agosto
e setembro. Julho encerra-se com os servidores
enviando mais de 27 mil e-mails aos deputados
solicitando que eles fechem um acordo para o destrancamento
da pauta.
Agosto >>
Devido a divergências entre governo e oposição,
nada é votado, apesar da pressão
que colegas de todo o Brasil fazem em Brasília.
Setembro >>
No início de setembro, novamente os servidores
se deslocam a Brasília em delegações
para continuar o trabalho de pressão pela
aprovação do PCS. O projeto é
aprovado em 5/9, pelos deputados e em 6/9 pelos
senadores.
ENTREVISTA: Márcio Pochman
O modelo
econômico não permite que toda a
sociedade caiba no país
Rosane
Vargas
A onda de violência
promovida pelo PCC em São Paulo desde maio
sugere uma falência do Estado brasileiro?
Pochman: Não, eu não acredito que
seja uma falência. O que eu acredito é
em uma disfuncionalidade do Estado para lidar
com a natureza da questão social no país.
Os governos têm
trabalhado para tratar das raízes desses
problemas?
Pochman: Na verdade, a respeito do agravamento
da questão social, o Brasil vive um contexto
de decadência. Um quadro de decadência
econômica acompanhado de regressão
social. Essa regressão social diz respeito
não apenas à natureza da exclusão
antiga, que nós não resolvemos,
que diz respeito à baixa escolaridade da
população, à presença
ainda de situações graves de fome,
por exemplo, de pobreza absoluta, mas também
à chamada nova exclusão social,
que diz respeito à profunda desigualdade
de renda e riqueza, à expansão do
desemprego, atingindo praticamente todos os segmentos
sociais, e também, obviamente, à
violência, que é uma manifestação
da própria exclusão social.
O senhor apontaria
o início dessa nova exclusão em
que momento?
Pochman: Isso está associado ao que acontece
no Brasil nos últimos 25 anos. É
um processo que tem a sua origem no esgotamento
do projeto de industrialização nacional
que se dá basicamente com a crise da dívida
em 1981, 83. No período de transição
da ditadura para a democracia, nós temos
um quadro de esgotamento, digamos assim, daquele
projeto de urbanização, de industrialização,
de constituição de uma sociedade
salarial. E o que nós vemos é um
quadro em que há perda dos assalariados
nos seus ramos de ocupação, um quadro
de decadência da classe média e que
convive com novos valores de individualismo, do
aprofundamento da mercantilização
da vida. O fato concreto é que o Brasil
não fez a chamada reforma civilizatória
do capitalismo. Os países desenvolvidos
passaram por essas reformas, que são basicamente
a reforma tributária, que implica os ricos
pagarem impostos; diz respeito à reforma
agrária, ou seja, a democracia na propriedade
da terra; e diz respeito à própria
reforma social, que é um estágio
de universalidade de direitos como educação,
saúde, transporte e habitação.
Quer diz, nós não fizemos essa reforma.
A reforma foi
feita em muitos países no início
ou até meados do século XX. Haveria
espaço, ainda, para esse tipo de modificação?
Pochman: Eu acredito que sim, porque, na verdade,
essas reformas, essas transformações,
são produtos sociais, em última
análise, da correlação de
forças.
Como está
essa correlação de forças
no Brasil?
Pochman: Desfavorável às reformas
reivindicatórias.
O senhor acredita
que exista vontade de fazer essas mudanças?
Pochman: Isso pressupõe a capacidade de
organização de grupos de interesses
para defender essas reformas.
Quem seriam esses grupos?
Pochman: Justamente os perdedores do projeto econômico
em curso. O projeto econômico em curso tem
vencedores. São famílias associadas
ao projeto de privatização da riqueza.
A questão importante é como nós,
num ambiente democrático, constituímos
essa convergência em torno das reformas.
Nesse sentido, num país que tem pouca cultura
democrática, o que está em jogo
é inclusive o risco para a democracia.
O senhor poderia
explicar melhor?
Pochman: Nós somos um país que tem
aí mais de 506 anos de história.
A cultura democrática pode ser um diferencial
no avanço das reformas civilizatórias,
mas, obviamente, se as reformas não acontecem,
não se tem mudanças substanciais
para o conjunto da população. Eu
lembro a pesquisa do Pnud [Programa das Nações
Unidas para o Desenvolvimento] que foi feita em
2004 e que mostra que 40% da população
aceita mudar de regime desde que isso venha acompanhado
de mudanças concretas.
Atualmente, haveria
alguma possibilidade de começar essa mudança?
Pochman: Esperava-se que as mudanças viessem
pela própria experiência democrática.
Completamos agora 21 anos de experiência
prática, mas, lamentavelmente, estamos
encerrando esse ciclo de democracia, já
que praticamente os principais partidos tiveram
a oportunidade de ter experiência concreta
no poder. Mas essa experiência não
veio com transformações substanciais
na vida do cidadão mais simples, com condições
de vida superiores às que nós tínhamos
na década de 1980. Se você olha,
compara o que era o início da década
de 80 com o que nós temos hoje, obviamente
que há uma situação pior.
Uma distribuição de renda pior,
o desemprego é maior, a desigualdade é
maior.
Nesse contexto,
que papel tem o Estado?
Pochman: O Estado é o instrumento da mudança.
Agora, o Estado, para ser agente da mudança,
precisa ter capacidade para mudar, o que significa
dizer que precisa ser um Estado forte.
Capacidade ou
vontade de quem está no comando do Estado?
Pochman: Essa segunda é requisito. Você
pode ter gente que quer mudar, mas o Estado não
tem essa capacidade. Por exemplo, nós tínhamos,
em 1980, um Estado que respondia por 12% da ocupação.
Hoje temos um Estado que responde por menos de
8% da ocupação. Quer dizer, não
tem gente suficiente nem qualificada para fazer
as mudanças, não tem gente suficiente
nem qualificada para fazer as mudanças,
para recuperar o poder do Estado.
O senhor acredita
que a mudança também passa por uma
reinstrumentalização do Estado?
Pochman: Com certeza. O segundo ponto é
a vontade, a convergência nacional em torno
da mudança que o Estado pode vir a fazer.
Essa convergência seria uma espécie
de pacto?
Pochman: Seria o que une as pessoas em torno da
proposta de mudança.
Uma vez que,
como o senhor falou, a sociedade está cada
vez mais individualista, haveria a possibilidade
de se fazer esse movimento?
Pochman: Olha, se for contar o tempo, 20 anos
de democracia, leva a um certo descrédito
nas instituições, descrédito
no Estado, nos partidos políticos, ou seja,
nas instituições fundamentais da
democracia. Mas nem por isso eu imagino que essas
mudanças não possam ocorrer. Um
país que tem a quinta maior juventude do
mundo e você percebe que mais de 50% dessa
população juvenil não estuda,
que ela concentra o desemprego, realmente é
possível se imaginar que dessa situação
de enorme mazela você pode ter o caldo de
cultura necessário para impor mudanças
muito mais rápidas. Porque, eu diria assim,
já há um quadro de insatisfação
bastante amplo no Brasil; no entanto, isso não
está politizado, não está
ideologizado suficientemente para que se transforme
em uma pressão popular.
Onde essa pressão
está tendo vazão para não
explodir?
Pochman: A vazão, ao meu modo de ver, se
manifesta do ponto de vista da individualidade,
de uma satisfação individualizada
que se dá inclusive pelos próprios
indicadores de violência, de homicídios.
No Brasil, em torno de 40 mil pessoas são
assassinadas por ano. Você começa
a olhar os indicadores do ponto de vista dessa
tensão manifestada por esses indicadores
e percebe que é uma sociedade doente. Essa
violência acontece não necessariamente
por problemas como desigualdade social, pobreza.
Os jovens de
extratos sociais mais pobres são os que
mais sofrem a falta de perspectiva.
Pochman: Mas também os jovens ricos. Se
nós olharmos os dados do Banco Interamericano
de Desenvolvimento, de cada dez jovens que se
formam no ensino superior brasileiro, dois já
estão abandonando o país. Não
encontram aqui a possibilidade de exercer sua
atividade.
Registra-se no
Brasil um acesso maior da população
ao ensino superior. Mudou a idéia de que
isso significaria, necessariamente, uma melhoria
de vida?
Pochman: Exatamente.
O jovem termina
o curso e não há um correspondente
número de vagas no mercado de trabalho.
Pochman: É claro. É mais uma indicação
de que educação é necessária,
mas não é suficiente.
Como poderia
ser solucionado o problema da falta de vagas no
mercado de trabalho?
Pochman: A questão é a seguinte:
o país tem que voltar a crescer, tem que
ter um projeto de desenvolvimento nacional. Se
você não tiver crescimento econômico,
é muito difícil ter condições
de incluir a todos. O que nós vivemos hoje
é que o modelo econômico não
permite que toda a sociedade caiba no país.
Equivaleria dizer
que o atual modelo engessa a sociedade?
Pochman: É. Ou você tem uma mobilidade,
uma dinamicidade concentrada em poucos segmentos
sociais.
Quais seriam
eles?
Pochman: São justamente aqueles que aprisionaram
o Estado com o objetivo da sustentabilidade da
riqueza financeira. Há 20 mil clãs
de famílias que dominam o país do
ponto de vista de fazer o Estado atuar a seu serviço.
Então é uma situação
estranha que, no caso brasileiro, é o rabo
que balança o cachorro.
Seria uma espécie de privatização
do Estado?
Pochman: Seria uma privatização
do espaço público. E a política
econômica hoje está a serviço
dessa minoria.
O senhor avalia
que o governo Lula de alguma forma atendeu às
expectativas de mudança?
Pochman: Olha, pelo menos eu não consigo
ver nenhuma mudança que choque os interesses
dominantes no Brasil. Posso estar enganado, mas...
Isso não significa dizer que não
tenha sido um governo que tenha aberto espaço
para os interesses dos de baixo. Inclusive pelo
fato de ele ser hoje muito bem avaliado, isso
resulta que ele atendeu a determinadas reivindicações
históricas que até então
ficaram marginalizadas. Se você olhar, por
exemplo, o segmento da agricultura familiar, seus
interesses têm sido inegavelmente atendidos,
pelo menos parcialmente. Houve uma difusão
do crédito nesse segmento, houve avanço,
vamos dizer assim, no âmbito da política
voltada para a agricultura familiar. Se nós
olharmos do ponto dos trabalhadores de baixa renda,
a recuperação do salário
mínimo também foi uma medida importante.
Nós tivemos uma recuperação
desde 1994 em diante, mas é uma reafirmação
do papel do salário mínimo num momento
em que poucos defendiam, por exemplo, o salário
mínimo com um valor real, que se apresenta
hoje ainda longe do ideal. Mesmo em relação
aos setores mais pobres da
população, temos programas de distribuição
de renda; são programas de garantia de
renda para quem, de certa maneira, não
tem emprego, mas tem alguma complementação
de renda. Essas são três políticas
que atendem às indicações
dos mais pobres.
Programas como
Bolsa Família são distribuidores
de renda ou assistencialismo?
Pochman: São programas funcionais da pobreza,
emergenciais. Não são programas
para resolver o problema da pobreza.
Ou seja, para
quem recebe, efetivamente, há uma grande
mudança.
Pochman: Sem dúvida alguma. Eu acho que
esses programas são da maior importância.
A questão é que não se pode
ficar só neles.
A adoção
de políticas de cotas seria uma forma de
ascensão social para setores marginalizados?
Pochman: Eu digo o seguinte: eu sou favorável
a políticas universais. Por exemplo: eu
defendo educação para todo mundo,
mas, se o Estado não tem condições
de universalizar a educação, eu
acho que as cotas são importantes. Se não
tem uma política de emprego, não
garante emprego para todo mundo, primeiro os mais
necessitados.
Priorizando,
mas não perdendo de vista o objetivo final.
Seria isso?
Pochman: Exatamente. A política de cotas
como um objetivo estratégico eu acho um
erro.
O Brasil é
um país historicamente excludente. Houve
nos governos pós-democratização
uma preocupação de alavancar um
movimento rumo a um Estado de bem-estar social?
Pochman: A Constituição de 88 abria
essa perspectiva.
Não seria
só no papel?
Pochman: Não, nós temos fatos concretos.
A Previdência rural, a Loas [Lei Orgânica
da Assistência Social], o Estatuto da Criança
e do Adolescente são mais avançados
do que o que nós tínhamos até
então. O modelo econômico coloca
a Constituição como um obstáculo.
Então é incompatível você
ter a Constituição de 88 e o atual
modelo econômico. O atual modelo econômico
não vai permitir, ao meu modo de ver, a
constituição de um Estado de bem-estar
social.
O que viabilizaria
a mudança do atual modelo econômico?
Pochman: Se nós conseguirmos conciliar
uma maioria política que seja capaz de
oferecer um projeto alternativo para o país.
Não uma proposta técnica, técnicas
há várias, mas do ponto de vista
político. Nós vivemos em uma democracia
e precisa ter voto que concretize essa alternativa
do ponto de vista do modelo econômico.
Declarações
como as do ministro Tarso Genro sobre o direito
adquirido no setor público. Esse tipo de
posição iria de encontro à
idéia de reinstrumentalização
do Estado?
Pochman: Eu não tenho como dogma não
discutir seja o que for, inclusive se o direito
é adquirido ou não adquirido. Do
ponto de vista de uma sociedade democrática,
isso faz parte de qualquer discussão. Mas
me parece estranho justamente optar por esse tipo
de consideração quando a folha de
salários do setor público representa
em torno de 5% do PIB nacional e, por outro lado,
o governo brasileiro tem comprometido de 7% a
8% do PIB com o pagamento de juros. Então,
por uma questão de estratégia, tem
que discutir primeiro os juros, que representam
uma remuneração para uma parcela
tão pequena da população...
Aí entraria
o enfrentamento de interesses até então
intocados?
Pochman: Sem dúvida. Como diz o ditado
popular, a corrente sempre arrebenta no lado mais
fraco.
Caso brasileiro: um problema insolúvel...
Luiz Eduardo
Vieira Oliveira*
Na história
recente do Brasil, temos visto uma gama imensa
de problemas que perduram no tempo e no espaço,
sem que os detentores do poder, a seu turno, possuam
as condições para solucioná-los
ou, mesmo as tendo à disposição,
não executam as medidas necessárias
para que tal aconteça, o que permitiria
ao Brasil alavancar seu efetivo desenvolvimento.
Poderíamos enumerar vários desses
problemas, tais como deficiência no sistema
de saúde, na educação, no
transporte, na segurança pública,
na máquina administrativa, todos de enorme
relevância para a população,
sem dúvida, e que são diuturnamente
discutidos na imprensa, mas vamos nos deter em
um aspecto que entendemos extremamente importante:
a corrupção.
Veja-se que, independentemente da coloração
partidária que está no poder, sempre
se ouve falar, e geralmente é comprovada,
na existência de casos de corrupção
nas várias esferas do poder, sem que sejam
tomadas providências eficazes no sentido
de coibir, reprimir ou eliminar essa prática
nefasta. Não se pode conceber que, num
Estado com tantos problemas conjunturais de difícil
solução, porquanto nosso país
tem dimensões continentais e inúmeras
diferenças regionais, a corrupção
se torne uma prática incorporada por grande
parte de nossos homens públicos, e não
só eles, em razão de que até
na iniciativa privada se tem notícias de
casos semelhantes. Basta folhear as páginas
dos jornais...
E não se há de dizer que falta verba
para que se resolvam os problemas antes apontados,
não! A corrupção, com o calamitoso
desvio de recursos públicos para dutos
estranhos, é uma das principais causas
da falta de solução para esses entraves
ao pleno desenvolvimento da Nação.
Assim, entendemos ser necessário o combate
eficiente e eficaz das práticas de corrupção
que permeiam nosso sistema político principalmente.
Há que se punir os responsáveis,
com perda de cargos e mandatos e, principalmente,
concretizar a devolução aos cofres
públicos das quantias desviadas, com imediata
aplicação nos setores deficientes,
que estão à espera de recursos.
Não se pode permitir que a corrupção
se torne uma prática constante em nosso
país, sob pena de se colocar em risco o
aprimoramento das instituições democráticas
instaladas, o que, em resumo, poderia comprometer
irremediavelmente o processo moral e ético
compatível com as características
de um povo honesto e trabalhador, como é
o brasileiro, o que deve ser defendido com firmeza
pela sociedade.
* Luiz Eduardo
é servidor lotado na 1ª Vara do Trabalho
de Cachoeirinha
Brasil:
continuidade e mudança
Alan Carlos
Dias*
José Itamar*
Paulo Rosa*
O movimento que
reuniu amplas forças políticas em
torno da candidatura vitoriosa de Lula foi o coroamento
de décadas de lutas e de resistência
que passaram pela contestação ao
regime militar e pela luta por eleições
diretas em nosso país. Essas jornadas resultaram
no impedimento de Fernando Collor de Mello e,
finalmente, na tenaz resistência aos anos
de aprofundamento do projeto neoliberal levado
a cabo por Fernando Henrique Cardoso.
Cabe notar ainda que Lula venceu as eleições
presidenciais; porém, não fez maioria
parlamentar nem conseguiu a vitória de
governadores aliados nos principais estados da
Federação, o que trouxe imediatamente
o problema da formação da base de
apoio e garantia de governabilidade.
O desenrolar destes primeiros três anos
de mandato puderam demonstrar as limitações
e as possibilidades de avanço contidas
num governo com essas características.
Demonstrou-se que o governo Lula não reuniu
convicção, forças nem condições
políticas para implementar um novo projeto
de desenvolvimento que avançasse para a
superação do neoliberalismo. Por
outro lado, o governo é de resistência
ao projeto neoliberal e, como tal, teve conquistas
parciais importantes, como estancar a sanha privatista
que avançou particularmente nos governos
tucanos, a reorientação do BNDES
como mecanismo de fomento e incentivo à
economia nacional, além da orientação
progressista da política externa, de maneira
a estreitar as relações com países
em desenvolvimento, com atenção
especial ao fortalecimento do Mercosul, buscando
a integração física, econômica,
cultural e política da América Latina.
Cabe destacar que as forças neoliberais
estão rearticuladas, tentando pavimentar
seu caminho de volta ao centro do poder, utilizando-se
politicamente da crise em curso. O vendaval político
iniciado com as denúncias de corrupção
já se prolonga por meses e tem como pano
de fundo a disputa eleitoral que se avizinha.
O fato é que, a partir de erros cometidos
pelo governo ou por sua principal força
dirigente, muitos deles ainda não comprovados,
a oposição conservadora encontrou
uma brecha para fustigar o governo e as forças
de esquerda, buscando desmoralizá-los e
voltar ao poder.
Frente a essa ameaça, as forças
políticas progressistas e os movimentos
sociais buscaram resistir à investida conservadora,
agindo em duas frentes: fazendo gestões
para rearticular a base aliada, em especial o
núcleo de esquerda da base governista,
e realizando mobilizações do movimento
social pela apuração das denúncias
e contra a desestabilização do governo.
A compreensão fundamental é que
a rearticulação dos setores neoliberais
e a volta dessas forças ao centro do poder
servem ao intento de sepultar a possibilidade
da criação de um novo projeto de
desenvolvimento, que abra caminho para a superação
do neoliberalismo.
No Brasil, para superar o neoliberalismo e construir
um rumo novo, é necessário um projeto
nacional de desenvolvimento com valorização
do trabalho. É tarefa urgente reconstruir
o Estado Nacional. E este, sob a direção
das forças progressistas e dos trabalhadores,
poderá ter um papel destacado no desenvolvimento
nacional. Para esse novo projeto, um redirecionamento
da política econômica terá
de ser feito.
LUTA
ANTIIMPERIALISTA
A luta pela superação
plena do neoliberalismo assume uma dimensão
anticapitalista e antiimperialista. Essa luta
hoje no Brasil passa pelas seguintes iniciativas:
repactuação política e programática
das forças que compõem o atual governo
com vistas às eleições de
2006, estabelecendo metas de crescimento, de emprego
e valorização do trabalho; recomposição
das forças de centro-esquerda, tendo os
partidos de esquerda como núcleo; apoio,
com independência, ao candidato representativo
dessas forças políticas; vigorosa
luta de idéias para o novo projeto
de desenvolvimento com valorização
do trabalho entre os trabalhadores e na
sociedade; constantes e vigorosas mobilizações
sociais, tendo os trabalhadores como protagonistas,
para a consecução das mudanças.
Nesse rumo, o movimento sindical pode e deve jogar
um papel maior de protagonista e será preciso
trabalhar pela unidade e pelo fortalecimento dos
movimentos sociais por meio da CMS e tendo
por base uma plataforma eleitoral mudancista orientada
para um novo projeto nacional de desenvolvimento,
com soberania e valorização do trabalho,
voltado ao mesmo tempo para a integração
solidária da América Latina. De
tal plataforma deve constar a luta pela mudança
da política econômica, por pleno
emprego, redução da jornada de trabalho
sem redução de salários,
política permanente de valorização
do salário mínimo, universalização
dos serviços públicos, elevação
do nível de escolaridade da classe trabalhadora,
reversão do processo de flexibilização,
informalização e precarização
do mercado de trabalho, manutenção
e ampliação dos direitos sociais,
reforma agrária, reforma sindical democrática
e repúdio à Alca.
Todas essas bandeiras serão o amálgama
de um projeto que servirá de sustentação
para as mudanças qualitativas que nossa
sociedade necessita.
* Alan,
José Itamar
e Paulo são
servidores da
Justiça do Trabalho e diretores do
Sintrajufe
Deputados gaúchos votam
pelo congelamento de salários
Marcelo
Carlini*
Os jornais passaram
os últimos meses noticiando o Pacto pelo
Rio Grande. Iniciativa da Assembléia Legislativa
do RS, ele começou a se materializar na
votação unânime da Lei de
Diretrizes Orçamentárias (LDO).
O conteúdo da unanimidade dos parlamentares
é o ataque aos trabalhadores e ao serviço
público. Está prevista limitação
do crescimento vegetativo da folha de pagamento
à taxa de 3% ao ano. Isso nem sequer é
suficiente para pagar as progressões dos
servidores em atividade e contratar novos servidores
para substituir os aposentados.
Além disso, acarreta um congelamento de
salários até 2010! As chamadas boas
medidas do pacto servem apenas para colocar
uma cereja no bolo indigesto que prepararam para
os gaúchos. Por exemplo: a fixação
do teto em R$ 21 mil, podendo ser R$ 15 ou R$
18 mil, servirá para economizar cerca de
R$ 1 milhão por mês, enquanto os
senhores parlamentares fecham os olhos
para os mais de R$ 800 milhões que são
drenados para o pagamento dos juros da dívida
com a União todo ano.
O Pacto preserva todas as isenções
fiscais para as grandes empresas (Coca-Cola, GM,
Dell) e prepara um fundo previdenciário
para os servidores estaduais, jogando as aposentadorias
na roleta-russa da especulação financeira.
O fundo de previdência Aeros trabalhadores
da aviação civil está
aí para nos mostrar como as aposentadorias
podem virar fumaça da noite para o dia.
Estamos diante de um projeto de governo inserido
na política da nova governança
mundial, na qual, numa mesma mesa, se busca
uma saída comum entre trabalhadores
e patrões para a crise. Não é
à toa que começa a surgir uma série
de iniciativas parecidas como em Ijuí e
Porto Alegre e que o ministro Tarso Genro sugira
que as mesmas medidas sejam tomadas no país.
Mesmo a proposta de renegociar a dívida
com o Bird está circunscrita nesse projeto.
Quem não se lembra de que foram esses agentes
internacionais que financiaram os planos de demissões
voluntárias durante o governo Britto? Ou
será que o Banco Mundial não pede
nada em troca?
A política que colocou o Rio Grande do
Sul nessa situação é a mesma
adotada pelo governo Lula. Todos os sacrifícios
foram exigidos do povo brasileiro e, mesmo assim,
a situação só se agravou.
A dívida líquida do governo federal,
sem estados, municípios e estatais, era
de R$ 334,358 bilhões em dezembro de 2000.
Em abril de 2006, ela passou para R$ 670,744 bilhões.
Houve um crescimento de 101%, mesmo o governo
federal pagando R$ 404,255 bilhões de juros
no período.
Resumindo, o pagamento de juros de R$ 404,255
bilhões, entre janeiro de 2000 e junho
de 2006, não foi suficiente para o pagamento
da dívida que era de R$ 334,358 bilhões
no final de dezembro de 2000. No estado, a mesma
dívida que em 97 era R$ 24 bilhões
hoje é R$ 32 bilhões. Ou seja, depois
de todas as privatizações e nove
anos de pagamento e sacrifício, ela só
cresceu!
Por mais que o estado e a governo federal paguem
religiosamente a dívida, com dinheiro que
deveria ir para a saúde, a educação,
o saneamento, etc., ela não pára
de crescer. Esse Pacto não é para
resolver crise alguma. Só vai aprofundá-la,
enquanto prossegue a farra com o dinheiro público.
A CUT e os sindicatos estaduais corretamente não
aderiram ao Pacto. Mas isso não basta,
é necessário que se exija de todos
aqueles deputados que se reivindicam estar ao
lado dos trabalhadores que rompam com o Pacto.
É preciso impor a unidade dos trabalhadores
a partir de suas organizações para
barrar esse pacto. De Lula, exigirmos agora que
acabe com a guerra fiscal e a Lei Kandir, suspenda
a cobrança da dívida e abandone
a política de superávit que gera
o desemprego e a crise no país.
* Marcelo
é servidor da Justiça Federal em
Porto Alegre e membro da
diretoria da CUT/RS
Eleições
gerais e as opções da esquerda
Magda Ávila
/ Zé Oliveira* / Mara Weber / Silvana Klein**
Em
janeiro deste ano, vivenciamos a 6ª edição
do Fórum Social Mundial, na Venezuela.
Concomitantemente com Bamako (África) e
Karachi (Paquistão), discutiu estratégias
mundiais de resistência ao imperialismo,
que subjuga as nações economicamente
dependentes.
A América Latina e o Caribe têm sofrido
grandes ofensivas contra seus direitos, sua identidade,
sua existência, como as ditaduras militares
e os governos neoliberais das últimas décadas.
No entanto, desde a rebelião de Chiapas,
em 1994, mobilizações indígenas
e camponesas, várias edições
do FSM, a eleição de candidatos
de esquerda e outras manifestações
de luta fizeram com que se estagnasse essa ofensiva.
Vislumbra-se uma reconquista do espaço
de luta contra o capital especulativo na América
Latina, e o Brasil participa ativamente desse
processo. A obstrução da Alca, o
fortalecimento do Mercosul e as relações
mais próximas dos governos que o compõem
fazem com que as eleições de outubro
sejam vistas com muita atenção pelo
mundo. E o FSM anunciou claramente que a continuidade
desse projeto estaria vinculada à candidatura
Lula.
Os brasileiros ainda têm incertezas com
o governo Lula. A expectativa era de rompimento
com o capital estrangeiro e uma inversão
de prioridades. Acompanhamos uma gestão
tímida nesse sentido e até uma descaracterização
de vários pontos defendidos historicamente
pela esquerda.
O governo Lula mostra uma contradição
entre a política fiscal e monetária
com características neoliberais e programas
sociais de imediato atendimento à população
mais pobre. Sua tática de campanha em 2002
de não assustar os mercados submeteu o
projeto democrático-popular ao continuísmo
da política econômica. A chantagem
dos mercados passou a orientar setores-chave da
economia.
Sentiu-se falta
de um vigoroso movimento político e social
que pressionasse por mudanças e que fosse
capaz de sustentá-las. É importante
citar iniciativas como o recuo nas privatizações
e a obstrução da Alca. No entanto,
programas como Bolsa-Família alcançaram
resultados que tiraram 8,8 milhões de famílias
brasileiras da linha de pobreza absoluta. Em comparação
com 2002, houve um aumento de 62% de recursos
para o ensino superior e foram criadas quatro
novas universidades federais. Aumentou o poder
de compra do salário mínimo e foram
geradas condições para criação
de 3,76 milhões de empregos com carteira
assinada; porém, os resultados dessas políticas
ainda estão aquém das aspirações
do povo brasileiro.
O setor público foi alvo, nos primeiros
meses de governo, da Reforma da Previdência.
Os servidores, que em sua maioria elegeram Lula,
viram seus direitos mais uma vez atacados. A defesa
de um serviço público de qualidade,
com política salarial e condições
de trabalho, foi pautada pelo governo de maneira
equivocada e distorcida, sem atender a várias
demandas antigas dos servidores. Esse cenário
ofuscou avanços importantes como a implementação
de concursos públicos, o recuo nas terceirizações
e o estancamento das privatizações
de estatais.
Nessa conjuntura,
a CUT Nacional organizou o maior Congresso de
sua história, em junho deste ano. A Central
representa 30% da classe trabalhadora organizada
do país e é a maior da América
Latina. O evento debateu uma plataforma a ser
seguida pelo próximo governo. Os eixos
principais são investimentos para a diminuição
da pobreza e a geração de renda.
Para seu cumprimento, é necessário
rechaçar de vez o projeto neoliberal. Mesmo
com as contradições apontadas, a
reeleição de Lula foi aprovada,
tida como a candidatura capaz de levar à
frente a plataforma. O êxito desse projeto
somente dar-se-á a partir de um movimento
sindical e social independente, capaz de tensionar
por políticas públicas que garantam
a participação popular e uma verdadeira
distribuição de renda.
A desmotivação
para o processo eleitoral é visível
na militância e na população.
As denúncias de corrupção
deixaram calados vários setores de esquerda
e trouxeram perplexidade aos brasileiros. Em vez
de esclarecimentos de fatos e punição
de responsáveis, o que vimos no Congresso
Nacional foi o esvaziamento das denúncias
e a impunidade prevalecendo. Por outro lado, é
inegável o grande número de quadrilhas
desbaratadas pela Polícia Federal, sob
o comando do ministério da Justiça.
Grupos que atuavam décadas a fio contra
o Erário só agora estão sendo
denunciados e presos. Entre eles, parlamentares
de toda envergadura, representantes dos poderes
Executivo e do Judiciário.
Alguns setores pregam o voto nulo e desmotivam
o envolvimento no processo eleitoral. A nossa
tarefa enquanto cidadãos e cidadãs
e protagonistas da luta pelo voto direto no Brasil
é transformar a indignação
em luta pela revitalização da democracia,
cobrando a punição de corruptos
e uma urgente reforma política. Só
a sociedade organizada tem essa capacidade transformadora,
seja à frente dos movimentos, seja na escolha
de seus representantes nas próximas eleições.
*
Magda e Zé são servidores da JF
e diretores do
Sintrajufe
** Mara
e Silvana são servidoras da JT e diretoras
do Sintrajufe
O
papel do sindicato na formação dos
trabalhadores
Marcelo
Antunes
Tirar
o debate do meio acadêmico e das esferas
intelectuais e reunir, de uma só vez, um
tema de interesse e um ou mais debatedores que
realmente tenham algo a dizer sobre o assunto
proposto. Para Vito Giannotti, do Núcleo
Pirantinga de Comunicação (NPC),
do Rio de Janeiro, a união desses dois
ingredientes é fundamental para a realização
de ciclos de debates que tragam questões
relevantes para a discussão junto a uma
ou mais categorias de trabalhadores. Esse foi
o objetivo do Sintrajufe ao desenvolver o Projeto:
Brasil, um ciclo de debates que, durante quatro
meses, proporcionou à categoria a discussão
de diversos assuntos para o presente e para o
futuro da classe trabalhadora.
O sucesso desse tipo de iniciativa depende
da sensibilidade de cada direção
em saber mesclar temas de interesse imediato e
temas da grande política. O essencial é
escolher temas concretos ligados à vida
dos trabalhadores, pois as pessoas têm preocupações
e medos, esperanças e sonhos. Isso torna
um ciclo de debates vivo e realmente útil,
diz Giannotti.
Além de organizar cursos de formação,
editar livros, vídeos e cartilhas, o NPC
realiza, anualmente, um encontro para dirigentes
e jornalistas de sindicatos de todo o Brasil cujo
objetivo é discutir a comunicação
produzida pelas entidades frente aquela oferecida
pelos grandes veículos de comunicação.
Para a coordenação do NPC, o objetivo
principal do Núcleo é melhorar a
comunicação dos trabalhadores para
construir um mundo com justiça e sem exclusão.
Para Ângelo
Adami, colega da JT, ao propor este tipo de debate
o sindicato mostra que pode e deve ir além
de simplesmente representar a categoria em demandas
específicas como também estar
permanentemente pensando a conjuntura social
e política do país como um todo.
Na avaliação de Giannotti, reivindicações
salariais são importantes para cada trabalhador.
São imediatas, mas há um projeto
de sociedade, um projeto de Brasil que, sem ele,
qualquer Plano de Carreira e Salários é
pequeno e não se sustenta a médio
prazo. Assim, o sindicato tem como função
não só lutar por reivindicações
imediatas, mas também por um nova sociedade,
o que torna central o seu papel formativo.
Freqüentador desse tipo de atividade, principalmente
no meio acadêmico, Gabriel Silveira, da
1ª VT de São Leopoldo, acredita que,
ao colocar em prática a discussão
sobre conjuntura, o sindicato colabora para que
haja uma visão mais crítica e sem
vieses a respeito de questões políticas
e sociais, o que possibilita uma maior conscientização
a respeito dos problemas e da sociedade, principalmente
relacionados à questão da desigualdade
e da democracia. Mas como convencer os sindicalizados
e a comunidade a participar? A experiência
de Giannotti aponta que esse é o principal
nó, pois não é automático
que a categoria se interesse e participe de uma
iniciativa dessas.
A dica que poderia dar é de ter paciência.
São necessários anos para convencer
uma centena, ou centenas de trabalhadores da necessidade
de estudar estes temas de política mais
amplos do que 10% de reajuste. É preciso
criar um hábito desses debates. E isso
leva anos. Talvez seja o caso de fazer uma pesquisa
demorada entre os trabalhadores do Judiciário
sobre os temas a serem tratados. É necessário
envolver ao máximo os companheiros na construção
de um programa de debates. A iniciativa
do Sintrajufe e de outros sindicatos de discutir
temas políticos gerais é vista como
essencial por Giannotti. Para ele, sem isso,
nossa luta ficará cega. Sem futuro e sem
consistência. Se o sindicato não
formar politicamente a categoria, todas as suas
lutas serão de curto fôlego,
sentencia.
ENFRENTAMENTO
No final de julho,
com a palestra proferida pelo cientista político
Benedito Tadeu Cesar, cujo tema foi A conjuntura
nacional e um projeto para o Brasil, encerrou-se
o ciclo de debates Projeto: Brasil, promovido
pelo Sintrajufe com apoio da CUT, do Sindicato
do Bancários de Porto Alegre, da Agência
Carta Maior, da Assufrgs e do Semapi. O ciclo
de debates, que teve início em março,
abordou assuntos relevantes para o futuro do Brasil
e da América Latina: O serviço público
e o Estado Nacional, Como anda a resistência
ao neoliberalismo, Para onde vai a América
Latina, e O movimento sindical e a conjuntura.
A escolha dos temas disseram respeito ao
nosso dia-a-dia, aos problemas que enfrentamos
e muitos que deveremos enfrentar. O debate é
essencial para entendermos o mundo, a política
e as relações que estão em
contínua mudança, afirma Bárbara
Kern, diretora do Sintrajufe.
Decisão favorável
à jornada de 6 horas dá novo fôlego
à discussão
Patrícia
Dávila*
A
decisão do Conselho Nacional de Justiça
favorável à jornada de seis horas
dos servidores do Judiciário Federal contra
a representação do Ministério
Público Federal que pedia a inconstitucionalidade
da matéria foi uma vitória histórica.
A luta pela retomada da jornada de seis horas
é uma pauta da categoria há muitos
anos. Para dar sustentação à
argumentação em favor das seis horas
diárias de trabalho, foi feito um estudo,
em 2002, para analisar o impacto do aumento da
jornada para oito horas no TRT, pois as informações
divulgadas afirmavam que a taxa de produtividade
teria aumentado no período.
Conforme esclarece o técnico judiciário
do TRF da 4ª Região Carlos Alberto
Colombo, mestre em Sociologia e autor do estudo,
o ganho de produtividade não era real.
O tribunal difundia o dado que era
verdadeiro de que havia reduzido em torno
de 20% o percentual de processos pendentes de
solução no nível de cognição.
Verificando os dados oficiais do próprio
tribunal e no banco nacional de dados do Poder
Judiciário, ficou constatado que essa redução
era resultado não do aumento do número
de processos solucionados, mas da diminuição
dos processos que entraram no período.
Houve uma seqüência de três anos
com uma redução exatamente nessa
proporção que o tribunal divulgava.
Então a redução do número
de processos pendentes não era resultado
de ganho de produtividade, avalia.
O trabalho, realizado no TRT da 4ª Região,
em 1ª e 2ª Instâncias, também
verificou se houve aumento no número de
processos solucionados. As estatísticas
mostraram que o número de processos solucionados
após o aumento da jornada foi, em alguns
casos, idêntico ou menor que em anos anteriores.
Nós tivemos um aumento de 33% da jornada
diária de trabalho, de seis para oito horas.
Fiz a comparação, primeiro em termos
de resultado absoluto e também em termos
de taxa de produtividade. Se o número de
processos solucionados é idêntico
antes e depois do aumento da jornada, fica evidente
que a taxa de produtividade caiu. Constatou-se
que, dependendo do ano, houve uma queda em torno
de 25% em média. A pesquisa evidenciou
com dados oficiais é que o aumento da jornada
de trabalho pura e simplesmente não traz
nenhum ganho de produtividade.
Também foi constatado, segundo Colombo,
um aumento de doenças do trabalho, principalmente
relacionadas a sofrimento psíquico, e uma
desestruturação do cotidiano desses
trabalhadores que se refletiu decisivamente nesses
resultados. Houve um estudo ergonômico
em algumas varas da Justiça do Trabalho
que também apontou que a redução
da jornada seria benéfica para a diminuição
desses problemas.
Diante disso, ele ressalta que não só
o número de horas trabalhadas é
importante, mas também deve-se prestar
atenção ao aumento no ritmo de trabalho.
É preciso lembrar que, se nós
reduzirmos a jornada de trabalho, mas aumentarmos
de forma absurda o ritmo de trabalho, nós
vamos continuar tendo efeitos perversos, vamos
continuar tendo trabalhadores sofrendo e adoecendo,
completa.
Para a coordenadora
executiva da Fenajufe, Maria da Graça de
Sousa, a decisão do CNJ não pode
ser vista como algo isolado. Certamente,
essa posição assumida pelo órgão
que tem o papel, no âmbito administrativo,
de fiscalizar as ações dos gestores
do Poder Judiciário demonstra que a luta
histórica do conjunto da classe trabalhadora
pela redução da jornada de trabalho,
que transcende em muito a luta de trabalhadores
e trabalhadoras do Judiciário Federal,
já encontra ressonância até
mesmo dentro de um dos poderes da República
tido como um dos mais conservadores, diz.
Ela ressalta que a decisão do CNJ será
um referencial de grande peso ao se estabelecer
um debate conseqüente no âmbito da
administração pública e até
mesmo para o setor privado sobre a jornada de
trabalho. Não se pode perder de vista
que, em última análise, quem dá
a última palavra nos conflitos entre capital
e trabalho é o Judiciário Federal.
Portanto, um órgão, com a expressão
que tem, tendo em sua composição
os principais atores do Poder Judiciário,
reconhecer a legalidade da jornada de seis horas,
sem redução de salário, poderá
ser um interlocutor de peso para o próximo
período da luta geral.
Graça destaca ainda que a decisão
do CNJ será um forte instrumento
que a Fenajufe e seus sindicatos filiados terão
para a luta que se avizinha. Segundo ela,
dificilmente o parecer será simplesmente
o orientador das administrações
dos tribunais. Por outro lado, afirma,
essa decisão consolida o entendimento
de alguns regionais que já aplicam a jornada
de seis horas diárias, bem como abre um
precedente àqueles regionais que ainda
não o implementaram.
Graça acredita que, a partir de agora,
serão necessárias duas ações:
uma, da Fenajufe, que deverá desenvolver
uma campanha nacional pela redução
da jornada de trabalho, que também será
desenvolvida pela CUT em nível nacional;
a outra é os sindicatos filiados buscarem
a implementação da carga horária
de seis horas nos tribunais regionais, objetivando
consolidar uma jurisprudência administrativa
que certamente auxiliará a luta geral da
classe trabalhadora na consolidação
de uma legislação mais humanitária,
que reduza a jornada de trabalho.
A ação
da CUT é explicada pela primeira-secretária
da CUT Nacional, Lúcia Reis, que concorda
que a decisão do CNJ é importante
não só para os servidores públicos.
Para ela, a luta pela jornada de seis horas deve
ir além, estender-se a todo o universo
dos trabalhadores. É uma campanha
de redução de jornada sem redução
de salários e uma campanha também
voltada ao aumento do número de postos
de trabalho. A CUT está em contato com
parlamentares para entrar com um projeto de lei
que estenda a decisão para todos os trabalhadores,
relata.
Para ler
A íntegra do estudo sobre o impacto do
aumento da jornada no TRT está em www.sintrajufe.org.br/Documentos/ESPECIAIS.htm
* Patrícia
Dávila é jornalista
A
democratização da comunicação
no Brasil em uma encruzilhada
Katia Marko*
O presidente
Lula assinou no dia 29 de junho o decreto 5.820/06,
que implanta o Sistema Brasileiro de Televisão
Digital Terrestre (VHF e UHF). O decreto, com
apenas 15 artigos, determina que o Brasil será
o segundo país do mundo a usar a tecnologia japonesa
ISDB. Antes dele, apenas o Japão empregava
tal modulação.
Segundo o diretor executivo do Instituto de Estudos
e Projetos em Comunicação e Cultura
(Indecs), jornalista Gustavo Gindre, esse foi
um pleito das emissoras que alegavam que o ISDB
tinha se saído melhor nos testes de campo
realizados pela Universidade Mackenzie (embora
nenhum dos três padrões testados
tenha conseguido ser captado por 100% dos pontos
de recepção) e que somente o ISDB
era capaz de segmentar o espectro (foi escondido
que a tecnologia brasileira chamada Sorcer também
realizava o mesmo processo). O ISDB permite
manter a estreita relação comercial
entre a maior emissora brasileira e os fornecedores
japoneses de equipamentos eletrônicos, especialmente
NEC e Sony, salienta Gindre.
Na avaliação de Gindre, o ponto
mais polêmico do decreto é a consignação
de uma faixa extra de espectro para cada emissora
(geradora e retransmissora) existente. A figura
da consignação pressupõe
que se trata do mesmo serviço prestado
pela TV analógica, que agora demandaria
uma faixa extra para continuar a ser oferecido.
Na prática, contudo, o decreto permite
que novas outorgas sejam dadas aos atuais radiodifusores
sem que a decisão passe pelo Congresso
Nacional. Isso porque alta definição,
multiprogramação e interatividade
claramente constituem um novo serviço,
diferente da atual radiodifusão analógica.
O decreto também menciona que a União
poderá explorar quatro canais
de TV: um para o Executivo, outro para educação,
um para cultura e um de cidadania.
O uso do verbo poder, e não
de dever, claramente se remete ao
fato de que não haverá espaço
para esses canais nas principais áreas
metropolitanas do país, acredita
Gindre. Segundo o decreto, tais canais serão
geridos pela União e à sociedade
civil caberá apenas dividir o canal de
cidadania, desde que a entidade que deseje
participar seja aprovada por convênio do
Ministério das Comunicações.
As TVs Senado, Câmara dos Deputados, das
assembléias legislativas e das câmaras
de vereadores também terão que dividir
o espaço no canal de cidadania.
Por fim, o decreto menciona a criação
do Fórum do SBTVD, que assessorará
o Comitê de Desenvolvimento (formado exclusivamente
por membros do governo) na definição
de quais inovações tecnológicas
brasileiras serão incorporadas à
TV digital brasileira. Fazem parte desse fórum
os radiodifusores, a indústria e as universidades.
Fica excluída a participação
da sociedade civil.
O Brasil é
um dos países onde a concentração
da propriedade dos meios de comunicação
atingiu níveis tão altos quanto
os de renda. Em sua última entrevista,
o fundador do Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação (FNDC), jornalista
Daniel Herz, falecido este ano, disse ao Boletim
do FNDC que a digitalização trará
uma profunda revolução no sistema
de comunicação social. Trata-se
das definições que vão estruturar
as questões de mídia nos próximos
10 ou 20 anos. Essa é a questão
mais importante, atualmente, na luta pela democratização
da comunicação, salientou.
Na opinião de Herz, estabelecer as tecnologias
antes de se definirem os objetivos sociais da
digitalização é um retrocesso
em relação ao que sinalizou o próprio
governo quando instituiu o SBTVD. Antes
de estabelecer os requisitos e a base de um projeto
para a digitalização, se escolhe
a tecnologia. É uma inversão inaceitável
que corresponde ao predomínio de interesses
de conglomerados de mídia e dos conglomerados
internacionais da indústria eletrônica.
É um retrocesso que a sociedade não
pode aceitar, alertava o jornalista.
A Frente Nacional
por um Sistema Democrático de Rádio
e TV Digital lançou uma Carta à
Sociedade alertando que a adoção
do padrão de modulação japonês
significa a morte do SBTVD, cuja proposta inicial
se baseava em princípios como a democratização
das comunicações, a promoção
da diversidade cultural, a inclusão social,
o desenvolvimento da ciência e da indústria
nacionais (conforme o decreto presidencial 4.901)
e implicou o investimento de R$ 50 milhões
na formação de 22 consórcios
de universidades brasileiras, envolvendo 1,5 mil
pesquisadores. Temos a convicção
de que, ao anunciar uma decisão por uma
tecnologia estrangeira, o governo está
cometendo um erro histórico, que não
poderá ser revertido nas próximas
décadas, finaliza o documento.
O que
muda com a TV digital
O pouco que se
ouve falar sobre TV digital vem sendo pautado
pelos interessados diretos no assunto: empresas
e governo federal. Não é por acaso
que a maioria das pessoas não sabe que
estamos para presenciar a revolução
do sistema de comunicação social
do Brasil. Quem tem uma vaga idéia da novidade
pensa sempre nos mitos, criados e sustentados
na imprensa, da tela com imagem de cinema e o
som com qualidade de CD. Tecnicamente, as inovações
mais importantes são quatro: melhoria na
qualidade da imagem e do som, introdução
de recursos de interatividade, acesso facilitado
a programas e ampliação da capacidade
de recepção dos sinais. Este último
quesito, que permitirá a portabilidade
e a mobilidade, é o que retirará
a televisão de dentro de casa.
As mudanças, no entanto, vão muito
além e afetarão a relação
social dos cidadãos, a política,
o mercado de trabalho, o formato da publicidade,
a produção cultural do país,
a oferta de serviços de dados e telecomunicações
e o direito à informação.
TV
digital no Brasil
A TV digital
já é debatida no país há
mais de dez anos. No segundo governo de Fernando
Henrique Cardoso, foram iniciados testes de campo
entre os três sistemas até então
em funcionamento (o norte-americano ATSC, o europeu
DVB e o japonês ISDB), realizados pela Associação
Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert),
pela Sociedade de Engenharia de Televisão
e Telecomunicações e pela Universidade
Mackenzie. Estudos técnicos e mercadológicos
também foram realizados pela Fundação
CPqD a partir de demanda da Agência Nacional
de Telecomunicações (Anatel). Ainda
em 2002, houve novo aceno em relação
à definição acerca do assunto,
mas, frente à chegada de um novo governo,
o então presidente optou por deixar a decisão
para o novo ocupante do Palácio do Planalto.
Com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva,
a definição sobre a TV digital saiu
do âmbito da Anatel e foi para a pasta do
então ministro das Comunicações,
Miro Teixeira. Em novembro de 2003, foi publicado
o decreto 4.901, que instituiu o Sistema Brasileiro
de TV Digital (SBTVD), a estrutura de dois comitês
(um gestor e um de desenvolvimento) e um Conselho
Consultivo com participação da sociedade
civil.
Durante a gestão de Lula, primeiro com
Teixeira e depois com Eunício de Oliveira,
o governo demonstrou relativa abertura ao debate
e acertou ao verificar junto às universidades
que pesquisavam o tema a possibilidade de desenvolver
componentes que formassem um sistema brasileiro.
A partir dos subsídios do CPqD, crescia
o debate nas instâncias governamentais e
no Conselho Consultivo acerca dos rumos do SBTVD.
Com a entrada do ministro Hélio Costa,
em julho de 2005, o que se verificou foi um esvaziamento
do debate com a sociedade e uma identificação
exclusiva com os interesses dos radiodifusores,
especialmente com os das Organizações
Globo. Em apenas alguns meses, Costa incorporou
à sua pasta a pauta da Abert, negociou
incentivos fiscais com o Ministério da
Fazenda e vem disputando dentro do governo a adoção
de um sistema caracterizado por ser uma levíssima
adaptação do ISDB, modelo também
defendido pela Abert, que não permite a
entrada imediata de novos atores no universo da
radiodifusão.
Além disso, o ministro esvaziou a discussão
com a sociedade no Conselho Consultivo e criou
um comitê informal com a participação
das emissoras. O deslocamento do espaço
real de decisão contrariou o próprio
decreto 4.901, com o ministro ignorando as posições
da sociedade civil e, inclusive, as contribuições
do CPqD, órgão responsável
pela produção de documentos de subsídio
à construção do SBTVD. Os
documentos sobre Política Industrial e
Marco Regulatório, por exemplo, nem sequer
foram discutidos pelo conselho consultivo. O ministro
passou a buscar apoio para a posição
das emissoras que, com um ISDB travestido,
garante a manutenção da estrutura
concentrada de propriedade e ainda permite às
grandes emissoras ocupar um novo nicho, transmitindo
para receptores móveis (celulares).
Fonte: Intervozes
Como
será a implantação
A implantação
da TV digital passará por um período
de transição, que deve durar de
10 a 15 anos, no qual as emissoras transmitirão
simultaneamente dois canais de 6MHz, um analógico
e o outro digital.
Com a introdução da tecnologia digital
na radiodifusão de TV, o usuário
poderá optar por uma das seguintes situações:
Continuar a receber a TV aberta da forma
atual utilizando a sua TV analógica.
Adquirir um conversor (set top box) que
permitirá receber o sinal digital e convertê-lo
para um formato de vídeo e áudio
disponível em seu receptor de TV
Adquirir uma TV nova que já incorpore
o conversor.
A mudança, basicamente, seria o fim da
transmissão de imagens. Seriam transmitidos
dados e não imagens analógicas.
A programação desses dados formaria
as imagens não analógicas,
isto é, não semelhantes, no caso,
à realidade. Assim sendo, fotos, filmes
e textos poderiam ser trabalhados ao mesmo tempo,
como no computador, só que na tela da TV,
explica o jornalista Gustavo Gindre.
Pesquisas
demonstram capacidade para desenvolver padrão
próprio
Em busca de um
Sistema Brasileiro de TV Digital, em 23 de novembro
de 2003 a Presidência da República
publicou o decreto 4.901, criando dois comitês
e um Grupo Gestor. Em dezembro do mesmo ano, a
fundação CPqD foi contratada para
elaborar o modelo de referência a ser adotado
pela TV digital terrestre no Brasil, coordenando
20 consórcios de pesquisa que envolveram
mais de 70 instituições de todo
o país.
No dia 13 de fevereiro de 2006, o CPqD divulgou
o relatório Modelo de referência
Sistema Brasileiro de Televisão
Digital Terrestre, analisando as alternativas
e propostas de modelos de exploração
e implantação e análise de
viabilidade, de riscos e de oportunidade. Dentre
suas conclusões, verificou que o sistema
brasileiro é muito bom, superando em muitos
aspectos os concorrentes.
Com poucos recursos, dificuldade nos repasses
e em tempo reduzido, as universidades brasileiras
demonstraram que são capazes de produzir
conhecimento para criar um sistema de TV digital
genuinamente brasileiro e, ao mesmo tempo, que
seja inter-operável com os demais sistemas
existentes, evitando o isolamento do país.
Saiba
mais
O decreto 5.820/06 está disponível
em www.indecs.org.br
* Katia Marko
é jornalista
ORGANIZAÇÃO
Plebiscito: direção será
colegiada e proporcional
Implementando
decisão do Congresso Estadual de 2004,
foi realizado em 31/7 o plebiscito sobre dois
pontos relacionados ao sistema diretivo do Sintrajufe:
se o regime de gestão seria proporcional
ou majoritário e se a estrutura da diretoria
seria colegiada ou presidencialista.
A estrutura colegiada contou com o apoio de mais
de 80% dos votantes, contra a alternativa do presidencialismo.
Ela já está em vigor há várias
gestões. Nela, um grupo eleito pela categoria
assume a direção e, de forma horizontal,
todos têm responsabilidades e deveres de
forma igualitária, sem hierarquia. Defendida
pelos membros da atual diretoria, a estrutura
colegiada garante a democratização
do poder da entidade e evita a centralização
numa única pessoa, o presidente.
Hoje, na estrutura colegiada, o Sintrajufe é
dividido em sete secretarias: Administração,
Finanças e Patrimônio; Organização
e Política Sindical; Saúde e Relações
de Trabalho; Comunicação; Formação,
Cultura e Lazer; Políticas Sociais e Assuntos
de Aposentadoria e Pensão. Cada uma tem
três diretores; um destes é escolhido
para ser o coordenador. Os 21 diretores compõem
a diretoria colegiada.
Os coordenadores das sete secretarias integram
a diretoria executiva do Sintrajufe, que é
a responsável por tocar o dia-a-dia da
entidade. Dessa forma democrática, nossa
entidade vem encaminhando a luta da categoria
por melhores condições de trabalho,
direitos e salários nos últimos
anos.
O apoio de 84% dos sindicalizados e das sindicalizadas
votantes demonstra uma postura firme da categoria
na manutenção dessa estrutura. Como
a colegiada já está em vigor, não
será necessária qualquer mudança
estatutária com a decisão do plebiscito.
Com 53% dos votos
válidos, os participantes do plebiscito
no dia 31/7 decidiram pela mudança quanto
à forma de composição das
próximas direções do Sintrajufe.
Na votação sobre proporcionalidade,
o resultado apresentou uma razoável divisão
na posição da categoria.
O apoio da maioria dos colegas à proporcionalidade
em relação à majoritariedade
define que as chapas concorrentes na eleição
do sindicato assumem a direção da
entidade de acordo com o percentual de votos que
conquistaram no processo eleitoral. Dessa forma,
várias correntes de pensamento, mesmo que
opositoras, poderão compor a diretoria.
Essa alternativa já foi implementada na
gestão de 1995 a 1998 no antigo Sindicato
dos Funcionários da Justiça do Trabalho
(Sindjustra). O sistema majoritário foi
retomado a partir de plebiscito realizado na categoria
após a unificação entre os
antigos sindicados das justiças do trabalho
e federal em 1998.
A convivência
de diferentes posições políticas
existentes na categoria e expressas numa eleição
será novamente vivenciada na próxima
direção do Sintrajufe, a ser eleita
em 2007. Crescer a partir do debate e do respeito
à divergência implementando
a luta da categoria é o grande desafio
colocado nesta alternativa.
A atual estrutura do Sintrajufe é majoritária.
Somente ocupava a diretoria a chapa que obtivesse
o maior número de votos. Com a proporcionalidade,
será necessária reforma no Estatuto.
A definição sobre proporcionalidade
direta ou qualificada é um dos pontos a
serem deliberados. Na direta, não há
necessidade de um percentual mínimo de
votos. Nas experiências de proporcionalidade
implementadas, a qualificada, que é a mais
comum, exige um percentual mínimo de votos
para uma chapa compor a diretoria. Os adeptos
dessa alternativa defendem que cada posição
política tem que ter uma razoável
representatividade na categoria para compor a
direção da entidade. A definição
deve ocorrer até o fim deste ano em assembléia
geral.
A decisão da categoria está tomada.
Cabe agora aos militantes avançar na perspectiva
da convivência democrática, na direção
do Sintrajufe, de várias opiniões
de pensamento com representatividade na categoria.
 |
Meio
ambiente
As fábricas de celulose e a
polêmica dos desertos verdes
Marcelo
Antunes e Mara Weber
No
dia 16/8, no Salão de Atos da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em Porto
Alegre, cerca de 1,5 mil pessoas, entre agricultores,
estudiosos, cientistas e militantes de vários
movimentos, participaram do seminário Deserto
verde: os impactos da monocultura do eucalipto
para os povos, organizado por diversas entidades
da sociedade civil. O objetivo foi aprofundar
o debate sobre as conseqüências ambientais,
econômicas e sociais que a expansão
da monocultura de árvores exóticas
principalmente o eucalipto , juntamente
com a instalação em massa das indústrias
de celulose no RS poderá provocar no estado.
O seminário foi aberto pela professora
e pesquisadora da Ufrgs Dirce Suertegaray. Há
30 anos ela estuda os impactos da monocultura
do eucalipto no meio ambiente. Também participaram
como debatedores Francisco Milanez, conselheiro
da Associação Gaúcha de Proteção
ao Ambiente Natural (Agapan) e secretário-geral
da Fundação pelo Desenvolvimento
Ecologicamente Sustentável, o procurador
do Ministério Público Federal (MPF),
Domingos Silveira, e Pedrinho Guareschi, professor
e pesquisador do Programa de Pós-Graduação
em Psicologia da PUCRS.
O bioma pampa
é único no planeta e abrange parte
do RS, toda a área do Uruguai e parte da
Argentina. Esse tipo de solo é em grande
parte arenoso e tem como característica
uma rápida drenagem e perda de matéria
orgânica. A natureza sabiamente o cobriu
de gramíneas (campos), que o protegem das
enxurradas e seguram a matéria
orgânica. No pampa está também
o maior reservatório de água do
mundo, o Aqüífero Guarani.
Segundo Milanez, a água é
o único componente de desenvolvimento para
o futuro. Ele explicou que o plantio de
eucalipto nos campos do pampa irá impedir
o trânsito de pólen e animais entre
uma área de monocultura e áreas
de preservação, cortando áreas
de cruzamento das espécies vegetais e animais.
O eucalipto, disse ele, provoca o que os técnicos
chamam de déficit hídrico. Em grandes
extensões de eucalipto, pequenos riachos
secam, nascentes desaparecem, secam também
poços artesianos e há mudanças
na umidade do ar. Já existem situações
preocupantes no RS. No município de Encruzilhada
do Sul, as grandes extensões de plantações
de eucalipto, pinus e acácia geram graves
problemas de água para os pequenos agricultores.
O Uruguai, que tem esse processo consolidado com
700 mil hectares de eucalipto plantado para produção
de celulose, recentemente teve suas relações
com a Argentina estremecidas por conta da instalação
de mais uma fábrica de celulose próxima
da fronteira com o país vizinho.
Da Europa, onde
há maior cobrança da sociedade,
as grandes empresas migram para países
em desenvolvimento. Elas levam em conta as leis
que facilitam o uso de produtos nocivos e a carência
de fiscalização sobre o impacto
causado pelas grandes extensões plantadas.
Some-se a isso o acesso a crédito e a incentivos.
A opinião de todos os debatedores é
que o processo de produção da celulose
é extremamente danoso para o meio ambiente
e a saúde humana. Para produzir uma tonelada
de papel, são necessárias de 2 a
3 toneladas de madeira. O ramo de celulose usa
uma quantidade de água maior do que qualquer
outra atividade industrial e é a quinta
atividade que mais consome energia. Além
disso, a etapa de branqueamento do produto produz
dioxinas, compostos classificados como os mais
potentes provocadores de câncer e outras
doenças nos sistemas endócrino,
reprodutivo, nervoso e imunológico.
As empresas alegam que o mercado exige
papel branco. O grande consumidor mundial são
os Estados Unidos, com média de 347 quilos
per capita ao ano, seguidos pela Europa, com média
de 300kg/ano. O Brasil consome 38kg/ano. A Aracruz
é a maior produtora mundial de papel higiênico
branco. Apenas uma pequena porcentagem da produção
é destinada à impressão de
livros e cadernos.
Sobre os aspectos
jurídicos, o procurador do MP, Domingos
Silveira, ressaltou, entre outros pontos, que
a propriedade, conforme está escrito na
Constituição brasileira, deve cumprir
o seu papel social. Ele lembrou que o artigo 186
deixa claro que a propriedade rural só
cumpre seu papel social se houver utilização
adequada dos recursos naturais disponíveis
e preservação do meio ambiente.Segundo
Silveira, o MPF solicitou a suspensão de
liberação de verbas do BNDES para
empreendimentos que atentam contra o meio ambiente,
incluindo a Aracruz. Para o procurador, no RS
a Fundação Estadual de Proteção
Ambiental (Fepam) e o Ministério Público
Estadual (MPE) estão flexibilizando normas
para a liberação dos termos de ajustamento
para essas empresas. A resolução
237/97 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama),
determina que atividades que gerem impacto ambiental
significativo exigem
Estudos de Impacto Ambiental (EIA), além
de serem licenciadas pelo Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis
(Ibama). No final, ele parafraseou Bertolt Brecht:
Às mulheres da Aracruz chamam de
loucas e violentas, mas à Aracruz, que
oprime, rouba terras e destrói a natureza,
não.
A análise
do papel dos meios de comunicação
ficou a cargo de Pedrinho Guareschi. Para o pesquisador,
as coisas existem ou deixam de existir se estão
ou não na mídia, que constrói
a realidade com valores; o fato de estar na mídia
já é ter valor. Na opinião
de Guareschi, para quem o RS é o estado
mais monopolizado em termos de mídia do
país, o poder está mais no que deixa
de ser dito do que no que é dito. Ele lembrou
que as concessões de rádios e TV
são públicas, de dez anos para rádio
e 15 para televisão. O termômetro
que mede a democracia numa sociedade é
a participação da população
na mídia, disse ele. A BBC de Londres
usa em média 5 minutos para dar uma notícia;
no Brasil, essa média é de 30 segundos
afirmou Guareschi.
O pesquisador acredita que, muitas vezes, é
necessário escandalizar para ser ouvido.
Como as mulheres camponesas fizeram em 8/3 passado,
quando destruíram o horto florestal da
Aracruz Celulose em Barra do Ribeiro (RS). O episódio
também foi lembrado por Dirce Suertegaray,
na abertura do seminário. A professora
afirmou que as camponesas chamaram a atenção
para o problema. Com elas me apóio e com
elas me articulo. Essa terra é nossa, e
devemos continuar lutando.
|
Representantes
de comunidades indígenas do Espírito
Santo relataram, no seminário, que
a indústria de celulose chegou àquele
estado em 1960. Iniciou um rápido
processo de devastação da
Mata Atlântica e expulsão das
comunidades rurais, pois a Aracruz invadiu
terras indígenas e quilombolas. Segundo
estudo realizado durante seis meses nos
rios Sahy, Guaxindiba e Doce, próximos
a terras indígenas, as plantações
da empresa na região consomem por
dia a mesma quantidade de água que
uma cidade de 2,5 milhões de habitantes,
o equivalente ao consumo de água
na Grande Porto Alegre.
|
O eucalipto
O eucalipto é
originário de regiões úmidas
da Austrália, mas hoje está presente
em todo o planeta. Durante muito tempo, o eucalipto
não criou maiores problemas para o meio
ambiente, pois era plantado em pequenos capões
pelos agricultores e usado para lenha, mourões
e até remédio. O problema está
no plantio extensivo, na monocultura. Como é
uma árvore de clima quente e úmido,
precisa de muita água para crescer rápido
e consome muita água. As matas de eucalipto
também são seletivas, ou seja, inibem
outras plantas de nascer, o que diminui drasticamente
a biodiversidade.
As três
irmãs
Três grandes
fabricantes de celulose e papel Aracruz,
Votorantin Celulose e Stora Enso já
compraram mais de 300 mil hectares de terra para
plantar eucalipto e pinus no RS, número
que deverá chegar a 1 milhão de
hectares até 2015. Segundo dados apresentados
durante o seminário Deserto Verde: os impactos
da monocultura do eucalipto para os povos, a monocultura
de eucalipto gera um emprego a cada 187ha, isso
quer dizer que esses 300 mil ha podem gerar no
máximo 1,6 mil empregos. A agricultura
familiar, por sua vez, gera um emprego a cada
9ha; logo, com essa mesma área geraria
33 mil empregos, sem o impacto ambiental e com
muito menos investimento.
As três irmãs, como podem
ser chamadas, repartiram o RS em três regiões,
para que não haja concorrência entre
elas. Talvez a composição acionária
das empresas explique isso. São sócios
na Aracruz o grupo Lorentzen, da Noruega (28%),
o Banco Safra (28%), a Votorantim (28%) e o BNDES
(12,5%), que é também o financiador
dos investimentos de compra de terras. O restante
é de pequenos acionistas, entre eles a
Souza Cruz. A Aracruz é sócia da
Votorantin, que por sua vez criou uma empresa
específica para o ramo de papel e celulose,
a VCP Votorantin Celulose e Papel, que
se aproveita das pesquisas da sua sócia
Aracruz. A Stora Enso é uma multinacional
sueco-filandesa que, junto com a Aracruz, criou,
meio a meio, a Veracel. As três empresas
estão próximas de fontes de água:
na Lagoa dos Patos atua a Aracruz; na divisa com
o Uruguai, a Votorantin; e na Fronteira-Oeste,
a Stora Enso/Veracel.
As propaladas parcerias com os produtores das
regiões onde se instalam podem ser vistas
como um engodo. Elas correspondem apenas a 20%
da área total e deixa os agricultores completamente
dependentes das empresas. As mudas, por exemplo,
são geneticamente modificadas e depois
clonadas de um único indivíduo,
que apresentou as características mais
desejáveis. Isso significa uma fragilização
de toda a lavoura, que irá se comportar
exatamente igual ao impacto de uma praga ou doença.
Segundo Francisco Milanez, da Agapan, o eucalipto
transgênico aumenta o poder das empresas,
uma vez que o agricultor não poderá
mais vender sua produção para o
setor moveleiro.
Leia
Manifesto contra o deserto
verde e a favor da vida:
www.wrm.org.uy/paises/Brasil/manifesto.html
Saiba
mais
Os países industrializados
consomem 90% do papel produzido no mundo, cabendo
os restantes 10% às nações
em desenvolvimento onde as fábricas de
celulose se instalam utilizando uma tecnologia
obsoleta.
O
World Rainforest Movement faz um trabalho em diversos
países em defesa das florestas tropiciais
No Brasil, a
Rede Alerta contra o Deserto Verde reúne
mais de cem entidades.
População
e meio ambiente
Paulo Ribeiro
Montano*
Há
muito tempo que prever o futuro deixou de ser
trabalho de cigana. Hoje, cientistas de todos
os matizes, de certa forma, o fazem. Entretanto,
não precisa ser cientista para prever que,
no futuro, o nosso planeta vai ficar pequeno diante
da enorme população humana. A população
cresce e a economia, por sua vez, também
cresce. A economia tem crescido mais nos países
desenvolvidos e, principalmente, nos tigres
asiáticos. Entretanto, com exceção
da China e da Índia, o crescimento econômico
nos países pobres e emergentes tem sido
pequeno. Assim, mesmo que a economia esteja crescendo,
a população também não
pára de crescer e é claro que, com
o crescimento da população, sem
o correspondente crescimento de vagas para trabalho,
crescem a miséria e a exclusão social.
O resultado disso tudo é um planeta cada
vez mais populoso e ávido por consumo.
Todavia, o consumo depende de oferta compatível.
Infelizmente, a oferta de alimentos, por exemplo,
é, hoje, muito menor do que a necessidade
demandada. Seria preciso uma reforma agrária,
em escala planetária, para atender à
necessidade humana de consumo de alimentos. A
questão do desemprego, então, é
ainda mais difícil de resolver.
Nessa linha, tem-se o caminho historicamente defendido
pela esquerda marxista: fazer a revolução.
Sem dúvida, o socialismo, em escala mundial,
seria promissor. A humanidade faria um planejamento
sobre a produção e rumaria para
a sonhada igualdade, com respeito à natureza.
Acontece que não há perspectivas
de vitória do socialismo a curto ou médio
prazo. Pelo contrário, o que se desenha
a médio prazo é a miséria
e a barbárie em escala mundial. A superpopulação
mundial junto com a extrema escassez seria o pior
cenário da barbárie. Então,
a solução clássica seria
fazer crescer a economia planetária e,
principalmente, a produção de alimentos.
Isso, independentemente de o sistema ser socialista
ou capitalista. É claro que para a grande
massa de excluídos seria melhor que a economia
crescesse impulsionada por um sistema socialista,
mas o crescimento econômico no capitalismo
já seria melhor do que a recessão
com desemprego.
Então, basta fazer crescer a economia,
criar empregos e distribuir melhor a renda? Infelizmente
não, e por duas razões: 1) a economia
não pode, e nem poderá, no futuro,
crescer infinitamente; 2) o crescimento econômico
traz consigo a degradação, maior
ou menor, do ambiente natural. É sabido
que quanto mais desenvolvido for um país,
mais ele polui. Por isso, só crescer a
economia não resolve, pois há que
se fazer crescer a economia de maneira racional,
de modo a não prejudicar o meio ambiente.
Isso é possível? Até certo
ponto sim, mas, provavelmente, não tardará
o dia em que a economia estará crescida;
porém, a população humana
estará, ainda, mais crescida.
Isso significa que Maltus tinha razão?
A população cresce em progressão
geométrica enquanto que os recursos naturais
crescem em progressão aritmética.
Creio que não, mas, com certeza, a população
mundial, atualmente, está crescendo mais
do que os recursos proporcionados pela economia
planetária. Desse modo, fazer crescer a
economia, com respeito à natureza, criar
empregos e distribuir renda não basta,
pois o crescimento econômico não
consegue acompanhar o crescimento populacional.
Diante disso, a solução que se desenha
óbvia, ainda que vista com desconfiança
pela esquerda, é o controle da natalidade.
O tema é polêmico, mas necessário,
pois só o controle da natalidade pode estagnar
a atual população mundial ou, pelo
menos, desacelerar o seu crescimento. Nesse sentido,
a diminuição da taxa de crescimento
da população, ao lado de um crescimento,
ecologicamente sustentável, da economia
com distribuição de renda, já
seria bom. Com esse cenário, teríamos
um crescimento econômico compatível
com a necessidade de gerar empregos com vistas
a ter uma economia do tamanho da necessidade da
população mundial. Entretanto, isso
não se dará espontaneamente. A toda
evidência, o controle do crescimento da
população precisa de uma forte iniciativa
dos estados nacionais e seus governos. Tendo em
vista que as pessoas morrem cada vez mais tarde,
o controle da natalidade é o único
meio possível de conter o crescimento da
população humana. Do contrário,
fica difícil vislumbrar um futuro promissor,
pois é impossível conter a degradação
ambiental se não houver um plano político-econômico
que, além de promover o crescimento econômico
com distribuição de renda, promova,
também, o respeito à natureza e
o controle da natalidade.
A questão
ambiental, a propósito, começou
a ser levada a sério em todo o mundo e
conta com a participação militante
da esquerda. É nesse contexto que surge
o movimento mundial do ecossocialismo. O socialismo
ecológico surgiu como alternativa aos Partidos
Verdes (pouco interessados na causa dos oprimidos).
Mas, voltando à questão econômica,
chegará um dia em que a humanidade terá
de desacelerar o crescimento econômico para
não esgotar as forças produtivas
da natureza. Isso será possível?
Depende, justamente, do ritmo de crescimento da
população mundial e da demanda por
emprego e renda. Se, no futuro, houver estagnação
da população, ou desaceleração
do crescimento populacional, poderá ser
desacelerado o crescimento econômico de
modo a torná-lo compatível com a
demanda e com as forças produtivas da natureza.
Não se pode esquecer que as forças
produtivas da natureza não são ilimitadas
nem infinitas, cabendo à espécie
humana a sua gestão, para o bem ou para
o mal. Por tudo isso, não vejo empecilho
em juntar a idéia do socialismo ecológico
com a idéia de controlar a natalidade,
pois ambas são necessárias para
melhorar o presente e, principalmente, garantir
o futuro.
* Paulo
é analista judiciário da 27ª
VT de Porto Alegre
Cidadania
Observatório do Judiciário: o poder
fiscalizado pela sociedade
Cristina
Feio de Lemos*
O II Fórum
Social Brasileiro realizou-se em Recife, de 20
a 23 de abril, na Universidade Federal de Pernambuco.
O encontro, permeado por diversas atividades socioculturais,
painéis dos movimentos sociais e mesas
de diálogos com grupos de trabalho de todas
as regiões do Brasil, trouxe também
experiências concretas de democratização
da Justiça no nosso país. O Observatório
da Justiça e Cidadania (OJC) do Rio Grande
do Norte é um organismo não-governamental
que age como fiscalizador da ação
da Justiça em todas as esferas. Hoje, o
OJC é importante instrumento para a defesa
do cidadão e moralização
dos órgãos da Justiça naquele
estado.
O painel foi dirigido por Daniel Pessoa, advogado
do Rio Grande do Norte, especializado na defesa
dos direitos humanos. A trajetória dele
emociona no primeiro contato. Em seu relato, ele
revelou que é filho de promotor, o qual,
devido às denúncias contra setores
do judiciário, foi covardemente assassinado.
Como se não bastasse, a postura de Daniel,
de vanguarda no enfrentamento com setores do Judiciário,
trouxe-lhe duras conseqüências na carreira.
Em vez de esmorecer e concordar com os atos de
violência, ele preferiu outro caminho.
Baseado na experiência de estados como o
Ceará, que possui o Observatório
de Justiça desde 1985, Daniel foi um dos
líderes na formação do observatório
no Rio Grande do Norte. A criação
dessa entidade fundamenta-se no fato de que, sempre
que a Justiça, compreendida no seu conjunto
desde a polícia até os tribunais
superiores , ultrapassa seus limites, a
sociedade é quem perde, pois se torna a
chancela institucional para a opressão.
O nepotismo, o mau uso do dinheiro público,
a compra de sentenças, a troca de favores
dentro da Justiça e outras práticas
torpes, à medida que a sociedade as detecta,
são encaminhadas ao Observatório,
o qual funciona como regulador do Judiciário,
exigindo investigação e apuração
dos fatos denunciados.
O Observatório é integrado por diversas
entidades representativas: sindicatos de várias
categorias, CUT, OAB, Marcha Mundial das Mulheres,
associações de imprensa e outros
movimentos sociais. Conta com advogados que agem
gratuitamente no apoio jurídico para encaminhamentos
das ações e defesa dos cidadãos
atingidos. Como resultados concretos do OJC, Daniel
apontou a criação das Ouvidorias
de Justiça, formadas por membros eleitos
da sociedade civil e não mais por um juiz
do TJ, bem como a realização por
parte do governo do estado de cursos de formação
em direitos humanos, com a participação
de 3,5 mil policiais.
Prática como essa é mais um exemplo
de como a sociedade organizada pode e deve agir
sobre os poderes que compõem a república
Judiciário, Legislativo e Executivo
, para que as instituições
que garantem a igualdade possam agir atreladas
às vontades do povo brasileiro.
* Cristina
é servidora da JF e diretora do Sintrajufe
Cidadania
Dia da Consciência Homossexual
Ana Naiara
Malavolta*
Apesar
de ser tratado como um dia de festa, o Dia do
Orgulho Gay é um dia de luta e protesto.
A história da criação da
data é significativa: cansados de apanhar
da polícia, que todas as noites invadia
bares gays de Nova York, uma centena de homossexuais
foi para a rua em 28/7 e enfrentou a polícia
por três dias, em busca de respeito e paz.
Isso aconteceu em 1969, mas de lá para
cá os desrespeitos continuam acontecendo
e os crimes de ódio crescem
de forma assustadora.
Estima-se que no Brasil existam cerca de 20milhões
de homossexuais, cerca de 10% da população.
No mundo, somos mais de 2 bilhões, mas
em muitos países a homossexualidade ainda
é tratada como doença e em outros,
o Estado faz de conta que não existimos.
No Brasil registra-se um crime de ódio
anti-homossexual a cada 3 dias! Isto mesmo: a
cada três dias, um homossexual é
assassinado! São dois crimes por
semana, oito por mês. Uma média de
cem homicídios anuais. Em 2004 o recorde
foi de 158 assassinatos. Dentre as vítimas,
72% gays, 25% travestis, 3% lésbicas
(Relatório sobre Assassinatos GLBT no Brasil,
Grupo Gay da Bahia).
Grupos radicais perseguem e matam travestis nas
ruas das cidades brasileiras impunemente. Em Porto
Alegre, cidade da tolerância, a cada ano,
perto da manifestação da Parada
Gay, somos aterrorizados por cartazes homofóbicos
pregando a violência, sem que a polícia
consiga identificar ou prender um único
responsável. Comerciantes do Olaria travam
há meses uma batalha inglória com
jovens que freqüentam o local e, em nome
da moral e dos bons costumes, proibiram os casais
de trocar carícias em público. O
fato escondido atrás dessa falsa polêmica
é a hipocrisia de nossa sociedade, que
proíbe a manifestação pública
de carícias entre pessoas do mesmo sexo.
Este é o ponto crucial: heterossexuais
podem manifestar seus sentimentos publicamente,
homossexuais não!
Tanto isso é verdade que muitos entre nós
continuam escondendo sua condição
diante de colegas, amigos e, pior, diante da própria
família! Nossa vergonha ou nosso medo não
são injustificáveis, pois refletem
o enorme preconceito que ainda existe, manifesto
pelas piadas e pelas indiretas e, infelizmente
e de forma crescente, pela violência verbal
e física.
Quando fiz o
primeiro texto para o D&A, esperava ser abordada
nos corredores do Judiciário por todos
os homossexuais da categoria: falar sobre nossos
problemas, formar um grupo de debates, mas isso
não aconteceu. Tirando os mais próximos,
pouquíssimas pessoas tocaram no assunto,
e o círculo de silêncio que envolve
o tema foi integralmente preservado. Isso não
pode ser coincidência. Não falamos
sobre as coisas que tememos e tememos aquilo que
não compreendemos. Já é hora
de buscarmos informação e formação
sobre o tema e assumirmos essa luta como uma luta
social, de direitos humanos, pois o direito à
vida e à manifestação pública
de afeto é inerente ao ser humano e nossas
diferenças não podem ser motivo
para ódio que leva à discriminação
ou ao crime.
Uma boa oportunidade para exercitar a convivência
solidária e pacífica é a
Parada Livre, momento de levarmos nosso grito
por tolerância para a rua. Fale sobre o
tema, eduque as crianças, acredite na possibilidade
de convivência entre pessoas diferentes.
Nossa condição sexual não
pode ser motivo para assassinatos, para agressões
e intolerância. Queremos construir uma país
e um Judiciário capazes de respeitar e
conviver com as diferenças, tratando a
todos e a todas com o respeito que qualquer ser
humano merece.
* Ana Naiara
é servidora do TRT
Cultura
Mario Quintana: no centenário, uma releitura
é bem-vinda
Landro
Oviedo*
Neste ano,
a obra e a vida de Mario Quintana estão
em evidência, o que é definitivamente
saudável num país de memória
curta. Temos aqui um caso raro de convergência
entre todos os tipos de leitores, editoras, escritores,
mídia em geral, instituições
culturais, todos imbuídos em fazer de 2006,
o ano do centenário do poeta, um ciclo
marcante nas letras gaúchas e brasileiras.
O fato de se relembrar o poeta, por si só,
já é auspicioso. Ver-se então
uma unanimidade entre agentes culturais, destinatários
da cultura, formadores de opinião, com
um só movimento em torno da obra, divulgando-a
permanentemente, é um fato ímpar
no mundo da cultura.
Lembro-me de que quando coordenei os eventos do
centenário de nascimento de Manoelito de
Ornellas (1903-1969), as dificuldades foram imensas
pelo desconhecimento em torno de sua obra, não
obstante ter sido ele o impulsionador do Erico
Verissimo escritor, além de ser um pesquisador
e escritor portentoso. Assim, constatar o interesse
existente em torno da obra quintanista é
de recarregar as baterias da alma para qualquer
um que milite no campo da cultura. Eu me sinto
reconfortado.
O
objetivo, percebe-se, é fazer com que o
poeta seja o mais lido possível, projetando
ainda mais sua imagem e sua obra. Hoje, ele é
muito conhecido, como se pode perceber por manifestações
que chegam diariamente do país e até
do exterior, tendo como um dos destinatários
o poeta Sérgio Napp, diretor da Casa de
Cultura Mario Quintana. Mas é preciso que
sua poesia seja lida e estudada cada vez mais,
até para não se correr o risco de
se dar o ocorrido com Alcides Maya, que era um
autor mais citado do que lido, no
dizer do crítico literário e historiador
Moysés Vellinho.
Sérgio Napp, por sua vez, entende que o
ano do centenário de Mario Quintana deve
servir para lançar novas luzes sobre sua
obra, descortinando a densidade da sua poesia,
que sofre o estigma de ser ingênua e superficial.
É preciso que a poesia quintanista seja
visível a olho nu como ela realmente é,
com sua fina ironia e mordacidade, mas com uma
profundidade que não é para desavisados.
Sua obra é plena de sutilezas, de plurissignificação,
de um humor rarefeito sobre o cotidiano, de um
enfoque particular e exauriente de temas universais
como o amor, a solidão e a efemeridade
das coisas. Napp tem um interesse particular em
abrir as portas da universidade para a poesia
de Quintana, rompendo com preconceitos que a seara
da academia apresenta, ainda que dissimulados,
com a obra do bom velhinho, que fazia
poemas fáceis e se encantava com as moças.
A intelectualidade tem que reler Mario Quintana,
sob pena de pagar penitências para a posteridade.
Napp lembra que Quintana nunca se apegou a rótulos
ou a escolas. Quando todos os poetas desembarcavam
do soneto, numa era pós-Guilherme de Almeida,
ele lançou um livro de sonetos. Sempre
remou contra a maré. Mas nunca se propôs
a agradar a gregos e troianos. Fazia o que entendia
bem. E nunca foi de granjear admiradores e divulgadores
à custa de bajulações. Nem
precisava. Mas os teóricos não gostam
disso. Eles querem se sentir necessários.
São como um eunuco que lança um
manual de sexo.
Ainda na linha da revisitação, podemos
lembrar o poema Da vez primeira..., que o aproxima
de ícones da poesia pessimista e desencantada,
como o simbolista Augusto dos Anjos e o romântico
Álvares de Azevedo, expoente do mal-do-século.
Nele vamos encontrar o difícil aprendizado
do anjo Quintana confinado na terra.
Da
vez primeira...
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela, amarelada,
Como único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! desta mão avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz
sagrada!
Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
Nesse poema, vemos o poeta sendo desiludido da
vida a conta-gotas pela própria vida. É
como se se reafirmasse o vaticínio literal
de Fernando Pessoa: Navegar é preciso,
viver não é preciso. A ciência
dá conta da navegação, mas
nada é exato quando se trata de viver.
Viver é muito perigoso, já
dizia Guimarães Rosa pela voz de Riobaldo.
Assim, o poeta vai perdendo sua ingenuidade pelos
desvãos dos acontecimentos pesarosos. Mas
é possível imaginar Quintana sem
sua doce ingenuidade? Sem sua rua, sua nuvem,
sua nesga de céu? Sim, porque há
muitos Quintanas, como poderão perceber
os leitores mais diligentes. O poeta é
múltiplo e seus dramas e Quintanas internos
habitam seus versos, ora suaves, como uma brisa,
ora densos, como uma tormenta interior. O homem
que habita o poeta por muitas vezes dita-lhe o
rumo. O poeta não psicografa apenas alegrias
e descrições, mas também
angústias e desilusões.
Neste centenário do poeta, é preciso
estar alerta para, além de ler Quintana,
reler e revisitar sua obra. Seus poemas estão
por aí, vivos, à espera dos leitores,
pulsantes para avivar imaginações
e desfazer estereótipos. São sua
herança, seus organismos vivos para nos
brindar com a presença do autor. Cada poema
é um fragmento de sua autobiografia. É
sua vida que se entrelaça com a nossa.
Mario Quintana não é um bom velhinho
da poesia, mas um homem que viveu intensamente
vidas imaginárias e a sua própria
vida, sem distinções. Cem anos depois,
o poeta renasce em cada verso.
* Landro
Oviedo é professor de Português e
Literatura e advogado
Fique
por dentro
Paradise now: as nuances que tingem o Oriente
Médio
Ao mesmo tempo
em que o cinema, principalmente aquele produzido
por Hollywood, faz fitas em que a divisão
do mundo se dá entre bons e maus, capitalistas
e comunistas, feios e bonitos, diretores anti-belicistas
e/ou pacifistas nunca perdem a chance de mostrar
que há mais tons de cinza entre o branco
e o preto que a nossa vã filosofia pode
imaginar. Seja no drama de Johnny vai à
guerra (Johnny got his gun, de Dalton Trumbo),
seja na comédia Dr. Fantástico (Dr.
Strangelove or how I learned to stop worrying
and love the bomb, de Stanley Kubrick), eles mostram
que a guerra não serve a ninguém
senão àqueles que lucram com a morte
ou acreditam no aspecto afrodisíaco do
poder.
No drama Paradise now, produção
de 2005 dividida entre França, Alemanha,
Israel e Holanda e dirigida pelo palestino Hany
Abu-Assad (que co-assina o roteiro com Bero Beyer
e Pierre Hodgson), dois amigos de infância,
Khaled (Ali Suliman) e Said (Kais Nashef), são
escolhidos para serem homens-bombas
em um atentado em Tel Aviv. Porém, o plano
não sai como esperado e ambos se separam,
sendo obrigados a ficar com os cinturões
de bombas presas ao corpo até que voltem
ao local de onde partiram e possam desarmá-las.
E é a partir do inesperado que o filme
começa a trazer à tona as angústias,
os dilemas e as convicções dos protagonistas
e também de suas famílias. Estas
não sabem de nada, mas sentem algo, pois
a realidade que são obrigadas a viver faz
com que o tempo e a lógica a que estamos
acostumados não signifique nada. E isso
paralelo às questões ideológicas
sobre ocupação e resistência
ao invasor.
A película recebeu uma indicação
ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Nessa categoria
levou o Globo de Ouro e o Independent Spirit Awards,
além do European Film Awards de Melhor
Roteiro. A fotografia de Paradise now, sob as
lentes de Antoine Héberlé, consegue
traduzir bem a aridez, tanto a geográfica
quanto a existente entre árabes e judeus.
Paradise now não procura um ou mais culpados.
Mostra, isto sim, causas e razões para
que jovens grudem bombas ao redor do seu corpo
e as explodam em ônibus, restaurantes e
mercados. Por outro lado, aproveita para mostrar
e ser crítico a forma como
se dá o recrutamento dos futuros suicidas,
as promessas que lhes são feitas e as cobranças
que sofrem para levar a cabo algo que talvez possa
ser resolvido de outra forma que não aquela.
Mas a questão é se, naquele momento,
esta outra forma existe realmente.
No filme não há explosões
nem corpos dilacerados, pois para tratar da questão
judaico-palestina não é preciso
mostrar sangue jorrando. As dúvidas que
atormentam os escolhidos para o trabalho
e a maneira como cada um deles lida com a questão
é que nos mostram o quão é
difícil se chegar a um desfecho positivo.
Paradise now não procura ser a última
palavra sobre as questões belicistas no
Oriente Médio. E, sem querer relativizar
quem é o oprimido ou quem é o ocupante/invasor,
tudo é uma questão de ponto de vista.
As vítimas podem estar em ambos os lados.
(Marcelo Antunes)
 |
Fique
por dentro
MEC disponibiliza obras para download
O Ministério
da Educação disponibiliza obras
de literatura, história e outras áreas
para download gratuito. São mais de 5 mil
autores brasileiros e estrangeiros (no original)
sobre os mais diversos assuntos. Há ainda
um banco de dados com quase mil arquivos de som
em MP3 e cerca de 500 vídeos produzidos
pelo MEC. Também podem ser acessadas mais
de 5 mil imagens (fotos, gráficos, mapas,
obras de arte, etc.). Basta acessar o sítio
http://www.dominiopublico.gov.br.
Fique
por dentro
Juventude rural faz propostas para o Brasil
Mais de
1,5 mil jovens de todo o país reuniram-se
em Brasília no final de julho no 2º
Congresso Nacional da Pastoral da Juventude Rural.
O encontro discutiu conjuntura e outros temas
de interesse da juventude rural. Pela primeira
vez, um presidente brasileiro recebeu a juventude
rural em audiência. Depois de uma marcha
na Esplanada dos Ministério, os jovens
entregaram uma carta a Lula reivindicando o assentamento
imediato de todas as famílias assentadas,
a publicação da portaria que atualiza
os índices de produtividade para efeito
de desapropriação, investimentos
em educação no campo e a criação
de políticas de cultura e lazer direcionadas
à juventude do campo.
|