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Carta
ao leitor
Esta edição da revista Direito
& Avesso traz à discussão alguns
temas que foram e são importante para a
população brasileira e o conjunto
dos servidores públicos. A Reforma do Judiciário
recebe a análise do juiz Paulo Schmidt,
presidente da Associação dos Magistrados
do Trabalho da IV Região (Amatra IV), em
entrevista concedida logo após a aprovação
do tema pelo Congresso Nacional. O assunto também
merece atenção em artigo de Luiz
Eduardo Vieira Oliveira, da VT de Cachoeirinha.
Um dos pontos da reforma que mais preocupação
trouxe à categoria diz respeito à
ampliação da competência da
JT. Atualmente, já não conseguimos
atender à demanda adequadamente e a reforma
não traz indicações de como
serão garantidos os serviços, em
termos de estrutura de trabalho e de recursos
humanos, dentro da nova realidade constitucional.
O Direito & Avesso traz também matérias
sobre a Lei da Anistia, já com um quarto
de século, e a abertura dos arquivos da
ditadura militar. Uma entrevista concedida por
Suzana Lisboa, representante dos familiares na
Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos,
também aborda esses e outros aspectos do
mosaico que foi inaugurado no Brasil a partir
de 1964 e que teve na repressão a sua figura
de maior destaque.
Entre as pautas ligadas mais diretamente aos servidores,
questões como a terceirização
no serviço público e suas implicações
(de 2001 a 2004 foram gastos R$ 2,6 bi com locações
e terceirizações de pessoas físicas
e jurídicas), os pontos positivos e negativos
da revisão do Plano de Cargos e Salários
(PCS), a denúncia e a ação
dos colegas de Novo Hamburgo contra a prática
do assédio moral.
Direito & Avesso publica também um
texto do colega Ari Heck, que faz uma radiografia
da população PPD. Isso a partir
de um levantamento feito pelo IBGE que procura
mostrar onde estão e quantos são
os brasileiros e as brasileiras portadores de
deficiência.
E, para fechar esta edição do D&A,
uma crônica do músico e compositor
Nei Lisboa. Boa leitura e um 2005 cheio de realizações
e de disposição para a luta!
Denúncia
e ação:
Novo Hamburgo
deu um basta a mais um caso de assédio
moral na categoria
No mês
de outubro passado, um grupo de servidores da
subseção judiciária de Novo
Hamburgo, com a participação do
Sintrajufe, reuniu-se com o diretor do foro em
exercício, juiz Alexandre Rossato da Silva
Ávila, em decorrência de fatos ocorridos
entre um diretor de secretaria e dois servidores
do setor administrativo. Porém, não
se tratava apenas daqueles dois episódios.
O que aconteceu foi a tomada de consciência
coletiva de que alguma coisa deveria ser feita,
começando por não mais aceitar atitudes
como as que vinham ocorrendo havia muitos anos.
Esse diretor, que no início era considerado
exigente e esmerado com o trabalho, ultrapassou
os limites da urbanidade e atingiu todas as pessoas
com quem se envolveu, com exceção
de juízes e diretores. Atitudes agressivas,
provocativas, que ironizavam e humilhavam, de
insultos, de imposição pela sua
condição de diretor, passaram a
ser freqüentes, sem ao menos respeitar pessoas
alheias ao quadro de servidores, que assistiam
a cenas de explícito assédio moral.
O ambiente na Subseção de Novo Hamburgo
era insustentável. Em todos os setores
do Administrativo e na Vara onde trabalhava o
referido diretor, havia muita tensão pois
o seu intuito era sempre de tumultuar, agredir
verbalmente e ofender aqueles com quem tratava.
Seus pedidos eram sempre urgentes,
não podiam esperar, eram
para atender a solicitação da juíza.
Todos procuravam manter uma atitude respeitosa
em relação a ele, por tratar-se
de um diretor e até porque, não
raro, falava em nome da titular da Vara.
Ocorre que, antes de tudo, os servidores são
seres humanos, convivendo num mesmo ambiente,
por várias horas do dia, e é inaceitável
que o comportamento de uma só pessoa doente
prejudique todos os demais de tal forma. Muitos
servidores passaram a evitá-lo, a criar
mecanismos de defesa, a agüentar ofensas
calados e alguns, inclusive, adoecendo.
Nesse contexto, o grupo que representava grande
parte dos servidores daquela subseção
não teve alternativa senão denunciar
o diretor. A reunião com o juiz diretor
do foro se estendeu por mais de uma hora. Foi
feito um relato de vários episódios
exemplificativos, pois havia outros tantos fatos
desagradáveis. Especificamente no caso
de Novo Hamburgo, há que se destacar a
atitude coerente do diretor do foro em exercício,
que compreendeu a gravidade da situação,
em nenhum momento duvidou dos fatos que lhe foram
narrados e, prontamente, tratou de levá-los
ao conhecimento da juíza titular da Vara.
Esta, na mesma linha de conduta, deu o devido
encaminhamento, que resultou na destituição
do referido servidor, atualmente removido para
outro estado.
Nenhum servidor coloca-se contra a produtividade,
o trabalho em dia, sem erros, com agilidade, mas
a maneira como este trabalho é exigido
faz a diferença. Não podemos aceitar
que alguém, em nome de uma suposta autoridade,
extrapole os limites aceitáveis dentro
das regras da convivência humana e de trabalho.
É preciso identificar esses casos e, principalmente,
documentar, cercar-se de testemunhas dos atos
abusivos, anotar datas, bilhetes, fatos, frases
ofensivas, pessoas envolvidas e tudo mais que
for necessário para levar ao conhecimento
público no momento apropriado. Em nenhuma
hipótese se deve consentir com atitudes
que revelem o assédio moral, mesmo quando
não nos atinge diretamente.
Muitas vezes, o apoio de um colega é suficiente
para a denúncia. Não podemos achar
que o problema é só do outro, que
não tem forças para reagir às
agressões. Aquele que sofre sozinho pode
não estar em condições de
reagir mesmo, pois está fragilizado; no
entanto, agindo em conjunto, fortalecemo-nos.
Esta matéria se torna importante para demonstrar
que não se deve temer atitudes de enfrentamento.
A solução pode e deve ser encontrada
diretamente no seu local de trabalho. Não
se deve deixar que uma só pessoa contamine
a coletividade e, mais, assedie moralmente você
ou os seus colegas. É necessário
denunciar, agir com o apoio do sindicato, de forma
tranqüila, segura, unida e firme, pois os
administradores têm que ser informados de
atitudes como as que ocorreram em Novo Hamburgo,
tendo como exemplo a solução dada
para esse caso.
Proposta
de reestruturação chega a etapa
decisiva antes do envio ao Congresso
A
proposta de reestruturação do Plano
de Cargos e Salários chega a uma etapa
importantíssima: a finalização
do anteprojeto de lei para encaminhamento ao Congresso
Nacional. No dia 21 de novembro, a Fenajufe organizou
um Seminário Nacional sobre a Reestruturação
do PCS. Participaram representantes de 17 sindicatos
do país, entre eles o Sintrajufe/RS.
Foi aprovada a realização de uma
reunião ampliada da Fenajufe nos dias 26
e 27 de fevereiro de 2005. Esse encontro deve
ser precedido de discussões nos sindicatos
de base. No Rio Grande do Sul, a assembléia
geral do Sintrajufe deve ocorrer em 22 de janeiro.
O seminário também aprovou, considerando
os consensos que existem sobre o projeto, a continuidade
da negociação junto aos tribunais
superiores. Todo o material está disponibilizado
na página do sindicato.
A proposta de reestruturação se
encontra em estudo no STF. A previsão do
diretor-geral do tribunal, Miguel Fonseca, manifestada
dia 19/11 em evento do Sindjus/DF, é que
o anteprojeto seja encaminhado ao Congresso Nacional
a partir de fevereiro de 2005. Ou seja, é
fundamental aprofundarmos o debate sobre a proposta,
discutindo o mérito de cada ponto, a fim
de afinarmos a posição de nosso
sindicato.
É importante considerar, apesar de nenhuma
alteração ter sido formalizada ainda,
a participação de Miguel Fonseca
no evento do Sindjus/DF. Na oportunidade, o representante
do STF apresentou uma defesa que vai ao encontro
da nossa em relação à reversão
da extinção do cargo de auxiliar
judiciário e da quebra de paridade entre
ativos e aposentados.
Fonseca defendeu a manutenção do
cargo do auxiliar e também que o enquadramento
para quem já está no final de carreira
seja no último padrão da tabela.
Ele defendeu igualmente o estudo quanto à
possibilidade de remoção ou uma
alternativa nesse sentido, além da implementação
da gratificação aos agentes de segurança.
Como ponto negativo de sua explanação,
ficou a defesa do incremento dos cargos em comissão.
Em fevereiro, o Sintrajufe participará
da reunião ampliada da Fenajufe em Brasília,
na qual será definida a posição
nacional dos servidores quanto ao projeto. Caso
tenhamos acordo com o conjunto da proposta, caberá
também à reunião ampliada
preparar a estratégia da luta que teremos
pela frente no Congresso Nacional, considerando
a experiência acumulada nos dois planos
anteriores, de 1996 e 2002.
Alguns
itens discutidos no seminário da Fenajufe
Pontos
inaceitáveis na proposta
1. Extinção do cargo de auxiliar
judiciário;
2. Quebra de paridade entre ativos e aposentados.
Demais
pontos prioritários
1. Não aumento das FCs e discussão
sobre possível extinção das
FCs menores, com correspondente incremento nos
salários;
2. Garantia, no projeto, do direito à remoção
(com a implantação de um quadro
geral único do Judiciário ou por
setor JF, JT, JE, JM);
3. Jornada de trabalho de 6 horas;
4. Participação das entidades na
regulamentação da futura lei;
5. Desvio de função;
6. Avaliação de desempenho
tentar regulamentar na lei; não sendo possível,
determinar que os tribunais o façam de
forma a unificar e incluir a participação
das entidades dos servidores;
7. Criação da gratificação
aos agentes de segurança (mesmo percentual
da GAE);
8. Garantir nas atribuições do técnico
a atividade judiciária;
9. Fazer constar no edital do concurso para oficial
de justiça a especialidade do cargo. Incluir
a atribuição de avaliador;
10. Ressalvar no artigo que trata das situações
constituídas as previstas nos artigos 6
e 7;
11. Fazer análise jurídica do artigo
25 da proposta (direito à revisão
geral observado o que a respeito resolver
o STF);
12. Discutir o parágrafo único do
artigo 9, que trata dos requisitos para ingresso
na carreira, podendo excluir a palavra experiência;
13. Excluir artigo 15 que define remuneração,
pois já está estabelecida na lei
8.112.
Pontos principais*
da proposta da Comissão do STF
1. Adicional de qualificação:
percentual pago sobre o maior vencimento do
cargo: 5% ao técnico com qualquer formação
superior e 7,5, 10 e 12,5% a técnico
e analista com certificado de especialização,
mestrado e doutorado. Não leva à
aposentadoria, embora o DG do STF tenha afirmado
que este ponto será mais discutido.
2. Extinção do auxiliar judiciário:
ponto inaceitável da proposta; já
tem manifestação do diretor-geral
do STF no sentido de rever a posição
da Comissão. Miguel Fonseca defendeu
a manutenção do cargo.
3. Incremento na tabela salarial: a nova tabela
prevê incremento de 18,29% no valor base
do analista judiciário e 17,34% no do
técnico, chegando a um ganho 36,49% no
analista e 35,40% no técnico se considerada
a GAJ. Essa variação foi calculada
em cima do salário de novembro de 2005
(GAJ de 30%) para o padrão 1.
4. Criação de 5 padrões
na tabela (classe D): criados mais 5 padrões,
além dos 15 atuais. Os aposentados não
teriam como chegar ao final da carreira. No
entanto, o DG do STF afirmou que seriam estudadas
duas alternativas: manter os atuais 15 padrões
ou ampliar para 20, mas efetivar o enquadramento
de cima para baixo, ou seja, quem está
atualmente no padrão 15 iria para o vigésimo.
5. GAJ de 50%: equiparação do
percentual com a gratificação
similar paga no TCU.
6. Sobreposição de níveis:
retorna à regra anterior, em que os últimos
cinco padrões do técnico são
iguais aos cinco primeiros do analista. A fim
de evitar perda salarial, no caso de aprovação
em concurso para o cargo superior, seria garantido
pagamento de diferença individual do
valor entre o salário do cargo exercido
e o do novo.
7. Carreira exclusiva de Estado: define que
os ocupantes dos cargos da carreira judiciária
executam atividades exclusivas de Estado.
8. Vedação do emprego público
e do nepotismo: mantém redação
da atual lei.
9. Criação da GAE aos oficiais:
criação da gratificação
de atividade externa aos oficiais de justiça,
de 35% sobre o maior vencimento. Não
leva para aposentadoria. Miguel Fonseca manifestou
posição favorável à
criação da gratificação
de atividade de segurança para os agentes.
10. Afastamento remunerado para doutorado e
mestrado: seria implementado, permitindo o afastamento,
sem prejuízo da remuneração,
pelo máximo de quatro anos.
11. Funções comissionadas e cargos
em comissão: garante a exclusividade
das funções aos servidores de
carreira, avançando em relação
à situação atual (80%).
No entanto, o DG do STF manifestou-se favorável
à manutenção do critério
atual. Na versão original somente haveria
incremento remuneratório na parcela paga
aos servidores optantes pelo cargo efetivo.
No entanto, Fonseca defendeu a majoração
do valor total das FCs. Também são
definidas funções de natureza
gerencial (existência de vínculo
de subordinação e poder de decisão),
privativas de servidores com formação
superior.
12. Regulamentação da lei: será
de responsabilidade do STF, dos tribunais superiores,
do CJF e do TJDF baixar os atos regulamentares
necessários à aplicação
da lei.
*
além dos já citados na página
4 (Alguns itens discutidos no seminário
da Fenajufe
Você se lembra?
Em maio de 2004, foi criada
uma comissão interdisciplinar no Supremo
Tribunal Federal para discutir a reestruturação
do PCS da categoria. A comissão foi o
primeiro avanço da greve que se iniciava
e que, ao final, garantiu a aprovação
do aumento da Gratificação de
Atividade Judiciária (GAJ) para 30% (percentual
a ser integralizado em novembro deste ano).
A comissão foi composta por nove integrantes,
cada tribunal superior indicou um, incluindo
o Conselho da Justiça Federal e o TJ/DF;
um foi indicado pela Fenajufe e um pelo Sindjus/DF.
Em 17 de setembro, após uma longa série
de reuniões, a comissão terminou
seus trabalhos. Foi divulgada a versão
final da proposta (veja os principais pontos
ao lado), a qual está disponível
na página do Sintrajufe e foi encartada
no T-Liga.
No Sintrajufe/RS, durante a greve, foi constituído
um Grupo de Trabalho para analisar as propostas
e socializar com os colegas no RS. Foram realizadas
reuniões para discutir as propostas a
serem encaminhadas à Fenajufe e, após
a divulgação da versão
final da comissão, houve um debate aberto.
Também foi bastante utilizado o envio
de sugestões pelos colegas para o e-mail
criado para esse fim: planodecarreira@sintrajufe.org.br.
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O novo PCS e o aposentado
por Gleni
Mara Monlleo Sittoni*
Conforme se vê
no anexo VI do artigo 20 do texto do anteprojeto
de lei de reestruturação do PCS,
à atual estrutura de cargos são
acrescidos uma classe (D) e cinco padrões
(do 16 ao 20). Conclui-se que estes somente serão
galgados pelos servidores em atividade, tendo
em vista que a evolução dos servidores
nos cargos dar-se-á mediante progressão
funcional e promoção, e que estas
dependerão de avaliação de
desempenho e da participação em
curso de aperfeiçoamento (artigo 10). Portanto,
os aposentados que já haviam atingido o
topo da carreira sofrerão um retrocesso,
em desrespeito manifesto ao posicionamento conquistado
após longo percurso e grande esforço
empenhado.
Na avaliação do advogado Felipe
Néri Dresch da Silveira, assessor jurídico
do nosso sindicato, essa previsão viola
o princípio da proporcionalidade. Segundo
ele o princípio da proporcionalidade
busca garantir, nos casos de alteração
de quadros de carreiras (ou planos de cargos),
que os servidores, na transposição
para a nova estrutura, levem consigo todo o patrimônio
funcional adquirido no quadro antigo.
Ainda, segundo ele, a proporcionalidade
significa, em síntese, manter o servidor
no novo plano em um nível tal que represente
um posicionamento equivalente ao ocupado no plano
anterior relativamente às etapas já
percorridas no seu cargo e o ápice da carreira.
Mais uma vez, acende-se o sinal de alerta para
o já tão combalido aposentado, que,
ultimamente, vem sendo ameaçado com a quebra
do princípio constitucional da paridade
entre ativos e aposentados. Por essas razões
é que precisamos estar sempre atentos,
para não permitir , pelo menos, que as
coisas aconteçam à nossa revelia.
No dia 21 de novembro, estivemos presentes no
Seminário Nacional promovido pela Fenajufe,
para analisar e propor mudanças no anteprojeto
de reestruturação do PCS. Lá
foram feitos relatos de todos os representantes
dos vários sindicatos sobre os seminários
em que debateram a versão final do anteprojeto
em seus estados (veja mais detalhes na página
4).
O momento mais animador foi a notícia da
participação do diretor-geral do
STF no seminário realizado pelo Sindjus/DF,
em 19/11. Ele informou sobre algumas posições
daquela DG sobre a proposta elaborada pela Comissão
Interdisciplinar, entre elas a que trata da questão
dos aposentados (aumento de padrões), dizendo
que está sendo estudada a possibilidade
de manter os atuais 15 padrões ou aumentar
para 20, efetuando o reenquadramento de cima para
baixo, o que garantirá o mesmo direito
a ativos e aposentados de manter no novo plano
sua posição da atual estrutura de
cargos.
Assim, vemos que é possível ter
esperança. No entanto, lutar é preciso!
* Diretora
do Sintrajufe e aposentada
Servidor
público, neoliberalismo e analogias
por Leonardo
Torres* e Marcelo Antunes**
Quando o Estado
se descompromete ou se mostra incapaz de atuar
em áreas essenciais da vida social, como
educação, saúde e justiça,
o que vale é a lógica cruel do mercado.
E o resultado que nos é apresentado é
a mão invisível perpetuando
e aumentando cada vez mais o fosso entre pobres
e ricos, entre os que têm e aqueles que
desejam, entre os que mandam e os que obedecem.
Enfim, a geração constante de conflitos
sociais. Paradoxalmente, é a ausência
do Estado que se faz presente no cotidiano da
maioria do povo brasileiro. Há tanto isso
vem ocorrendo que nos desabituamos de exigir a
oferta desses serviços básicos.
Ou melhor: algum dia exigimos realmente tais ações?
O hábito que adquirimos é o de espezinhar
o serviço público, a começar
com quem se encontra atrás do balcão
de atendimento. Quem se interessa em saber que
esse servidor não tem plano de carreira,
que a falta de pessoal e de condições
de trabalho acarretam seu adoecimento e que lhe
falta perspectiva de crescimento profissional?
Quem se interessa por isso, quando nos é
dito que o servidor público é a
casta mais privilegiada da população
brasileira, ganhando os mais altos salários
e tendo aposentadorias indecentes? Certamente
não será uma população
cujo acesso à saúde e à educação
é precário eufemismo para
o caos , que não tem emprego e, quando
o tem, ganha menos que os servidores públicos.
Além disso, trata-se de uma população
que depende essencialmente das ações
do Estado para ter um mínimo de cidadania.
Afinal, o servidor, em última instância,
representa e personifica esse Estado incompetente
e, na maior parte do tempo, ausente. Sendo assim,
a figura do trabalhador estatal encontra paralelo
na de cinegrafistas e repórteres da TV
Globo, que eram vaiados e hostilizados na rua
por conta do boicote de seus patrões ao
movimento das Diretas Já nos anos de 1980.
Até o momento, pelo menos, o objetivo traçado
pelos estrategistas neoliberais que certamente
deve fazer com que hoje até mesmo Adam
Smith, o pai do liberalismo econômico no
século XIX, se revire no túmulo
, que colocam os governos a seu serviço,
foi atingido: se não terminar ou diminuir
drasticamente o tamanho e a influência do
Estado, pelo menos colocar o serviço público
e o próprio servidor como os verdadeiros
responsáveis pela não-existência,
pela falência, pela incompetência
e pela miopia deste ente, em tese, onipresente.
E é dentro desse cenário que se
debate e se negocia um plano de carreira no serviço
público. Um plano de carreira que preveja,
a médio e longo prazos, sermos tratados
de forma igualitária, sem que este ou aquele
servidor seja considerado, por força do
cargo que ocupa ou por qualquer outro motivo,
mais igual que seus pares.
Uma pálida idéia das dificuldades
que nos aguardam na discussão sobre um
plano de carreira é o anteprojeto de lei
de reestruturação do PCS. Nele,
por exemplo, reencontramos os mesmos vícios
de hoje: FCs, concessão de chefias por
critérios subjetivos, total falta de motivação
para o contínuo aprimoramento profissional.
Assim também se faz ausente qualquer artigo
que traga, mesmo que remotamente, uma ação
que opere com o fim das FCs, mecanismo famigerado
de controle e coação dos trabalhadores
do Judiciário Federal brasileiro. Mecanismo
este que, seja por força das circunstâncias,
seja por necessidade ou seja, até mesmo,
pela própria natureza humana, ainda é
defendido por muitos como forma de ascensão
e melhoria salarial. Pura ilusão. As FCs
são verdadeiras algemas pecuniárias,
a cenoura colocada à frente do cavalo como
forma de fazê-lo andar para onde se quer.
Parece que os administradores públicos
têm em mente o controle da vontade do servidor.
Um servidor realmente estável será
um entrave aos planos de sucateamento dos serviços
prestados. Também é de se perguntar:
onde encontramos qualquer tentativa de se reduzir
o peso das FCs nos salários? São
esses os vícios que arrasam com a dignidade
da função pública.
Por tudo isso é que consideramos o novo
PCS como sendo apenas um remendo, que recomporá
financeiramente os salários, mas que está
muito longe de se constituir em um plano de carreira.
Em tempos de analogia, nos quais a economia é
comparada ao futebol (em time que está
ganhando não se mexe) e as medidas do FMI
à saúde (remédio amargo para
a cura), no Brasil as potentes bombas neoliberais
arrasaram as bases do serviço público
fazendo com que este se encontre nas mesmas condições
em que está a Bagdá destruída.
Não se trata de derrotismo, mas de uma
constatação nua e crua da realidade
a que estamos submetidos diariamente que
por vezes pode, sim, ser alterada. Pois, para
cada Bagdá destruída existe uma
Fallujah na resistência.
* Diretor
do Sintrajufe
** Jornalista
A extinção do cargo
de auxiliar e a terceirização no
judiciário
por Paulo
Rosa*
O projeto neoliberal
continua sendo defendido no Judiciário
e a proposta de extinção de cargos
é mais uma demonstração,
basta lermos algumas propostas colocadas pelos
representantes dos tribunais superiores na Comissão
Interdisciplinar que elabora o anteprojeto de
revisão do PCS. Nessa comissão,
a representação dos trabalhadores
é minoritária, um companheiro representa
o Sindjus/DF e outro, a Federação.
Em contrapartida, todos os tribunais superiores
têm representação, totalizando
sete prepostos do Poder. Nas questões mais
controvertidas, somos voto vencido, principalmente
quando é atingido algum interesse da cúpula:
a extinção do cargo de auxiliar
judiciário é uma delas.
Essa proposta foi defendida pelos representantes
dos tribunais superiores na Comissão Interdisciplinar
derrotando a representação dos trabalhadores
por sete a dois. É bom lembrar que sempre
lutamos contra a terceirização e
o Sintrajufe sempre esteve presente, denunciando
situações e atos que comprometam
a prestação de um serviço
público de qualidade.
Hoje estamos presenciando mais um ataque, desta
vez contra servidores concursados, partindo do
próprio Judiciário. É preocupante
qualquer proposta que traga prejuízo aos
trabalhadores, pois a revisão do PCS é
uma conquista de nossa última greve. É
necessário avaliar muito bem o significado
de cargo em extinção e o porquê
dessa proposta. Vários argumentos foram
utilizados pelos representantes dos tribunais
para justificá-la. Dentre elas há
uma muito curiosa, ou seja, alguns aprovados em
concurso com nível de 1º grau, após
tomarem posse, negam-se a trabalhar na área
para a qual fizeram concurso, passando a apresentar
diplomas de cursos superiores, mestrado, doutorado.
Por conta disso, os pobres tribunais são
obrigados a colocar esses novos servidores
em desvio de função. Todos sabemos
que alguns desses novos são apadrinhados
(as) que usam o concurso com nível de 1º
grau para ingresso na carreira. A solução
proposta pelos tribunais é acabar com o
cargo de auxiliar para impedir esses fatos. Isso
lembra um ditado bem gaudério: Vamos
matar o cachorro para acabar com as pulgas.
Propostas desse tipo têm por finalidade
impedir o livre acesso de grande parcela da população
ao serviço público, elitizando ainda
mais o conservador Poder. O projeto original de
reestruturação dos cargos elaborado
pelo Sindjus/DF prevê uma carreira para
os auxiliares, com direito a tabela, qualificação
e todas as vantagens das carreiras típicas
de Estado, de forma a estimular e prestigiar os
servidores. A preservação do concurso
de nível fundamental no Judiciário
é a garantia de não terceirização
das atividades de apoio. Permanecendo a proposta
de extinção do cargo de auxiliar
judiciário, ficaríamos fora das
carreiras e abraçados com a terceirização
e o fantasma da demissão.
Não aceitamos de forma alguma esse tipo
de proposta, pois discrimina e marginaliza servidores
com 15 anos ou mais de serviço e que terão
suas vidas seriamente abaladas, tanto econômica
quanto emocionalmente. Apesar de o diretor-geral
do STF, Miguel Fonseca, ter declarado, durante
a sua participação em seminário
realizado pelo Sindjus/DF, a possibilidade de
modificar a redação e incluir os
auxiliares nas carreiras, todos devemos ficar
muito atentos para não sermos enganados.
Esta é a forma neoliberal de avançar:
dividindo trabalhadores e oferecendo vantagens
para alguns em troca do emprego de outros. Para
que não haja nenhuma dúvida, vejamos
o que diz a Constituição Federal
sobre extinção de cargo.
A emenda 19 da reforma administrativa, que foi
feita para tirar direitos e garantias de servidores,
em seu art. 41 diz o seguinte: § extinto
o cargo ou declarada a sua desnecessidade, o servidor
estável ficará em disponibilidade
com remuneração proporcional ao
tempo de serviço até o seu adequado
aproveitamento em outro cargo.
Existem apenas duas situações previstas
em lei para extinção de cargo; uma
já foi citada e outra é a que trata
da demissão de servidores estáveis;
art. 169. Limite de despesa com pessoal, é
a lei Camata. § 1º ,3º, 4º,5º
e 6º, todos com redação dadas
pela emenda constitucional nº 19.
A verdade é que, para colocar qualquer
cargo em extinção, o órgão
terá que fundamentar suas razões
e adequá-las à Constituição.
Essa é a minha, é a nossa preocupação,
pois a forma genérica de redação
proposta pelos prepostos dos tribunais coloca
em risco o futuro dos auxiliares, que dependerão
da boa vontade de quem estiver no Poder.
A revisão do PCS é uma conquista
e não será transformada em instrumento
de destruição de direitos e conquistas
dos servidores do Poder Judiciário Federal.
* Diretor
do Sintrajufe
Locação
de mão-de-obra no judiciário: o
fantasma da terceirização
por Washington
Luiz Moura Lima*
A cada ano, vem
crescendo, de maneira assustadora, a locação
de mão-de-obra no serviço público.
Os gastos com locação de mão-de-obra
presentes no Orçamento-Geral da União
compreendem, basicamente, a terceirização
de serviços de trabalhadores para copa,
vigilância, digitação e outros.
Esse é um bom artifício para aumentar
o lucro das empresas, em particular das locadoras,
burlando os direitos dos trabalhadores, desorganizando-os
e enfraquecendo-os.
No âmbito do governo federal, os números
impressionam. Só com locação
de mão-de-obra, foram gastos em 2001 R$
868,7 milhões. Esse valor deverá
crescer para R$ 1,2 bilhões em 2004 se
a dotação autorizada de gastos para
esse fim foi realmente realizada. Esses valores
são fechados no início de cada ano;
até a finalização desta edição,
ainda não havia sido divulgado o número
exato. Ao longo deste artigo, as referências
a 2004 sempre levarão em conta esse aspecto.
As despesas com serviços de terceiros com
pessoas físicas são os gastos com
consultoria e assessoria e outros serviços
prestados diretamente. As despesas de terceiros
com pessoas jurídicas são as relativas
a convênio médico, reformas, TV Justiça,
sistemas de informática, capacitação
de recursos humanos, assistência jurídica
e diversas outras despesas administrativas por
meio de contratos com empresas privadas. Com algumas
raras exceções, há contratação
de empresas públicas. Se agregarmos os
gastos com serviços de terceiros (pessoas
física e jurídica), apura-se o valor
de R$ 15, 3 bilhões liquidados em 2001
e R$ 15,1 bilhões em 2003. Só para
efeito de comparação, o montante
gasto em 2001 é equivalente a mais de 75
milhões de salários mínimos.
Nos valores acima, só estão sendo
considerados os gastos do governo federal, sem
as estatais, as fundações, as autarquias,
os governos estaduais e municipais, nos quais
a terceirização, na melhor das hipóteses,
deverá estar nos mesmos patamares do governo
central.
A maior parte dos serviços terceirizados
poderia ser efetuada pelo Estado. Na assistência
médica, por exemplo, se fossem investidos
os valores que hoje pagam às terceirizações,
melhorariam muito a abrangência e a qualidade.
Na verdade, na prática, trata-se de uma
política de privatização
dos serviços públicos.
Mas, além do aspecto econômico e
social, há a questão política.
A Confederação dos Trabalhadores
no Serviço Público Federal (Condsef)
constantemente aponta como um grande problema
em suas mobilizações as terceirizações.
Cada vez mais há menos servidores de carreira,
em detrimento de uma massa de trabalhadores terceirizados.
No Poder Judiciário Federal e no Ministério
Público da União, não é
diferente.
Assim, cria-se uma dinâmica perversa. A
falta de resistência facilita o aumento
da terceirização, que, por sua vez,
prejudica a organização da categoria.
Portanto, é uma questão política
da maior relevância, pois a perspectiva,
a médio e longo prazo, é uma diminuição
ainda maior de servidores de carreira e aumento
considerável dos terceirizados. Para a
cúpula dos administradores no serviço
público, para as empresas privadas e para
os governos, interessa a implantação
dessa política, porque aumenta o poder
efetivo das cúpulas nos órgãos.
A falta de estabilidade do trabalhador terceirizado
faz diminuir muito a possibilidade de organização
para lutar contra as arbitrariedades tanto salariais
quanto profissionais, éticas e morais no
serviço público.
Para termos uma idéia da gravidade da situação,
recentemente, um juiz de uma vara estadual colocou
anúncio em jornal e em rádios para
contratação de servidores... terceirizados.
Ele mesmo faria a contratação
dos (as) trabalhadores (as).
O segundo aspecto importante é que as terceirizações
garantem o lucro fácil para as empresas,
pois aumentam as possibilidades de fraudes, quer
seja nos valores pleiteados pelas empresas nas
licitações, quer seja na formação
de cartéis, dentre várias formas
de irregularidades cometidas, constantemente anunciadas
pela mídia. Essas fraudes são oriundas
de uma desregulamentação cada vez
maior dos contratos públicos.
No
Judiciário, gastos com locação
e terceirização seriam suficientes
para contratar mais de 7 mil servidores
A locação de mão-de-obra
compreende a contratação, por empresas
privadas, de trabalhadores nos tribunais. Na carreira
dos servidores do Judiciário, há
a função de auxiliar judiciário,
que basicamente compreende as funções
realizadas por terceirizados, embora haja muitos
casos de locação para serviços
que correspondem às carreiras de técnico
e mesmo à de analista judiciário.
Os montantes gastos no Judiciário Federal
e no MPU são tão expressivos quanto
o total da União. Em 2001 foram liquidados
do orçamento, somente como locação,
R$ 108,7 milhões. Em 2003 já houve
um aumento significativo para R$ 164,7 milhões.
Para 2004 estava autorizada uma execução
orçamentária de R$ 197,7 milhões.
Ou seja, no período de três anos,
o aumento dos gastos será de 83%.
Os gastos com terceirizações de
pessoas jurídicas (empresas) foram de R$
458,5 milhões em 2001, de R$ 605,9 milhões
em 2003 e estava autorizada a execução
de R$ 866,5 milhões em 2004. Crescimento
de 89% nesses três anos. As despesas de
terceirizações com pessoas físicas,
de 2001 a 2004 (montante autorizado de gastos),
foram, respectivamente, de R$ 38 milhões,
R$ 53 milhões e R$ 69,3 milhões.
Portanto, aumento de 82% no período analisado.
Somando locação de mão-de-obra,
serviços de terceiros pessoa física
e serviços de terceiros pessoa jurídica,
foram liquidados em 2001 R$ 605,3 milhões;
em 2003, R$ 823,6 milhões; e está
autorizado um total de R$ 755,2 milhões
em 2004. O aumento no período foi de 87%.
Em 2004, está autorizado um gasto menor
do que em 2003, mas esse montante poderia e deve
ter sido mudado durante o ano. Só com o
fechamento do orçamento poderemos ter o
valor efetivamente utilizado.
De qualquer forma, o total gasto com terceirizações
já representa uma parcela considerável
dos gastos do Poder Judiciário Federal
e do MPU. Para melhor mensurarmos esses números,
foi elaborado um comparativo entre os valores
gastos em 2003 e o custo de um servidor da carreira
de auxiliar judiciário A1. O custo
anual, em 2003, para um tribunal federal desse
servidor é de R$ 22.023,32, incluindo remuneração
mensal, férias, 13º salário,
obrigações patronais, vale-refeição,
auxílio-transporte, auxílio-alimentação,
ou seja, todos os encargos. Como os gastos somente
com locação de mão-de-obra
foram de R$ 164,7 milhões, esse montante
seria suficiente para contratar mais 7.481 servidores,
que corresponderiam ao aumento de 11% no quadro
atual de servidores de carreira. Esse quadro,
em 2002, era de um efetivo de 68.289, incluindo
o MPU.
O total com locação e terceirizações
em 2003 (R$ 823,6 milhões) seria suficiente
para a contratação de mais 37.401,
ou aumento do número de servidores de carreira
de 55%. Certamente, a contratação
desse número de servidores seria fundamental
para a melhoria da qualidade do serviço
público no Poder Judiciário da União
e no MPU e poderia abranger a maior parte dos
serviços terceirizados.
O lucro
das empresas privadas
A partir de uma
pesquisa feita pelo Sintrajud/SP junto a um tribunal
regional do estado de São Paulo, foi possível
realizar esta parte do estudo, com relação
ao custo por trabalhador e apurar o lucro das
empresas que prestam serviço de locação.
Por um contrato de R$ 1.680,00 mensais, o tribunal
contrata, por intermédio da empresa, um
trabalhador. O salário mensal desse trabalhador,
estipulado pelo tribunal, é de R$ 403,22,
piso salarial da categoria profissional.
Acrescentando todos os encargos, provisões
de férias, 13º salário, vale-transporte,
vale-refeição, etc. ao salário
do trabalhador, o custo total para a empresa é
de R$ 861,13. Logo, o lucro bruto da empresa,
neste caso, é de R$ 818,87, ou 95,09% do
valor gasto com o trabalhador. Muito acima do
lucro médio da economia e até mesmo
do setor financeiro.
Mas o tribunal tem outros custos na locação,
como o pagamento de horas extras. Para um período
de 30 dias, incluindo as horas extras, o trabalhador
receberia o salário de R$ 491,93, o custo
total dele para a empresa seria de R$ 954,26;
portanto, o lucro bruto da empresa será
de R$ 1.093.74 (uma vez que o valor pago pelo
tribunal, neste caso, com horas extra, é
R$ 2.048,00), ou de 114,62%. Ou seja, o lucro
bruto é mais do que o dobro gasto com o
trabalhador!
Com o custo de R$ 1.680,00, seria possível
contratar um servidor do Judiciário com
a remuneração mensal de R$ 791,00
e pagar todos os encargos. Esse valor é
bem próximo do valor da remuneração
em início de carreira do auxiliar judiciário.
No entanto, com o custo que o tribunal tem com
o pagamento de horas extras, levando-se em conta
que os custos para o pagamento de HE para os tribunais
são bem menores do que para as empresas
privadas, seria possível pagar uma remuneração
para um servidor concursado de R$ 1.054,38. Com
todos os encargos, o tribunal teria um custo de
R$ 2.048,00, mesmo valor pago para as empresas
privadas.
Como a remuneração em 2004 em início
de carreira do Judiciário Federal é
de R$ 1.201,47, pode-se ver que a diferença
é mínima entre o custo para a contratação
do servidor de carreira e um terceirizado, não
se justificando, na prática, a locação
de mão-de-obra.
Ainda mais se consideramos que o trabalhador locado,
nesse caso, receberia uma remuneração
bruta de apenas R$ 491,93.
Evidentemente que a questão interessa não
somente para os servidores do Judiciário,
pois os efeitos das terceirizações
atingem, além deles, os próprios
trabalhadores terceirizados. A maioria do povo
que é quem termina pagando a conta dessa
política de privatização
do serviço público.
* Assessor
técnico do Sintrajud/SP e especialista
em orçamentos de órgãos públicos
Os
avanços e os retrocessos da Reforma
A ampliação
da atuação da Justiça do
Trabalho é o fato de maior destaque na
Reforma do Judiciário, aprovada pelo Senado
depois de de 12 anos. A posição
é do juiz Paulo Schmidt, presidente da
Associação dos Magistrados do Trabalho
da IV Região (Amatra IV) e vice-presidente
da associação nacional (Anamatra).
para os servidores, no entanto, esse ponto gera
preocupação, pois não está
definido com que estrutura será colocada
em prática essa ampliação.
Com a ampliação de competências,
o Judiciário Trabalhista passará
a julgar um leque muito maior de litígios
decorrentes das relações de trabalho.
Schmidt considera, no entanto, que as transformações
do Judiciário ainda são insuficientes
para atender à sociedade.
Direito
& Avesso Existe um consenso sobre a
necessidade de reforma do Judiciário brasileiro.
O sr. acredita, no entanto, que a proposta aprovada
no Congresso fará com que esse poder se
torne aquele reivindicado pela sociedade?
Paulo Schmidt Com certeza, não.
O que a sociedade reclama é uma prestação
jurisdicional mais célere e efetiva. E,
nesses aspectos, como não poderia deixar
de ser, o texto aprovado não corresponde
às necessidades sociais. Esses problemas
estão na ordem infraconstitucional, como
exemplo uma legislação processual
emperrada, que muitas vezes privilegia a forma
e oferece uma infinidade de recursos.
Direito & Avesso
O relator da ONU Leandro Despouy esteve recentemente
no Brasil e afirmou que o Judiciário brasileiro
está distante da população
pobre do país. O sr. concorda com essa
avaliação? A reforma poderia modificar
essa realidade?
Paulo Schmidt De certa forma, sim.
O Estado brasileiro falha em muitas frentes para
com a maior parte do seu povo na saúde,
na segurança pública, na educação
e na assistência social, são apenas
alguns exemplos. Do mesmo modo que nega saúde
e educação de qualidade, também
nega amplo acesso ao Judiciário, pois as
defensorias públicas que estão em
funcionamento são precárias. No
projeto aprovado é dado um passo importante
com a autonomia das defensorias. Mas é
preciso traduzir isso em
medidas concretas que revertam o quadro.
Direito & Avesso O que o sr. destacaria
como positivo no projeto aprovado?
Paulo Schmidt Vários são
os aspectos positivos. Na parte que vai à
promulgação, sem dúvida a
ampliação da competência da
Justiça do Trabalho é o maior destaque.
Fruto da luta das associações de
juízes ao longo de vários anos,
resultará num Judiciário Trabalhista
fortalecido. Também merece destaque o Fundo
de Execuções Trabalhistas, uma idéia
que, se concretizada e bem gerida, muito contribuirá
para a efetividade da nossa prestação
jurisdicional. Na medida em que esse fundo pagar
os créditos de um reclamante contra uma
empresa insolvente, por exemplo, o próprio
fundo se sub-roga no crédito e a execução
prossegue em seu favor. Na parte do projeto que
retorna à Câmara gostaria de destacar
a previsão da súmula impeditiva
de recursos, medida que poderá, no futuro,
ser importante instrumento de celeridade e de
valorização das decisões
das instâncias inferiores. Por este instrumento,
quando a sentença do juiz de 1º grau
estiver conforme o entendimento sumulado pelo
Superior Tribunal de Justiça (STJ) ou pelo
Tribunal Superior do Trabalho (TST), dessa decisão
não caberá qualquer recurso ou qualquer
forma de impugnação.
Direito & Avesso
E o que considera negativo?
Paulo Schmidt Dois aspectos centrais
da reforma são negativos. O primeiro é
a súmula vinculante para o STF, instrumento
que tolhe a independência e a liberdade
do julgador das instâncias inferiores. O
segundo aspecto é o modelo do Conselho
Nacional de Justiça que foi aprovado. Ele
é verticalizado, nada democrático
e voltado principalmente para aspectos disciplinares.
Temos uma outra proposta para o Conselho, que
levamos ao Senado, de um órgão de
auto-governo do Judiciário, que afaste
a influência política do Executivo
e que dê efetiva independência aos
juízes. Vamos insistir nesse modelo democrático,
com ampla participação de juízes
de todos os níveis e ramos, mas também
da sociedade civil.
Direito & Avesso
De que forma as entidades representativas dos
magistrados se envolveram na elaboração
do projeto? Há algum movimento a fim de
fazer as modificações que julgam
necessárias?
Paulo Schmidt Lembro-me do ano de
1999, quando nos deparamos com a substituição
da expressão relação
de trabalho por relação
de emprego na última versão
do relatório da deputada Zulaiê Cobra,
então relatora do projeto de Reforma do
Judiciário na Câmara. Para a Justiça
do Trabalho, era fundamental manter no texto a
expressão relação de
trabalho, que permitiria maior amplitude
de atuação deste ramo especializado
da Justiça. Conseguimos reverter a questão
no plenário da Câmara graças
a um esforço conjunto da Anamatra (associação
nacional) e de todas as Amatras (entidades regionais).
Cito o episódio apenas para ilustrar o
intenso envolvimento das associações
durante esse longo processo. A vedação
do nepotismo nos tribunais e a ampliação
da competência são dois aspectos
que foram objeto de muito esforço e que
terminaram aprovados. A democratização
dos tribunais, a nomeação de juízes
dos tribunais da União pelas próprias
cortes e a competência criminal, dentre
outras, são bandeiras das associações
de juízes que não foram aprovadas.
Mas não descansaremos. Vamos retomar o
trabalho na Câmara com a certeza de que
ampliaremos o espaço democrático
interno. Lá também vamos combater
as inovações que entendemos não
serem as melhores para um Poder Judiciário
autônomo e independente.
A Reforma do Judiciário
por Luiz
Eduardo Vieira Oliveira*
O atual governo
vem dando ênfase, desde que assumiu o poder,
no início de 2003, à execução
de reformas, com o fito de modernizar o Estado,
azeitar a máquina administrativa, democratizar
as instituições, alavancar o desenvolvimento
do país e outros objetivos. Dentre essas
reformas, chama a atenção a que
visa atingir o Poder Judiciário, pois se
percebe claramente verdadeira tentativa de ingerência
e sufocamento de um dos poderes sobre o outro,
o que não condiz com um verdadeiro Estado
democrático de direito.
Já dizia Montesquieu, quando arrazoou os
argumentos de que os poderes deviam estar separados:
A liberdade política somente existe
nos governos moderados. Mas nem sempre ela existe
nos governos moderados. Só existe quando
não se abusa do poder, mas é uma
experiência eterna que todo homem que detém
o poder é levado a dele abusar; e vai até
onde encontra limites. Quem o diria! A própria
virtude precisa de limites. Para que não
se abuse do poder é necessário que,
pela disposição das coisas, o poder
limite o poder. (Teoria geral do Estado,
Darcy Azambuja, p. 179, 5 ed., Globo, 1969).
No Brasil, adotou-se o clássico sistema
de freios e contrapesos, a fim de que um poder
regule o outro, observada a sua área de
atuação, para que se cristalize
o equilíbrio da governabilidade do Estado.
Porém, no momento em que um dos poderes
tenta se sobrepor aos outros ou alia-se a um deles
para subjugar o terceiro, um toque de alerta deve
ser emitido, sob pena de a democracia enveredar
por outros caminhos não desejados pela
sociedade organizada. Esta, no caso brasileiro,
mostra-se uma sociedade dócil, avessa a
constantes mobilizações reivindicatórias,
o que, em tese, facilitaria eventual desvirtuamento
do sistema político vigente.
Agora, vem o Executivo apresentar projeto de controle
externo do Judiciário, que conta com a
participação de terceiros, para
a criação de um conselho de Justiça.
Ora, sabe-se que já existe controle da
atuação judicante, quer pelo próprio
poder em questão, quer pela Ordem dos Advogados
do Brasil, sempre atenta ao desenrolar das demandas
postas à apreciação dos tribunais.
Ele existe ainda pela imprensa, que, com grande
liberdade, como não poderia deixar de ser,
aponta diuturnamente para casos de desvio de conduta
de magistrados, com a conseqüente responsabilização
dos que não agem com a devida correção
no desempenho de suas funções.
Resta evidente que, numa sociedade como a brasileira,
cheia de problemas estruturais, com demandas que
clamam por soluções rápidas,
ocorram eventuais distorções na
atuação dos componentes de seus
poderes e a incidência desses problemas
no Judiciário é flagrantemente menor
que no Executivo e no Legislativo , mas
nem por isso há que se enveredar pela solução
proposta.
Usem-se os mecanismos existentes de controle,
procedendo-se até pequenos ajustes, reformas
internas, sem, contudo, chegar-se ao extremo de
controlar externamente um poder que, constitucionalmente,
é soberano e independente e, portanto,
deve atuar em sintonia e em perfeito equilíbrio
com os demais. Mormente quando o Judiciário
é o Poder que diz o direito, quando os
conflitos não são resolvidos por
outra via atividade que não encontra
albergue para pressões ou engessamentos
de qualquer natureza.
Assim, faz-se necessário que nossos governantes
tenham a clareza de um Montesquieu, a fim de que
não extrapolem seus limites, tratando cada
poder de cuidar de suas tarefas (hercúleas,
por sinal), com o escopo de elevar o país
ao lugar que ele merece no cenário internacional,
exibindo respeitabilidade perante as outras nações.
* Servidor
lotado na Vara do Trabalho de Cachoeirinha
O
Brasil é um país de deficientes
por Ari
Rech*
Depois de milhares
de reivindicações, finalmente o
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) incluiu nos questionários do Censo
um item específico das pessoas portadoras
de deficiência (PPDs). Pela primeira vez,
o Brasil conhece e tem uma radiografia da população
PPD. Hoje, finalmente sabemos quantos somos e
onde estamos. Até pouco tempo atrás,
o país usava os dados estimativos da Organização
Mundial da Saúde (OMS) e em cima deles
os governantes executavam as suas plataformas
administrativas. Talvez por isso, somente hoje
entendemos por que nunca foram suficientes os
recursos aplicados nessa área.
A PPD é, segundo o decreto federal nº
914/93, aquela pessoa que apresenta, em
caráter permanente, perdas ou anomalias
de sua estrutura ou função psicológica,
fisiológica ou anatômica, que gerem
incapacidade para o desempenho de atividades,
dentro do padrão considerado normal para
o ser humano. Em cima dessas definições,
o IBGE buscou radiografar a realidade socioeconômica
dessas pessoas. Segundo a OMS, os deficientes
se dividem em deficiência física
(tetraplegia, paraplegia e outros), deficiência
mental (leve, moderada, severa e profunda), deficiência
auditiva (total ou parcial), deficiência
visual (cegueira total e visão reduzida)
e deficiência múltipla (duas ou mais
deficiências associadas).
Há uma discrepância enorme entre
os dados da OMS e a realidade fática do
Brasil. Isso já foi tema de debate em muitos
congressos, nos quais se dizia que os dados eram
muito maiores do que aqueles que nos apresentavam.
Para ilustrar, vamos fazer um comparativo entre
os números que vinham sendo apresentados
e os números do IBGE que, diga-se
de passagem, são muito confiáveis
e com margem de erro muito pequena.
Como podemos perceber no quadro ao lado, os dados
são muito diferentes daqueles que o país
usava até a semana passada. Mas, ao analisar
mais detidamente esses dados, assustamo-nos, porque
encontramos uma população de mais
de 24,5 milhões de brasileiros portadores
de algum tipo de deficiência. Dentre os
deficientes visuais, 159.824 responderam que são
incapazes de enxergar. Entre os brasileiros com
deficiência auditiva, 176.067 responderam
que são incapazes de ouvir. Os dados do
Censo mostram, ainda, que os homens predominam
no caso de deficiência mental, física
(especialmente no caso de falta de membro
ou parte dele) e auditiva.
O resultado é compatível com o tipo
de atividade desenvolvida pelos homens e mostra
que os acidentes de trabalho vêm contribuindo
no aumento desses índices. As mulheres
predominam no índice dificuldades motoras
(incapacidade de caminhar ou subir escadas)
ou visuais, o que, até certo ponto, é
coerente, porque elas dominam na composição
por sexo da população e da idade
acima de 60 anos. Também, ao somarmos o
número de deficientes físicos com
o de deficientes motores, temos um total de 3,91%
de pessoas com dificuldades físicas, ou
seja, 6,59 milhões de brasileiros.
Os dados que estavam disponíveis nessa
área, além de serem parciais e contraditórios,
eram estimativas de países em desenvolvimento,
mas com dificuldades muito menores que o nosso.
Segundo o professor Wilson Scarpelli, em recente
comentário ao Censo 2000, os dados
censitários de 1980 a 2000, disponíveis
na página do IBGE na internet, permitem
visualizar razões para a crescente insatisfação
popular, observável pelo aumento de índices
de criminalidade e de reclamações
em geral. A alegria de ser brasileiro vem diminuindo
paulatinamente, transformando-se em preocupação.
Finalmente, conseguimos mostrar a cara do Brasil
deficiente. Conseguimos mostrar que de cada 100
brasileiros, no mínimo 14 apresentam alguma
limitação física ou sensorial.
Esta última em número muito maior
em relação àquela. Por outro
lado, os dados nos jogam para uma dura e triste
realidade. Onde estão estes cidadãos
e estas cidadãs? Estão trabalhando?
Estão na escola? Tem acesso à saúde,
ao lazer, ao prazer...? É, são perguntas
que não podem calar diante de tais dados.
Não podemos deixá-los sem resposta.
Afinal, estamos num novo século, num novo
milênio, na era tecnológica... Vinte
e quatro milhões e quinhentos mil brasileiros(as)
esperam por estas respostas. Está na hora
de a Nação pagar a dívida
que tem conosco.
Tipos de deficiência
| |
OMS
|
IBGE
|
Nº de Habitantes*
|
| Mental |
5% |
1,24%
|
2,09
|
| Física |
2% |
0,59%
|
0,99
|
| Auditiva |
1,5% |
2,42%
|
4,08
|
| Visual |
0,5% |
6,97%
|
11,77
|
| Múltiplos |
1% |
-
|
-
|
| Motora |
- |
3,32%
|
5,6
|
| Total |
10% |
14,5%
|
24,5
|
*
em milhões
Fonte: Organização Mundial da
Saúde e Censo IBGE 2000 |
*
Servidor lotado na Vara do Trabalho de Triunfo
e membro do Coletivo de Pessoas Portadoras de
Deficiência do Sintrajufe
Muitos
caminhos levam ao porão
Por Rosane
Vargas
Ainda faltam
muitas peças para que o quebra-cabeças
da ditadura militar brasileira fique completo.
Em 2004, surgiram vários documentos. Isso
mostra que, ao contrário do que afirmam
as Forças Armadas, os arquivos existem.
Em outubro, o Correio Braziliense publicou fotografias
de um homem preso; supostamente, o jornalista
Vladimir Herzog, morto sob tortura em 1975. No
entanto, a Agência Brasileira de Informação
(Abin) corrigiu que era o padre canadense Leopoldo
Dastous. O episódio mostra que a Abin tem
as informações, ou boa parte delas,
pois foi muito rápida na identificação
do homem retratado.
Em dezembro, documentos foram queimados na Base
Aérea de Salvador, Bahia. Antes, a Aeronáutica
garantia que todos teriam sido destruídos
em um incêndio no Rio de Janeiro, em 1998.
No mesmo mês, o Diário do Nordeste,
de Fortaleza, noticiou que papéis da ditadura
foram achados em uma escola pública, em
caixas de livros doados.
Em solo gaúcho
No Rio Grande do Sul, também em dezembro,
novas descobertas. Milhares de documentos, em
sua maioria carimbados como "confidencial"
e "secreto", foram localizados pelo
jornal Zero Hora em um sítio em Eldorado
do Sul. O local, praticamente abandonado, pertence
à família do ministro da Educação
do governo Costa e Silva e senador da Arena Tarso
Dutra. Como os papéis relativos à
ditadura estão misturados com outros, pessoais,
o material ainda está sendo analisado.
Em 13 de dezembro último, data que coincide
com a publicação do tenebroso Ato
Institucional Nº 5, em 1968, a Comissão
do Acervo da Luta contra a Ditadura, da Secretaria
Estadual da Cultura, divulgou documentos classificados
como confidenciais que trazem informações
recolhidas pelo 3º Exército nos primeiros
anos da década de 1970. O material percorreu
um longo caminho até chegar à comissão.
Há cerca de seis anos, a jornalista do
Correio do Povo Jurema Josefa fez uma nota sobre
como dom Paulo Evaristo Arns impedira a polícia
de entrar na Catedral da Sé atrás
de manifestantes durante a ditadura. Dias depois,
Jurema foi procurada por um homem que, após
ler a nota, decidiu entregar para a jornalista
documentos originais do III Exército encontrados
em um cofre no ferro-velho do qual era dono. O
homem havia pensado em entregá-los ao Exército,
mas foi dissuadido pela mulher, que achou perigoso.
Os papéis ficaram guardados, segundo ele,
por quase dois anos. Jurema diz que ele estava
apavorado e foi embora sem sequer dar o nome.
Ela decidiu repassar o material para jornalistas
que estavam escrevendo sobre o tema. Apenas um
se interessou, usou e devolveu o envelope. Jurema
levou os documentos para casa e colocou-os em
uma caixa de coisas para resolver.
O tempo passou. Quando foi convidada para participar,
em 2004, junto com o presidente da Comissão
do Acervo, João Bona Garcia, do programa
Frente a frente, da TVE local, Jurema entregou
a ele os documentos, que, finalmente, vieram a
público.
Na apresentação do material à
imprensa, Bona Garcia fez apelo para que outras
instituições e pessoas abram os
arquivos que possuem. Em documento, a comissão
pede ao presidente Lula que assuma a decisão
pela abertura dos arquivos da ditadura militar.
Esses documentos não pertencem mais
às instituições, mas à
história e à sociedade brasileira,
afirmou.
Mais uma comissão
O governo federal criou, no final de 2004, a Comissão
de Averiguação e Análise
de Informações Sigilosas, que reúne
os ministros da Casa Civil, da Justiça,
da Defesa, das Relações Exteriores,
o chefe do Gabinete de Segurança Institucional
da Presidência, o advogado-geral da União
e o secretário Especial dos Direitos Humanos
da Presidência. Ela foi incumbida de analisar
documentos oficiais sigilosos, incluindo os da
ditadura, e poderá ser convocada para reduzir
os prazos estabelecidos pela lei por qualquer
pessoa que demonstre possuir efetivo interesse
nos documentos.
Um decreto editado pelo ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso em 2002 estabelecia prazo de
10 anos de sigilo para documentos reservados,
20 para os confidenciais, 30 para os secretos
e 50 para os ultra-secretos, renováveis
por mais 50. O governo Lula reduziu os prazos
para os documentos secretos e ultra-secretos:
caem para 20 e 30 anos, respectivamente. Foi retirada
do decreto a possibilidade de que esses dois últimos
sejam renovados por tempo indefinido. No entanto,
a MP abre brecha para que a Comissão de
Averiguação mantenha todos eles
secretos se entender que as informações
colocariam em risco a segurança nacional.
Vigilância
sobre tudo e todos
Os documentos
tornados públicos pela Comissão
do Acervo contra a Ditadura mostram que os órgãos
de segurança tinham informações
de cada passo dos militantes de oposição,
incluindo as rotas de saída ou entrada
no país. Sobre o ex-major gaúcho
Joaquim Pires Cerveira, da Frente de Libertação
Nacional, o documento 058/72 informa que modificou
seu aspecto exterior e dá informações
detalhadas das novas características: bigode
espesso, cabelos ruivos e longos à hippie,
óculos de aro dourado, roupas desbotadas
e coloridas à hippie. A polícia
sabia até que o militante pretendia viajar
e que tinha desistido de fazê-lo de avião.
Cerveira está na lista dos desaparecidos.
Sobre Antônio Carlos Nogueira Cabral, a
versão oficial é que o militante
da Aliança Libertadora Nacional morreu
em um tiroteio com a polícia. A Comissão
Nacional de Mortos e Desaparecidos conseguiu provar
que foi montado um teatrinho na rua
a fim de acobertar a morte sob torturas. Se não
tivesse conseguido, a comissão agora teria
uma prova: o ofício 23/72 esclarece que
Cabral estava preso. Ou seja, não tinha
como travar tiroteio. Os documentos mostram que
a vigilância não se restringia aos
militantes políticos. Cantores como Nara
Leão, Milton Nascimento e Chico Buarque
eram acusados de disseminar em seus shows proselitismo
desagregador junto aos estudantes. A recomendação
da informação confidencial 399/72
é que suas atividades fossem acompanhadas
para neutralizar com oportunidade os efeitos
negativos das mesmas.
Anistia: além da volta
do irmão do Henfil
Assim
como Caminhando ou pra não dizer que não
falei de flores, de Geraldo Vandré, foi
o hino da contestação à ditadura
nos anos 60, O bêbado e a equilibrista embalou
a luta pela anistia. A música de Aldir
Blanc e João Bosco resumia o anseio do
país pela volta do irmão do
Henfil e de tanta gente que partiu. Em 1979,
estava na Presidência João Batista
Figueiredo, o último general-presidente.
Seguindo os passos de Ernesto Geisel, ele continuou
o que a ditadura chamava de abertura lenta,
gradual e segura. Para a volta do sociólogo
Herbert de Souza, o irmão do Henfil, e
tantos outros, havia duas forças agindo.
De um lado, familiares de presos, mortos e desaparecidos,
a sociedade civil organizada, movimentos de mulheres,
estudantil e sindical, que exigiam uma anistia
ampla, geral e irrestrita. De outro, os militares
e a elite que os mantinha no poder, para quem
a anistia fazia parte do chamado Plano Mestre,
projeto que consistia em medidas com as quais
o governo pretendia reordenar o sistema político,
sem perder o controle.
Do embate dessas forças resultou o projeto
de anistia aprovado pelo Congresso em 22 de agosto
de 1979. A lei 6.683 entraria em vigor no dia
28. Segundo Eduardo Greenhalgh, então presidente
do Comitê Brasileiro pela Anistia, havia
cerca de 25 mil brasileiros exilados (o livro
20 anos de Anistia Um resgate da luta no
Rio Grande do Norte trabalha com 15 mil) e mais
de 200 presos políticos. Isso sem contar
pessoas que viviam clandestinamente no país
e aquelas que, depois de presas, torturadas e
libertadas, eram vigiadas constantemente pela
repressão.
Queríamos os nossos aqui
Presa em 11 de abril de 1972, a hoje psicopedagoga
e terapeuta Nilce Azevedo Cardoso optou por não
sair do país, apesar de toda a pressão.
Ela estava respondendo ao processo em liberdade
e precisava de tratamento médico que talvez
não conseguisse facilmente no exterior
na condição de exilada. Como resultado
das torturas, teve o útero queimado e ficou
com um abalo psicológico profundo.
Em meados da década de 1970, Nilce integrou-se
ao Instituto de Estudos Políticos, Econômicos
e Sociais (Iepes), vinculado ao MDB, que abrigava
vários grupos de esquerda. A entidade começou
com a luta pelos direitos humanos e a denúncia
das torturas. As pessoas não acreditavam
que havia torturas, diz. Quando se ampliou
o espaço, passou-se então a falar
mais abertamente em anistia. Queríamos
os nossos aqui, lutando conosco, conta Nilce.
O movimento estudantil defendia três eixos:
anistia ampla, geral e irrestrita; liberdade de
expressão e organização;
e criação de uma constituinte, lembra
a ex-vereadora e ex-secretária de Direitos
Humanos e Segurança de Porto Alegre Helena
Bonumá. Como era proibido fazer manifestações
fora dos muros das universidades, os estudantes
saíam em duplas, que se encontravam em
lugares predeterminados no Centro da cidade e
faziam uma manifestação relâmpago.
Ela lembra que não eram manifestações
amplas, pois ainda havia muito medo da repressão.
O movimento pela anistia também ganhou
força, constata Helena, porque a ditadura
estava perdendo sua base de apoio na classe média,
que vivia a crise que sucedeu a euforia do milagre
econômico do início da década
de 1970.
Movimento avança
No exterior, já se falava em anistia em
1974. Na maior comunidade de exilados brasileiros,
Paris, o movimento era forte e se irradiava para
o resto do mundo. Duas vezes presidente do Comitê
Francês pela Anistia, João Bona Garcia
é presidente do Acervo da Luta contra a
Ditadura. Banido do Brasil, ele foi para o Chile,
de onde fugiu, com a mulher e o filho de 1 ano
e 10 meses, depois do golpe que derrubou Salvador
Allende, em 1973. Em Buenos Aires, a família
quase foi seqüestrada por policiais brasileiros.
Seguiram para a Espanha, mas o país vivia
a ditadura de Franco. Dali, foram para Argélia
e, um ano depois, Paris. Na França, ele
e a mulher estudaram e trabalharam, mas persistia
a vontade de voltar. O exterior é
bom, sim, mas ele cansa, lá você
será sempre um estrangeiro, aquele não
é o seu modo de vida, a cultura é
outra, diz.
Vereador cassado em 1968, o advogado Índio
Vargas foi preso em 1970. Devido à tortura,
ficou dois meses no Hospital do Exército,
onde era vigiado diuturnamente por militares com
metralhadoras. Eles temiam que o capitão
Carlos Lamarca, então o homem mais procurado
do país, viesse resgatá-lo. Superestimaram
o valor do preso, brinca. Em 1979, Vargas
participou de um congresso em Lisboa. Estavam
lá brasileiros exilados em vários
países. Todos buscavam uma só coisa:
voltar ao Brasil e refazer a vida. A maioria
estava perdida, era tudo muito precário.
As pessoas mais qualificadas, conhecidas, lecionavam
em universidades, mas eram minoria, conta.
O ano de 1979 foi de mobilização.
De maio a setembro, houve no Rio Grande do Sul
greves de metalúrgicos, trabalhadores do
vestuário e da construção
civil, professores e bancários. A
gente conquistou as ruas na base do enfrentamento
com a polícia, afima Helena. Nas
semanas que antecederam a votação
da anistia, entidades, estudantes, mulheres, familiares
de mortos e desaparecidos fizeram uma vigília
cívica na Praça da Matriz e depois
na Praça da Alfândega. Era agosto.
Muito frio e chuva em Porto Alegre.
Nos meses seguintes à sanção
da lei, desembarcavam no Brasil o irmão
do Henfil e centenas de outros exilados. No
início, era a euforia; depois o pessoal
ficou procurando o que fazer, a busca do emprego,
começaram a montar partidos, lembra
Vargas.
O hoje deputado estadual Raul Pont teve que abandonar
o emprego no Instituto de Previdência do
RS, pois a polícia política estava
atrás dele. Entrou para a clandestinidade
e foi preso em 1970. Em 1974, também se
abrigou no Iepes. Depois da anistia, o movimento
ainda estava debilitado, procurávamos ocupar
os espaços, conta.
25 anos depois
Em 2004, comemoraram-se 25 anos da 48ª anistia
da história brasileira. Ainda hoje, vários
militares cassados buscam reintegração.
Outro exemplo: Pont foi impedido, por um coronel,
em 1968, de assumir um cargo para o qual tinha
feito concurso na Petrobras. O processo de reparação
ainda está tramitando. Ficaram fora da
lei 6.683 os condenados por prática
de crimes de terrorismo, assalto, seqüestro
e atentado pessoal, os chamados crimes
de sangue, descritos nos artigos 27 e 28
da Lei de Segurança Nacional (LSN) vigente
na época. Segundo o Superior Tribunal Militar,
no entanto, somente ficariam presos os enquadrados
nos crimes de sangue que tivessem sido condenados.
Isso gerou a primeira grande distorção
da lei: banidos, exilados, foragidos ou presos
cujos processos estivessem em tramitação
foram beneficiados; os restantes só foram
soltos, e em liberdade condicional, com um abrandamento
das penas na LSN.
A Constituição de 1988, nas suas
Disposições Transitórias,
artigo 8º, ampliou a abrangência da
anistia, que era de 2 de setembro de 1961 a 15
de agosto de 1979, passando a ser de 18 de setembro
de 1946 até 5 de outubro de 1988, e concedeu
reparação econômica. A regulamentação
só aconteceu em 13 de novembro de 2002
e passou a ser conhecida como Nova Lei da Anistia
(lei nº 10.559). Podem requerer pessoas que,
nesse período, tenham sofrido algum prejuízo
por motivação política.
Uma pergunta é recorrente em todo esse
período: os torturadores foram anistiados?
Helena Bonumá lembra que, quando se começou
a falar em anistia, estava claro que o Estado
tinha que reconhecer a tortura, a violência
e o desaparecimento de pessoas e, a partir
de processos legais, chegar à punição
dos responsáveis por esses atos.
Isso, porém, não aconteceu. A lei
foi usada pelo governo para livrar os que serviram
ao Estado, afirma Nilce. Helena concorda que o
texto é propositalmente ambíguo.
Em entrevista à revista Veja pouco antes
da aprovação, em 1979, o então
ministro da Justiça, Petrônio Portella,
um dos autores do texto, afirmava que o projeto
procura enquadrar todos os fatos ocorridos
como resultado das exacerbações
políticas. O eufemismo não
deixa escapar a intenção de livrar
os exacerbados da repressão.
Para Pont, anistia significa uma reparação
para a vítima, por isso não faria
sentido a lei abranger os torturadores. Ela
foi pensada e lutada para quem foi prejudicado,
sofreu seqüelas, perdeu o emprego, perdeu
a vida, conclui. Em artigo na Folha de S.
Paulo, o jurista Fábio Konder Comparato
afirma que, em hipótese nenhuma,
os crimes cometidos por agentes públicos
podem ser subtraídos ao conhecimento público.
O encobrimento oficial de delitos representa,
sempre, a superposição do interesse
particular de grupos, classes ou corporações
ao direito fundamental do povo de conhecer a identidade
dos criminosos e as circunstâncias do crime.
Nilce reconhece que, em 1979, faltou força
política para reivindicar a punição
dos torturadores. Na opinião de Raul Pont,
o grande momento em que a punição
dos torturadores poderia ter sido estabelecida
foi a Constituinte, mas não houve correlação
de forças que permitisse que esse passo
fosse dado.
Quanto à punição dos torturadores
e ao Estado assumir que matou, Índio Vargas
é taxativo: No Brasil, isso jamais
ocorrerá. O advogado diz que a história
do Brasil sempre foi feita por conchavos e golpes
de Estado e dá um exemplo: José
Sarney, um dos grandes nomes da Arena, partido
de sustentação do governo militar,
agora é presidente de honra do PMDB, herdeiro
da oposição legal à ditadura.
A sociedade brasileira, de um modo geral,
não gosta do enfrentamento. A palavra conciliação
é muito forte no Brasil, conclui.
Helena diz que, quando pensa na anistia, há
um sentimento de melancolia profunda. A punição
dos torturadores, segundo ela, não
é vingança nem revanche, é
um mínimo de justiça; o Estado tem
que fazer cumprir a lei cumprindo a lei; que confiança
podemos ter em nossa democracia se não
se pode enfrentar isso?, questiona. Para
ela, o problema é que houve um grande
acordão; as nossas elites, quando vêem
que vão perder o poder, aderem, cedem.
Na opinão de Helena, esse é um processo
incompleto, que reforça a relação
autoritária que o Estado tem com a sociedade.
A gente não vai avançar muito
sem mexer nisso. É um nó: ou a gente
desata ou vai continuar amarrado nele, afirma.
Na opinião de Bona Garcia, a punição
dos torturadores só iria personalizar uma
ação que era uma política
de Estado. Para ele, é necessário
que o governo e as Forças Armadas venham
a público reconhecer as atrocidadades cometidas.
Nilce acredita que a primeira lei de anistia propiciou
uma reorganização da sociedade e
que a lei 10.559 é uma segunda chance de
o Estado se redimir: O governo tem que assumir
que é preciso esclarecer essa história
e que ele é que tem que fazer isso.
Para ela, a ditadura fez o povo brasileiro perder
a capacidade de indignação. A
capacidade de se espantar e, em um segundo momento,
indignar-se, deveria ser própria do ser
humano. Nilce traz ainda vivas as marcas
do que sofreu, dos amigos perdidos, mas garante
que o movimento de resistência sempre
existiu e sempre existirá; é o que
de mais belo tem no ser humano e é o que
nos garante que eles nunca vencerão.
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incansável pela verdade
D&A
Entrevista: Suzana Lisboa
por Rosane Vargas
Depois de emergir
de mais de dez anos de clandestinidade, Suzana
Lisboa fixou como meta descobrir a verdade. O
empenho em encontrar o corpo do marido, desaparecido
político, e tantos outros brasileiros que
foram sugados nos porões da ditadura a
tornaram uma das pessoas mais conhecidas no país
na luta por jogar luz sobre um dos períodos
mais sombrios da história brasileira. Nesta
entrevista, ela fala sobre o que chama de crimes
da democracia, o sofrimento dos familiares de
mortos e desaparecidos e o empenho dos governos
em esconder os arquivos da ditadura.
Direito
& Avesso Como se formou a Comissão
Especial de Mortos e Desaparecidos da Presidência
da República?
Suzana Lisboa A comissão
foi constituída por lei em 1995, por iniciativa
do Executivo, e aprovada pelo Congresso Nacional.
Ela foi uma tremenda vitória dos familiares.
Pela primeira vez o Estado reconheceu que matou
e desapareceu com pessoas. A lei 9.140 de 1995,
no seu anexo, reconhece a existência de
136 desaparecidos políticos assassinados
pelo Estado e cria essa comissão para dar
andamento a isso e examinar novos casos. A posição
de grande parte dos familiares inclusive
a minha era, nessa época, que a
gente não devia participar dessa comissão,
porque ela não atingia os principais objetivos
dos familiares, que são o esclarecimento
das circunstâncias das mortes; no caso dos
desaparecidos, a localização dos
corpos, a identificação, a entrega
para sepultura e a punição dos responsáveis.
Essa lei dizia que os desaparecidos morreram no
ano tal. O Ministério da Justiça
e a comissão tiveram que intervir junto
aos cartórios, porque eles não queriam
produzir atestados de óbito dessa forma,
sem causa mortis, sem local de sepultamento; só
tem ano, para poder calcular a indenização.
No caso dos desaparecidos, a União reconhece
que matou e nós, os familiares, é
que temos que apresentar indícios para
que a comissão proceda a busca. Eu achava
isso um escárnio, não queria participar,
mas fui. Os familiares resolveram participar.
Eu, na época, era um nome de consenso,
agora já não sou mais. A gente tem
divergências sobre condução,
etc. e tal. Enfim, apesar de eu ser petista e
fundadora do PT, nunca misturei a minha militância
na comissão com a minha militância
partidária. Eu considero que o trabalho
da comissão foi muito positivo. A gente
tinha que montar os dossiês e nós
é que tínhamos que provar que as
versões oficiais de suicídios, atropelamentos,
tiroteios eram mentirosas. Do nosso dossiê
dos mortos e desaparecidos, nessa primeira fase
da lei, por 130 vezes provamos que a ditadura
militar tinha mentido, que na verdade essas pessoas
tinham sido assassinadas sob a guarda do Estado,
algumas executadas e outras sob tortura.
Direito & Avesso
A lei tinha uma abrangência limitada, o
que gerou discussões.
Suzana Houve na época grandes
discussões. Dos muitos processos, alguns
a gente acabou perdendo porque não conseguiu
provar, porque não estavam dentro da lei.
O que o governo Lula fez foi ampliar os critérios
de abrangência para aqueles que foram mortos
em manifestações políticas,
em tiroteio com a segurança, desde que
provada a militância política, e
aqueles que se suicidaram para não ser
presos e os que morreram comprovadamente por conseqüência
de seqüela de tortura. Algumas coisas não
foram nem tocadas. Por exemplo: a nossa posição
era de que pelo menos o ônus da prova não
tinha que ser dos familiares. Se o governo reconhece
que matou, é ele que tem que dizer como
matou.
Direito & Avesso
Uma indenização em dinheiro não
seria como o Estado dizer vocês estão
sendo pagos, acabou aqui a investigação?
Suzana Eu acho que a reparação
subentende uma indenização, desde
que ela seja concedida dentro de princípios
éticos e morais. Nós lutamos na
época para que a indenização
fosse igual para todos, calculada de acordo só
com a expectativa de vida. Isso é completamente
diferente da Comissão da Anistia e das
críticas que hoje eu faço a essa
comissão. Como declarou o presidente da
Comissão da Anistia, se o pobre diabo era
gari, vai receber como gari. Na nossa comissão,
se o pobre diabo era gari, a família vai
receber a mesma coisa que o diplomata, o deputado,
seja quem for.
Direito & Avesso
Existem denúncias sobre pessoas cujos processos
estão sendo passados à frente na
Comissão de Anistia...
Suzana Eu sempre fiz essa denúncia.
A indenização do Cony [Carlos Heitor
Cony] já virou pequena perto do que está
sendo aprovado. Eu defendi e fiquei muito feliz,
porque inicialmente foi esta a decisão
que o presidente Lula tomou, que fossem suspensas
as indenizações, que fosse feita
uma auditoria, aí você ia provar
o fura-fila e o absurdo dos valores que estavam
sendo concedidos. Eu não estou dizendo
que a comissão extrapolou a lei, mas que
o entendimento dela fez com que isso acontecesse.
É impossível que num país
de miseráveis como o nosso, com o salário
mínimo que a gente tem, um cara recebe,
como está aqui no jornal [Diário
Oficial da União], R$ 3.427.296,93 de retroativo
e vai receber por mês R$ 18.488,00. O que
o país deve a essa pessoa para ela receber
um valor desses? Mas, enquanto o governo está
discutindo e está se propondo a rever,
como é que publica uma portaria dando R$
3,5 milhões para uma pessoa? Até
porque era uma pessoa que já recebia; por
aqui tu vês que não tem critério.
Direito & Avesso
Muitas pessoas acreditavam que o familiar havia
sido morto em um tiroteio e, na investigação
da comissão, descobriram que a morte havia
acontecido sob tortura, o que é muito mais
doloroso. Como vocês trabalharam isso na
comissão?
Suzana Isso é um horror porque,
por incrível que pareça, a gente
prefere que a versão de tiroteio seja verdadeira.
Eu fiz a denúncia de ter encontrado o corpo
do Luís Eurico [Tejera Lisboa], meu marido,
que foi o primeiro desaparecido a ser encontrado,
no dia da votação da Anistia. Faz
25 anos. Até hoje eu não sei como
ele morreu, porque existe uma versão oficial
de suicídio, o que está no atestado
de óbito que eu recebi. Eu sei que esse
suicídio não é verdadeiro.
O Caco Barcellos fez um Globo repórter
uns anos atrás e, na pensão onde
o Luís Eurico teria sido encontrado morto,
há depoimentos de que ele havia sido assassinado.
Até hoje as nossas reivindicações
são as mesmas: a abertura dos arquivos
militares, o esclarecimento circunstancial das
mortes e dos desaparecimentos políticos
e a punição dos responsáveis.
Para nós, a Lei da Anistia não atingiu
os torturadores. Não só pra nós,
para grande parte dos juristas importantes deste
país. Muitos presos políticos continuaram
presos porque, condenados pelos chamados crimes
de sangue, [somente] foram soltos em função
da Lei de Segurança Nacional, que atenuou
as penas.
Direito & Avesso
A quem caberia, neste momento, denunciar os torturadores?
Suzana A tortura é um crime
imprescritível. O problema é que
grandes nomes deste país e o próprio
Judiciário passaram a considerar que essas
pessoas estavam anistiadas. Algumas pessoas tentaram
entrar com processos contra torturadores, só
que a Justiça não aceitava em função
da Lei da Anistia. Caberia ao ao país como
um todo, às autoridades constituídas,
pelo menos, não nomear para cargos de confiança
pessoas envolvidas nos crimes daquela época,
porque nem isso acontece. O Geraldo Alckmin [governador
de SP] defendeu com unhas e dentes um grande assassino
e torturador que é o Capitão Ubirajara
[Aparecido Laerte Callandra], que foi promovido
lá dentro. Aqui, no governo Olívio
[Dutra], nós tivemos um enfrentamento muito
grande com um cara que foi nomeado para o Conselho
Superior de Polícia que não era
torturador, mas era envolvido com a investigação
da ditadura e que não perdeu o seu cargo.
São situações que não
estão claras para a sociedade. Por isso
o trabalho dos familiares acaba sendo fundamental,
mas é muito doloroso. Até acontecer
a divulgação de supostas fotos do
Vladimir Herzog [outubro de 2004], nós
estávamos completamente isolados.
Direito & Avesso
Mudou alguma coisa depois da divulgação
dessas fotos?
Suzana Acho que mudou, a gente tem
um apoio em nível nacional que não
teve, por exemplo, quando a juíza Solange
[Salgado, da 1ª VF de Brasília] determinou
na nossa ação em relação
aos desaparecidos do Araguaia que a União
abrisse os seus arquivos. Se tivesse havido esse
barulho que houve em relação ao
caso do Herzog e essa pressão nacional,
talvez o presidente Lula tivesse tido outra posição.
O Correio Braziliense diz que o presidente Lula
tomou essa decisão [entrar com recurso]
sob influência do [Luiz] Gushiken, o que
é algo impressionante, porque foi um sindicalista
que sofreu na mão da ditadura e que eu
acho que não entendeu ainda em que lugar
ele está.
Direito & Avesso
Tu vislumbras que possa acontecer no Brasil a
prisão de militares, como na Argentina;
ou que, como no Chile, o Estado reconheça
que matou?
Suzana O Brasil nos deve isso. Eu
nunca imaginei que isso não fosse ser feito
em um governo presidido pelo Luiz Inácio
Lula da Silva. Eu achava que talvez não
se conseguisse caminhar imediatamente para a punição
dos torturadores, mas eu imaginava que o ministro
da Defesa fosse para a televisão pedir
desculpas à Nação pelos crimes
cometidos e não nos atacar e tentar escamotear
informações como ele [José
Viegas] fez. Dizia que os arquivos tinham sido
queimados em 80, mas existem relatórios
elaborados pelos ministérios militares
em 93, relatórios oficiais, entregues ao
então ministro Maurício Corrêa,
que falam sobre os mortos e desaparecidos. Onde
foram parar esses arquivos?
Direito & Avesso
Em relação aos desaparecidos, com
que números vocês trabalham?
Suzana Metade dos desaparecidos
está no Araguaia. Dos cerca de 160 desaparecidos
políticos nós até
hoje não temos o número certo, por
incrível que pareça , nós
resgatamos três corpos. Isso é nada.
Nós conseguimos informações
sobre o local de sepultamento, talvez, de mais
uns dez. Nós não pudemos resgatar
os corpos ou porque os cemitérios mudaram
as quadras ou porque estão nestas valas
onde também foram colocados os mortos da
violência. Tem uma vala do cemitério
de Perus [SP] com 1.049 corpos; nós reconhecemos
dois. Que a gente tenha certeza, existem mais
cinco ou seis corpos na vala de Perus que a gente
não consegue identificar. No cemitério
de Ricardo de Albuquerque [RJ] também existe
uma vala onde foram colocados diversos mortos
pela repressão política, desaparecidos
inclusive, no meio de mortos pela violência.
Em Recife, no cemitério de Santo Amaro,
também tem. A gente sabe onde a repressão
colocou, mas a gente não resgatou os corpos,
e isso é um direito mínimo, elementar,
que a sociedade deveria exigir do governo.
Direito & Avesso
Os familiares estão isolados?
Suzana É verdade. Quando
começou a lei 9.140, houve diversas reuniões
no Rio, em São Paulo e sei lá em
que outros lugares do país, com a participação
da Ordem dos Advogados, dos familiares, de ex-presos,
para tentar colaborar nos processos que a gente
teria que encaminhar. Isso aí não
deu em nada. Quem fez os processos fomos nós,
os familiares.
Direito & Avesso
Por que esse distanciamento?
Suzana Eu, sinceramente, não
sei te dizer. Eu acho impressionante porque, logo
depois da Anistia, primeiro aconteceu esse discurso
da ditadura de que tinha que passar uma borracha
e qualquer atitude de buscar esclarecimentos era
chamada de revanchismo. Isso até hoje existe.
Olha que nota fez o ministro do Exército
[quando da divulgação das supostas
fotos de Herzog]. E não vem dizer que não
foi ele, porque foi o Exército que fez.
O cara deveria ter sido imediatamente exonerado.
Veja o que diz o general [Jorge Armando] Félix,
chefe da segurança institucional da Presidência
da República. Ele diz textualmente que
os arquivos existem, mas não têm
nada sobre mortos e desaparecidos. Têm situações
de pessoas que estavam com uma mulher, que hoje
estão com outra, que isso poderia destruir
as famílias; que têm depoimentos
de pessoas que entregaram tudo e não foi
só sob coação. Ele está
coagindo não só o presidente, que
foi preso político, como todo o seu Ministério.
Ele está coagindo todos nós, que
enfrentamos a ditadura. Eu acho que é por
isso que as pessoas foram buscar reconstruir a
sua vida e tentar esquecer esse passado. Só
nós é que ficamos sozinhos e mostrando
não esquecer.
Direito & Avesso
A revisão do passado está presente
em livros de memórias sobre a época.
As pessoas procuram descrever o que aconteceu
com um olhar atual, o que muitas vezes faz parecer
que foi tudo ridículo, quixotesco. Isso
não te parece ofensivo?
Suzana Eu acho que sim. Eu não
gosto da maior partes das publicações
sobre esse assunto. Eu participei da luta armada,
tenho muito orgulho disso e não gosto de
falar sobre isso porque, hoje em dia, virou uma
coisa quixotesca. Eu posso contar como foi a repressão,
como foi viver na clandestinidade, eu posso contar
o que é ter perdido a maior parte dos meus
amigos isso sem falar do meu marido ,
ter perdido a minha juventude enfiada dentro dessa
história e posso falar o que foi a ditadura.
Agora, falar do meu cotidiano de militância
na luta armada, eu vou estar passando por cima
de um monte de coisas. Teve um monte de gente
que morreu na tortura para não contar o
que hoje algumas pessoas contam como galhofa.
Eu acho que isso acontece também porque
o Brasil não resolveu se debruçar
sobre sua a história.
Direito & Avesso
O Brasil não costuma se debruçar
sobre sua história; a ditadura não
seria mais uma repetição disso?
Suzana Isso aí é uma
característica deste país. Veja
o que foi feito com os arquivos da escravidão
e veja o que foi feito aqui: o Amaral de Souza
[governou o RS de 1979 a 1983] botou fogo nos
arquivos aqui no Rio Grande do Sul. Com certeza,
cópias desses arquivos existem. E nós
devemos ir atrás disso. Eles devem estar
sendo limpos agora, mais uma vez. Porque muitas
vezes já foram. O Miguel Reale Júnior
[no governo Collor] anunciou que os arquivos da
Polícia Federal estavam abertos para os
familiares. Enquanto a gente discutia como proceder,
infelizmente o Miguel Reale caiu. O ministro que
o sucedeu só foi mexer nisso entre o primeiro
e o segundo turno da campanha presidencial. Eu
deixei passar a eleição. Na época
em que ele declarou que os arquivos estavam abertos,
o presidente da comissão, Francisco Carvalho
Filho, e eu fomos recebidos pelo diretor da Polícia
Federal. Eu resolvi que o primeiro lugar a que
ia era Foz do Iguaçu, onde eu sabia que
havia arquivos intactos, e aí a Polícia
Federal disse não. O subdiretor de Inteligência
da Polícia Federal, Daniel Lorens de Azevedo,
quando tem que engolir e atender à ordem
do ministro na queda-de-braço que
houve no ministério, porque o ministro
tinha anunciado publicamente e a Polícia
Federal se insurgiu contra a ordem dele ,
me disse o seguinte: Você tinha tanto
interesse em ver os arquivos de Foz do Iguaçu,
que eu não conhecia, que eu fui lá
e arrumei ele todinho pra você. Eu
fiquei completamente arrasada, porque tive a certeza
de que eu tinha dado pista pra eles de onde poderia
haver arquivos e agora eles estavam fazendo essa
limpeza. O Romeu Tuma posa como se tivesse protegido
os arquivos do Dops de São Paulo. Isso
é mentira dele. Ele limpou os arquivos.
Ele só fez uma limpa malfeita. Só
quem entregou arquivos sob o seu poder foi o Collor.
Primeiro ele entregou os arquivos de São
Paulo, que estavam sob a guarda da Polícia
Federal, e depois entregou os do Rio de Janeiro.
Direito & Avesso
Os dois presidentes que sucederam Collor foram
perseguidos pela ditadura e Collor foi o único
que tomou uma atitude concreta de liberar os arquivos.
Como se explica isso?
Suzana Olha, a gente pressionou
o Collor e ele fez isso. Um pouco antes de começar
o processo de impeachment, a gente estava pressionando
para ele abrir o resto dos arquivos, especialmente
os do SNI. O nosso contato na época era
feito com o João Santana, que era ministro
da Administração. O João
Santana eu conheci dentro do Comitê Brasileiro
pela Anistia de São Paulo. Ele me ajudou
quando eu encontrei o corpo do Luís Eurico,
ele foi a pessoa que me arrumou um carro para
eu ir a Perus.
Direito & Avesso
Tanto o governo Fernando Henrique quanto o governo
Lula têm entre seus componentes várias
pessoas que integraram algum tipo de oposição
à ditadura militar. Por que a mudança
de postura na defesa da abertura dos arquivos
quando assumem o governo?
Suzana Eu entendo que os governos
são uma composição, mas essa
questão, ela tem que ser vista não
como uma questão partidária, mas
como uma questão de governo, de Estado,
essa decisão cabe ao presidente da República.
O Fernando Henrique só mexeu depois de
ter sido achincalhado pela presença do
Pierre Sané, secretário-geral da
Anistia Internacional, que estava em visita ao
Brasil em 1995 e declarou que o presidente tinha
dito que não ia mexer na questão
dos desaparecidos e o interpela publicamente.
Eu não sei te explicar por que esse isolamento.
Eu acho que tem a ver com a total ausência
da sociedade nessa discussão, com a ausência
do Judiciário. Por exemplo, um promotor,
lá em Guaratinguetá fez duas coisas.
Primeiro, uma ação exigindo a abertura
dos arquivos. É óbvio que os arquivos
não vão poder ser localizados todos
em Guaratinguetá, mas ele fez uma ação.
Depois tem uma outra ação para impedir
esses pagamentos da Comissão da Anistia,
porque ele considera inconstitucional, já
que o teto da Previdência é R$ 2,4
mil. São ações desse tipo
que podem vir a mostrar ao país, ao presidente,
ao governo que essas questões têm
que ter andamento. Nós nunca fomos recebidos
pelo presidente e nem ao menos ele respondeu às
cartas que a gente mandou.
Direito & Avesso
Como está a relação dos familiares
com o Nilmário Miranda [atualmente, secretário
nacional de Direitos Humanos]?
Suzana Eu não posso falar
em nome dos familiares porque nós não
somos uma organização constituída.
Os familiares estão, a maior parte deles,
assim como eu, absolutamente descontentes com
a postura do governo. Nós conhecemos o
compromisso que o Nilmário tem nesse tema
e a tentativa que ele faz de avançar. Agora,
é complicado, porque a criação
desta comissão interministerial feita pelo
presidente da República ano passado [2003],
quando ele decide não abrir os arquivos
[da Guerrilha do Araguaia], é uma coisa
triste. Até hoje a gente não tem
um relatório dessa comissão, e já
terminou o prazo. Existe hoje em dia uma situação
muito triste, apesar do isolamento dos familiares,
de disputa dentro desse tema.
Direito & Avesso
Podes explicar melhor?
Suzana A Iara [Xavier Pereira],
a Criméia [Silveira] e eu, foi a gente
que montou os processos, que olhou laudo, desmaiou
em cima das fotos de corpos torturados. A gente
que fez as exumações que tiveram
que ser feitas. E aí tem pessoas, saiu
na Carta Capital [24/11/04], que frontalmente
nos criticam, nos acusam de guardar informações;
aquele outro rapaz, sobrevivente do Araguaia,
o Zezim [Micheas Gomes de Almeida], nos acusa
de ser ditadoras. Eles nunca fizeram nada para
colaborar.
Direito & Avesso
Seria uma disputa pelo quê?
Suzana Acho que é disputa
para aparecer, mesmo. É questão
de vaidade.
Direito & Avesso
Em relação aos familiares, essa
luta para saber o que aconteceu foi assumida,
principalmente, por pais, mães, irmãos.
Muitas dessas pessoas já morreram. Qual
a perspectiva de que, daqui a alguns anos, ainda
exista alguma luta pela abertura dos arquivos?
Suzana É muito triste. Porque
eu, quando comecei a mexer nessa história
e eu vi outro dia as fotos de quando eu
encontrei o corpo do Luís Eurico ,
eu era uma mocinha. E eu vou ficar velha, caquética,
brigando. Eu acho que você passa isso pra
frente. Eu tenho certeza, por exemplo, que meu
filho, que tem 18 anos e não tem nada diretamente
ligado a essa história mas o pai
dele foi preso político e foi banido em
um seqüestro , eu duvido que, no dia
em que eu morrer, ele não assuma isso como
uma bandeira, porque ele viveu isso dentro da
casa dele. Quando era pequeninho ele brincava
de exumar formiga porque exumar era um termo que
fazia parte do cotidiano dele. A primeira vez
que ele disse, tinha uns 5 anos, que ia exumar
uma formiguinha, foi uma risada geral e, ao mesmo
tempo, eu fiquei muito arrasada em ver que meu
filho, tão pequeninho, estava vivendo essas
coisas. Depende de como você passa isso
para as novas gerações. Também
depende de que isso faça parte da história
do país.
Direito & Avesso
A teu ver, como isso está sendo passado
para essas novas gerações?
Suzana Eu acho que depende de como
a mídia trata esse assunto. Por exemplo,
nos 20 anos da Anistia teve muita divulgação.
Agora, nos 40 anos do golpe, também. Desperta
muito interesse, mas eu acho que, como isso não
faz parte da história oficial do país,
tem um reflexo difícil.
Direito & Avesso
Uma das obras sobre a ditadura que mais teve repercussão
é a do jornalista Elio Gaspari. Leste os
livros dele?
Suzana Eu discordo de muitas coisas
que ele diz e acho que usa muito pouco esses tais
arquivos que ele tem.
Por exemplo, em relação aos mortos
e desaparecidos políticos, a fonte de consulta
dele é o nosso site [www.desaparecidospoliticos.org.br].
Direito & Avesso
Vocês mantiveram contato com o Gaspari sobre
os arquivos? Ele vai abri-los para pesquisadores
ou familiares?
Suzana Eu não sei. Ele diz
que está tudo ali, mas não sei.
Eu discordo de muita coisa que ele diz, é
óbvio que eu discordo, ele nos chama de
terroristas. Eu nunca fui terrorista.
Direito & Avesso
Ele, em diversos momentos, faz uma crítica
igual aos dois lados.
Suzana É, eu discordo completamente
disso. Eu acho que ele tem um papel fundamental
para reescrever essa história. Exatamente
por ter tido uma divulgação. Eu
acho que qualquer obra escrita sobre essa época
tem um papel de contar a história. Cada
uma vai dar a visão de quem está
escrevendo. Por exemplo, ao mesmo tempo em que
ele [Gaspari] faz isso que eu não concordo,
ele coloca o [Ernesto] Geisel em seu devido lugar.
Porque o Geisel é tido como um democrata.
E enquanto ele encaminhava a abertura política,
todos os mortos oficiais de 74 a 75, todos os
que foram assassinados até a morte do [Vladimir]
Herzog são desaparecidos, todos. Enquanto
o Geisel dizia que não tinha mais combate
à subversão porque a subversão
tinha terminado, ele estava matando nos porões.
E o Gaspari faz esse favor de dizer que o Geisel
ordenou o assassinato. Isso é de um valor
imenso do ponto de vista histórico, porque
termina com aquela coisa da ditadura e de muitos
militares de que isso aconteceu nos porões.
Direito & Avesso
A velha história de dizer que foram excessos,
não uma política de Estado?
Suzana É, de que foram excessos
cometidos.
Direito & Avesso
No Chile, os militares e o governo assumiram que
o extermínio era uma política de
Estado.
Suzana É, eu morro de inveja.
Agora, se você olhar os atos públicos
que acontecem no Uruguai, na Argentina, no Chile
sobre essa questão, reúnem 10, 15,
20 mil pessoas. Aqui, a gente faz, todo 31 de
março, um ato ali no Monumento [ao Mortos
e Desaparecidos, no Parque da Harmonia, em Porto
Alegre] e reúne 30, 40, 50 pessoas, não
mais do que isso. Eu acho que isso é significativo,
o Brasil não se dispôs a sentar e
a contar sua história.
Direito & Avesso
Na tua opinião, qual a importância
da abertura desses arquivos?
Suzana Essa não é
uma questão humanitária que tenha
que ser discutida e resolvida entre os familiares
e o governo. Pra mim, é o povo brasileiro
que tem o direito de saber, de se apropriar do
que aconteceu. Até para impedir que isso
aconteça novamente.
Direito & Avesso
Essa questão é tratada como um problema
privado, das famílias?
Suzana É. O presidente do
PT [José Genoino] diversas vezes disse
isso, que é uma questão humanitária.
Pra nós, essa é uma questão
que diz respeito à sociedade.
Direito & Avesso
Não é estranho esse tipo de opinião
vir do Genoino, que foi um dos únicos a
sair vivo do massacre do Araguaia?
Suzana Pois é... e que tem
uma posição contrária à
investigação dos crimes também.
Eu acho que ainda vai demorar até que o
Brasil se conscientize de que esses crimes não
podem ficar impunes.
Direito & Avesso
Tu achas que o país caminha para essa conscientização?
Suzana Eu acho que cada dia a gente
consegue mais um espaço, que cada dia outras
pessoas ficam se apropriando e tomando conhecimento
desses fatos, mas eu acho que falta muito ainda.
Direito & Avesso
Há um papel que as escolas estejam cumprindo
ou deixando de cumprir?
Suzana Isso não faz parte
da história oficial. Essa história
não é contada. Quem é que,
no primeiro e no segundo grau, e mesmo na universidade,
tem acesso a essas informações?
Alguns professores têm consciência
desse fato e trabalham pra isso.
Direito & Avesso
Depende da vontade individual?
Suzana Sim. Existem locais em que
isso está avançado. Mas avançaria
de uma forma muito mais efetiva se houvesse uma
disposição do Estado brasileiro
em contar essa história, assim como no
Chile, por exemplo, onde eu duvido que tenha alguém
que não saiba o que aconteceu. Existe uma
expectativa do que vai acontecer no Uruguai [com
a eleição de Tabaré Vasquez].
Entre os familiares sempre tudo é difícil.
Na Argentina há muitas divisões.
A Linha Fundadora das Madres da Praça de
Maio não aceita indenização,
diz que isso é vender o sangue dos familiares;
não aceita a busca de corpos.
Direito & Avesso
Por quê?
Suzana Elas continuam, tantos anos
depois, com esta mesma consigna: con vida nos
llevaron, con vida los queremos. Elas não
assumem o assassinato. E é uma posição
definida. Para mim, a indenização
e o resgate dos corpos não são um
ponto final nessa históra, fazem parte
do resgate. Durante anos, a gente ficou denunciando
os crimes da ditadura e hoje a gente convive com
os crimes da democracia, que são torturar
diariamente os familiares com essas dúvidas
e com esse assunto; é, de certa forma,
ser conivente com os desaparecimentos, porque
o desaparecimento político é um
crime continuado. Na medida em que o governo não
toma uma posição, ele está
sendo conivente com isso.
Direito & Avesso
Como é que tu desenvolves essa idéia
de crimes da democracia?
Suzana (risos) Eu não desenvolvo,
eu não sou advogada. Eu acho que isso é
um crime. O desaparecimento é um crime
continuado. A tortura é um crime imprescritível.
Não punir, não investigar o que
foi feito em nome do Estado é um acalento
à impunidade dos crimes que são
cometidos hoje. Como é que você vai
se posicionar contra a tortura que acontece ainda
nas delegacias, nos presídios e em outros
organismos estatais do país se tu não
punires os crimes? A tortura daquela época
é que inspira os crimes cometidos hoje.
Isso pra mim são os crimes da democracia.
Direito & Avesso As torturas sempre
existiram nas cadeias brasileiras. Isso foi, digamos,
aperfeiçoado durante a ditadura. Tu poderias
falar sobre como o que aconteceu no regime militar
se reflete atualmente na polícia brasileira?
Suzana Hoje em dia a gente tem os desaparecidos
comuns. Quantos acusados de terem praticado os
crimes hoje são desaparecidos? Uma montanha.
As Mães de Acari, por exemplo. Existem
diversos movimentos nesse sentido.
Direito & Avesso
Vocês tentam fazer uma ponte entre esses
movimentos?
Suzana Alguns movimentos fazem,
sim. No Rio, o pessoal faz. Em alguns lugares
onde eles são mais concretos, em São
Paulo também.
Direito & Avesso
Durante a ditadura, pensava-se são
terroristas, têm que morrer. Atualmente,
pensa-se que, se é ladrão, assassino,
tem que morrer...
Suzana É, é isso.
Acho que esse é um dos crimes da democracia,
de permitir que os crimes daquela época
inspirem os crimes hoje.
Direito & Avesso
Há conivência da sociedade?
Suzana Claro que sim. Quanta gente
defende a pena de morte? Quanta gente fala, ainda
hoje, que tem saudade da ditadura? Até
porque não conheceu os crimes que foram
cometidos, até porque viveu o milagre
brasileiro daquela época. Sem se
dar conta de que tudo o que a gente vive hoje
é conseqüência do que se vivia
naquela época. Liberdade se conseguiu,
mas continuamos lutando por justiça social,
por distribuição de renda, que era
o que inspirava as organizações
de luta contra a ditadura. Nós conquistamos
a liberdade, conquistamos a democracia, com muito
custo, com o custo de muitas vidas.
Direito & Avesso
Mas aquela realidade que se queria transformar
na época continua a mesma...
Suzana Continua aqui, continua.
Livros
sobre o tema
Brasil:
nunca mais. Coord. dom Paulo Evaristo Arns,
ed. Paz e Terra. Um resumo do projeto que reuniu
o maior número de informações
sobre desrespeito aos direitos humanos na ditadura.
Todos as informações têm por
base os documentos oficiais, relatos dos presos
nos inquéritos policiais militares.
Combate nas trevas,
de Jacob Gorender, ed. Ática. Uma visão
geral das organizações de esquerda
que combateram a ditadura.
Dos filhos deste solo,
de Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio,
ed. Boitempo e Fundação Perseu Abramo.
Os casos de mortos e desaparecidos investigados
pela Comissão Especial.
A ditadura envergonhada;
A ditadura escancarada; A ditadura derrotada;
A ditadura encurralada, de Elio Gaspari, ed. Companhia
das Letras. A ditadura desde o golpe até
o final do governo Geisel.
Autópsia do medo,
de Percival de Souza, ed. Globo. Sobre Sérgio
Paranhos Fleury, delegado que virou sinônimo
de tortura. Mostra como se formou o aparato repressivo
brasileiro.
Frases:
Só
vos peço uma coisa: se sobreviverdes
a esta época,
não vos esqueçais! Não
vos esqueçais nem dos bons nem dos
maus. Juntai com paciência as testemunhas
daqueles que
tombaram por eles e por vós. Um belo
dia, hoje será o
passado, e falarão numa grande época
e nos heróis anônimos
que criaram a história.
Gostaria que todo mundo
soubesse que não há heróis
anônimos. Eles eram
pessoas, e tinham nomes,
tinham rostos, desejos e
esperanças, e a dor do último
de entre os últimos não era
menor do que a dor do primeiro, cujo nome
há de ficar.
Testamento sob a forca,
de Julius Fucik, jornalista comunista tcheco
preso, torturado e executado pelos nazistas
em setembro de 1943
|
|
Os povos que não
podem ou não querem se confrontar
com seu passado histórico estão
condenados a repeti-lo.
Dom Paulo Evaristo Arns
|
Relativizando
o injustificável
por Nei
Lisboa
Quando eu era
guri e escutava falarem sobre a Segunda Guerra,
tomava aquilo por coisa das mais antigas, sem
compreender que constrangimento ainda pudesse
causar. Na verdade, escapara por reles década
e meia de ser contemporâneo do Holocausto,
mas essa percepção mais ampla, histórica,
do tempo só o decorrer dele próprio
e a sua crescente escassez proporciona.
Assim, hoje, ao pensar no golpe de 64, custo a
crer que já se vão quarenta anos,
tão mais próximo parece. E, por
outro lado, suspeito que a gurizada de agora o
situe entre o Império Romano e o período
neolítico.
Afinal, que interesse genuíno, orgânico,
nesse assunto podem encontrar os nascidos com
a queda do muro de Berlim? Que implicações
ele tem em sua vida presente, que contas teriam
a ajustar com a juventude de seus avós?
É justo supor que, afora os que se encaminham
para um estudo acadêmico (e arqueológico)
da história recente do país, os
demais avistem no impeachment do Collor o limite
suportável de investigação
sobre o passado e o marco fundador republicano
no Brasil. Para mais além, apenas um emaranhado
nebuloso de planos cruzados, Diretas Já
e generais em série impresso nos livros
escolares. Que bom se eu estiver errado. Caso
contrário, cabe perguntar a quem de fato
pertence esse desinteresse.
De muitas maneiras o golpe de 64 é uma
ruptura ainda reluzente na vida brasileira. Como
prólogo do longo espetáculo da ditadura,
a partir dele se motivam e se estruturam profundamente
mazelas nacionais sempre apontadas com repugnância,
da violência urbana à subserviência
cultural, da desigualdade econômica à
corrupção política. Que se
assista, não raro, na voz de hoje enfáticos
paladinos da ética, a defesa de teses ponderadas
sobre o período, relativizando o injustificável,
é dizer também da matéria
básica sobre a qual se assentou o golpe
e toda a ditadura militar, e da capacidade humana
de suprimir a realidade e reinventar o passado
de forma lenta, segura e gradual, a seu bel-pavor.
Castello Branco era um homem refinado e envergonhado
de sua posição, nos ensina hoje
Elio Gaspari. Imagino que também reivindique
tais atributos para si próprio, tal como
poderia fazê-lo um torturador com um alicate
na mão poucos anos adiante no caminho aberto
por Castello. Que, obviamente, não inventou
o golpe sozinho num dia de pescaria. Mas, a partir
de dado momento da história, quando se
torna flagrante que nos havíamos tornado
uma nação policiada por psicóticos,
já não se avistam vestígios
de nenhum pai da criança. Fica a impressão
de que toda a sociedade brasileira, refinada e
envergonhada, passa a exigir (corajosamente?)
que o monstro seja encerrado e que não
se fale mais no assunto. A se crer nas idas e
vindas do tempo e nos esqueletos do Holocausto
que ainda hoje despencam do armário, convém
refinar uma reflexão para não se
envergonhar ainda mais. Para o caso, digamos,
de que a vitória da esperança sobre
o medo tenha um prazo de validade a expirar, e
de que os nossos netos passem a se perguntar,
afinal de contas, de onde é que tanto medo
vem.
* Músico,
compositor e escritor; artigo originalmente publicado
no jornal Extraclasse, do Sindicato dos Professores
do Ensino Privado do Rio Grande do Sul (Sinpro)
Sindicato
dos Trabalhadores do Judiciário Federal
/ RS
Filiado à CUT e à Fenajufe
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Edição: Rosane Vargas
Redação: Marcelo Antunes e Rosane
Vargas
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