|
Nossas
lutas de ontem, de hoje, de sempre
Tempos difíceis. Tempos de crise.
Mas colocamos na rua mais um D&A, espaço
em que todos podem contribuir e, novamente, contamos
com o apoio de vários colegas que enviaram
seus textos. Neste ano, o Sintrajufe realizou
um Congresso Extraordinário, que ratificou
a decisão da categoria de permanecer filiada
à CUT. A Central é um dos temas
desta edição. Também estão
em pauta direitos reprodutivos femininos, com
a discussão sobre o aborto, e dos casais
homossexuais.
A crise política continua a nos assombrar
com seus desdobramentos diários. Muitas
denúncias. Pouca apuração
dos fatos.
Aos que sonham com um mundo guiado por princípios
que enalteçam a vida em detrimento da podridão
do modelo capitalista, resta esperar que os envolvidos
em corrupção sejam exemplarmente
punidos. Porém, precisamos avançar
ainda mais. Queremos campanhas políticas
que não sejam dominadas por marqueteiros.
Queremos políticos apresentando idéias
e não vendendo produtos. Mas, queremos,
sobretudo, que a população tenha
voz ativa no encaminhamento de seus projetos políticos.
Infelizmente, o governo Lula preferiu apostar
na frágil governabilidade perante o Congresso
em vez de se apoiar no forte apelo popular que
o elegeu. Deu no que deu.
O preço da governabilidade saiu alto demais.
Não podemos chegar ao inferno, entrar em
acordo com o diabo e ainda pretender passar-lhe
a perna. A força de um governo de base
popular consiste, precisamente, em não
abandonar suas origens.
Num momento como este, é necessário
não confundirmos os lutadores sociais com
quem vendeu seus ideais.
As nossas lutas por melhores condições
de trabalho devem servir de exemplo a todas as
categorias de trabalhadores. Hoje, a sociedade
começa a perceber a necessidade de um serviço
público de carreira independente.
Por tudo isso, devemos nos mobilizar fortemente
pela aprovação do PCS, que já
se encontra no Congresso. Um salário digno
e o estabelecimento de uma política salarial
justa são a base para uma prestação
digna do serviço.
Por isso lutamos.
PCS
está no Congresso:
agora é lutar pela aprovação
Na última
década os ganhos reais de salário
dos servidores do Judiciário federal sempre
estiveram vinculados à luta da categoria.
E é justamente na capacidade de mobilização
e de pressão que a categoria terá
de investir para assegurar mais uma vitória:
a aprovação do PL 5.845/05, o nosso
PCS. O somatório de luta, mobilização
e união dos servidores do Judiciário
Federal é que ditará as regras e
cenários que serão apresentados
no próximo período, em que estará
tramitando, em busca de aprovação
nas comissões no Congresso Nacional, o
projeto de revisão do PCS. Ele é
resultado de muita discussão dentro da
categoria, pressão sobre o STF negociações
entre representantes da categoria e dos tribunais
superiores em 2004. No encerramento da greve do
ano passado, que resultou no aumento da GAJ, ficou
acertado com o STF a continuidade da negociação
visando a atual reestruturação do
Plano.
O mesmo governo
Lula, que já causou enorme decepção
entre os servidores públicos por conta
de ataques a seus direitos, como na Reforma da
Previdência, já dá sinais
de que criará dificuldades para o andamento
do projeto. Em entrevista por telefone, o presidente
da Comissão do Trabalho, Administração
e Serviço Público e atual relator
do projeto, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN),
confirmou que emissários dos ministérios
ligados à área econômica o
teriam procurado e manifestado preocupação
com o impacto financeiro do projeto no orçamento
da União.
A indicação
de um relator para o projeto demorou mais de um
mês. Isso se deu, segundo Alves, porque
a matéria precisava ser estudada amplamente
pelos deputados e havia a preocupação
maior, que é o ajuste orçamentário
possível que possa permitir o aumento dos
servidores. Além disso, seis deputados
estavam na disputa pela relatoria. Mesmo
com este round vencido, a luta não termina
aqui, pois sabemos que teremos muitas dificuldades
temos pela frente.
O ponto nevrálgico
do debate é o impacto financeiro, de mais
R$ 4,5 bilhões. Não faltam argumentos
para desconstruir a velha desculpa utilizada para
negar recomposição salarial:
1) o Judiciário
é um órgão que arrecada valores
vultosos para a União;
2) o PL não
desrespeita a Lei de Responsabilidade Fiscal (a
despesa com pessoal do Judiciário Federal
permance abaixo do limite legal de 6% da receita
corrente líquida);
3) a revisão
que hoje se busca foi o acordada entre Fenajufe
e tribunais superiores em 2004.
No entanto, no
referente à discussão com os tribunais,
há uma diferença básica que
separa esta revisão do PCS da última,
feita em 2002. Naquele ano, o projeto dos servidores
tramitou conjuntamente com o que garantia incremento
remuneratório aos magistrados. Em 2005,
entretanto, o aumento para os juízes (retroativo
a janeiro) foi aprovado 30 dias antes; era, inclusive,
imposto como um dos requisitos do presidente do
STF, ministro Nelson Jobim, para que ocorresse
o envio do nosso PCS ao Congresso.
Outros percalços
que deverão se apresentar no cenário
e que, não havendo as imprescindíveis
mobilização e pressão da
categoria, serão utilizados como ingredientes
para retardar o andamento do processo são
a crise política, o recesso de final de
ano, o calendário eleitoral de 2006 e a
cobertura da mídia em relação
ao projeto. Quem não se lembra de uma das
manobras do governo FHC para colocar a opinião
pública contra a revisão do PCS
de 2002? Em maio de 2001, o príncipe dos
sociólogos plantou no jornal O Estado de
São Paulo uma matéria em que acusava
o ministro Carlos Velloso de engatar um
trem da alegria ao tentar encaminhar o PCS
à Câmara dos Deputados. Para o Estadão,
a proposta se tornaria um trem da alegria,
pois reajustaria os salários de toda a
categoria. A matéria tinha o objetivo de
causar constrangimentos, impedindo o envio do
anteprojeto à Câmara dos Deputados.
O mesmo expediente
está sendo utilizado agora pelo mesmo jornal
paulista. Em matérias publicadas nos dias
20 e 21/9, com direito a chamada em primeira página,
o Estadão trazia estampada a sua preocupação
com o a revisão do PCS. Na dança
de números e índices apresentada
pelo jornal, o maior aumento previsto no
projeto seria de 154%; R$ 15,6 mil por mês
seria o limite salarial de um analista judiciário;
R$ 10,4 mil a maior remuneração
de um auxiliar e R$ 15,8 bi o novo custo da folha
de salários em 2006, 41% a mais que os
R$ 11,2 bi anteriores. A matéria
não cita os técnicos, que são
a maior parte da categoria, e mostra muita desinformação
de forma proposital ou não ,
que somente cria mais obstáculos a serem
superados pela categoria.
Para ficar apenas
no caso do auxiliar judiciário, o Estadão
mais que duplicou o valor do salário, que
não passaria de R$ 3,7 mil no padrão
15, incluindo a GAJ de 50%. O jornal, sem explicar
também que os servidores, para chegar a
tal patamar na carreira, demoram 15 anos e passam
por avaliações anuais. E, para não
deixar dúvidas em relação
a sua preocupação, no
dia seguinte uma nova matéria trazia um
ministro do Planejamento impressionado
com o que será gasto para reestruturar
as carreiras dos servidores do Judiciário.
O texto destacava
que Paulo Bernardo, o titular da Pasta, considerou
um exagero os reajustes salariais de até
154% previstos no projeto (...) Se considerarmos
uma inflação que vai ficar este
ano na ordem de 5%, me parece um pouco exagerado,
teria dito o ministro. Para corroborar com um
ministro impressionado, o jornal também
trouxe a opinião do deputado Carlito
Merss (PT-SC). Ele, relator do orçamento
geral da União para 2006, disse estar estupefato
com os custos envolvidos.
Na verdade, surpresa
a categoria deveria ficar se a postura da mídia
não fosse essa. Já era esperado.
Nós temos é que definir uma estratégia
que informe a sociedade sobre a verdade dos fatos.
Daqui para a frente, esse tipo de postura deverá
se intensificar, pois a grande imprensa sempre
foi favorável ao Estado mínimo.
E nesse contexto é fundamental o desmantelamento
do serviço público, opina
Leonardo Torres, diretor do Sintrajufe.
Por isso a idéia
de que o envio do PCS ao Congresso em 31 de agosto
último foi somente a primeira vitória
de uma série que deverão ser conquistadas
nos próximos meses e que a luta não
será fácil ganha corpo junto à
categoria. Apesar de o projeto estar andando,
a categoria, por experiências de lutas anteriores,
sabe que sem a devida pressão e mobilização
de todos os servidores do Judiciário Federal,
a atual revisão do PCS corre o risco de
ficar parada.
E é por
isso que os colegas presentes na Ampliada da Fenajufe,
realizada em 3/9, em Brasília, defenderam
que a luta deve ser intensificada com o mote se
o PCS não andar, em outubro o Judiciário
vai parar. E não é para menos,
pois, diante da postura que o governo federal
vem adotando em relação às
negociações salariais com outras
categorias, tudo leva a crer que a revisão
do PCS será um dos maiores embates já
travados pela categoria. Em 1/10, uma nova
Ampliada foi realizada e ficou definido 19/10
como o Dia Nacional de Paralisação
de 24 horas em todo o país.
O projeto, que
tramita em caráter terminativo, ou seja,
o seu rito não prevê a necessidade
de ser levado a votação em plenário,
precisa ser examinado e aprovado em três
comissões na Câmara (Trabalho, de
Administração e de Serviço
Público; Finanças e Tributação;
e Constituição, Justiça e
Cidadania). Em seguida será enviado ao
Senado (em mais duas comissões) e, finalmente,
encaminhado para a sanção presidencial.
Esse é o caminho natural que somente será
percorrido se todos os servidores se unirem em
torno de mais essa luta e não ficarem apenas
esperando que os parlamentares presentes às
comissões atendam aos anseios e às
necessidades da categoria.
Histórico:
1992 - Em pleno
ano do processo de impeachment de Fernando Collor
de Mello, a categoria conquista o enquadramento
na tabela especial do Executivo, saindo da tabela
do PCC. Com isso os servidores do Judiciário
Federal têm seus vencimentos básicos
equiparados com os do Legislativo e do TCU, entre
outros. O RS foi o único estado a entrar
em greve, mais especificamente a JT, que também
tinha pauta específica. Nos demais setores,
houve paraliaçõse parciais. Ao final
de quase 30 dias de paralisação,
os servidores gaúchos conquistaram, entre
outros pontos, vale-transporte, indenização
de transporte para oficiais de justiça,
gratificação judiciária de
80% e correção do auxílio-alimentação.
Neste ponto, um episódio marcou: uma servidora
do interior enviou carta ao programa Jô
onze e meia, exibido pelo SBT. A servidora convidou
Jô Soares para um jantar, desde que fosse
possível pagar com o tíquete anexado
à carta. O valor hoje seria algo próximo
de R$ 1,00. Também marcante foi a entrevista
do então presidente do TRT, José
Prunis, a uma rádio local. Ele afirmava
que a greve era delírio do então
presidente do Sindjustra, o colega Alan. Para
mostrar o equívoco de Prunis, os grevistas
contrataram uma escola de samba e adentraram no
tribunal com o som ensurdecedor da bateria. Mostraram
a quem ainda tinha alguma dúvida que a
greve existia de fato. O Pleno do tribunal trocou
o negociador por Carlos Edmundo Blauth (então
vice-presidente do TRT) para concluir o processo
de negociação com a categoria.
1996 - Formulado
e discutido entre 1994 e 1995, o primeiro PCS
somente foi sancionado no ano seguinte e implementado
em quatro parcelas anuais a partir de janeiro
de 1997. Foi a primeira tabela específica
para servidores do Judiciário. No RS, os
servidores do Judiciário Federal paralisam
suas atividades por 17 dias. Foi a primeira greve
por tempo indeterminado na JF, garantida com grande
adesão, criatividade e disposição.
2000 - No ano
da primeira revisão do PCS, a greve da
categoria durou 18 dias, com o início em
maio. A discussão sobre a revisão
do PCS começa em agosto e se arrasta até
o final do ano, quando a comissão constituída
por tribunais superiores, CJF, TJDFT e representantes
dos servidores estabelece como meta apresentar
até abril de 2001 um anteprojeto ao Congresso.
A proposta, foi entregue ao diretor-geral do STF,
Miguel Fonseca, em 22/2/2001, para ser encaminhada
oficialmente aos tribunais. O então ministro
do TST Almir Pazzianotto se recusou a assinar
o anteprojeto, alegando não conhecer o
seu teor. Mas a administração do
TST havia integrado a comissão que discutira
o anteprojeto desde o ano anterior e não
havia hipótese de Pazzianotto não
o conhecer. Em setembro de 2001 é enviado
ao Congresso.
2002 - Desde
2000 a categoria reivindicava a revisão
do PCS. No Diário Oficial de 28/6/2002,
foi publicada a lei 10.475, que colocou em vigor
a revisão do PCS do Judiciário Federal,
com efeitos financeiros retroativos a 1º
de junho. A lei foi conquistada ao final de uma
greve de 49 dias em que, pela primeira vez, se
conseguiu envolver 22 estados. O Ministério
Público também conquistou o seu
PCS. No Rio Grande do Sul, a greve envolveu todos
os setores do Judiciário Federal; 46 municípios
aderiram. A vitória foi alcançada
no ano em que a Fenajufe completou 10 anos. O
PCS de 2002 foi apresentado na Câmara em
12/9/01. Em 24/10/01 o projeto foi aprovado pela
Comissão do Trabalho, Administração
e Serviço Público. Em 28/11/01,
foi aprovado por unanimidade pela Comissão
de Finanças e Tributação.
A Comissão de Constituição
e Justiça deu parecer favorável
em 29/11/01 e, em 19/6/02, foi o substitutivo
foi aprovado na Câmara. A aprovação
no Senado ocorreu em 20/6/02; a sanção
presidencial, em 27/6/02 e, em 28/6/02, foi publicado
no Diário Oficial.
2004 - O aumento
da GAJ em 2004 (a última parcela vem em
novembro) e a constituição da comissão
que elaborou as alterações no atual
projeto foram frutos da conquista da greve de
2004. O texto foi encaminhado ao Congresso Nacional
em 31 de agosto. O período entre o início
das discussões e o envio do projeto foi
de quase um ano. Diante da postura que o governo
federal vem adotando em relação
às negociações salariais
com outras categorias, tudo leva a crer que a
atual revisão do PCS será o maior
dos embates travados pela categoria nos últimos
anos.
Pontos
em destaque no projeto
Reenquadramento:
os servidores enquadrados no PCS de 1996, lei
9.421, que prestaram concurso antes de 26/12/96
e foram nomeados após essa data terão
os efeitos legais e financeiros desde o ingresso
no quadro de pessoal, o que beneficiará
os colegas de todas as justiças (art. 23).
Estágio
probatório: fica uniformizado em 24 meses,
direito que hoje só vigora na Justiça
Federal.
Cargo de auxiliar:
o art 2º do projeto versa sobre a carreira
judiciária constituída por cargos
de analista, técnico e auxiliar judiciário.
Com isso, evita-se a terceirização
das atividades básicas de apoio operacional.
Paridade aos
aposentados: é assegurado o sentido de
paridade no projeto: o disposto nesta lei
aplica-se aos aposentados e pensionistas,
diz o artigo 29, e também com a manutenção
dos atuais 15 padrões.
Adicional de
Qualificação (AQ) o artigo
15 cria o AQ aos servidores de carreira que tiverem
títulos de diploma, graduação
e pós-graduação. O adicional
não será concedido quando o curso
constituir requisito para ingresso no cargo. O
AQ está garantido aos aposentados conforme
o § 6º deste artigo, considerado no
cálculo dos proventos e das pensões,
sendo adquirido o título anterior a data
de inativação.
Reestruturação
da tabela salarial: é garantido incremento
na tabela salarial, prevendo um ganho em torno
de 40% no vencimento básico.
Gratificação
de Atividade Judiciária A GAJ, que
atualmente está equiparada ao MPU, terá
como paramento a gratificação do
Tribunal de Contas da União. Ela incidirá,
no percentual de 50%, sobre os vencimentos básicos
dos cargos da carreira judiciária.
Quadro único:
os servidores dentro de cada área do Judiciário
integram quadro único para efeitos do direito
a remoção, a ser posteriormente
regulamentada.
Carreira de Estado:
em seu artigo 24, o projeto define os ocupantes
dos cargos da carreira judiciária como
executantes de atividades exclusivas de Estado.
Regulamentação
do projeto: no art. 28 fica possibilitada a participação
das entidades sindicais na elaboração
dos regulamentos de que trata o projeto; buscaremos
que seja obrigatório no texto a ser aprovado.
Ojaf e gratificação:
o projeto propõe a volta da denominação
de oficial de justiça para fins de identificação
funcional (art. 4º, III, § 1º).
Fica instituída a Gratificação
de Atividade Externa (GAE) exclusivamente às
funções de oficiais de justiça
inerentes às suas atividades externas e
que não tenha função comissionada
nem cargo em comissão.
Agentes de Segurança
e gratificação: será conferida
a denominação de inspetor e agente
de segurança judiciária para fins
de identificação funcional e cria-se
a Gratificação de Atividade de Segurança
(GAS) devida exclusivamente aos ocupantes desse
cargo que não tenha função
comissionada nem cargo em comissão (art.
4, III, § 2º).
Os
aposentados e a Campanha Salarial
Cláudio
Silva Rufino*
Os
aposentados devem engajar-se na campanha salarial
da categoria, por ser de seu interesse direto
o sucesso no empreendimento. Acaso modifique-se
o ridículo percentual de 0,1%, a
todos será estendido o reajuste. Alguns
aposentados, principalmente os freqüentadores
do Núcleo de Aposentados, com reuniões
bimensais, na primeira e na terceira quinta-feira
do mês, às 15h, na sede do Sintrajufe,
sempre colaboram e se fazem presentes a atos
públicos. No entanto, deve ser intensificada
a participação dos aposentados,
pois, teoricamente, possuem mais tempo para
tal, além de não sofrerem risco
de qualquer retaliação de parte
das chefias, algumas atentas para prejudicar
os engajados na luta sindical. Realmente,
desde 2003 o Brasil viu crescer a despesa com
pessoal no âmbito federal na ordem de
R$ 7 bilhões anuais, mas pouco ou quase
nada desse dispêndio foi carreado
aos servidores públicos dos quadros de
pessoal da União.
Mil cargos de confiança
surgiram para assessorar novos ministérios
e secretarias, criados com o intuito de privilegiar
o interesse público, mas o resultado
é esta profusão de denúncias
de deputados de partidos aliados ao governo
federal, procedimentos criminais e comissões
parlamentares de inquérito. Também
aumentaram na ordem de 52% as despesas com funcionários
terceirizados, burlando a legislação
vigente e privilegiando empresas privadas com
finalidades pelo menos duvidosas.
O governo federal oferece
aos aposentados empréstimos, com juros
mais modestos, mas não isenta os tributos
inerentes às operações
financeiras, ganhando com isso, em vez de pagar
precatórios e créditos de milhares
de ações em que figuram principalmente
aposentados. O pagamento é feito quando
já morreu a maioria dos credores. Resta
registrar estar contemplada no Plano de Cargos
e Salários (PCS) a equiparação
dos aposentados aos servidores da ativa em sua
integralidade, ao contrário do ocorrido
com várias outras categorias, quando
os inativos são simplesmente alijados
de toda e qualquer modificação.
Assim, uma expressiva participação
de aposentados não só animará
os servidores da ativa, reforçando a
dedicação dos dirigentes de Sintrajufe
e Fenajufe, como marcará a posição
dos aposentados junto com a categoria, da qual
não pode se separar sob pena de restarem
a margem das conquistas funcionais.
*
Cláudio é coordenador do Núcleo
de Aposentados do Sintrajufe
Defender nossos direitos é
enfrentar o governo
David Landau**
Desde que assumiram
o governo em 2003, Lula e sua equipe mostraram
que não são aliados do trabalhador.
Aprofundaram as políticas neoliberais do
governo anterior, intensificaram reformas para
retirar direitos, aumentaram os juros e o superávit
primário, venderam a empresas estrangeiras
nossos poços de petróleo, etc. De
outro lado, mostraram que era possível
aumentar ainda mais os lucros do andar de
cima. Os bancos nunca lucraram tanto em
toda a história do Brasil, e as 500 maiores
empresas do país tiveram, em 2004, o maior
lucro dos últimos dez anos.
O que foi feito
até aqui ainda é pouco comparado
com o que pretendem fazer. O blindado ministro
Palocci vem discutindo com Delfim Netto o plano
Déficit Nominal Zero, que consiste em fazer
um corte arbitrário no orçamento
para fazer caber nele os gastos com o pagamento
integral dos juros. É a velha história:
o que importa é garantir a remuneração
do imperialismo, os brasileiros ficam com o que
sobra. Mas a conta não seria custeada pelas
grandes empresas, que teriam seus impostos reduzidos.
O ajuste pretendido por Lula-Palocci-Delfim atinge
as áreas sociais. Na avaliação
do economista Márcio Pochmann, esse
corte seria feito em maior escala na Previdência
Social (R$ 19,7 bilhões), seguido de corte
de benefícios dos funcionários públicos
(R$ 8,5 bilhões) e também diz respeito
à saúde (R$ 5,7 bilhões),
que seria a terceira categoria da área
social a ser mais atingida pelos cortes dos recursos.
Ele ainda avalia que 1,2 milhão de pessoas
deixariam de ter acesso ao seguro-desemprego e
que haveria corte de R$ 2,7 milhões na
educação (20% do atual orçamento).
Frente a essa
situação, soa incoerente querer
fortalecer o governo e defender PCS ou reposição
inflacionária. Até os sindicalistas
governistas assumem que essas reivindicações
só podem ser conquistadas com muita mobilização
mas, por outro lado, dizem que Lula é aliado
e não um inimigo a ser enfrentado. Mobilizam
para defender o governo na disputa eleitoral,
como quem defende uma quadrilha contra outra na
luta pelo controle do tráfico nos morros
do Rio. A CUT e os sindicatos governistas são
os aliados que o governo pediu a Deus
para respaldar a continuidade da ofensiva neoliberal
e frear a crise. Junto com o conjunto dos servidores
públicos deste país, já ajudamos
a desmoralizar e encurralar FHC, um governo que
parecia invencível e que, nos primeiros
anos, não perdia uma greve. Foi no momento
de maior desgaste dele que conseguimos conquistar
nosso PCS. O governo anterior, como o atual, não
queria nos dar uma migalha, mas não demos
trégua, o enfrentamos até o fim
e o colocamos na parede. Se não fizermos
o mesmo com Lula e ficarmos a reboque de quem
quer apoiar ou fazer parte de uma quadrilha, podemos
esperar o pior.
**
David é servidor do TRT e integra o grupo
Democracia e Luta
CUT
propala que mil sindicalistas apóiam mudanças
políticas do governo Lula
Jackson
Guterres*
Temos um respeito
ao passado de oposição da nossa
CUT, suas cláusulas pétreas de independência
e autonomia governista, talhadas no seio do sindicalismo
combativo de esquerda oxalá esta
fosse a atual realidade da CUT, que desde há
muito, deixou de ser coisa nossa.
A posse do figurão cutista, Luiz Marinho,
chamado por Lula para o Ministério do Trabalho,
tornou evidente, além do vexatório
o comprometimento governista, a total subserviência,
entreguismo e sinecurismo da Central. A megaestrutura
da CUT e o megaaporte de verbas, oriundo dos milhares
de sindicatos, agigantaram-na, mas sua pequenez
político-ideológica impediu-a de
bancar um vigoroso NÃO à atual gestão.
Gestão cujo sustentáculo são
o carisma do lulismo galopante e a ascensão
e a queda do partido que perdeu a cabeça
e o espírito popular ao locupletar-se no
poder. Um partido que elegeu seu dirigente maior
vendendo a idéia de que um outro
mundo político era possível.
Hoje só nos resta engolir em seco, aprender
a dura lição e tentar divisar uma
saída honrosa para um momento de vergonha
nacional, capitaneada pelo PT.
A CUT blefa quando
diz ser contra. Como ser contra aquilo com que
ela compactua? Seguindo a mesma trajetória
do ex-sindicalista Lula, a CUT hoje vem numa escalada
perigosa na contramão aos anseios das massas.
Ir contra a massa é garantia de ruína
moral e estrutural, em qualquer civilização.
Para onde isso vai nos levar? Até quando
vamos ser iludidos? Por quanto tempo a CUT vai
segurar a maré de indignação?
O povo brasileiro
vive um alto grau de insatisfação
contra a corrupção, o arrocho, a
total estagnação, a falta de empregos,
a carestia, a exclusão social, etc. O que
o governo popular não consegue arrecadar
dos impostos retidos das pessoas físicas
(R$ 80 bi anuais) e sob o consumo, ele tira dos
pobres e dos incautos, por meio de mais de 30
jogos oficiais. O quanto menos você e eu
comemos e consumismo em nosso lar é o termômetro
da grave crise que está combalindo o povo
brasileiro e assolando os menos favorecidos e
os abaixo da linha de pobreza.
A CUT participou
da burlesca cena de solidariedade ao ex-sindicalista
Lula, feita por dirigentes sindicais em Brasília.
Só faltou a musiqueta: E o cordão
dos puxa-sacos cada vez aumenta mais. Estamos
desilu(la)didos com tudo e com todos os que estão
no picadeiro das bestas-feras,
(Chefe da Abin falando dos políticos).
A única esperança política
que nos move, no momento, está no terreno
das idéias, das ideologias e dos ideais.
Urge o engajamento de consciências
polidas, lapidadas em anos de formação
política, pois é daí que
deve brotar um pensamento original, um sopro de
resistência, uma oposição
responsável e uma alternativa de luta viável,
justa e sensata que seja tão boa,
a ponto de reacender a esquerda brasileira. Exigimos
renovação em todos os níveis
políticos. Que venha a nova geração
de pensadores conscientes e comprometidos com
a moralidade e probidade público-administrativa
e o crucial respeito ao eleitor. A CUT, em
sua megaestrutura, tem um dos mais rentáveis
negócios uma vultosa arrecadação
mensal garantida, não tem mais a velha
aspiração política e vive
de propaganda política enganosa. Se o governo
não mais nos representa, o que podemos
esperar daqueles que comem no mesmo prato? Fica
aqui a solidariedade aos corajosos companheiros
federais que estão em greve. E a certeza
de que essa greve só não é
maior e mais unitária porque não
está nos planos de luta da CUT atrapalhar
a reeleição de Lula. Deus salve
o povo brasileiro!
* Jackson
é servidor do TRT e integra o grupo Democracia
e Luta
A CUT é instrumento para
derrotar os trabalhadores
David Landau*
A decepção
com o PT e o atual governo não pode nos
fazer esquecer da luta por salário, saúde,
educação, habitação
e trabalho digno. Muitos dos mais conscientes
e esclarecidos trabalhadores passaram ao ceticismo
e hoje dizem: nada podemos fazer.
Não é verdade.
A riqueza escondida
em nosso país é bem maior do que
aquela que apareceu nas últimas semanas:
nas malas do poder político e econômico.
A quantia utilizada para comprar deputados é
menor do que aquela envolvida nos projetos aprovados.
Isto sem falar no fato de que o Brasil é
o país com maior taxa de juros do mundo,
remunerando agiotas de uma dívida virtual
que nunca fizemos, e que nunca foi auditada, com
o dobro dos recursos utilizados para todo o resto
do orçamento público.
Não é
novidade o fato de que o poder econômico
e a corrupção controlaram o país
durante mais de 500 anos. A surpresa é
constatar que, no âmbito das instituições
do Estado, não há uma alternativa
para modificar essa realidade. As campanhas de
marketing que vendem ilusões e salvadores
da pátria (com ou sem barba) não
estão ao alcance do povo trabalhador. O
corrupto Roberto Jefferson orçou: R$ 1
milhão ou mais para eleger um deputado,
ao constatar que o caixa dois é
uma prática de todos os grandes partidos,
inclusive se auto-incriminando. Portanto, podemos
concluir que o corrupto Congresso Nacional
e os seus partidos não são uma representação
média ou um reflexo natural
da cultura e da ética existente na sociedade
civil. É repugnante ver representantes
de instituições corruptas buscando
se justificar por trás de uma suposta conivência
do conjunto do povo brasileiro.
No âmbito
sindical, deparamos com aqueles que querem nos
utilizar para respaldar um ou outro bando dos
delinqüentes de Brasília. Pelego é
aquilo que se coloca entre o cavalo e a pessoa
que o conduz, para amortecer o choque entre o
animal e o ser humano. Não há como
nos aproximarmos (mesmo que lentamente) do Brasil
que queremos, se não nos chocarmos fortemente
contra aqueles que enriquecem às custas
da miséria da maioria. Os pelegos
de carne e osso querem nos convencer que há
amigos no andar de cima contra os
quais não devemos nos chocar, que melhoraremos
nossa vida apostando nas eleições,
nas negociações com o parlamento
e com os ministros. Seria degradante aceitar a
corrupção à custa da miséria
da maioria como algo natural e inevitável.
A saída tem que ser construída com
a nossa organização e mobilização.
Muitos acreditavam que não poderia haver
movimento sindical organizado e forte depois da
CUT, que deveríamos continuar amarrados
a essa central, apesar do seu papel pelego,
já que o fim da CUT seria o fim da nossa
força. A marcha organizada pela Coordenação
Nacional de Lutas, dia 17/8, contra as reformas
e a corrupção do governo Lula, provou
o contrário. Mesmo sem o dinheiro que a
CUT e a UNE recebem do governo e de grandes empresas,
mobilizou 30 mil pessoas (o dobro que o ato Fica
Lula do dia anterior), por refletir o sentimento
de milhões de brasileiros, combinando indignação
com bom humor e muita criatividade.
*David é
servidor do TRT e integra o grupo Democracia e
Luta
Locação
de mão-de-obra no judiciário: o
fantasma da terceirizaçãoA CUT como
alvo da direita
José
Itamar Nunes*
A CUT foi criada
pelos trabalhadores em um processo real de lutas
contra a ditadura. Consolidou-se com o tempo como
a maior Central Sindical da América Latina.
Compõe-se de 3.262 sindicatos
na base, totalizando 21.709.305 trabalhadores
representados, dos quais 3.773.514 são
do serviço público. Tem seus problemas,
mas como não ter? É enorme, pluralista,
com diversas correntes de opinião no seu
interior. Gera debates acalorados, por vezes,
demora para deliberar sobre algum tema, como é
próprio de uma entidade nacional desse
porte. Mas é um instrumento de luta dos
mais importantes. Tem facilidade de agrupar outros
movimentos, como a UNE, o MST, a Ubes, enfim,
compõe a Coordenação dos
Movimentos Sociais (CMS).
Pois bem, os
tucanos de bico vermelho querem destruí-la
apontando um outro instrumento que nem sequer
é uma entidade, mas um movimento chamado
Conlutas. Na verdade, dada a proposta do Conlutas,
em tese não haveria colisão com
a CUT, e sim, com a CMS, uma vez que anseiam abrigar
no seu interior não só trabalhadores,
mas também estudantes, movimentos por moradia,
entre outros. A diferença é que
a CUT fortalece os sindicatos de base. O Conlutas
pretende a participação direta dos
trabalhadores, o que, se não enfraquece
diretamente os sindicatos, pelo menos não
os fortalece. Não se pretendem uma entidade
nacional, com estatutos ou programas. Nem mesmo
congressos deliberativos, mas sim, assembleiões
gerais misturando todas as pessoas independentemente
de categorias ou de interesses setoriais ou particularizados.
É um movimento e não uma entidade.
E quem decide os rumos dele é um partido
político. Os seus objetivos são
exclusivamente eleitorais e não deixa espaço
para as reivindicações específicas
da categoria.
Desse ponto de
vista, parece-nos um instrumento com pouca utilidade
para os trabalhadores. Pois seria trocar a CUT
por um movimento principista e sem nenhuma capacidade
real de mobilização. A sua serventia,
na verdade, restringe-se a atacar a unidade dos
trabalhadores. Precisamos lutar por nossos direitos,
para mantê-los e aumentá-los,
ao mesmo tempo em que aprendemos a enxergar as
suas limitações. Aumento de salários
são necessários, além da
reposição das perdas inflacionárias.
No entanto, precisamos denunciar e lutar contra
a altíssima concentração
de renda. A valorização de nossa
categoria é objetivo muito importante para
os trabalhadores e para o fortalecimento do Estado
Nacional.
Contudo, precisamos
lutar , também para que todos os trabalhadores
tenham estabilidade no emprego e valorização
de seu trabalho. Precisamos brigar pelo desenvolvimento
da economia e pela distribuição
de renda para que nossos filhos, amigos, parentes
também tenham a oportunidade de trabalhar
dignamente. A segurança pública
é proteção essencial de todos
os brasileiros, sob pena de nos tornarmos vítimas
desse descontrole, ainda que gastemos quase todo
o nosso alto salário em itens
de segurança. Se formos mais solidários
e fraternos na luta, mais fortes e alegres seremos.
Queremos a redução da jornada de
trabalho sem redução do salário
para nós e para todos os trabalhadores.
Enfim, precisamos elevar nossas condições
de trabalho e de vida, assim como as de todos
os brasileiros. Nivelar por cima em um padrão
digno aos seres humanos.
* Itamar
é diretor do Sintrajufe e diretor da CUT
Metropolitana
Brasil
enfrenta uma crise de destino
Mário
Augusto Jakobskind*
- Pergunta: Como
tu classificas o atual panorama político
brasileiro?
Stédile:
Muito complicado. O Brasil vive uma grave crise.
Não é só crise pelas denúncias
de corrupção. No fundo é
uma crise de destino. Uma crise de modelo econômico.
Nossa sociedade não tem mais projeto. Nós
tivemos o modelo agroexportador
imposto pelo capital colonizador, nos quatro primeiros
séculos de nossa existência. A partir
da revolução de 30, até 1980,
tivemos o projeto do modelo de industrialização
dependente, que industrializou e urbanizou o país.
Aí veio a crise. As elites tentaram sair
da crise impondo o modelo neoliberal, que na verdade
não é um projeto de país,
é apenas a subordinação aos
interesses do capital internacional. Então,
o neoliberalismo nem tirou o país da crise
econômica e social nem representa um projeto
nacional. O Lula, motivado por aspirações
de chegar ao governo, aceitou fazer aliança
com essa elite neoliberal, sem discutir com o
povo um projeto. E o resultado é este ai:
continuamos em crise.
-- Pergunta:
Acreditas que o governo Lula pode retomar a linha
programática prometida na campanha que
o elegeu em outubro de 2002?
Stédile:
Claro. Mas tudo depende de correlação
de forças. Não depende mais de declarações
de boa vontade, nem do presidente, nem de setores
do governo nem do PT. Depende da possibilidade
de realizamos mobilizações de massa
exigindo mudanças na política econômica
e uma reforma política ampla, que tire
o governo Lula de continuar refém de suas
alianças conservadoras e seus compromissos
com os neoliberais.
- Pergunta: Lula
está sendo mesmo desestabilizado pela
direita?
Stédile:
O governo está em crise, mas ainda não
se desestabilizou. A direita joga com
várias alternativas, a primeira é
manter o governo refém de acordos neoliberais.
E, na pior das hipóteses, derrubá-lo,
ou então derrotá-lo politicamente
por antecipação para que, com sua
desmoralização política,
a direita volte a ganhar as eleições
em 2006.
- Pergunta: E
2006, a sucessão presidencial?
Stédile:
Se é verdadeiro que nossa crise é
de projeto, de modelo, de destino, somente eleições
presidenciais não resolvem. Podemos reeleger
o Lula, pode voltar o FHC, eleger o Garotinho,
a Heloísa Helena, quem quisermos, dependendo
de nossas simpatias partidárias. Somente
sairemos da crise se tivermos um projeto de desenvolvimento
nacional que coloque como prioridade a solução
dos principais problemas do povo. Os problemas
do povo são o direito a emprego, renda,
terra, moradia, escola e cultura. Para isso é
preciso enfrentar a dívida externa, os
banqueiros, as grandes multinacionais
e o latifúndio. Para viabilizar
esse projeto, precisamos aglutinar forças
sociais que o debatam com a sociedade e o defendam.
Nós, do MST, estamos preocupados com
o futuro do Brasil, não em quem será
o próximo presidente da República.
- Pergunta: Acredita
que o país tem jeito mesmo?
Stédile:
Claro. Só tem jeito. Quem não tem
jeito neste país são as elites,
a classe dominante, os donos do capital, os latifundiários,
os que mandam nossas riquezas para fora. Veja
bem, há 10 mil brasileiros que declaram
no Imposto de Renda que têm depositado no
exterior, um total de US$ 82 bilhões. Esses
não têm jeito mesmo. Os grã-finos
que ficam sustentando lojas de luxo nos centros
comerciais, esses não têm jeito mesmo.
Mas o povo brasileiro é trabalhador, generoso,
sabido e lutador. Tem tudo para dar certo, é
só a gente se livrar das influências
dos de cima.
Saiba mais -
O entrevistado João Pedro Stédile
e economista e líder nacional do Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, juntamente
com outras lideranças do movimento social,
redigiu a Carta ao Povo Brasileiro, na qual se
exigem mudanças na política econômica
do governo.
* Jakobskind
é jornalista. Esta entrevista foi gentilmente
cedida pelo Sintrajufe/RJ
Contra a corrupção,
a favor dos corruptos?
David Landau*
Quando surgiram
as primeiras denuncias de corrupção
nos Correios, a CUT e o PT começaram a
criticar as denúncias mais
que os denunciados, chegando a se
posicionar, num primeiro momento, contra a instalação
da CPI. O escândalo do mensalão
ainda não tinha surgido, ou era ainda uma
declaração inconsistente de um corrupto
acuado, e as entidades do governo no movimento
(ou do movimento no governo) já adotavam
a linha política que depois se divulgou
através da Carta aos Brasileiros.
O movimento contra
a corrupção e a favor do governo
poderia ser interpretado da seguinte maneira:
ao defender o governo, estar-se-ia defendendo,
na verdade, uma parte ética e esquerdista
dele (PT, PCdoB, PSB), vítima das más
companhias e do golpismo de quem
está fora. Era mais ou menos como se uma
vizinha chegasse reclamando das atitudes do menino
para a mãe, e esta respondesse: não,
meu filho não seria capaz de fazer uma
maldade dessas, a culpa é do resto da turma
com a qual ele anda. A burguesia é golpista
porque, talvez, não goste de lucrar tanto
quanto com Lula.
Hoje não
há mais dúvidas de que até
o PT é um partido corrupto. As principais
denuncias já mostram: a empresa de Marcos
Valério era beneficiada por contratos sobrefaturados
e serviam para repassar dinheiro do governo para
o partido através de empréstimos.
Na imprensa alguns comentaram uma velha frase
deplorável utilizada pelos dirigentes do
falso socialismo no leste europeu: os fins
justificam os meios. Meios imorais sempre
servem a fins imorais. Se os meios consistem no
roubo de dinheiro público, cabe refletir
sobre os fins: o destino do dinheiro era reorganizar
o partido, reconstruir os núcleos de base,
ajudar os sem-terra ou os movimentos sociais?
O dinheiro ia para o Fome Zero? Não! O
dinheiro público ia para pagar mensalão
e campanhas políticas de diversos partidos
(PT, PTB, PL, PP), para aprovar Reforma
da Previdência, Reforma Sindical
e Trabalhista, Parcerias Público-Privadas.
Agora a última cartada esta em tentar poupar
Lula e Palocci. Sugere-se que Lula era um inocente
útil, não estava a par do enriquecimento
de seus amigos, não dirige o PT e não
governa. Nem sequer sabia das quantias utilizadas
na sua campanha eleitoral ou da origem delas.
Essa tática faz lembrar a época
de Collor, que também não sabia
dos esquemas de corrupção de seu
tesoureiro, PC Farias. Ora, se há algo
que não se pode questionar é a esperteza
de alguém que deixou de ser operário
para vir a ser um dos principais agentes da burguesia.
No país onde o negro morador
de rua é assassinado sumariamente pela
polícia por ser potencial trombadinha,
ao mesmo tempo em que não há provas
para incriminar Collor, FHC e Lula, nada mais
normal que a história de Fábio Luis
Lula. Biólogo subempregado até
o fim de 2003, o filho do presidente torna-se
sócio de uma empresa que, logo depois de
formada, recebeu uma injeção de
capital de R$ 5,2 milhões da Telemar.
*David Landau
é servidor do TRT e integra o grupo Democracia
e Luta
A
crise do governo atual
José
Itamar Nunes*
Há muito
dizemos que o governo Lula é um governo
em disputa. Não se podendo, de antemão,
prever o seu resultado. Mas, fato é que,
de um lado, temos um governo que se posiciona
ao lado dos países pobres e em desenvolvimento
contra os interesses hegemônicos e beligerantes
do governo dos Estados Unidos. Por outro lado,
aplica a política econômica e as
reformas constitucionais como mera continuidade
do governo neoliberal antecessor. Senão,
vejamos:
- um governo
que apóia ostensivamente a Argentina, o
Uruguai, a Venezuela, a Colômbia, Cuba,
o Paraguai e outros, fazendo tratados nas áreas
de saúde, educação, tecnologia,
armamentos, agricultura, etc, desafiando os embargos
políticos e econômicos criminosos
impostos pelos EUA,
- mas que faz
aprovar a reforma da Previdência, buscando
satisfazer aos fundos de pensão, em detrimento
dos direitos dos servidores públicos;
- que desfez
a instalação da base militar dos
EUA em Alcântara,
- mas aceita
discutir o projeto Delfim do déficit nominal
zero;
- que vai à
ONU e a OMC disputar regras de mercado que restrinjam
o monopólio e os subsídios daqueles
que vivem pregando o livre comércio e a
livre iniciativa, e pasmem, ganhou algumas vezes
deles dentro do seu próprio campo,
- mas que faz
aprovar a lei de falências e mantém
a lei de responsabilidade fiscal;
- que promove
uma política de consolidação
do Mercosul e faz acordos com a China, a Índia,
a Rússia, a Europa, a Ásia e a áfrica
e o mundo árabe, buscando uma multipolarização
da política e da economia em contraponto
ao domínio absoluto dos Yankess no mundo,
- mas que contém
o reajuste do salário mínimo e retira
recursos necessários à reforma agrária;
- que dentro
do país trata com respeito aos movimentos
sociais, como o MST, os sindicatos, os movimentos
populares como um todo; que não trata como
caso de polícia, apesar do apelo diário
da mídia pela criminalização
desses movimentos;
- mas que não
atende às suas justas reivindicações;
- que, aos olhos
do povo e dos povos do mundo é uma legenda
viva de um retirante nordestino, operário
metalúrgico grevista, líder sindical
como a dizer ao mundo que as pessoas do povo também
podem alcançar o poder político
aqui e em qualquer lugar no planeta. Canaliza
a esperança do povo pobre,
- mas que mantém
a receita do FMI na política econômica
interna. Enfim , um governo dual, controvertido.
É certo, contudo, que o governo Bush, e
tudo o que ele representa, não confia nesse
operário sindicalista. Afinal, os EUA são
um país falido economicamente. Que tem
a dívida externa e interna maior do globo.
Atualmente, a sua quase única fonte de
recursos são a venda de armas e munições
e a reconstrução dos países
destruídos por eles mesmos.
Pefelistas e
os tucanos de bico vermelho - José Itamar
Nunes*
Os aliados do
capital se auto-intitulam como tucanos e pefelistas.
Outros, por infantis se utilizam de grande verborragia
esquerdista, mas que se prestam ao mesmo fim:
atacar e desmoralizar a esperança do povo
para um Brasil soberano, justo e democrático;
verdadeiros tucanos de bico vermelho. Esmeram-se
para ofuscar a vista do povo, tergiversando e
confundindo os objetivos maiores dos trabalhadores.
Esforçam-se para convencer os trabalhadores
que seus objetivos tem que ser imediatos, economicistas,
impedindo que possam enxergar mais claramente
os seus inimigos. Levando-os a combaterem até
os seus próprios instrumentos de luta,
suas entidades como a CUT a UNE.
Os nossos inimigos
buscam o empixamento e/ou o enfraquecimento e
a derrota eleitoral ou, ainda, a chantagem política
e um enquadramento ainda maior do governo
ao projeto neoliberal. No dizer de Miguel de Cervantes,
por Sancho Pança: O que transforma
o mundo não é a utopia, mas a necessidade.
A nossa maior arma é a consciência
da necessidade. O povo organizado nas ruas em
torno de um projeto concreto que os unifique.
Como pensar em
desenvolver o Brasil, distribuir sua renda e a
justiça social quando o imperialismo diz
que não se pode fazer isso? Faz-se aos
poucos, aglutina-se amigos e aliados ao mesmo
tempo em que se desperta o povo para aprender
a lutar por seus direitos, desde que envolvidos
em um projeto que os identifique. À luta
, pois o futuro nos pertence.
*
José Itamar é servidor da Justiça
do Trabalho e diretor do Sintrajufe
As
antidemocráticas leis eleitorais
Sérgio
Amorim*
Em tempos de
eleição, e infelizmente somente
nessas ocasiões, vêm à tona
discussões relativas às leis eleitorais,
propaganda política, seu financiamento,
filiação partidária, obrigatoriedade
do voto e outras discussões que, por inoportunas,
acabam desviando um pouco o foco, que são
os programas e propostas ideológicas das
diferentes correntes políticas nacionais.
Assim, já que a oportunidade inoportunamente
se apresenta, defendo que algumas mazelas da lei
eleitoral precisam ser imediatamente revistas,
a fim de trazer à realidade o processo
de escolha de nossos representantes e dirigentes.
O voto obrigatório,
que só serve para trazer para o processo
eleitoral pessoas totalmente alheias a ele, desmobilizadas,
despolitizadas e, por isso mesmo, facilmente manipuladas
(aqui, os adjetivos usados são meras condições
socioeconômicas) não contribuem em
nada para a lisura do processo. Deve-se aumentar
a participação do eleitorado, mas
é com transparência no processo,
esclarecimento, educação, e não
com cabresto. A filiação partidária
para candidatar-se a um cargo eletivo não
deveria ser obrigatória numa real democracia,
pois vincula o candidato a uma linha ideológica
pré-definida e preexistente, que necessariamente
não é exatamente a sua. Além
do mais, a representatividade popular, justificativa
para tal obrigação, está
à disposição no mercado,
com inúmeros partidos minúsculos
prontos para receber qualquer candidato endinheirado,
para mútua alavancagem eleitoral.
Não nos esqueçamos da filiação
partidária (totalmente sem representação)
do primeiro presidente eleito no Brasil após
a ditadura militar. Os candidatos sem partido
deveriam ter o direito de candidatar-se.
O financiamento
de campanha por qualquer pessoa ou empresa da
sociedade reflete a falsa idéia democrática
de que qualquer um pode apoiar, inclusive financeiramente,
qualquer outro. Não é tão
simples assim. O apoio ideológico, manifestado
de público, é um direito de qualquer
eleitor para com qualquer candidato. Porém,
o uso de seu poder econômico para influenciar
outras pessoas, geralmente aqueles que votam por
simples obrigação e acabam dando
de graça (ou não) seu precioso voto
para aquele que, enfim, apareceu mais
ou tinha o clipe mais bem produzido,
não é democrático e, pior
que isso, cria vínculos e obrigações
geralmente comprometedoras para o candidato eleito,
o que deturpa totalmente o processo e geralmente
é o ponto inicial da corrupção.
Financiamento público de campanha
(como preço a pagar pela ausência
de comprometimento financeiro) e a proibição
de quaisquer materiais de áudio e vídeo
gravados, sendo toda a campanha de mídia
falada e televisiva feita sempre ao vivo,
seriam passos importantes para trazer o debate
para o nível intelectual que ele merece.
A propaganda
político-partidária e a disseminação
na sociedade das diversas ideologias políticas,
de propostas para melhoria das condições
de convivência social, são salutares
e democráticas, e devem existir. Porém,
a política não pode ser tratada
como mercadoria, sendo oferecida em outdoors gigantes
ou jingles e clipes emocionantes. Não
se pode admitir que a melhor propaganda, e não
a melhor proposta, vença uma eleição.
A idéia deve ser debatida e deve-se criar,
na população, a necessidade, não
de votar, mas de fazer uma boa escolha das pessoas
que vão comandar e legislar em nossa sociedade.
Sem essas e outras mudanças nas legislação
eleitoral e na cultura política nacional,
a eleição nunca irá representar
o pensamento do povo no poder, e a
participação democrática
nunca passará de uma telenovela: o eleitor
finge que escolhe o melhor para representá-lo
e o eleito finge representá-lo condignamente.
Porém, se for uma reforma maquiadora, como
as que o governo e o Congresso vêm promovendo
até aqui, ficaremos, como sempre, esperando
eternamente para tomar o timão dos rumos
de nosso país.
*Sérgio
é servidor da JT e diretor do Sintrajufe
A Esperança...
Aldronei
Rodrigues*
Vê-se que
não é mais possível sustentar
ingenuamente a ausência de contaminação
do Governo com toda a sorte de improbidades e
negociatas que vêm sendo revolvida à
custa da grande chafurda orquestrada pela oposição
e governo... O grande plano do Partido dos Trabalhadores
de se perpetrar no poder a qualquer custo, implementando
eficientemente os ensinamentos de Maquiavel, parece
não ter encontrado barreiras naquelas férteis
terras do Planalto, tão acostumadas à
germinação de práticas antigas
espúrias, as quais deviam já estar
planejadas e encontravam-se ocultas sob o pentagrama-símbolo.
A esperança, último dos elementos
que restara da Caixa de Pandora aberta por Epimeteu,
que na visão de Nietszche era a pior das
mazelas, capaz de impedir a ação
da busca da verdade, acaba de deixar o povo, pois
esvazia-se com o mito toda uma oportunidade, até
então pensada e ansiada como possível
por uma Nação inteira. O abandono
da esperança, corolário óbvio
destes tempos, sepulta, especialmente aos mais
vulneráveis socialmente, a chance de, ainda
no processo em curso, verem algumas de suas demandas
de subsistência atendidas. No entanto, àqueles
que pensam em soluções mais efetivas
de longo prazo, a subtração da esperança
pode levar à consecução da
verdade e da recomposição da ética
e da moralidade no Brasil. É certo que
o processo ora deflagrado possui prismas complexos
e variados ângulos de análise, sobre
os quais competentes cientistas políticos,
políticos, sociólogos e estudiosos
pátrios, bem como do exterior, debruçar-se-ão
durante muito tempo tentando entendê-lo
em sua plenitude, formulando muitas hipóteses
na busca das respectivas causas e conseqüências
de tudo o que vem acontecendo.
A par disso,
tudo o que vem ocorrendo, e do quanto ainda vai
ser levantado pelas esferas próprias, na
vida política do País vem sendo
objeto de singela, mas percuciente, análise
do cidadão comum, do homo medius, que,
em suma é o definidor dos rumos e futuros
dos governos e das nações. Este
cidadão, que possui o poder legítimo
de escolher seus representantes e de apeá-los
do poder, e que está se sentindo traído
quanto a sua esperança, está fazendo
seus juizos de valor acerca dos deslizes éticos,
morais e criminais em exame, e, com certeza, vai
em busca da verdade. Todos temos consciência
de que a opinião pública volta-se
aos acontecimentos do Planalto, e aos demais episódios
que enxundiam a ética e a moralidade para
com a coisa pública em nosso País,
tais como as propinas de Rondônia, e os
escândalos de sonegação de
conglomerados financeiros, e os classifica no
justo padrão de crise geral de moralidade
e ética, com todos os desdobramentos que
esta avaliação pode representar.
Tais conclusões, visíveis na sociedade
em geral, deve soar como um alerta aos nossos
dirigentes políticos de que a população,
livre de sua esperança, anseia pela verdade
e por justiça e está cansada do
marketing, e que, os que não concorrem
positivamente para o alcance de tais anseios vão
ver suas esperanças eleitoreiras espalharem-se
ao vento, como os demais elementos do mito.
*
Aldronei Rodrigues é servidor do TRF
A
PASSOS LENTOS - Casais homossexuais buscam reconhecimento
de seus direitos
Marcelo
Antunes
Todos concordam
em um ponto: enquanto não houver uma lei
que garanta aos homossexuais os mesmos direitos
que hoje somente os casais heterossexuais têm
diante do Estado, não haverá justiça
no sentido mais amplo da palavra. Apesar
de a falta de uma legislação não
necessariamente impedir que a magistratura tome
decisões jurídicas de perfil não
discriminatório, são poucas as que
beneficiam quem busca reconhecimento de uma relação
com parceiro(a) do mesmo sexo. É o que
diz a desembargadora e presidente da 7ª
Câmara Cível do Tribunal de
Justiça do RS, Maria Berenice
Dias. Ela, de forma pioneira no país, concedeu,
em 2001, direitos da união estável
a parceiros homossexuais. O caso foi a disputa
de herança entre um homem e a filha adotiva
do companheiro dele, que havia falecido.
No momento em
que a jurisprudência começa a se
posicionar e surgem decisões
positivas como essa, o efeito é duplo:
aumenta a aceitação da sociedade
e faz com que o legislador veja que está
começando a perder espaço, pois
o que seria a sua função
a regulamentação
acaba sendo feito por um outro poder, no caso,
o Judiciário. Para Berenice, o processo,
apesar de lento, vem avançando. Desde sua
decisão em 2001, não passaram de
dez os casos que chegaram à 7ª Câmara,
ou seja, 2,5 a cada ano. Nenhum foi vitorioso.
Segundo Gustavo Bernardes, advogado do Somos
Comunicação, Saúde e Sexualidade,
ONG de defesa dos direitos dos homossexuais, vários
fatores contribuem para isso: falta de informação,
medo do preconceito em assumir publicamente sua
orientação sexual e medo da demissão.
O grupo vem acompanhando vários casos de
pessoas que perderam seu emprego em razão
da sua sexualidade ou que tenham sofrido assédio
moral no trabalho ocasionado pela orientação
sexual. Neste ano, apenas 11 casais procuraram
o grupo para orientação sobre a
formalização da união.
Os tribunais
do Rio Grande do Sul são reconhecidos nacionalmente
como os mais avançados pelas organizações
que lutam em defesa dos direitos dos homossexuais.
São Paulo e Minas Gerais são estados
que também vêm garantindo os direitos,
assim como a Bahia, que é exceção
no Nordeste, região que registra o maior
número de assassinatos de homossexuais.
No final de julho, a 6ª Turma do TRF-4 confirmou
em decisão válida para todo
o país a sentença que obriga
o INSS a considerar os companheiros(as) homossexuais
como dependentes preferenciais dos segurados(as)
do Regime Geral de Previdência Social. Na
prática, a decisão determina que
o INSS dê aos casais que vivem em união
estável homoafetiva tratamento idêntico
ao dado aos casais heterossexuais. Apesar de caber
ao instituto recurso, a determinação
está em vigor há quatro anos.
Segundo Gustavo,
a principal preocupação de casais
homossexuais que vivem uma união estável
é como proteger o(a) companheiro(a).
Não se observam dúvidas ou
esclarecimentos quanto à separação,
diferentemente dos casais heterossexuais. A preocupação
é como proteger o companheiro em caso de
eventual acidente, morte ou invalidez. Entre
as orientações está a de
buscar a declaração de união
estável junto aos cartórios de títulos
e documentos, processo simples, pois há
uma determinação da Corregedoria-Geral
de Justiça do TJ para que todos os cartórios
aceitem o registro.
Propostas do
Legislativo, para o bem ou para mal, existem.
No segundo caso, havia uma que proibia o beijo
público entre homens. O verbo haver está
no passado porque o projeto de um deputado do
Prona-SP foi arquivado. Outro que não teve
sucesso foi o de um parlamentar evangélico
fluminense que previa tratamento na rede pública
de saúde via SUS de pessoas que desejassem
se curar da homossexualidade. O grupo
carioca Arco-Íris protestou e conseguiu
que tal aberração não se
transformasse em lei. Porém, nem só
de preconceitos é feito o caminho legal.
Entre os projetos
que já receberam parecer favorável
e aguardam apenas votação no plenário
da Câmara dos Deputados há o que
prevê a criação, pelo Ministério
da Justiça, de delegacias especializadas
em crimes e discriminação contra
homossexuais. Também positivo é
o PL 3.817/2004, que estabelece como crime hediondo
o cometido contra homossexuais em razão
de sua orientação sexual. A autora
do projeto, a deputada Maninha (PT-DF), argumenta
que, apesar de a esmagadora maioria
da sociedade conviver tranqüilamente com
a expressão da orientação
homossexual, há grupos que continuam pregando
a violência, a discriminação
e a intolerância. Para eles, ser homossexual
torna alguém menos que um ser humano, para
ser perseguido, torturado, humilhado ou, não
raras vezes, morto. O PL foi apresentado
à Comissão de Constituição
e Justiça e de Cidadania em junho
do ano passado. Em outubro de 2005, ele recebeu
parecer do relator, deputado João Paulo
Silva (PL-MG), pela inconstitucionalidade,
injuridicidade e má técnica
legislativa. O relator afirma que a
proposta busca introduzir tratamento diferenciado,
estabelecendo graduação no tratamento
penal crime hediondo aos crimes
cometidos apenas contra os homossexuais. Daí,
pois, violação ao princípio
da isonomia e conseqüente ocorrência
de inconstitucionalidade e injuridicidade.
A isonomia é lembrada somente quando
para tirar direitos, diz Berenice. O projeto
aguarda ser enviado a plenário para votação.
Moroso está
o trâmite do projeto de lei nº 1.151/1995,
da ex-deputada federal Marta Suplicy (PT-SP).
Para Maria Berenice, o projeto é, de certa
forma, conservador (busca a união civil
e a partilha de bens entre os homossexuais, mas
não prevê direito à adoção,
por exemplo), mas fundamental para a luta pela
igualdade de direitos. Apresentado há uma
década e tramitando até 2001, o
PL repousa nas gavetas da Câmara dos Deputados
à espera de um parecer do seu relator.
O capítulo mais recente se deu há
poucos meses. Passada a surpresa da vitória
do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) à
presidência da Casa , este recebeu em audiência
integrantes de grupos que lutam pelos direitos
dos homossexuais. Foi prometido que em breve o
projeto seria novamente colocado em pauta. O que
se viu e assistiu depois disso foram cenas de
servidores recebendo propina, histórias
de mensalão e chantagem em troca de sustentação
política. Para piorar, a vida pregressa
do projeto mostra que ele está, involuntariamente,
envolvido no meio atual folhetim brasiliense:
o relator do projeto era, até 14/9, quando
foi cassado por seus pares, o deputado Roberto
Jefferson (PTB-RJ), estrela principal do atual
circo de horrores. E enquanto o blockbuster que
atualmente assistimos for o principal foco da
mídia nenhuma outra atração
do show que é a vida entrará em
cartaz.
Enquanto
não houver uma lei que regulamente a união
civil homoafetiva, as pessoas continuarão
a depender de que o juiz que não seja homofóbico,
que tenha um pouco de sensibilidade e um pouco
de coragem - .Maria Berenice Dias.
O Estado
não pode tomar partido de uma religião
ou deixar de garantir direitos
devido a pressões eprincípios religiosos.
Nada contra ter crucifixo nas
paredes dos tribunais,
mas que também tenham a estrela de Davi,
um orixá.Gustavo Bernardes
PSICÓLOGOS
O novo Código
de Ética do Psicólogo, em vigor
desde o dia 27/8 prevê que profissional
que tratar, interferir ou abordar a homossexualidade
de seu paciente como patologia poderá vir
a ser punido. Em declarações à
imprensa quando do anúncio do novo código,
a presidente do Conselho Federal de Psicologia,
Aba Bock, afirmou que a entidade já recebeu
diversas denúncias por esse tipo de postura
tomada por alguns psicólogos que buscam
induzir o cliente a convicções referentes
a orientação sexual.
Por mais reflexão,
respeito e solidariedade
Aos 45 anos, 16 deles como servidor do TRF, Alexandre
Junqueira, mais conhecido por amigos e colegas
como Alê, há cerca de dois anos procurou
o RH do tribunal reivindicando a inclusão
do companheiro no plano de saúde, a exemplo
dos casais heterossexuais. Alê lembra que
em nenhum momento lhe foi negada a inclusão
por serem contra. O preconceito veio mascarado
na alegação de que não havia
legislação que regulasse a matéria.
A legislação não proíbe,
mas como ela também não regula,
não pode. Inconformado, procurou ajuda
da assessoria jurídica do Sintrajufe, que,
por sua vez buscou auxílio junto ao Ministério
Público. O MP entrou como uma ação
civil pública com extensão para
o âmbito da 4ª Região para que
fosse permito aos companheiros(as) do mesmo sexo
de terem extensão do plano médico.
A ação transitou em julgado e teve
sentença procedente em primeiro grau
nesse ínterim, saiu a decisão do
TJRS que determinava aos cartórios o registro
da sociedade. Com uma cópia do registro
anexado à ação civil pública,
entrou com um pedido administrativo junto ao TRF,
que concedeu o direito com base na decisão
judicial.
O caso foi pioneiro
no âmbito administrativo da JF brasileira,
o que possibilitou outros ingressos. Sozinho
seria muito difícil. Teve caso anterior,
nos mesmos moldes, em que a Justiça negou
uma ação em que o servidor entrou
pessoalmente, não via MP. Em relação
ao benefício da pensão, seu pedido
administrativo para colocar o companheiro como
beneficiário foi negado sob o mesmo argumento
da falta de regulamentação. O MP
que está ingressando como uma nova ação
pública. Vamos começar tudo
de novo. Para Alê, o passo inicial
de toda a luta é assumir a condição
e enfrentar a barra, o que não é
fácil. Ao contrário dos heterossexuais,
temos de provocar, ir em busca dos nossos direitos.
E tornar a sua vida pública (quando se
entra na Justiça) cria uma situação
de exposição que depende muito de
outros fatores: como lidou a situação
com a família, com o ambiente de trabalho,
onde mora, etc., afirma. Além da
necessidade de uma legislação que
venha garantir os mesmos direitos, há necessidade
de que as pessoas, em geral, parem e pensem
sobre a sua postura. Não dá mais
para aceitar as pessoas agindo com brincadeirinhas,
com preconceitos evidentes em cima de todas as
questões que vão da orientação
sexual à questão racismo, da mulher.
É preciso que as pessoas pensem e reflitam
um pouco sobre essa questão com solidariedade,
acredita Alê.
 |
A
luta avança, mas há muito a conquistar
Ana
Naiara Malvolta*
Dentro da luta
de direitos humanos da última década,
temos visto o impressionante avanço da
luta pelos direitos de pessoas homossexuais. Mas,
infelizmente, ainda que o avanço seja crescente,
o muito que já conquistamos ainda é
muito pouco.
Homossexuais
no Brasil hoje não têm o direito
legal de herança, de decisão em
casos médicos envolvendo o(a) parceiro(a),
de adoção, de substituição
legal, enfim, a esta parcela significativa da
população brasileira são
negados direitos básicos da parceria civil
constituída. Aliás, nem mesmo sabemos
quantos somos no Brasil: no último senso
oficial, apesar de todos os apelos feitos por
grupos homossexuais organizados, foi-nos negado
o direito de conhecer o perfil da população
homossexual brasileira ainda que se rechace
a existência de preconceito pelo governo
em relação ao tema. Há décadas,
o estereótipo do homossexual associado
à figura efeminada (masculina) ou grotesca
(feminina), mas invariavelmente promíscuo
e sem laços familiares foi abandonado (ainda
que esse estereótipo seja alimentado
diuturnamente pela mídia). Qualquer
pessoa civilizada sabe de relações
estáveis hoje entre parceiros do mesmo
sexo: constituímos família, construímos
patrimônio, dividimos alegrias, tristezas,
viajamos juntos, pagamos imposto como qualquer
cidadão, mas precisamos enfrentar sozinhos
os preconceitos sociais e as barreiras jurídicas.
Somos vítimas
diárias de uma sociedade hipócrita
que nega aquilo que alimenta, que inventa, a todo
momento, uma igualdade que de fato não
existe e que a maioria na verdade não
quer que exista: como ensinar seus filhos a ser
héteros se exemplos positivos de homossexualidade
forem visíveis. O medo da sexualidade "invertida"
ainda é um tabu familiar imenso e um drama
para centenas de milhares de adolescentes, que
vêem sua sexualidade reprimida pelo preconceito
dos parentes. Ser homossexual não é,
ao contrário do que muitos pensam, uma
escolha. Nasce-se hétero e também
se nasce homo. A escolha está em sair do
armário e enfrentar de frente o preconceito
mal informado, ou mal intencionado dos outros.
Aqui no Rio Grande
do Sul, avançamos gradativamente nas conquistas
de direitos e somos o único estado do Brasil
a registrar em cartório por decisão
do Tribunal de Justiça do estado
a parceria civil entre pessoas do mesmo sexo.
Agora no mês de julho, foi concedido a um
casal de homens, também aqui no estado,
o direito à adoção de um
bebê, mas isso provavelmente ainda será
fruto de intermináveis discussões
jurídicas.
O próprio
Judiciário Federal aqui do RS
dificulta o acesso a direitos básicos de
seus funcionários: duas ações
administrativas idênticas tiveram decisões
diferenciadas no TRF e no TRT. No TRF foi concedido
o direito de inscrição de companheiro
do mesmo sexo na Unimed, mas negado o direito
a pensão em caso de morte, e no TRT ambos
os pedidos foram negados. Foi necessária
uma ação civil para dar continuidade
ao pedido e esta, certamente, se arrastará
por muitos anos. De qualquer forma, este foi o
caminho encontrado e teremos de trilhá-lo
para igualar direitos de desiguais. Como já
formulamos há décadas no movimento
feminista ou no movimento negro: não queremos
ser tratados como iguais, porque somos diferentes,
queremos apenas os mesmos direitos! -
*
Naiara, servidora do TRT, é lésbica
e tem um relacionamento estável, registrado
em cartório, que já dura 20 anos
Não
basta proporcionar o acesso É necessário
garantir a permanência no ensino superior
Bárbara
Kern Wilbert* Ana Paula Faria**
O seminário
Acesso dos Trabalhadores ao Ensino Superior, que
aconteceu nos dias 14 e 15 de julho, na Escola
Sul da CUT, em Florianópolis, reuniu aproximadamente
cem pessoas dos três estados do Sul, entre
estudantes, profissionais ligados à educação,
sindicalistas do ramo ou não e cidadãos
ligados aos movimentos sociais. Com uma programação
bastante ampla, que discutiu desde a Reforma Universitária
até a relação das universidades
com o movimento sindical e social, o encontro
foi um rico espaço de discussão
sobre o tipo de ensino superior que se tem hoje,
qual o modelo que se quer e o que é possível
alcançar.
No primeiro dia,
esteve presente à mesa de abertura, na
condição de painelista, a assessora
especial do Ministério da Educação
Maria Eunice de Andrade Araújo, que apresentou
as mudanças que a Reforma Universitária
proposta pelo governo, que já está
na sua terceira versão, trazem ao ensino
superior no Brasil. De acordo com Maria Eunice,
essa reforma busca fortalecer a universidade pública;
combater a mercantilização do ensino
superior; garantir a qualidade do ensino superior;
democratizar o acesso e garantir a permanência;
e construir uma gestão eficiente e democrática.
No painel da
tarde, que tratou da relação das
universidades com o movimento sindical e social,
o pró-reitor de Extensão da Ufrgs,
Antonio Carlos Guimarães chamou a atenção
para a grande capacidade que a universidade tem
de fazer uma costura social que dê acesso
da comunidade ao conhecimento. Lucídio
Ravanello, da direção estadual do
MST de Santa Catarina, expressou esse sentimento
quando disse que não basta ter acesso
à agricultura, é necessário
ter acesso ao saber, à ciência.
Além desses aspectos, debateu-se o sistema
de cotas, que entre os presentes foi reafirmado
como uma necessidade no momento, já que,
por 500 anos, os negros foram excluídos
de qualquer possibilidade de acesso à universidade.
Sendo assim, o sistema de cotas busca minimamente
um equilíbrio num panorama que é
historicamente desequilibrado.
Foram trazidas,
também, experiências dos metalúrgicos
e dos trabalhadores em agricultura familiar que
investem na perspectiva da educação
integral por meio do conhecimento acumulado e
de experiências próprias e não
apenas pelo acesso à universidade formal.
Gaudêncio Frigotto, do Conselho Latino Americano
de Ciências Sociais (Clacso), contribuiu
dizendo que não é suficiente um
ensino de qualidade. Mais do que isso, é
necessário ter quantidade, pois não
interessa dar ótimo a poucos.
Ele lembrou que é assim que funciona na
democracia.
Algumas preocupações
básicas serviram de fio condutor para os
dois dias de evento, como não perder de
vista que a educação é um
bem público, portanto, há a necessidade
da democratização no acesso à
universidade, a luta por um ensino público,
gratuito e de qualidade, alicerçado no
tripé ensino, pesquisa e extensão.
Além disso, concluiu-se que não
basta democratizar o acesso, é fundamental
que se garanta a permanência, o que geralmente
não ocorre.
*
Bárbara é servidora da JT de Porto
Alegre e diretora do Sintrajufe
**
Ana Paula é assessora de Cultura e Formação
do Sintrajufe
Crise
política pode atrasar agenda de discussão
sobre aborto
Rosane
Vargas
Se é fato
que a humanidade faz sua própria
história nas condições que
lhe são dadas (Karl Marx), pode-se
dizer que as mulheres exercem os seus direitos
sexuais e reprodutivos nas condições
em que lhes são possíveis. Estimativas
do Ministério da Saúde apontam que,
no Brasil, são feitos entre 800 mil e 1
milhão de abortos clandestinos anualmente.
"A ilegalidade do aborto empurra milhões
de mulheres para a prática, histórica
e cotidiana, da desobediência civil",
diz a presidente do Instituto Nacional de Saúde
no Trabalho-CUT, Rita de Cássia Evaristo.
Um dos primeiros projetos de descriminalização
foi apresentado em 1975 pelo então deputado
João Menezes. Duramente criticado
pela Igreja Católica, não chegou
a plenário. De lá para cá,
houve várias propostas, inclusive
para acabar com o aborto legal nos dois únicos
casos hoje permitidos (gestação
derivada de estupro ou que implique risco de vida
para a mãe).
Em três
décadas, o movimento de mulheres se fortaleceu.
Tanto assim que a I Conferência Nacional
de Políticas para Mulheres, em julho de
2004, aprovou a proposta de Revisão da
Legislação Punitiva sobre a Interrupção
Voluntária da Gravidez. Diante disso e
em decorrência do Plano Nacional de Políticas
para as Mulheres, o governo federal criou uma
Comissão Tripartite com objetivo de fazer
a revisão da legislação.
Formada por seis representantes do governo, seis
da sociedade e seis do Legislativo, a comissão
trabalhou de 6 de abril a 1º de agosto de
2005. A sua proposta: o aborto só seria
crime se realizado contra a vontade da gestante.
O andamento da
matéria não será fácil.
A data prevista para encaminhamento ao Congresso
Nacional, 1º de setembro, não foi
cumprida pelo governo. Em 27 de setembro, véspera
do Dia pela Descriminalização do
Aborto na América Latina e Caribe, pressionada
pela sociedade civil, a ministra Nilcéia
Freire, da Secretaria Especial de Políticas
para as Mulheres (SEPM), entregou ao presidente
da Comissão de Seguridade Social e Família,
Bendito Dias (PP-AP), o resultado do trabalho
da tripartite. O agendamento foi feito pela
deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que relatou
vários projetos sobre o aborto.
A interferência
da Igreja e a crise política são
apontadas como pivôs da demora da entrega
do projeto e para um futuro apoio na tramitação.
Em nota, de 29 de julho, a Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB) afirma que a Igreja
respeita e defende os direitos da mulher, mas,
com a mesma convicção, defenderá
e apoiará os direitos do nascituro.
O presidente Lula enviou uma carta ao presidente
da CNBB, Geraldo Majella Agnelo,
em que afirma sua posição
em defesa da vida em todos os seus aspectos e
em todo o seu alcance. O governo, via SEPM,
coordenou os trabalhos da comissão tripartite,
mas demorou quase um mês para apresentá-lo.
Estaria havendo um recuo? Para coordenadora técnica
da ONG Maria Mulher, Maria Noelci Homero, o governo
não recuou porque não havia sequer
avançado. O texto é resultado
da luta das mulheres, o avanço é
do movimento feminista, diz. O ex-senador
João Capiberibe (PSB-PB),
que participou de todo o trabalho da comissão,
ressalta que há chances de o projeto não
avançar: A crise paralisa tudo. Não
há discussão nem decisão
enquanto não terminar a discussão
ética que estamos atravessando.
Na comissão
tripartite, segundo Capiberibe, o debate não
se deu em torno de ser a favor ou contra o aborto.
Ele se concentrou na reflexão da
realidade desse grave problema de saúde
pública, explica. O aborto é
considerado, pelo Ministério da Saúde,
a quarta causa de morte materna no Brasil. Dados
do ministério mostram uma média
anual, a partir de 1999, de 238 mil internações
hospitalares para curetagem por diagnóstico
de abortamento, a custo de R$ 29,7 milhões
(esses números incluem abortamentos
voluntários e involuntários). É
também a quinta causa de internação
hospitalar de mulheres pelo SUS, respondendo por
25% dos casos de esterilidade tubária.
Esses números mostram que, apesar da criminalização,
as mulheres continuam realizando abortos,
na maioria das vezes sem as mínimas condições
de higiene.
Virgínia
Feix é advogada, coordenadora nacional
do Comitê Latino-Americano e do Caribe para
Defesa dos Direitos da Mulher (Cladem), atua na
ONG gaúcha Themis Assessoria
Jurídica e Estudos de Gênero e coordenou
a comissão jurídica das Jornadas
Brasileiras pelo Direito ao Aborto Legal e Seguro,
que reúne organizações feministas
de todo o país e fez uma fundamentação
jurídica sobre a descriminalização.
Para ela, a lei é ineficaz para proteger
o direito do feto e traz conseqüências
mais nefastas que benéficas,
pois é responsável pela morte de
um grande número de mulheres. Virgínia
lembra que a Constituição é
plural e tutela interesses diversos.
A interpretação constitucional,
com base no princípio da proporcionalidade,
impõe a ponderação de valores
conflitantes. Assim, defensores da descriminalização
também reconhecem que o Estado deve tutelar
a vida do feto, mas com mais intensidade a da
mãe; prevalece uma vida plena em direitos
a autodeterminação, saúde,
igualdade, liberdade e autonomia reprodutiva,
em relação à potencial vida
humana, ainda em abstrato.
O Brasil é
signatário, sem reservas, de programas
de ação da Organização
das Nações Unidas (ONU) que tratam
dos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.
O país participou das conferências
do Cairo (1994) e de Pequim (1995), que reconhecem
que o aborto é um problema de saúde
pública. Para Rita de Cássia, urge
que o governo sinalize boa vontade para
honrar esses compromissos. Segundo ela, há
uma tentativa de algumas denominações
religiosas de impor suas moralidades
a um Estado laico e ao conjunto do povo brasileiro.
A advogada Leila Linhares Barsted diz que
aí está a importância do Estado
laico: garantir as liberdades e os direitos individuais,
entre os quais, o direito ao aborto. Leila é
presidente do comitê da Organização
dos Estados Americanos (OEA) responsável
pelo monitoramento da Convenção
de Belém do Pará, que estabelece
direitos mínimos de acesso à Justiça,
punição de agressores e atendimento
a mulheres vítimas de violência.
Uma das organizações
mais bem estruturadas no combate à descriminalização
do aborto é a Pró-Vida, presente
em vários estados e em muitos países
da América Latina e no Estados Unidos.
Em entrevista por telefone ao D&A, o presidente
da Associação Nacional Pró-Vida,
com sede em Brasília, o professor aposentado
Humberto Leal Vieira, diz que trabalha
em conjunto, no Congresso e fora dele, com grupos
católicos e evangélicos, mas que
o Pró-Vida não tem um cunho religioso.
Segundo ele, o que está por trás
das propostas de descriminalização
é um projeto eugênico do governo
dos Estados Unidos formatado em 1974 no chamado
Relatório Kissinger (Henry Kissinger).
Ele incentivaria políticas restritivas
de aumento populacional em países
pobres, entre elas o aborto. Para Leal, boa parte
dos grupos feministas está sendo usada
para um projeto que tem como foco uma espécie
de limpeza étnica, de redução
das populações pobres e negras.
Capiberibe discorda.
Na opinião dele, são exatamente
os negros e os pobres que sofrem com a criminalização,
porque não têm condições
de recorrer a clínicas. Para o ex-senador,
o que prevalece atualmente é a hipocrisia
dos privilegiados, que usam esse discurso para
continuar submetendo os excluídos a mais
essa dificuldade.
Dados do Center
for Reproductive Law and Policy, ONG
norte-americana de promoção dos
direitos reprodutivos das mulheres, mostram que
41% da população mundial vive em
países que permitem a interrupção
voluntária da gravidez sem restrições.
Ao contrário do que poderia parecer, o
número de abortamentos não
aumentou devido à descriminalização.
Para Gilciane Beatriz Neves, da ONG Maria Mulher,
a descriminalização
abriria brechas para uma discussão mais
franca sobre planejamento familiar e sexualidade.
O principal, ressalta Maria Noelci, seria reduzir
o risco de vida das mulheres que tomam a decisão
extrema de interromper a gravidez e não
têm meios para fazê-lo em uma clínica.
A Maria Mulher
tem como clientela mulheres em situação
de risco, principalmente violência doméstica
e sexual, da Grande Cruzeiro, uma das áreas
mais pobres de Porto Alegre. Pesquisa da ONG mostra
que 24% das mais de 600 mulheres atendidas já
sofreu ou sofre violência sexual. Quando
isso implica gravidez, mesmo com a permissão
legal para interrupção, a mulher
tem que enfrentar humilhação e muitas
vezes nem assim consegue fazer o procedimento,
pois o SUS não está preparado. A
criminalização,
diz Noelci, atinge as brasileiras pobres,
em sua maioria negras.
Levantamento
feito para esta reportagem indica que o custo
de um aborto em uma clínica particular
em Porto Alegre pode variar de R$ 1 mil a R$ 4,5
mil. São aceitos somente pagamentos à
vista, em dinheiro. Relatório de 1998 da
Fundação de Assistência Social
e Comunitária (Fasc), da prefeitura de
Porto Alegre, mostra que na Região da Grande
Cruzeiro 47,9% dos chefes de domicílio
têm renda de até dois salários
mínimos (R$ 720,00). Nem com todo o salário
seria possível fazer o aborto na clínica
mais barata. A solução, nessas casos,
são comprimidos, vendidos no mercado negro,
e chás. Quem pode, paga de R$ 150,00 a
R$ 300,00 às chamadas parteiras, que geralmente
utilizam sonda (cânula que perfura a bolsa
e pela qual é expelido o embrião);
esse processo dura cerca de uma semana.
Descriminalizar
o aborto não significa promovê-lo;
significa perceber que a via penal não
é a melhor forma de tratar um problema
que é social. A criminalização
possui um acentuado caráter de classe,
afirma Rita de Cássia, pois só
penaliza as camadas pobres.
Saiba mais:
Anualmente:
No mundo:
50 milhões
de abortos
30 milhões
desses são legais
Na América
Latina:
6 milhões
de abortos induzidos
No Brasil:
800 mil a 1 milhão
de abortos
1 mulher em cada
mil que faz aborto morre
4ª causa
de morte materna
280 mil internações
anuais para curetagem
Como fica: A
interrupção poder ser feita nos
seguintes prazos:
até
a 12ª semana para qualquer gestante
até
20 semanas em caso de violência sexual
fixado
por um médico quando a gravidez implicar
grave risco à saúde da mulher ou
houver má-formação fetal
grave.
Católicas
e feministas
A partir do Fórum Social 2005, a ONG Católicas
pelo Direito de Decidir (CDD) ficou conhecida
em todo o país. Durante o FSM, a entidade
lançou um abaixo-assinado pelo direito
da mulher sobre o próprio corpo, decidindo
se deve manter ou interromper a gravidez, e de
ser atendida pelos hospitais públicos,
independentemente das causas do aborto. A campanha
também inclui oficinas sobre a situação
do aborto no país e distribuição
de material informativo. A CDD foi criada no Brasil
em 1993 e tem caráter feminista e ecumênico.
O abaixo-assinado fez o grupo ficar conhecido,
mas o leque é bem maior. Essas mulheres
querem conscientizar a população
de que as decisões sobre planejamento familiar,
orientação sexual e uso de anticoncepcionais
devem ser tomadas de acordo com a consciência
de cada um e cada uma. A ONG está articulada
com a rede latino-americana Católicas por
el Derecho a Decidir, com Catholics for Free Choice,
criado nos Estados Unidos em 1973, e com mulheres
da Espanha.
 |
Referendo:
democracia ou diversionismo?
A criação
da comissão tripartite aconteceu durante
a gestão de Humberto Costa no Ministério
da Saúde. O ex-ministro entendia que a
interrupção da gravidez é
um direito da mulher. O seu substituto, Saraiva
Felipe, toma uma direção inversa
e afirma que não apoiará ou estimulará
a descriminalização do
aborto. Para ele, é uma questão
cultural muito forte. Temos pesquisas que mostram
que a população é favorável
ao planejamento familiar, mas amplamente contra
o aborto. Como último recurso, Saraiva
Felipe lançou mão de uma proposta
que provocou protesto entre grupos feministas.
Sob o argumento de que é preciso ampliar
o debate, o ministro sugeriu a realização
de um plebiscito. A resposta veio de dentro
do próprio governo. A ministra da Secretaria
Especial de Política para Mulheres, Nilcéia
Freire, disse que o esforço agora é
para que o debate não ganhe um tom maniqueísta.
Na avaliação da ministra, não
faz sentido a idéia de um referendo ou
plebiscito porque o aborto não é
um problema coletivo: É uma questão
individual. Diz respeito à mulher e, no
máximo, à sua família. É
muito diferente da questão do desarmamento.
A Rede Feminista de Saúde, que reúne
mais de 200 ONGs, rechaçou, em nota, a
idéia de um consulta popular. A idéia
de levar os corpos e a autonomia das mulheres
a plebiscito não só amesquinha a
cidadania como avilta os direitos humanos,
afirma o texto. Para a médica Fátima
de Oliveira, secretária executiva da Rede,
em um país democrático e laico,
os direitos humanos devem ser obrigatória
e automaticamente respeitados, sem a necessidade
de fóruns de decisão popular, e
os direitos reprodutivos são direitos
humanos, disse.
Na internet:
Católicas pelo Direito
de Decidir:
É possível ter
acesso ao abaixo-assinado pela legalização
do aborto, artigos, entrevistas e agenda da entidade.
catolicasonline.org.br
Pró-Vida
artigos e entrevistas contrários
à descriminalização do aborto.
providafamilia.org
Rede Feminista
de Saúde
artigos, dossiês, cartilhas
e campanhas sobre saúde e direitos da mulher
redesaude.org.Br
ABORTO
Gládis
Lorinda Ludwig*
O debate sobre
o aborto vem sempre carregado de emocionalismo,
seja qual for a posição dos interlocutores.
A Igreja e os moralistas agarram-se
aos argumentos a favor da vida do feto e de sua
independência com relação
à mulher que o está gestando. Os
defensores do aborto mulheres, homens,
grupos feministas organizados respondem
que o feto não pode ter mais direitos que
a mulher que o gesta. Enfim, essa questão
ressuscita preconceitos, confronta idéias
e valores, mexe com concepções religiosas,
mas faz parte das histórias de muitas mulheres
em nosso país.
Por mais que
se queira condenar ou não entender os motivos,
fica claro que milhares de mulheres, a cada ano,
realizam o aborto com ou sem atendimento médico.
Aliás, a maioria, em más condições,
sujeitas a seqüelas na saúde física
e mental. E por quê? Seria irresponsabilidade
de tantas mulheres? Insensibilidade? Falta de
moral? Não cabe julgar de forma linear
alguém por um ato que diz respeito a uma
decisão muito pessoal e íntima.
Quem trabalha diretamente com mulheres conhece
suas realidades: falta acesso a informações
e a métodos contraceptivos eficazes; falta
suporte psicológico em situações
e contextos de extrema pobreza, sobram carências
ou dificuldades pessoais de diferentes naturezas
(abandono, pressão social e familiar, etc.).
Nenhuma mulher gosta de abortar. As
mulheres sentem sua atitude como um gesto extremo,
um ato que lhes custa muita reflexão, dúvida,
ansiedade e dor. Quem defende a descriminação
do aborto não é, simplesmente, a
favor do aborto. É a favor da vida
da mulher, com respeito e dignidade, reconhecendo
suas angústias e perplexidades.
No Brasil, as
estatísticas indicam que 800 mil abortos
são feitos a cada ano como forma de interromper
a gravidez não desejada. Por conta das
situações em que são realizados,
250 mil mulheres são internadas nos hospitais
da rede pública de saúde. O Brasil
é um dos recordistas na prática
de aborto clandestino. Estima-se que seja feito
1 milhão de abortos clandestinos no país
por ano. As complicações de abortos
mal feitos são a terceira causa de morte
materna no Brasil e a quinta causa de internação
das mulheres. Números como esses devem
ser suficientes para que as pessoas se dêem
conta de que é preciso fazer algo mais
do que fingir que não vêem a grave
realidade. A legalização do aborto
não iria significar um aumento de casos.
Isso já foi demonstrado em países
onde ele foi legalizado. Significaria, isso sim,
a possibilidade de maior higiene e, em conseqüência,
menores riscos. Com certeza, contribuiria para
salvar a vida de milhares de mulheres.
Lutar pela legalização
do aborto é tentar salvar milhares de vidas
de mulheres jovens com grande capacidade produtiva
e com família, o que significa outros filhos
para criar, com desejos e sonhos. -
*
Gládis é servidora da JT e diretora
de base do Sintrajufe
A
vida contra o aborto
Leon Denisar
Daudt Fischer*
A questão
acerca do aborto sempre criou celeuma. Mas o certo
é que, mesmo deixando de lado o espiritural,
o aborto constitui-se na morte de um novo ser
vivo e,
por isso, uma regressão ao direito à
vida. É indiscutível que o aborto
significa a morte de um ser indefeso, cujo fato
a ciência genética moderna comprova,
pois, a partir do instante em que o óvulo
é fecundado, cria-se uma nova vida, que
não é a do pai nem a da mãe,
mas sim a de um novo ser humano que se desenvolve
por conta própria. Nunca poderia se tornar
humana se não o fosse já desde então.
Desta forma, a partir da concepção,
todo o patrimônio genético do novo
ser já se encontra determinado no óvulo
fecundado.
Tem-se, pois,
que com a concepção já se
inicia um ciclo de vida, passando a se definirem
os aspectos biológicos, psicossomáticos
e até o temperamento do novo. A legalização
do aborto não é a solução
para a prática de abortamentos
clandestinos e sua morbimortalidade.
Isso porque a realização de abortos
por médicos competentes em ambiente higiênico
continuará a ser feita. Todavia, a grande
maioria das mulheres brasileiras, que são
de baixa renda, recorrerão aos hospitais
do Inamps, cujas entidades já se encontram
falidas e sem instalações básicas
para o atendimento de doenças simples,
imagina-se qual será o atendimento
a ser dado se oficializado o aborto.
Na melhor das
hipóteses, tais mulheres serão atendidas
por estudantes, residentes, enfermeiras, todos
se iniciando na prática da nova especialidade
criada por lei que permitirá matar criaturas
indefesas e sem culpa condenadas oficialmente.
Diante disso, é necessário dizer-se
não ao aborto, mas exigir-se meios de impor
a paternidade responsável e, ainda, exigir-se
uma política social justa e capaz de favorecer
as necessidades mais elementares do povo, inclusive
a dignidade da população.
*
Leon é servidor da JT
Aborto:
mazela feminina e estereótipos
Jackson
Guterres*
O aborto é
um tema instigante. Que tal um referendo popular?
Independente do resultado, a questão ganharia
uma dimensão jamais vista no seio da sociedade
brasileira, espraiar-se-ia nos estratos sociais:
a juíza, a parlamentar, a professora, as
doutoras, a executiva, a dona de casa, a garçonete,
a faxineira, as adolescentes e os homens evoluídos.
Assim a brasilidade subiria um degrau na evolução
social.
A hegemonia do
dogma da Igreja sobre o aborto, no cânone
católico, é unilateral e masculino.
É questionável a legitimidade da
concepção católica vigente
sobre a questão do aborto, pois é
oriunda do conclave dogmático masculino,
que será o último a abrir suas portas
para a participação feminina
oxalá abrirá um dia!
Antes de tomar
a decisão certa em relação
à polêmica do aborto, seja na esfera
jurídica, seja na médica, na religiosa,
seja na social, precisamos resolver agressões
e violações à mulher que
persistem na sociedade. Quem não lembra
da frase infeliz, atribuída ao Maluf? Num
discurso sobre a violência, ele teria dito
estupra, mas não mata. A devassidão
sexual, que seduz nossas meninas para a prostituição,
o assédio que assola o progresso das mulheres,
a violência doméstica contra a mulher
e o machismo são exemplos de anomalias,
naturalmente abortiva, no ventre da sociedade
brasileira. O Brasil precisa evoluir no respeito
à mulher.
Atualmente é
alarmante o número de adolescentes grávidas.
A liberação do aborto, nestes casos,
de nada resolveria. A solução passa
por uma reinvenção na educação
geral, capaz de contemplar as diferenças
de opiniões, passa pela liberdade de expressão,
pelo debate contínuo de idéias,
objetivando estimular os jovens a vivenciar moralidade
nos relacionamentos. Antes de polemizar a questão
do aborto seria de bom alvitre um amplo
programa de reeducação sexual que
abordasse temas como o estudo dos valores morais,
a autovalorização da mulher, sexo
seguro e a paternidade responsável. Duas
unidades neonatais da Capital, incluindo
o Clínicas, estão impossibilitadas
de atender mais recém-nascidos, por falta
de leitos. Todos os leitos existentes e mais outros,
que foram acrescidos, estão repletos de
prematuros que precisam de cuidados intensivos,
frutos de gestações problemáticas.
Recentemente,
coube ao Supremo analisar o recurso de uma mãe
grávida, que exigia o direito de interromper
a sua gravidez por causa da anacefalia do feto.
Aqui, novamente, a sociedade assistiu ao eterno
conflito de interesses: o da genitora, o das instituições
de direito, o da comunidade médica, o da
CNBB, etc. Tudo porque o feto, mesmo nestas condições,
pode ser considerado, virtualmente um cidadão
e à mãe não é dado
o direito de privá-lo da vida; mesmo diante
do veredicto médico que atesta a impossibilidade
desse feto de sobreviver.
Aqui no sul,
o TJ aprovou o aborto na menor 13 anos que foi
seduzida e engravidou do patrão, na casa
do pastor, onde trabalhava como doméstica.
Aconteceu um fato inusitado, de posse da autorização
judicial, os pais não conseguiram um médico
local que quisesse fazer o aborto. Foi justo?
Em matéria de aborto, abaixo o formador
de opinião de órbita masculina,
que não gravita pela intelectualidade,
sensibilidade e ótica do mundo feminino.
Aqueles, investidos da mais alta arrogância
machista, acastelados no direito de postular
e tergiversar sobre aborto, excluindo o amplexo
feminino pena eles não terem sido
abortados! Livres do séquito de opiniões
estereotipadas, avançaremos na legislação,
na correta postura e na tolerância ao aborto.
-
** Jackson
é servidor do TRT e integra o grupo Democracia
e Luta
MOVIMENTO,
FILMES, SITES
Trabalhadoras
rurais preparam encontro no México
Agricultoras e lideranças
sindicais de todo o Brasil estão em preparação
para o 2ª Encontro de Mulheres Rurais da
América Latina e do Caribe (Enlac), que
acontece no final de setembro no México.
O Brasil terá 31 representantes. Carmen
Helena Foro, coordenadora da Comissão Nacional
de Mulheres da Confederação Nacional
dos Trabalhadores na Agricultura, disse, no jornal
da entidade, que o combate à violência
sexual receberá atenção especial
no Enlac. Durante o Grito da Terra deste ano,
a Contag e a União Internacional dos Trabalhadores
na Agricultura lançaram uma campanha internacional
contra a violência no campo.
Carmen
disse que as mobilizações do movimento
sindical brasileiro, como a Marcha das Margaridas,
estão se tornando referência para
a luta das agricultoras em outros países.
Nossa intenção é fortalecer
a articulação internacional entre
as entidades, para que possamos trocar experiências
e construir estratégias de inclusão
política e social das mulheres, disse
a dirigente.
Faça
sua biblioteca virtual
O
site Folhetim (http://www.folhetim.com.br) coloca
à disposição o programa Attus
Reader. Com ele, qualquer pessoa pode criar e
gerenciar uma biblioteca virtual. O Attus é
gratuito e ocupa aproximadamente 5Mb de espaço
em disco. O sistema é desenvolvido para
PCs; não é compatível com
Mac ou Linux. Além de organizar os livros
virtuais o programa também é usado
para a leitura das obras. Ele procura tornar a
tela semelhante à página de um livro.
Com
o programa, é possível baixar para
o computador várias obras que já
estão em domínio público.
Na página do Folhetim, estão à
disposição muitos livros, clássicos
das literaturas brasileira e portuguesa. As obras
estão separadas por movimento literário,
do Quinhentismo à Geração
de 30, e por autor.
Aos
que lutaram
A
ditadura militar não é uma página
virada da história, é uma página
que precisa ser lida. Desde o corajoso Pra frente,
Brasil, ainda durante o regime militar, vários
diretores debruçaram-se sobre esse período
de feridas ainda não cicatrizadas e o cinema
tem ajudado no mergulho nessa história.
Uma
homenagem à geração que quis
tomar os céus de assalto, que pegou
em armas contra o regime é feita pelo diretor
paulista Toni Venturi (Latitude zero e O Velho)
em Cabra-cega. O filme é rodado de uma
forma intimista e com baixo orçamento.
O elenco, muito bom e afinado, é pouco
conhecido do grande público, com exceção
de Jonas Bloch e Walter Breda, o Gomes da novela
América. A trilha sonora, de Fernanda Porto,
é fundamental na narrativa, conduz a ação
e faz um diálogo permanente com o estado
emocional das personagens.
Cabra-cega
tem o grande mérito de fugir do estereótipo.
A esquerda armada não aparece como raivosa,
os diálogos são ricos e as posições,
apesar de firmes, não parecem saídas
de um manual. A ação se passa quase
toda em um apartamento, para onde Tiago é
transferido por sua organização
depois de ser baleado pela polícia. Ele
é o guerrilheiro disposto a dar a vida
por uma causa. Suas ligações com
o exterior são Rosa (Débora Duboc),
uma militante que acha que não se pode
perder a ternura jamais; Pedro (Michel Bercovitch),
um arquiteto simpatizante, mas que não
quer se comprometer muito; e o velho líder
Mateus (Jonas Bloch).
Não
fica claro quanto tempo Tiago fica no apartamento,
mas o diretor consegue fazer uma passagem que
permite ao espectador perceber o descenso do movimento
armado por meio de notícias em jornais
e na TV. O ambiente fechado no qual ele está
preso é análogo ao dia-a-dia sufocante
dos militantes, que vivem um jogo de gato e rato
com os órgãos de repressão
política, muitos tendo como destino a morte
e a tortura. Essa asfixia, no entanto, não
os impede de amar, sonhar, rir, ter pequenos prazeres,
como comer um doce ou ouvir o novo long-play de
Caetano ou dos Beatles.
Essa
dicotomia entre prisão e liberdade originou
umas das mais belas cenas do cinema brasileiro
nos últimos anos. Após infindáveis
dias confinado ao apartamento, Tiago sobe ao terraço
do edifício e ri, dança e se delicia
ao sentir novamente o vento. Isso tendo como trilha
a imortal Eu quero é botar meu bloco na
rua, de Sérgio Sampaio. (Rosane Vargas)
Referendo
: Em outubro, Brasil decide sobre desarmamento
No dia 23 de outubro, os brasileiros vão
às urnas para responder se concordam ou
não com a comercialioz de armas de fogo
e munição no Brasil. O voto é
obrigatório.
As
frentes parlamentares Por um Brasil sem Armas
(www.referendosim.com.br)
e Pelo Direito da Legítima Defesa (www.votonao.com.br)
defenderão o sim e o não.
A propaganda gratuita começa dia 1º
de outubro e vai até dia 20. Serão
concedidos nove minutos diários para cada
uma das duas frentes. No rádio, os boletins
serão veiculados às 7h e às
12h; na televisão, às 13h e às
20h. As emissoras de rádio e televisão
reservarão também 20 minutos diários
para inserções de 30 segundos distribuídas
ao longo da programação. Abaixo,
o D&A selecionou, a partir de sites de organizações
não-governamentais e artigos, alguns dos
principais argumentos usados pelas duas posições.
Pode-se ver que a polêmica é grande
e que os dados usados por uma e outra são
contraditórios.
A
pergunta a que o eleitor tem que responder no
dia do referendo é a seguinte:
O
comércio de armas de fogo e munição
deve ser proibido no Brasil?
SIM
O
homicídio ocupa o primeiro lugar entre
as causas de morte precoce no Brasil.
Sete
em cada dez homicídios registrados nos
hospitais do SUS em 2003 foram provocados por
arma de fogo.
As
armas de fogo são responsáveis por
64% dos homicídios no país.
As
armas de fogo no Brasil matam mais do que as guerras
no mundo.
Em
24 anos, o número de vítimas de
armas de fogo cresceu 461,8% no Brasil.
No
Brasil, as mortes provocadas pelas armas de fogo
estão em terceiro lugar entre as causas
de óbito em geral.
Entre
os jovens, as armas de fogo são a principal
causa de mortalidade.
Um
terço (33%) das armas do crime foram compradas
legalmente e acabaram caindo nas mãos erradas.
Pessoas
que portam armas de fogo têm 56% mais chances
de serem assassinadas em uma situação
de roubo que as vítimas sem armas.
Houve
redução de internações
hospitalares causadas por arma de fogo após
o início da campanha pelo desarmamento.
NÃO
Não
se pode fazer uma relação mecânica
entre a proibição e a redução
da violência. A realidade de desigualdade,
que gera a violência, continuará
a mesma.
A
proibição aumentará o contrabando.
A
venda de armas legais caiu no mercado interno;
apesar disso, a criminalidade não diminuiu.
A
proibição retirará do Estado
qualquer possibilidade de controle e dificultará
ainda mais a investigação de crimes.
No
Brasil, circulam 20 milhões de armamentos
sem registro, em contraposição a
2 milhões de armas registradas. Os primeiros
não serão atingidos pela proibição.
Já
existe controle: a lei 9.437/97 estabeleceu condições
para o registro e o porte de armas de fogo. Até
1997, o porte ilegal de armas era uma simples
contravenção penal. A partir de
então, passou a ser crime, com pena de
prisão.
No
Canadá, o percentual de armas é
de 0,7 por cidadão; entretanto, o índice
de mortes com armas domésticas é
quase desprezível.
O
Rio Grande do Sul é o estado brasileiro
com o maior número de armas legalizadas.
O número de mortes causadas com essas armas
é muito baixo.
Saiba
mais:
Referendo
é uma consulta feita à sociedade
sobre um tema já discutido no parlamento
ou sobre uma questão já efetivada
pelo governo.
A
consulta popular está prevista no Estatuto
do Desarmamento (lei 10.826/03) e foi aprovada
pelo Congresso Nacional em 6 de julho. A lei já
proíbe a comercialização
de armas e munições no país.
Para que passe a vigorar, a população
precisa referendá-la, dizer se concorda
ou não com ela. Será a primeira
vez que acontecerá um referendo no país
e a primeira vez, também, que se faz um
referendo sobre esse tema no mundo.
|