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Final de ano
Neste
período do ano, é natural realizarmos um balanço. Em 2003,
outra vez enfrentamos a necessidade de entrar em greve. Lutamos por direitos e
pela garantia da boa prestação do serviço público.
Se o resultado que pretendíamos (a retirada da proposta de reforma da Previdência)
não foi alcançado, temos a consciência limpa dos que lutam.
No Judiciário Federal, final de ano, antes de ser um período de
expectativas de festas e de férias, é um momento de estresse coletivo.
O assoberbamento de trabalho é visível nas varas e nos tribunais.
Os volumes de processos multiplicam-se pelos setores e o cansaço físico
e psicológico torna a execução de tarefas uma atividade penosa.
As más condições, devido ao grande volume de trabalho, acrescidas
da pressão externa, das cobranças e das relações internas
conflituosas fazem desta época do ano um castigo para os trabalhadores
do Judiciário. A solução desastrosa de final do exercício
nada mais é do que uma majoração dos problemas enfrentados
no dia-a-dia. A troca de mobiliário e as reformas em alguns setores ajudou,
mas não compensou a defasagem de servidores, comum na maioria dos setores.
Entre as dificuldades encontradas no Judiciário Federal estão o
pouco espaço, a falta de acesso, o autoritarismo e o número cada
vez maior de processos para um quadro cada vez menor de servidores. Diante dessa
situação, este é o melhor momento para refletir e mobilizar,
denunciando os problemas e unindo forças junto ao sindicato para construir
um melhor ambiente de trabalho. Nesta edição, apesar da pouca
disposição das pessoas em falar sobre os problemas (por receio ou
pelo excesso de trabalho), conseguimos reunir alguns subsídios para a reflexão.
A pesquisa da saúde, realizada em 2002, aqui apresenta mais conclusões.
O assédio moral, já abordado em edições anteriores,
também é discutido, como parte dos problemas relacionados às
condições de trabalho. Além disso, a enorme quantia de processos
combinada com a falta de servidores ilustra, como um espelho, a realidade vivida
nas Varas e setores do Judiciário Federal. Enfim, são elementos
para a avaliação de nossas relações de trabalho e
para traçar ações para o próximo período.
D&A
Entrevista: Herval Pina Ribeiro
A
violência no trabalho Por Rosane
Vargas O médico
Herval Pina Ribeiro desde 1969 estuda as doenças a que estão sujeitas
as pessoas no trabalho e é um dos fundadores do Departamento Intersindical
de Estudos e Pesquisas em Saúde e dos Ambientes do Trabalho (Diesat). Atualmente,
é diretor do Hospital Dr. Arthur Ribeiro de Saboya, do município
de São Paulo. Publicou, entre outros, os livros De que adoecem e morrem
os trabalhadores, Insalubridade: a morte lenta no trabalho, LER: conhecimentos
práticos e conhecimentos sociais, A violência oculta do trabalho. Direito
& Avesso - O senhor considera as LER uma doença emblemática
de transição que revela o mal-estar global do capitalismo contemporâneo.
O senhor pode explicar essa idéia? Herval Pina Ribeiro Um
fato é emblemático, como no caso das LER, quando seu significado
extrapola sua simples ocorrência. As LER, um adoecimento coletivo e contemporâneo
do trabalho, assinalam a transição entre o modo anterior de adoecimento
do trabalho, caracterizado por doenças e acidentes tipose havidos
como resultado de causas determinadas, objetivas, lineares e, portanto, positivas,
para o modo atual, no qual a causalidade é mais complexa, não linear,
mais difícil de demonstrar e de ser aceita pela medicina, pelo direito
e pela sociedade, que se assentam no cientificismo positivista do século
XIX. As LER são uma doença de transição porque sua
causa pode ainda ser inferida como resultado do esforço repetitivo, presente
em muitas situações. Emblematicamente, mas não por acaso,
elas coincidem com a reestruturação produtiva e do trabalho, seguindo
os rastros da globalização, ou seja, da incorporação
e da expropriação das inovações tecnológicas
pelo capital que alicerçaram as novas formas de racionalização
da produção e do trabalho; por isso, elas apareceram primeiro no
Japão, expandiram-se aos países industrializados da Europa, à
Austrália, aos Estados Unidos e, mais recentemente, ganharam os paises
de industrialização periférica, como o Brasil. Presentes
em todas as atividades econômicas e categorias de trabalhadores, com uma
prevalência entre 5% a 30%, essa universalidade e concomitância sugerem
que as LER são uma doença coletiva que sedomiciliou
no cotidiano do trabalho e dos trabalhadores, causada por uma profunda perturbação
do meio social. Direito
& Avesso - A violência no trabalho é um reflexo da sociedade
capitalista? Herval Violência,
entre outros significados, é constrangimento, indução ou
condução para que outro faça o que se quer por coação,
necessidade, convencimento ou ignorância. Os meios, as formas e os níveis
de violência e suas conseqüências dizem respeito ao exercício
do poder. Nas sociedades de classes, o exercício do poder diz respeito
às relações que se estabelecem entre elas, variando no tempo,
no espaço e segundo as circunstâncias. A violência nas sociedades
de classes, portanto, é sistêmica, havendo se universalizado na sociedade
capitalista industrial. O adoecer e o morrer diferenciados das classes sociais
no capitalismo são a expressão dessa violência e de sua universalização.
A classe trabalhadora não somente morre mais cedo como é a principal
vítima de doenças e acidentes do trabalho tipos
formas explícitas de violência e, também, de doenças
de trabalho mais sutis, como as LER, a depressão, a úlcera gástrica,
a hipertensão e o infarto do miocárdio, oficialmente não
catalogadas como doenças de trabalho. Direito
& Avesso - No serviço público, são reproduzidas as relações
existentes nas empresas, caracterizadas pelo controle do trabalho. Por que isso
acontece, se o Estado não tem o lucro como fim? Herval
As empresas privadas ou estatais precisam ter o controle de produção
e do trabalho porque precisam de produtividade e competitividades, bases do lucro.
Não é o caso das organizações sociais do Estado, como
escolas, hospitais e postos de saúde, quartéis, presídios
e delegacias de polícia, tribunais e fóruns, que não perseguem
produtividade e onde a competição deve estar ausente. São
serviços públicos essenciais que representam 80% a 90% das atividades
administradas diretamente pelo Estado. Como toda organização, tenha
caráter de empresa, tenha objetivos puramente sociais, haverá sempre
a necessidade de uma hierarquia de poder, o que pressupõe gerência,
subordinação e controle do trabalho. A questão não
está aí, no exercício da autoridade socialmente outorgada
para que os seus objetivos se cumpram, mas na extrapolação dos limites
toleráveis, quando a autoridade se perverte em autoritarismo, tornando-se
patológica. É comum que essa perversão nas organizações
sociais do Estado se desloque, a vítima acabando por ser o cidadão
comum que busca os serviços públicos. Isso é violência.
Direito
& Avesso - O senhor pode citar alguns exemplos de violência no trabalho
no serviço público? Herval
Dois exemplos no âmbito do Poder Judiciário: por que os juízes
são investidos de poderes administrativos que nada têm com a atribuição
precípua de julgar? Por que os técnicos-burocratas do tribunal têm
mais poder que os próprios juízes? Exemplo mais genérico:
por que os servidores públicos, mesmo os de nível hierárquico
inferior, coagem os cidadãos que buscam os serviços públicos
a que têm direito? Por que o Estado apela para empresas de segurança
privada para guardar o espaço público? Para proteger o que e a quem?
Direito
& Avesso - Há maneiras de evitar ou, ao menos, de minimizar esse quadro?
Herval Sabemos não haver fórmulas
mágicas para resolver problemas complexos como este, mas é possível
apontar algumas diretrizes. A democracia brasileira não pode parar no atual
modelo de representação cameral (Congresso Nacional, assembléias
legislativas e estados, câmaras municipais de vereadores); nem mesmo nos
conselhos gestores, como no caso de Sistema Único de Saúde, que
é um grande avanço para o controle do Estado pela sociedade. Fala-se
em controle externo do Poder Judiciário e os corporativistas de sempre
e há muitos dentro deste Judiciário se arrepiam, tentando
passar a idéia de que se quer castrar a autoridade e a autonomia dos juízes.
Não se trata disso, mas de garantir, de antemão, os direitos de
cidadania dos trabalhadores do rez das empresas e que acabam violentando os cidadãos
comuns que batem às portas dos serviços públicos, do Judiciário
inclusive. A saúde
do trabalhador do judiciário
por
Clarice Camargo* e Rogério Dornelles** No
final do ano passado, o Direito & Avesso publicou uma análise preliminar
da pesquisa sobre a saúde do trabalhador no Judiciário Federal.
Naquele momento fez-se um apanhado geral do resultado da pesquisa, no qual se
constatou que o trabalhador do Poder Judiciário Federal estava adoecendo
e que muito tinha a se fazer para alterar essa situação. Inicialmente,
antes mesmo da aplicação da pesquisa, avaliávamos que existiam
dois grupos de doenças relacionadas ao trabalho que mais atingiam os trabalhadores:
as Doenças Osteomusculares e do Tecido Conjuntivo e os Transtornos Mentais
e Comportamentais. Durante o decorrer deste ano, avançamos na investigação
dos resultados da pesquisa e constatamos que realmente esses dois grupos são
os mais freqüentes. A pesquisa abordou diversos aspectos sobre perfil
sociodemográfico e de condições de trabalho dos trabalhadores
no Judiciário Federal. As perguntas entre 89 e 101 envolviam questões
que poderiam estar relacionadas com os transtornos mentais e comportamentais.
As situadas entre 102 e 116 relacionavam questões sobre doenças
osteomusculares e do tecido conjuntivo. A partir da análise desses dados
buscamos os que poderiam contribuir mais efetivamente para a incidência
dessas patologias na categoria. Os trabalhadores que apresentaram algum sintoma
relacionado às doenças osteomusculares e do tecido conjuntivo e
que buscaram atendimento médico representam 43,24% dos que responderam
à pesquisa. Os que apresentam sintomas relacionados aos transtornos mentais
e comportamentais representam 26,73%. Nesta edição, iremos analisar
os dados que, interpretados ora isoladamente, ora em conjunto, podem levar aos
sintomas relacionados às doenças osteomusculares e do tecido conjuntivo.
Pesquisa Dados relevantes As respostas da pesquisa referentes
a idade e sexo confirmam o encontrado na literatura médica sobre doenças
osteomusculares, em que 18,75% da população de 18 a 20 anos procurou
atendimento médico por sintomas dessas patologias contra 81,25% da população
de 60 a 69 anos. Na questão gênero, a procura estabelecida é
de 50,57% do sexo feminino para 34,01% do masculino. Quanto à escolaridade
observa-se um nível na média de 53% naqueles que têm até
o 2º grau completo; para o nível superior completo ou incompleto o
índice gira em torno de 41%. Quanto aos servidores com pós-graduação,
mestrado ou doutorado, o índice é 48,45%. Assim, a pesquisa constata
que, quanto menor a escolaridade, maior a possibilidade de doenças osteomusculares.
A explicação para esse achado necessitará novos cruzamentos,
pois será necessário discutir o tipo de atividade, a idade e os
fatores emocionais. A análise subjetiva indicaria de antemão que,
quanto menor a escolaridade, mais esforço físico. Por outro lado,
isso não explicaria o aumento significativo na população
com estudos além do nível superior. Portanto, ainda não podemos
ser conclusivos nessa questão. O tempo de trabalho também apresenta
relação direta com a presença de queixas osteomusculares,
evoluindo de 35,31% na população de até cinco anos de atividade
no Judiciário a 59,38% na de 20 a 25 anos. Esse item também requer
um novo cruzamento para definirmos a importância da idade neste achado.
O cargo de auxiliar possui uma incidência de 52,43%; nos de técnico
e analista a incidência, varia de 42% a 44%, respectivamente. Neste caso,
o tipo de atividade parece ter uma relação direta com o achado.
Quanto às perguntas relacionadas à qualidade de vida, as respostas
não apresentaram discordâncias com o já escrito a respeito.
A única observação a ser feita é que os índices
não apresentam variações extremas, o que era de se esperar,
tendo em vista a importância que é dada ao estilo de vida na gênese
das doenças osteomusculares. As horas de sono indicam que existe maior
incidência de sintomas nos que dormem menos. Nos que dormem cinco horas
ou menos, a incidência é em média 48,68%. Naqueles que em
que o período de sono varia de seis a sete horas, a incidência foi
em média de 43,19%. Em quem dorme mais de sete horas a incidência
foi de 40,38%. Quando questionados sobre a percepção de dormir ou
não o suficiente, a incidência foi maior entre aqueles sentiam não
dormir o suficiente, no índice de 46,92% a 40,78% para aqueles que sentiam
dormir o suficiente. Quanto ao fato de estar estudando, é bastante
significativo o percentual de doenças osteomusculares em quem não
está estudando e/ou fazendo curso não regular em relação
àqueles que estão em cursos regulares. Em média, o percentual
foi de 34% em quem está estudando contra 46% para quem não está.
A prática de atividade física é significativa na incidência
quando realizada mais de duas vezes por semana, apresentando-se desta forma nas
respostas: 47,57% dos que praticam uma vez por semana apresentam queixas de doenças
osteomusculares, 45,41% duas vezes e 42,45% três vezes. Quando não
é pesquisado o número de dias, não existe diferença
significativa entre os que praticam esportes e os que não praticam.
Quanto ao lazer, o tempo dedicado a essa atividade possui influência direta
na incidência de sintomas. Quem dedica de uma a quatro horas ao lazer por
semana apresenta em média um índice de 45%, contra um índice
médio de 41% dos que dedicam mais de quatro horas. O aumento de carga
de trabalho nos anos de 1998 a 2001 teve influência na incidência
de sintomas de doenças osteomusculares. Ao responder sobre aumento da jornada,
45,93% dos que tiveram aumento da jornada apresentaram sintomas, contra 38,68%,
dos que não tiveram aumento. Também, o número de horas e
a quantidade de dias na semana apresentaram relação direta com a
incidência de procura a atendimento de saúde. Quem aumentou a jornada
de menos de uma até uma hora diária, em média, apresentou
38,6% de queixas. Os que trabalharam mais de uma hora por dia apresentaram em
média 47,4% de sintomas. Na quantidade de dias, a variação
foi de 39,29% dos que trabalhavam uma vez por semana a 47,57% dos que trabalhavam
cinco vezes por semana. Quando questionados sobre a quantidade de trabalho, observou-se
que os que tiveram aumento apresentaram um índice de 44,74% com sintomas
relacionados a doenças osteomusculares, contra 40,46% dos que não
tiveram. Relativamente à produtividade, mostrou-se não relevante
para o surgimento dos sintomas o fato de ter o estabelecimento de metas ou considerá-las
importante, assim como a cobrança contínua para não cometimento
de erros. No entanto, o sentimento com relação a atingir ou
não uma meta aumenta a incidência, conforme se vê nos seguintes
índices: muito preocupado: 46,69%; um pouco preocupado: 42,83% e nada preocupado:
34,88%. Neste ponto, deve-se considerar que, quando perguntadas sobre a cobrança
contínua para aumentar a produtividade e para que a meta seja atingida,
mesmo as pessoas que disseram não ter meta (pergunta 29) a ser cumprida
responderam a essas duas questões, indicando uma tendência, ou seja,
de que (a) a cobrança contínua para aumentar a produtividade ou
para (b) atingir uma determinada meta aumenta a incidência de doenças
osteomusculares. No item relacionamento no trabalho as respostas indicam ser
este um fator importante na gênese das doenças osteomusculares. Nos
locais onde há maior satisfação com a colaboração
dos colegas é menor a incidência de sintomas (gráfico 1),
bem como nos ambientes onde existe menor competição (gráfico
2). A relação das chefias com seus subordinados influencia
diretamente na incidência de doenças osteomusculares. Tal dado aparece
na resposta à questão 42, na qual é perguntado se o chefe
exerce corretamente a função de chefia e as respostas são
as seguintes: sempre: 39,07%; quase sempre: 45,43%; às vezes: 49,45%; e
nunca: 48,81%, mostrando índices inversamente proporcionais, ou seja, quanto
melhor a avaliação, menor a incidência de sintomas. As
questões atinentes à interação de chefias versus subordinados
evidenciam que quando o chefe procura a colaboração, explica as
razões para suas ordens, respeitando seus subordinados, orientando e ajudando
na execução das tarefas e reconhecendo os resultados atingidos,
é menor a incidência dos sintomas de doenças osteomusculares.
O recebimento ou não de treinamento para realizar as tarefas não
é fator relevante para a incidência dos sintomas. Porém, quando
se busca saber quem forneceu o treinamento descobre-se que a menor incidência
ocorre nos que foram treinados em cursos oferecidos pela administração
(32,69%). Os que não foram treinados ou o foram apenas por um método
tiveram um índice médio de incidência de 46,6%. Os que foram
treinados por várias fontes levam ao índice médio de 52%
para os sintomas osteomusculares. Isso pode ser um indicativo da necessidade de
fazerem-se treinamentos regulares e uniformes. No item satisfação,
os que estão mais satisfeitos por trabalhar no Judiciário e com
o seu desempenho no trabalho apresentam um índice menor de doenças
osteomusculares. Sobre quais coisas mais motivam a trabalhar no Judiciário,
os que responderam dificuldade de encontrar um emprego melhor, valorização
social, o salário e a estabilidade têm uma incidência maior
para o aparecimento de sintomas (gráfico 3). Sobre quais as coisas
que menos motivam a trabalhar no Judiciário, os que responderam o relacionamento
com chefes e colegas, as suas atividades/tarefas, o ambiente físico e a
falta de possibilidade de crescimento têm uma incidência maior para
o aparecimento dos sintomas (gráfico 4). Observamos que todas as perguntas
referentes a monotonia e repetitividade apontam ser importantes a monotonia, a
repetitividade e o esforço físico como causadores de maior incidência
de sintomas. Os que realizam sempre a mesma tarefa têm uma incidência
de 45,82% de sintomas de doenças osteomusculares contra 40,32% dos que
não realizam. Aqueles que realizam o mesmo movimento ficam em posição
estática ou fazem esforço físico sempre apresentam uma incidência
mais elevada de sintomas osteomusculares Quanto aos fatores ambientais, o
questionário também mostrou uma incidência mais elevada de
sintomas osteomusculares naqueles que estão expostos a ruídos, calor,
frio, luminosidade desconfortáveis em seu ambiente de trabalho. Da
mesma forma, quem está exposto à umidade em seu local de trabalho,
utiliza móveis desconfortáveis e está sujeito a posturas
não fisiológicas também apresentam uma maior incidência
de sintomas de doenças osteomusculares. *
Diretora do Sintrajufe ** Médico do trabalho, assessor do Sintrajufe No
limite
Adoecimento, falta
de pessoal e receio de reclamar: assim é o dia-a-dia de trabalho de muitos
servidores da Justiça Federal por
Marcelo Antunes A falta de pessoal,
o excesso de trabalho e as atividades realizadas por meio de movimentos repetitivos
continuam sendo as principais reclamações (e causas de adoecimento)
dos trabalhadores da Justiça Federal. Atrelado a isso existe o receio de
represálias por parte das chefias caso as denúncias se tornem públicas,
ou seja, que venham acompanhadas do nome e do setor em que trabalha o servidor
denunciante. Dos vários contatos realizados pelo Direito & Avesso para
esta matéria, diversos servidores não retornaram a ligação
com medo de ter seus nomes publicados. Ainda que sejam escritas apenas as iniciais
ou mesmo um nome fictício, ao relatar o tipo de trabalho realizado e as
condições a que se encontram esses servidores fica fácil,
segundo o senso comum que impera junto à categoria, descobrir o autor da
reclamação. De qualquer forma, alguns colegas concordaram em falar
com o D&A para denunciar o descaso a que estão submetidos no dia-a-dia.
Um deles é Luiz Comoretto, do 2º Juizado Especial Previdenciário.
Há 16 anos trabalhando no serviço público, Luiz afirma que
a área em que atua já foi exemplo de eficiência e atendimento.
De quatro anos para cá, desde a criação dos Juizados
Especiais, a situação tem piorado. Há muito serviço
para ser realizado e não temos pessoal suficiente para atender a toda a
demanda apresentada, explica. Segundo ele, o resultado disso é o
alto estresse verificado em alguns colegas. Pela experiência acumulada em
década e meia de atividade profissional na Justiça Federal, Comoretto
acredita que seria necessário um incremento de pelo menos 50% no quadro
de funcionários, que hoje conta com 12 pessoas (incluindo a direção),
além dos quatro estagiários que atualmente dão expediente
no juizado. Apesar das reclamações que já fizemos junto
à direção, não se comenta nada sobre a contratação
de novos servidores. Além disso, o público que vem até aqui
acaba nos culpando, achando que somos os verdadeiros responsáveis pela
demora nos trâmites dos processos. Eles não sabem que o problema
é mais em cima, que o problema é a má administração
tanto no INSS quanto no governo federal, relata. O acúmulo de
trabalho, assim como o fato de servirem e atuarem como uma espécie de pára-choques
entre aposentados e governo, acredita Luiz, são as principais causas do
estresse que levou, inclusive, a um funcionário iniciar acompanhamentos
médico e psicológico. O problema é que não há
perspectiva. A solução, no momento, é ir levando. E pensar
que já fomos uma das melhores Varas de Porto Alegre, diz. Se
o excesso de trabalho ou a falta de pessoal não são os principais
problemas enfrentados por Denise Nácul, atualmente lotada na 5ª Turma
do TRF, o esforço repetitivo no dia-a-dia e a falta de atitudes preventivas
são o grande vilão e o causador da uma tendinite diagnosticada por
ela há dois anos. Tendo ingressado no serviço público em
1995, na Contadoria, sua rotina diária consistia no manuseio de processos
e na realização de cálculos. Em 2001, já ocupando
função na Secretaria de Recursos e Informações Processuais
(Srip), começaram as crises de fortes dores no pulso e nos dedos da mão
direita. O passo seguinte foram as dores no mesmo braço, o que a levou
a ficar afastada por licença médica por um período de 90
dias. Diagnosticado o problema, o médico somente autorizou seu retorno
ao trabalho desde que fosse realizada a troca de setor no caso, a 5ª
Turma. Hoje não tenho mais crises, mas sim dores eventuais. Nunca
mais recuperei a força do braço, explica. Denise acredita
que não teria tais dificuldades caso houvesse algumas ações
no sentido de minimizar o ritmo do trabalho. O importante é não
deixar o caso se agravar, tornar-se crônico. Mas é preciso estipular
intervalos e diversificação nesse tipo de função,
além de ginástica laboral. Também é necessário
que haja compreensão das pessoas, diz. Denise ressalva, porém,
que muitas vezes as chefias até entendem a situação, ao contrário
dos colegas. Eles acham que você está se deitando nas cordas
ou que possui um ritmo lento, explica. Pressão e submissão
Ao mesmo tempo em que o número de servidores é insuficiente para
atender a toda a demanda do trabalho diário e que é notória
a pressão das chefias para que ele seja realizado o mais rápido
possível, por outro lado existe a submissão dos servidores a todas
essas questões. Quem lembra esse cenário é Luis Rafael Ribeiro,
servidor da 9ª Vara e diretor do Sintrajufe. Muitos colegas se submetem
a esse tipo de tratamento, pois têm receio de ficar com a imagem de que
só reclamam. Também há o fato da ascensão profissional.
As pessoas temem que, a partir do momento em que se negarem a trabalhar dessa
forma, isso se torne motivo para que não consigam uma futura promoção.
Elas preferem sofrer, mas garantir uma função melhor mais adiante
e não ficarem marcadas, explica. Outro ponto destacado por Rafael
é o fato de que o serviço realizado por um servidor muitas vezes
depende daquele finalizado por outro colega. Como a demora, independentemente
do motivo, acaba trancando todo o processo, isso melindra muita gente, relata.
Rafael destaca que a rotina a que estão sendo submetidos os servidores
da Justiça Federal é inviável. As pessoas trabalham
mal, algumas nem tanto, mas no fim todos acabam explodindo. Conheço casos
de colegas que estão com alta carga de estresse causada pela pressão
cotidiana. Essas pessoas não reclamam junto às chefias e sim aos
colegas mais próximos e depois descarregam na própria família,
afirma. Para Rafael, é indiscutível que a Justiça Federal
precisa urgentemente de mais pessoal, mas também, além de se diversificar
as tarefas, é preciso que todos se conscientizem de que reivindicar é
um direito e reclamar é uma necessidade. Busca de soluções
Diversificação no trabalho, rodízio e divisão igualitária
das tarefas a serem realizadas foram as maneiras encontradas pelos colegas do
Setor de Taquigrafia para minimizar os problemas decorrentes da própria
função e da falta de pessoal. Luciana Saraiva, atual diretora da
área, explica que, a partir de 2001, momento em que o grupo se organizou
internamente e todos passaram a agir como um coletivo e se ajudar mutuamente,
a rotina do setor passou a ser menos onerosa. Como nós temos falta
de servidores que atuem na revisão das transcrições, todos
fazem de tudo e há rodízio nas funções, explica.
Um dos exemplos citados por Luciana é o da turma que trabalha quando as
sessões se estendem após as 19h. Aqueles que ficaram trabalhando
durante o plantão não fazem sozinhos a transcrição
no dia seguinte, pois não é justo, afirma. Outro ponto
positivo que ajudou a humanizar as tarefas da equipe da taquigrafia foi, a partir
de uma reivindicação do grupo atendida pela administração
do tribunal, a instalação de softwares de som digital nos computadores.
O novo sistema de áudio permitiu àqueles que trabalhavam na revisão
das transcrições deixar de realizá-las por meio dos obsoletos
gravadores com teclados duros, o que acabava, com o tempo, criando calosidades
nas mãos. Mas nem sempre foi assim. Luciana ingressou no serviço
público em 1995 e, após três anos como taquígrafa,
sentiu que estava perdendo o tato e a força nos dedos, o que a levou a
tirar a sua primeira licença médica. Dois anos depois, um novo laudo
constatou lesões por esforço repetitivo e a proibiu de exercer a
função. Se as condições de trabalho na Taquigrafia
na época fossem as mesmas de hoje, ela certamente não teria tido
os problemas que teve e que irão acompanhá-la pelo resto da sua
vida. Precariedade
nas condições de trabalho gera a criação da Comissão
de Saúde no TRT
por
Rosane Vargas A gestão
do TRT que está se encerrando teve dois pontos importantes relacionados
à saúde dos servidores: a criação da Comissão
de Saúde e a redução da jornada. Segundo o corregedor-geral
do tribunal, juiz Mário Chaves, as condições devem melhorar
em 2004, pois houve um incremento da verba de custeio (o TST destinou ao TRT da
4ª Região o segundo maior volume de verbas, atrás apenas do
RJ). Segundo o corregedor-geral, a comissão foi uma preocupação
que o tribunal passou a ter a partir da provocação do sindicato,
que nos remeteu muitos documentos, pleitos relacionados com dificuldades reveladas
concretamente por servidores. O trabalho, afirma o juiz Mário
Chaves, deve continuar com o novo corregedor, juiz Pedro Serafini, seguindo o
objetivo de detectar problemas e propor soluções. Ele cita ações
já destinadas a um estudo piloto das varas de São Leopoldo, em parceira
com a Ufrgs, sobre ergonomia. O juiz diz que, pelo que foi possível apurar
até agora, as principais queixas que envolvem servidores e alguns juízes
são de LER/Dort. Ele também afirma que a carga horária
também vai ser objeto de estudo. Temos que descobrir se o tempo de trabalho
não está gerando isso. Ele acredita que a jornada não
seja exagerada no âmbito da nossa instituição; só que
às vezes, essa mesma carga horária, utilizada numa atividade única
pode ser a geradora. Aumento no volume de trabalho Pilhas e pilhas
de processos nas mesas, nos balcões, nos armários, nas estantes,
no chão: cenário típico das Varas do Trabalho e de muitos
setores do TRT. Essas pilhas, que para o público em geral é sinônimo
de burocracia, para os servidores do Judiciário significam muito trabalho,
geralmente excessivo, que pode levar até mesmo ao adoecimento. No último
ano, à média de 110 mil processos anuais recebidos pela Justiça
do Trabalho do RS (média mantida nos últimos 15 anos) acrescentaram-se
cerca de 30 mil, segundo o corregedor do tribunal, juiz Mário Chaves, de
um resíduo que começou a se acumular por volta de 1986, com os planos
econômicos. Durante o regime de exceção, que começou
em fevereiro de 2002 e termina em dezembro deste ano, foram convocados 24 juízes
de 1º Grau para trabalhar no TRT, o que elevou o número de magistrados
no tribunal para 60. Foi necessário criar uma estrutura para esses juízes.
Além disso, segundo o diretor da Secretaria Judiciária do TRT, Fábio
Souza da Rosa, no Serviço Processual, por exemplo, houve um aumento de
50% no número de servidores e, para o Apoio, também foram deslocadas
FCs. O diretor não soube precisar se houve problemas por falta de pessoal
nos setores de origem dos servidores deslocados. Ele informou que vários
funcionários que preencheram essas vagas são novos, concursados
que ainda não haviam sido chamados. No entanto, servidores reclamam que
nesse período houve redução do número de pessoal nas
Varas. Fábio também atribuiu o volume de processo à mudança
na forma de distribuição destes. Até março do ano
passado, cada gabinete recebia um número predeterminado. A partir dessa
data, a distribuição passou a ser diária e sem limitação
de número. Segundo ele, a distribuição diária de processos,
que será mantida como uma rotina no TRT, a fim de evitar a formação
de novos resíduos, agilizou o trabalho. Atualmente, diz Fábio, um
processo que demorava dois anos chega ao seu final em até cem dias. Ele
acredita que, até o final do segundo semestre de 2004, o trabalho estará
em dia e não haverá mais resíduos, o que reduzirá
o volume de trabalho. O juiz Mário Chaves, entretanto, lembra que os
processos retornam, em grande parte, para sua origem, ou seja, as Varas. Isso
também acarreta bastante trabalho, que poderíamos até chamar
de adicional, pois esses processos estavam represados, foram julgados e a resposta
final é dada no processo de execução, explica. Essa
é uma preocupação dos colegas que trabalham nas Varas. Luís
Antônio Amaral Apel, da 29ª VT de Porto Alegre, diz que a convocação
extraordinária fez crescer o trabalho, pois muitos deles voltaram para
as Varas. Estava represado lá e agora represa aqui, resume.
Jornada conquistada, mas não cumprida Mara Weber, da 1ª VT de
Porto Alegre, como tantos outros colegas, não conquistou, na prática,
a redução da jornada. A Vara tinha em execução, até
o final de novembro, 2.335 processos. A média de novos processos por mês
é cem. Devido à Reforma da Previdência, entre outros fatores,
conta Mara, há vacância em vários setores, ou seja, menos
pessoal. Como secretária de audiências, ela não raras vezes
almoça depois das 15h, 16h. É comum o horário de almoço
se resumir a 30 minutos e as audiências seguirem até o início
da noite. Compensar quando?, pergunta. A sala de audiências
é um dos lugares para onde ninguém quer ir, diz Mara. Não
há rodízio e, mesmo nas férias, é difícil achar
alguém, pois o substituto não recebe mais para cobrir férias
de colegas. Ela lembra que na primeira semana de trabalho no setor teve um derrame
no dedo. Mara diz que em conversas com colegas fica claro que quase todos os setores
enfrentam problemas de excesso de trabalho. Ela fala de um círculo
perverso que acaba se criando devido ao excesso de trabalho. O excesso leva à
doença, mas o doente muitas vezes é discriminado, pois na volta
é comum não poder realizar as mesmas tarefas e ter que diminuir
o ritmo. Isso pode gerar animosidade de colegas, que ficam ainda mais sobrecarregados.
O tribunal joga a responsabilidade para o servidor. O problema passa a ser
o doente e a não a precariedade de infra-estrutura, afirma Mara,
para quem o problema seria atenuado se houvesse uma política para saúde
e para não onerar o setor quando alguém fica doente. Pressão
dentro e fora do trabalho Segundo Mara, a pressão é em todos
os setores o tempo todo, pois há prazos a cumprir. E isso se reflete na
vida fora do trabalho. As pessoas saem e não têm vontade de
fazer nada, conta Mara. Ela, para manter o equilíbrio,
está fazendo tratamento homeopático. Com dois filhos pequenos, diz
que às vezes percebe que está sem paciência para brincar.
Além disso, o fim de semana é cortado ao meio, pois o domingo é
perpassado pela tensão da volta ao trabalho no dia seguinte. Sensação
parecida tem Simone Simões, lotada na 1ª VT de Santa Cruz. Ela diz
que o volume de trabalho é angustiante e que o pior é que, por
mais que se trabalhe, nunca se consegue vencer o volume de processos (veja
mais sobre o assunto em artigo na página 10). Simone afirma que o número
de processos aumentou nos últimos dois anos, o que deixou mais evidentes
problemas como falta de pessoal e de condições de trabalho (infra-estrutura,
ergonomia). Ela também aponta um desinteresse do TRT em relação
às Varas do interior. Já trabalhei no tribunal e é
outro mundo, diz, referindo-se principalmente à estrutura de trabalho.
Ela também fala sobre o desinteresse das pessoas em trabalhar no interior.
Muitos concursados, ao serem chamados, não assumem. Quanto à
carga horária, Simone diz que é comum os servidores ficarem no trabalho
além da jornada normal. Ela também conta que, mesmo em casa, há
uma sombra, o estresse do dia passado sob pressão no trabalho afeta
a vida familiar. Para ela, na 1ª VT de Santa Cruz deveria haver mais
três funcionários, além dos 12 atuais. O normal, aponta, seriam
200 processos por servidor. Em Santa Cruz, esse número salta para 400 em
média. Qualidade Luís conta que escolheu trabalhar no Judiciário
e que gosta do que faz. No entanto, nota que as coisas pioraram. Ele aponta alguns
fatores que levaram ao volume quase intransponível de processos. Um deles
teria começado quando a Justiça do Trabalho passou a fazer execução
previdenciária. Segundo ele, aumentou muito o trabalho, mas o número
de funcionários ficou igual para Luís, cada Vara deveria
ter no mínimo mais dois funcionários. Há mais acordos, liberação
de valores e aumentam as execuções. Ele diz que há períodos
em que os servidores passam o dia inteiro fazendo alvará. Outro fator
que contribuiu para o aumento do volume de trabalho, segundo Luís, foi
a centralização do Protocolo das Varas. A idéia original
era que os processos chegassem às varas completos, com todos os dados já
lançados no sistema. Para isso, foi retirado um funcionário de cada
Vara para trabalhar no Protocolo. Luís diz, no entanto, que o projeto não
funcionou, pois a única diferença é que as Varas só
não recebem o processo, que é o mais fácil, só
um carimbo. O problema é que os funcionários que saíram
não voltaram, foram reaproveitados em outros setores. O resultado é
que o trabalho é feito sob pressão. A irritabilidade com pequenas
coisas aumenta, há vários casos de colega doentes como conseqüência
do estresse. Segundo Luís, a pressa também aumenta as chances de
erro e gera frustração: Eu poderia fazer melhor, mas tenho
que priorizar a quantidade em vez da qualidade. Presidente
do TRT analisa relação da administração com os servidores
Direito
& Avesso Na sua administração no TRT foi aberto um canal
de diálogo e mesmo parcerias (como a Comissão de Saúde) muito
importantes para a relação entre o tribunal e os servidores. Qual
sua avaliação? Juíza Rosa Maria Candiota da Rosa
Fico gratificada em saber que, na avaliação do sindicato, a atual
administração do tribunal pôde, de alguma forma, colaborar
no aprimoramento do diálogo com os servidores. Desde a posse, buscou-se
a implementação de um projeto coletivo, fundado precipuamente na
integração dos recursos humanos, tendo como foco a entrega de uma
prestação jurisdicional eficiente, útil, qualificada e, sobretudo,
efetiva, promovendo, assim, a afirmação do Judiciário como
poder autônomo e independente, comprometido com a sociedade e a serviço
do cidadão. Constitui equívoco imaginar que possa o tribunal bem
cumprir a sua missão institucional sem o esforço conjugado de todos
os agentes envolvidos no processo. Nesse contexto, aproveito o ensejo para externar
meu agradecimento a todos aqueles servidores que, com denodo e competência
e atendendo à exortação feita por ocasião da posse
da atual administração, viabilizaram o atingimento das metas traçadas
para o biênio que ora se encerra. Direito
& Avesso A redução da jornada foi um marco desta gestão
no TRT. No entanto, em muitos setores, a redução do horário
não aconteceu na prática, devido ao volume de trabalho. Como solucionar
o problema, a fim de que os servidores possam ter respeitada sua jornada de trabalho?
Juíza Rosa Maria A observância da duração
do expediente dos servidores, fixada na resolução administrativa
nº 13, de 19 de dezembro de 2002, foi perseguida com determinação
pela atual administração. Contudo, como todo regramento novo, apresentou
dificuldades pontuais de implementação, que, com a gradativa informatização
das rotinas e a racionalização dos métodos de trabalho, bem
assim através do diálogo a que me referi anteriormente, acredito
facilmente solucionáveis. Oportuno destacar a ressalva feita aos ocupantes
de cargos em comissão e aos exercentes de função de confiança,
subordinados à regra do § 1º do artigo 19 da lei nº 8.112/90,
conforme item VIII da mencionada resolução. Verificamos
em sua gestão uma preocupação maior com as condições
de trabalho. No entanto, a manutenção das convocações
extraordinárias e a distribuição diária de processos
no TRT ocasionou um grande aumento do volume de trabalho na área judiciária,
com repercussão nas Varas, com reflexos sobre a saúde dos servidores.
Há uma forma de equilibrar a relação processos/bem-estar
do servidor? Juíza Rosa Maria A eliminação
do até então invencível resíduo de processos pendentes
de apreciação do tribunal demandou a adoção de verdadeira
economia de guerra, ensejando inédito envolvimento de magistrados
e servidores para a consecução desse objetivo maior, que foi plenamente
atingido. Agora, é hora de colhermos os frutos. Posso afirmar, com segurança,
que o aumento no volume de trabalho na área judiciária estava vinculado
ao resíduo e ao regime de exceção, e não à
distribuição diária. Pelo contrário, tal sistemática
confere equilíbrio e racionalidade ao processamento dos feitos, estabelecendo
razoável garantia contra novo represamento. Hoje, ao experimentarmos situação
em que não mais subsiste saldo remanescente de processos por julgar, o
tribunal ostenta média semanal de processos distribuídos bastante
semelhante à verificada quando da distribuição semanal. Tenho
plena convicção de que o sistema vigente propiciará o pronto
atingimento de uma relação mais equilibrada entre o volume de trabalho
e o bem-estar de servidores e magistrados, por todos nós perseguido. Servidores
de Santa Cruz do Sul temem esgotamento físico e mental
Por
Luiz Carlos Temes de Quadros* Para
os servidores lotados nas duas Varas do Trabalho em Santa Cruz do Sul, chegar
ao local de trabalho é enfrentar um local sem aconchego algum e, ao ocupar
seu assento, é saber que não verá seus colegas, pois todos
estarão escondidos atrás de montanhas de processos que se avolumam
por toda parte. As reclamações dos advogados e das partes se multiplicam,
mas a demora no andamento dos feitos não tem como ser evitada devido ao
número insuficiente de servidores em cada Vara para fazer frente ao grande
volume de processos em andamento em cada uma delas. Com 12 servidores lotados
em cada unidade, aí incluídos o diretor de secretaria, o seu assistente,
o secretário de audiências e o seecretário especializado do
juiz, as varas de Santa Cruz do Sul precisam dar andamento a cerca de 9.222 (nove
mil duzentos e vinte e dois) processos, aos quais serão somados os cerca
de 1.750 (um mil setecentos e cinqüenta) processos que estão em fase
recursal no TRT e mais 250 (duzentos e cinqüenta) novos que são ajuizados
mensalmente. Chama a atenção dos juízes que passam pela
comarca o baixo número de conciliações ocorridas nas audiências,
que fica abaixo de 20% (vinte por cento) dos processos ajuizados, fazendo com
que o estoque de processos em andamento sofra um aumento significativo a cada
ano que passa. E, falando em juízes, para fazer frente ao grande número
de processos, a comarca conta com 5 (cinco), que se revezam em audiências
e produção de sentenças, numa atividade constante, gerando
cada vez mais andamentos processuais a serem processados pelos escassos servidores.
Para o atual volume de feitos tramitando nas varas, seriam necessários
ao menos mais três servidores em cada uma delas, para evitar que os atuais
venham a agravar suas situações de esgotamento físico devido
à enorme pressão, que nem precisa ser exercida pelos advogados e
pelas partes, pois, a cada chegada ao local de trabalho, a constatação
das enormes pilhas de processos que não cabem mais nos armários
e nos arquivos e que crescem cada vez mais, por si só exerce verdadeiro
assédio moral, ocasionando desânimo e o esgotamento, pela certeza
de que não adianta acelerar na execução das tarefas para
aliviar a carga, pois a batalha, se não está perdida, está
muito difícil de ser vencida. Assim, premidos pelo acúmulo
de serviços, pela retirada de direitos, pelos aumentos salariais ridículos
de 1% (um por cento), seguem os servidores de Santa Cruz do Sul céleres
rumo a doenças e esgotamentos que o tempo mostrará. Triste, mas
verdadeiro. E ainda somos chamados de marajás. Só quem conhece a
tramitação processual pode perfeitamente avaliar o que representa
cuidar de 9.000 (nove mil) processos em andamento, dos quais, 6.000 (seis mil
na fase de execução e mais de 1.500 (um mil e quinhentos) em fase
de liquidação, com todos os passos processuais pertinentes e ainda
dar atendimento às partes e aos procuradores. Como no TRT todas as autoridades
são sabedoras do sacrifício a que estão submetidos os servidores,
fica o apelo para que sejam lotados mais três servidores em cada Vara do
Trabalho de Santa Cruz do Sul, para poupar a saúde e evitar um colapso
dos atuais servidores e melhorar a qualidade na prestação do serviço
jurisdicional à comunidade da comarca que engloba 22 (vinte e dois) municípios.
* Servidor lotado na JT de
Santa Cruz do Sul e diretor de base Funções
comissionadas: um estorvo para o serviço público
por
Sérgio Amorim dos Santos * A
história, nossa maior aliada na compreensão dos acontecimentos que
invariavelmente modificam as estruturas sociais e a correlação de
forças no tempo, nos ensina que sempre houve, nas vitórias sociais
e nas mudanças estruturais, a união de forças, em geral antagônicas,
na luta contra injustiças ou melhorias sociais. França e Inglaterra,
rivais desde quase suas existências, uniram forças de forma muito
consistente, não uma, mas pelo menos duas vezes, a fim de impedir, na I
Guerra Mundial, o expansionismo imperialista da tríplice entente e, na
II Guerra, contra o nazi-facismo. Foi, como se sabe, uma aliança pontual,
desfeita logo após as vitórias, por desavenças históricas,
mas foi uma união plenamente vitoriosa no seu objetivo. No Brasil, uniram-se
em torno da democracia e contra a ditadura militar forças tão contrárias
quanto os pólos magnéticos de um ímã: Carlos Lacerda,
João Goulart, Ulysses Guimarães e Juscelino Kubitscheck. A união
de forças, operária e estudantil, base da luta de classes, sempre
mostrou-se positiva e conquistadora, capaz de mudar conceitos e revolucionar a
história, eis que convergiam para os mesmos objetivos, pois eram originadas
dos mesmos problemas. No serviço público, porém, o mesmo
não ocorre. A difusão de interesses dentro de uma mesma classe do
serviço público dá-se por um instrumento administrativo criado,
ao que parece, para o estrito fim de provocar a discórdia entre iguais:
as funções comissionadas e as gratificações. Não
há um motivo plausível, caracterizado na modernidade técnica
e administrativa, para a existência ainda de tal aberração
dentro do serviço público. Exceto a de criar, informalmente, duas
ou três classes de servidores. Assim, convivem muitas vezes num mesmo
patamar hierárquico os que possuem gratificação e os que
não a possuem. Os primeiros equilibram-se na sustentação
desse benefício, em geral temporário e de caráter pessoal.
Os outros, tão servidores como os primeiros, parecem não ser dotados
do mesmo comprometimento com o serviço público, ficando estereotipados
em uma subclasse. Disse duas ou três classes pois, entre as duas já
citadas, paira uma terceira classe de servidores: aqueles que, honestamente, almejam
ser merecedores da tal gratificação, que muitas vezes é política
e, não raro, arbitrariamente distribuída. É louvável
a convivência com (uma minoria de) servidores que, mesmo usufruindo de tal
benefício, objeto lógico de sua capacidade profissional, não
se colocam como uma casta à parte dos demais colegas, tendo
a real noção de que o que deve ser cuidado em primeiro lugar na
construção da carreira é a dignidade do cargo público
como um alicerce forte e não a maquiagem da função como uma
pintura nova, mas sempre sujeita às intempéries. A sólida
união dos servidores em torno de um órgão representativo
mais forte e a luta unificada para a construção de um serviço
público inatacável do ponto de vista da dignidade, da probidade
e da competência passa, necessariamente, pela revisão do conceito
de distribuição das funções gratificadas e comissionadas
dentro do serviço público, em especial no Judiciário.
O conceito e a forma de acesso hoje instituídos não podem mais continuar
sendo objeto de divisões pontuais entre aqueles que podem livremente manifestar
suas idéias e contrariedades, unindo-se aos seus iguais a fim de multiplicar
forças, e aqueles que, presos às (particularmente merecidas) cifras
extras de seus contracheques, abrem mão da palavra e da insatisfação,
vendo o alicerce ser atacado e crendo que aquela fina camada de tinta poderá
sustentar seu futuro como servidor público. É preciso que a
categoria reaja e crie condições para transformar um dos principais
pontos de discórdia e disputa dentro do serviço público,
a fim de que, mais iguais, possamos passar a uma outra fase de conquistas, na
qual todos sairemos ganhando com o fortalecimento e o reconhecimento de nossas
carreiras, para que a disputa interna, se houver, possa ser feita de forma solidária,
honesta e baseada na avaliação da capacidade profissional de cada
um, para que, uma vez concedida, não possa ser atacada por adjetivos que
desqualificam não só os detentores de tais cargos, mas, também,
aqueles que naturalmente os almejam e a categoria como um todo. Sacrifício
x bem viver
As tradicionais relações
de trabalho estão em xeque por
Gládis Lorinda Ludwig* Começa-se
a discutir no movimento sindical, com mais ênfase, as questões relacionadas
à saúde dos trabalhadores. Até então a defesa de sua
qualidade de vida vinha sendo relegada a um degrau inferior pelos administradores
e inclusive por nós, sindicalistas. As condições de trabalho
devem ser o centro do interesse sindical de agora em diante. A luta pela redução
da jornada de trabalho, por exemplo, já está na ordem do dia em
nossas lutas. Nós, do Judiciário, executamos tarefas muito estressantes
(como atendimento ao público), repetitivas, manuais. Muitos de nós
despendemos, inclusive, muito esforço físico ao ter que procurar
processos em lugares altos ou muito baixos, em gavetas emperradas, superlotadas,
carregar vários volumes, na maioria das vezes sem o auxílio do carrinho,
por causa do grande movimento do balcão e da preocupação
com a pessoa que está esperando do outro lado, que reclama, às vezes
de forma agressiva, com frases que expressam o senso comum, colocando-nos como
detentores de privilégios, burocratas, dificultadores da vida do cidadão
comum, responsáveis pela situação precária em que
se encontra o Judiciário e pelo caos e pela falência do Estado brasileiro,
ou seja, como um grupo que obstaculiza a modernização do Brasil.
No final do dia, muitas vezes, nosso sentimento de cansaço físico
e mental é enorme. Sentimo-nos fracos, impotentes e muito revoltados. Essa
sensação de impotência é maior ainda quando reclamamos,
apontamos os problemas e não somos ouvidos com a devida seriedade. Tudo
é interpretado como problema pessoal, psicológico. Algumas
vezes obtemos respostas evasivas de nossos chefes ou em forma de brincadeiras,
que até nos fazem sentir culpados por não estarmos conseguindo cumprir,
com tanto engajamento, as tarefas. Ouvimos frases tais como leva a coisa
para o lado positivo. Pensa que tu vais emagrecer fazendo ginástica no
balcão. Se estás reclamando agora, imagina então quando estiveres
prestes a te aposentar, como estarás?!. Ora, isso é extremamente
irritante para quem está insatisfeito, com o corpo doído, já
com os primeiros sinais de doenças do trabalho. Certamente, qualquer um
preferiria freqüentar uma academia para fazer ginástica ou caminhar
ao ar livre, sem pressões, a puxar gavetas emperradas, pesadas, com processos
saindo pela culatra, arriscando a derrubá-las nos pés. Não
pretendemos nos aposentar nessas condições. Valorizamos muito a
saúde em nossas vidas e não estamos dispostos a vendê-la.
O rodízio, por horas, no serviço de atendimento ao público,
já utilizado em vários locais, vem amenizando muito o problema.
Outra questão bastante séria nos judiciários Trabalhista
e Federal é o relacionamento dos servidores com as chefias imediatas, que
muitas vezes beira ao assédio moral no trabalho. É incompreensível
que cheguem a ocupar tal posição personalidades abaladas, sem as
mínimas condições no trato humano. Não podemos aceitar
que tais pessoas se utilizem dessas funções, para humilhar outras
e se afirmar, compensando, dessa forma, sua própria mesquinhez humana.
As chefias devem ser compreendidas dentro dos limites de coordenação
das atividades do setor. O sindicato deve incentivar um processo de enfrentamento,
por meio de denúncias constantes e defesa permanente dos servidores perseguidos
por esses perigosos doentes do trabalho. Há chefes que pretendem coordenar
um setor como o Príncipe de Maquiavel, sob o braço:
dividindo para governar. O uso dos fuxicos como forma de divisão
é nítido em muitos setores. As avaliações das
chefias deveriam ser feitas diretamente pelos subordinados, ou melhor ainda, gostaríamos
de instituir um sistema de escolha das chefias que contemplasse a participação
dos servidores. Não entendemos os critérios de escolha e de permanência
nesses cargos. Em alguns setores, ninguém quer permanecer. Muitas vezes
todos vão saindo ou se obrigam a agüentar, por impossibilidade de
troca e os causadores do mal-estar no trabalho permanecem eternamente. Esses problemas
deveriam ser mais diretamente observados e atacados por uma política de
recursos humanos que contemplasse a oitiva de todos os interessados. Falta uma
linha comum de trabalho (metodologia) entre os setores, falta a alguns detentores
de cargos de liderança entender seus papéis. Falta democracia e
espaço à crítica construtiva, falta distensionar o clima
existente em muitos locais de trabalho. Um ambiente bom de trabalho pode resolver
muitos outros problemas. Os problemas explodem justamente nos locais mais
repressivos, naqueles em que o trabalhador se despersonaliza, virando um número
ou peça de uma máquina, sem interlocução. Os líderes
de equipe deveriam assumir uma direção forte, com comprometimento,
união e preocupação em tornar o ambiente de trabalho um local
agradável, no qual pudéssemos crescer profissionalmente e como seres
humanos. As regras, a disciplina, são necessárias e bem vindas,
desde que construídas democraticamente e não de forma arbitrária,
devendo ser claras a todos os envolvidos, bem como as metodologias de trabalho.
Não é a autoridade que faz mal, mas o autoritarismo. Precisamos
lutar para melhorar cada vez mais as condições de vida e de trabalho
de todos os trabalhadores e também entender nosso papel de servidor público,
que é aquele que não se subordina a uma determinada pessoa e sim
a uma organização e aos valores por ela encarnados, tendo autonomia
de julgamento, que não pode ser atemorizado pelas mudanças conjunturais
nas administrações e governos das instituições a que
pertence. Um cidadão comprometido, com uma identidade e uma moral profissional
que exclui o servilismo tanto quanto proíbe a arbitrariedade.
* Diretora do Sintrajufe
Muleque
leva pancadas
...apertado, maltratado
e judiado como se fosse todo de pó de serra por dentro...
Casa-Grande & Senzala, Gilberto Freyre por
Dinah Lemos Gilberto Freyre narra esta
tradição do Brasil escravista: as crianças brancas, filhas
dos donos de engenho, ganhavam, já aos 3 ou 4 anos de idade, um escravo
do seu sexo e de sua idade para seus brinquedos: Crescem juntos e o
escravo torna-se um objeto sobre o qual o menino exerce os seus caprichos; empregam-no
em tudo e além disso incorre sempre em censura e em punição(...)
Através da submissão do muleque iniciou-se muitas vezes o menino
branco no amor físico (...). Transformava-se o sadismo do menino e do adolescente
no gosto de mandar dar surra, de mandar arrancar dente de negro ladrão
de cana, de mandar brigar na sua presença capoeiras, galos e canários
tantas vezes manifestado pelo senhor de engenho quando homem feito; no
gosto de mando violento ou perverso que explodia nele ou no filho bacharel quando
no exercício de posição elevada, política ou de administração
pública... (C&S, 51,336). Ângela de Castro Gomes, em
A invenção do trabalhismo, utiliza um conceito estudado por Marcel
Mauss para falar da lógica da dádiva como uma forma
particular de contrato que não é compatível com a lógica
do mercado, no qual tudo tem um preço e as idéias de
sacrifícios não mensuráveis estão ausentes. Marcel
Mauss encontrou essa lógica em tribos primitivas. Nas sociedades em que
a lógica da dádiva articula a maior parte dos contratos, há
um círculo vicioso entre o dar, receber e retribuir caracterizando
deveres políticos de natureza ética. Segundo a autora, a obrigação,
para com quem dá, reforça-se com o passar dos anos. A dinâmica
do dar-receber-retribuir institui uma relação de re-conhecimento.
Na formação do período populista da Era Vargas está
o Estado Novo. Foi durante esse governo autoritário e híbrido que
ocorreu a criação do tempo festivo: a festa do 1º de maio e
todas as festividades coordenadas pelo DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).
Em 1942, o ministro do Trabalho da Indústria e Comércio, Alexandre
Marcondes Filho, inicia o uso semanal do programa Hora do Brasil, cujo conteúdo
privilegiava a legislação social trabalhista do Estado Novo. Nesses
discursos, foi construído o perfil de Getúlio Vargas como o Pai
dos Pobres e líder das massas trabalhadoras. Formou-se então uma
pessoa coletiva de caráter moral que vinha a ser o Povo: os
que estavam solidários entre si e com a autoridade, os que trabalhavam.
O Povo estava incluído na lógica da dádiva e
merecia receber com o dever de retribuir. O Não-Povo eram os desempregados,
os mendigos, os criminosos e os subversivos; os marginais. Esses não mereciam
receber por não terem a obrigação de retribuir; não
se comunicavam com os objetivos da elite e não eram reconhecidos. O
antropólogo Roberto da Matta fez uma investigação sobre a
expressão Você sabe com quem está falando?, que
é, segundo ele, e nós sabemos o quanto, muito popular entre os brasileiros.
Da Matta entende que a expressão demonstra sermos uma sociedade que foge
do conflito, embora ele esteja sempre presente de uma maneira visceral. Os conflitos
são tragédias que devemos evitar sempre; quem se dispõe a
vivenciar abertamente conflitos é inadequado, ou mal-educado, e merece
ouvir um sonoro Você sabe com quem está falando?. Segundo
o antropólogo, o debate entre opiniões divergentes caracteriza o
igualitarismo individualista sempre em confronto violento com o esqueleto hierarquizante
da sociedade brasileira. Os intelectuais citados nos remetem aos pilares de
sustentação de tudo que possa estar incluído no conceito
de assédio moral. O assédio moral, na sociedade brasileira, não
é uma exceção à regra, um defeito na margem, um conjunto
de detalhes. O assédio moral constitui as relações de trabalho
nesta nossa, ontem e hoje, sociedade estruturalmente escravista. Ele é
norma costumeira, tradição. É dentro desse caldo de cultura
que o governo Lula dá prosseguimento de forma mais acabada ao projeto que
vinha sendo construído durante toda a Era FHC, qual seja, a inversão
do binômio povo trabalhador versus malandros e marginais. É um ícone
dos líderes dos trabalhadores, o Lula, que faz o discurso da lógica
da dádiva relacionando os marginais, os excluídos, com o dever de
receber e retribuir ao governo; é esse líder, eleito a partir dos
trabalhadores, o enunciador do discurso de que os trabalhadores são hoje
os rebeldes, os malandros, querendo trabalhar menos e ganhar mais, quando deveriam
trabalhar mais e aceitar seus salários parcos em benefício do bem
comum: a articulação, pelo inconsciente coletivo, dos miseráveis
com o poder. Fazer uma inversão tão radical do populismo da
Era Vargas é, para dizer o mínimo, irresponsabilidade política.
Não vai funcionar e já não está funcionando. Os trabalhadores
brasileiros têm seus sindicatos, querem a redução da jornada
de trabalho e a manutenção de seu poder aquisitivo; querem construir
instrumentos de controle da gestão das empresas, privadas ou públicas,
e dos serviços públicos a partir de comissões de funcionários
e operários, em cada local de trabalho. O MST tem, em sua alma, a rejeição
da lógica da dádiva e a consciência dos negros quilombolas
(moradores dos quilombos). No próximo período, as centrais sindicais
serão severamente cobradas acerca de suas intenções. Os trabalhadores
renovarão seus métodos de organização e luta. Em nossas
veias, corre uma certeza apenas: não somos mais muleques leva-pancadas.
Crescemos, somos gente grande. * Servidora
lotada no Serviço Processual do TRT ASSÉDIO
MORAL NO TRABALHO
Um risco invisível,
mas concreto por Margarida Barreto* A
organização do mercado interdependente, sem limites
de fronteiras, está concentrada fundamentalmente em três regiões
do planeta (Japão, Estados Unidos e Europa), o que fortalece seu poderio
e as contradições de sua existência, mantendo uma hierarquização
assimétrica e até mesmo a exclusão de algumas regiões,
como África e parte da Ásia, como forma de impor uma nova e única
organização do poder político, econômico, jurídico,
social. As privatizações e as fusões ampliaram seu domínio,
trazendo freqüentemente a transferência dos riscos dos países
do norte para os do sul e uma série de exigências políticas
expressa em reestruturações, desregulamentações, mudanças
no contrato de trabalho e dessindicalizações. Os países
periféricos passaram a conviver com mais desemprego, fechamento de setores,
postos de trabalho ou até mesmo de empresas inteiras, resultando em aumento
da miséria urbana, ressurgimento de antigas doenças ao lado de novas
patologias. Novos riscos surgiram no mundo do trabalho e estão associados
à nova forma de organizar a produção. Esses riscos,
ainda que invisíveis, têm sua concretude na pressão e na opressão
constantes, nas exigências sem limites, na necessidade de ultrapassar as
metas impostas, no cultivo e no estímulo do individualismo associado à
competitividade entre os pares, na exigência cada vez maior da fusão
dos desejos individuais com os objetivos das empresas. Em ambiente de múltiplas
exigências, não há lugar para laços de camaradagem.
A fragmentação das amizades vai permitindo o surgimento da indiferença
pelo sofrimento do outro, o menosprezo às dificuldades, a expropriação
do tempo com amigos e família, o ocultamento de doenças ou acidentes,
a disseminação da desconfiança, o aumento coletivo da linguagem
para si que permite o pacto do silêncio, as dúvidas e a autoculpa
são fortalecidas ante um processo destrutivo e um ambiente de trabalho
degradado. O agora que se instaura é permeado de medo, insegurança
e a necessária sujeição às normas do capital.
Obedecer e servir é lema seguido por quase todos, silenciosamente,
por medo de perder o emprego e não retornar ao mercado formal. Para Di
Martino, da Organização Internacional do Trabalho, se observa
uma consciência crescente de que a violência no local de trabalho
não é um fenômeno episódico e individual, mas um problema
cuja causalidade está em fatores de ordem social, econômico, organizativo
e cultural. Gestando o adoecer e o morrer A violência moral
enquanto realidade e atividade humana contém intencionalidade, direcionalidade,
pressupõe um sistema de símbolos, representações,
valores e direitos comuns, diferente da impulsividade ou da agressividade dos
animais, que são instintivas. A violência acontece em determinada
ordem econômica e social e em determinada estrutura de poder. Pode fazer
parte da política institucional ocultada em programas diversificados de
reengenharia, avaliações, planos e pacotes cuja adesão
é imposta sutilmente e os subsídios tornam-se âncoras de convencimento
democrático. A violência moral individualizada e hierarquizada
tem a mesma matriz: abuso de poder, mentiras, ameaças constantes, cooptações
e corrupções. Constitui um processo de destruição
de uma pessoa que resiste as exigências das práticas unificadoras
e das normas impostas pela organização do trabalho. Passam a ser
consideradas personas non gratas. Atos e ações vão
sendo tecidos cotidianamente, visando desqualificá-la, forçando-a
a desistir do emprego. São ameaças, gritos, gestos, ironias, risinhos,
suspiros, piadas jocosas, sarcasmos, olhares evasivos, comentários negativos;
freqüentemente são isoladas e ignoradas, como se não existissem.
As tarefas passadas não têm sentido ou quando realizadas, não
são utilizadas. O tempo é controlado até mesmo para as necessidades
fisiológicas; os temas da esfera íntima, confidenciados em algum
momento anterior, passam ao público, as difamações e as ridicularizações
tornam-se constantes, minando a resistência individual e quebrando psicologicamente
identidade e dignidade, forçando-a freqüentemente a desistir do emprego
e pedir demissão. Os que resistem são despromovidos, transferidos
de setor, região ou município; seus instrumentos de trabalho são
retirados, sendo colocados em sala isolada, sem ventilação, fora
do contato com seus pares. Quem sofre atos de violência moral no trabalho
vive uma experiência subjetiva que interfere em sentimentos e emoções,
altera o comportamento e as relações afetivas, levando-o muitas
vezes ao desespero, a pensamentos suicidas e vontade de vingança. Nenhum
ser humano quer ser alvo de intimidações, ameaças veladas
ou explícitas, gritos, ofensas, desmoralizações, ironias,
gestos que desqualificam, suspiros, risinhos, ridicularizações,
discriminações, críticas negativas e destrutivas. O sofrimento
causado pelo assédio moral não tem um sentido, mas vários:
é o sentir-se mal, desvalorizado, não reconhecido. Um ninguém,
um objeto, um lixo. Sente-se mal em todo o corpo, na alma, na vida, no trabalho,
na família. Sofre porque é um ser que tem sentimentos, porque é
uma pessoa de carne e osso. Porque é um ser que não suporta a violência,
a injustiça, a crueldade. Porque necessita do emprego e este é sobrevivência
de si e da família. Sofre por suportar. Sofre por querer gritar, querer
forças para lutar. Sofre por querer resistir. Quem sofre quer se ver livre
desse sofrimento. Assim, mais que nunca, resistir é preciso. *
Médica TRT
dá ganho de causa a bancária vítima de assédio moral O
advogado Antônio Vicente Martins defendeu a causa de uma funcionária
de um banco privado que passou a sofrer assédio moral depois de se recuperar
de um tratamento de saúde. Para Martins, tinha muito uma idéia
de não colocar de novo no meio de outros trabalhadores alguém que
tinha tido uma doença profissional. Ao buscar reparação
no Judiciário, o advogado alegou dano à imagem da trabalhadora.
Assédio moral é uma definição doutrinária,
existem outras legislações no mundo que até tratam a questão
do assédio moral. Nós fizemos uma argumentação mostrando
para o juiz que a proteção a um dano de natureza moral do trabalhador,
que é a sua imagem, está prevista na Constituição;
em que pese não haver a definição legal de assédio
moral, há a definição legal de dano moral, comenta.
O processo durou cerca de um ano. O TRT deu ganho de causa à bancária.
Ainda não temos trânsito em julgado, pois o banco recorreu,
diz Martins. Ele conta que sua cliente mostrava uma profunda fragilização
do ponto de vista psicológico, pois a deixavam sentada durante todo o período
de trabalho sem uma única tarefa. Às vezes é uma conduta
individual de uma chefia. Mas esta está na condição de representante
da empresa/órgão, que, portanto, também é responsável.
A denúncia do problema encontra forte resistência no próprio
trabalhador, que tem medo de perder o emprego ou mesmo de se expor a uma condição
de inferioridade/culpa por não ter conseguido evitar o assédio.
O advogado compara o assédio moral ao assédio sexual: Muitas
vezes a mulher não denuncia o que sofre pelo medo de se expor à
condição de ter sido assediada. A vítima sempre tem que se
explicar, explicar por que foi assediada. (Rosane Vargas)
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ASSÉDIO
MORAL NO TRABALHO A descontrução do indivíduo por
Rosane Vargas O assédio moral pode
começar de uma forma lenta. Inoculado aos poucos, a agulha sob a pele dói,
mas é suportável. Até que o veneno começa a fazer
efeito. Em outros casos, o assediador corta caminhos e sutilezas, desfere um golpe
direto na vítima. De uma forma ou de outra, o resultado da vileza levada
a cabo no local de trabalho pelo aniquilamento mental do outro é devastador.
A colega que chamaremos neste texto de Maria foi uma exceção
dentre os muitos casos de assédio conhecidos no Judiciário Federal:
aceitou falar. Maria tinha mais de 20 anos de serviço público e
mais de dez anos no mesmo setor do Judiciário quando houve uma troca de
sua chefia imediata. Ela exerceria novas funções e o treinamento
seria dado pelo novo chefe. No entanto, Maria percebeu que, deliberadamente, o
novo chefe não repassava coisa alguma. Além disso, era grosseiro
e deixava sobre a mesa dela trabalhos inacabados de outros colegas, a fim que
todos pensassem que Maria não cumpria suas tarefas. Ela pediu remoção
de setor, seu pedido não foi publicado. Compareceu por diversas vezes no
Setor de Recursos Humanos, solicitando informações acerca do seu
pedido de remoção, tendo como resposta sempre a mesma justificativa:
Não há pessoal para permutar. No período de recesso
do Judiciário, embora todo o trabalho estivesse em dia e ela tivesse avisado
com antecedência que assumira outros compromissos, o chefe a chamou, apenas
ela e alguns poucos colegas, para arrumar arquivos. Depois do recesso vieram
as férias e depois das férias, o inferno. Logo na chegada,
a surpresa: sua mesa havia sido deslocada para o fundo da sala, suas tarefas mudaram
e ela passou a trabalhar oito horas por dia direto no balcão, como castigo,
não lhe sendo permitido que colegas a auxiliassem, o que lhe causou problemas
de circulação que persistem até hoje.. Durante esse período,
Maria conheceu outras faces da tirania. Era xingada e humilhada na frente de colegas,
partes e advogados, exposta sistematicamente a situações constrangedoras
e vexatórias. Quando cometia qualquer erro, por menor que fosse, o chefe
gritava, no meio da sala, demonstrando claramente o seu poder hierárquico,
numa tentativa de reafirmar sua autoridade, a qualquer preço, em prol de
seu ideal tirânico. Tristeza, revolta, insegurança, angústia.
Esses sentimentos passaram a fazer parte do dia-a-dia de Maria. Entrou em uma
licença médica de 15 dias; depois de algum tempo, nova licença.
Na volta ao trabalho, quando encontrava colegas que se dispunham a fazer uma troca
de local de trabalho, o chefe não aceitava. Maria falou com o juiz substituto.
Pedi a ele que, pelo amor de Deus, me colocasse à disposição,
expliquei que não agüentava mais os mandos e os desmandos do meu chefe.
O juiz não aceitou e justificou dizendo que isso prejudicaria a vida funcional
dela. Ele não fazia idéia do quanto minha vida funcional seria
prejudicada, diz Maria, olhos marejados apesar da voz firme com que conta
sua história. Mesmo com a dor, o adoecimento, a necessidade de procurar
um psiquiatra como apoio, a vida pessoal perpassada pelo ambiente hostil no trabalho,
Maria enfrentava o chefe, não ficava calada. Procurou o serviço
de recursos humanos, o serviço de psicologia e o serviço médico,
relatando o que estava acontecendo. Voltou a pedir para ser colocada à
disposição. A impressão que tinha, conta, era de que ninguém
se importava. Depressão, auto-estima destruída, já em
tratamento psíquico para se recuperar, uma taquicardia que aparece sempre
que ela enfrenta alguma situação de maior tensão. Esse o
saldo dos anos de trabalho sob a tirania de um chefe que era, também colega
de trabalho, concursado como ela. Maria revela mágoa em relação
aos colegas de então, com poucas exceções. O pior era
a sensação de estar sozinha; os colegas, para não se exporem,
fazem de conta que não sabem o que acontece. Porque querem galgar cargos,
abrem mão da essência do ser humano, a solidariedade. Depois
de alguns anos, Maria finalmente conseguiu transferir-se para outro local de trabalho,
mas o assédio sofrido fazia sombra em sua vida profissional. Percebi
que estava rotulada, diz. Seu antigo chefe disseminara a idéia de
que ela era profissionalmente incapaz, fofoqueira e prejudicial ao grupo.
Quanto ao apoio do tribunal, nunca alguém do serviço médico
ou do RH ligou para perguntar como eu estava, física ou psicologicamente,
mas monitoravam minhas relações de trabalho para saber se eu não
estava causando problemas. Na vida funcional de um servidor, a avaliação
é fundamental e pode determinar o futuro da carreira. No caso de Maria,
a avaliação significou um estigma. Meses depois de transferida,
recebeu em um envelope a avaliação que o antigo chefe havia encaminhado.
A única coisa verdadeira que ele colocou na avaliação
foi que eu nunca faltei, pois sempre fui assídua ao trabalho. No
restante, em cada item, foi o pior possível. Ele chegou a escrever uma
folha em anexo com observações sobre Maria. Pela descrição
dele, eu era completamente desequilibrada, incapaz de realizar o trabalho e de
manter convívio social, conta. Indignada, Maria entrou com processo
administrativo recorrendo da avaliação. Foi indeferido. Recorreu
novamente, dessa vez ao Pleno do tribunal, que também não aceitou
seu pedido. Resultado: a avaliação foi para a ficha funcional. Maria
aponta a ambigüidade dessa atitude: por um lado, o tribunal aceitou uma avaliação
que a mostrou como uma pessoa inábil para a carreira pública e mesmo
para o convívio social. Se aquilo tudo fosse verdade, eu deveria
ter sido internada ou, na melhor das hipóteses, aposentada por invalidez,
ironiza. Por outro lado, uma vez aceita a versão do chefe, o tribunal não
teria que propor seu afastamento, a fim de que se tratasse, para o bem-estar dela
e dos outros servidores? Qual é a verdade?, questiona. Em um
ou outro caso, a administração do órgão público
se furtou de sua responsabilidade, por um lado, pelo agir inadequado do antigo
chefe em relação ao subordinado, e, por outro, quando deveria se
utilizar de medidas de controle, visando à preservação da
saúde mental dos servidores, conclui.
Se você é assediado em seu local de trabalho, procure o sindicato.
Todas as quintas-feiras, das 18h às 19h, o médico Rogério
Dornelles e um diretor estarão à disposição para ouvi-lo
e, junto com você, procurar uma solução. O agendamento será
feito na Secretaria de Saúde, com Etel. Redução
da jornada: mais que um direito, uma necessidade A
discussão em torno da redução da jornada de trabalho no Brasil
deixou de ser apenas uma questão de qualidade de vida do trabalhador. No
momento em que a taxa de desemprego no país atinge a marca de 12,9%, segundo
números divulgados pelo IBGE e pela Fundação Seade/Dieese
em novembro, o debate se volta agora para a necessidade da abertura de novos postos
de trabalho a partir da diminuição da carga horária
- que comportem toda essa demanda de desempregados. por
Marcelo Antunes O Brasil tem hoje
cerca de 30 milhões de trabalhadores com carteira assinada, 40 milhões
atuando na informalidade e cerca de 14 milhões sem emprego. Tramitando
há sete anos no Congresso, a PEC 393, de autoria do deputado Inácio
Arruda (PcdoB-CE) e do então deputado Paulo Paim (PT-RS) e já aprovada
na Comissão de Constituição e Justiça, prevê
a redução da jornada das atuais 44 para 40 horas semanais e, após
dois anos, para 35 horas. Num cálculo modesto, a redução
em 10% da carga horária criaria, de imediato, cerca de 3 milhões
de empregos. O empresariado conservador está um tanto resistente.
Já aqueles mais abertos admitem o debate. Com a redução da
jornada todos ganham, afirma o agora senador Paim. Pelo raciocínio
dele, jornada menor significa trabalhador mais disposto e, conseqüentemente,
um aumento de produção, menores índices de acidente de trabalho
e redução de doenças tipos LER/Dort. Outra vantagem diz respeito
ao mercado interno: mais gente trabalhando é igual a mais consumidores,
que é igual a mais produção, mais impostos e assim por diante.
Entre os pontos defendidos na PEC 393 há um que garante incentivos fiscais
às empresas que, ao reduzirem a sua jornada, contratam novos empregados.
O governo federal já demonstrou simpatia nessa questão. A
nossa proposta se espelha no sistema da França, país que mais vem
reduzindo a carga horária de seus trabalhadores como forma de abrir novos
postos de trabalho. Mas não é somente a França, essa é
uma tendência é mundial, acrescenta Paim. Pela PEC, tanto o
setor privado quanto o setor público teriam um prazo para se adaptar às
novas regras. Porém, é necessário a criação
de uma comissão especial, a ser solicitada pela presidência da Câmara
dos Deputados, para tratar do tema. Levando em consideração as pautas
que estão na ordem do dia (reformas previdenciária e tributária),
Paim acha necessário que o movimento sindical como um todo se mobilize
para que a comissão venha a ser instalada em 2004. Contrapartida
Para o presidente da Federação dos Trabalhadores Metalúrgicos
do RS, Milton Viário, condições e motivos para se aprovar
o projeto não faltam e destaca que a maioria das montadoras da região
do ABC paulista já opera entre 42 e 40 horas semanais e que os ganhos de
produtividade no Brasil na última década se mostraram superiores
aos apresentados por países do dito primeiro mundo. Além disso,
várias grandes empresas melhoraram seus ganhos com modernizações
feitas com financiamento público, principalmente com recursos do BNDES.
Em outras palavras, seria uma forma de os empresários devolverem ao povo
brasileiro aquilo que tomaram emprestado a juro baixo. Para Rosane da Silva,
secretária de Política Sindical da CUT-Brasil, apesar de não
existir uma campanha mundial nesse sentido, há um entendimento geral de
que é preciso reduzir a jornada para que se possa repartir com o mínimo
de justiça os rendimentos advindos do aumento da produtividade e reduzir
a exploração do trabalho pelo capital. Diminuir a jornada
é importante tanto para gerar empregos quanto para humanizar o trabalho,
dar ao trabalhador a oportunidade de estudar, ter lazer, viver em família,
participar do mundo cultural e político, além de reduzir as doenças
de trabalho, afirma. Por que somente a elite tem direito ao lazer
e ao convívio com a família, o direito a se preparar, por meio de
cursos de qualificação, para os novos tempos? Os trabalhadores também
têm tais direitos. O objetivo da PEC 393 é gerar renda, emprego e
qualidade de vida a todos os trabalhadores, sentencia Paim. Novos empregos
Rosane lembra que na França houve, há poucos anos, uma redução
de 39 para 35 horas semanais e que, segundo economistas como Thomas Coutrot e
Michel Husson, esta gerou em torno de 500 mil novos empregos (2% da População
Economicamente Ativa). Para a sindicalista, esse número poderia ser maior
se existisse um amplo controle sobre as horas extras e a eliminação
ou redução do banco de horas. Em outros países percebe-se,
desde 1980, uma redução pequena, porém de forma generalizada:
EUA (43,3h para 40,6h), Coréia (51,6h para 47h), Espanha (39,7h para 35,9
h) e Japão (46,8h para 42,2h). No Brasil o custo da mão-de-obra
no preço final do produto é algo em torno de US$ 3,02 por hora trabalhada
enquanto nos EUA é US$ 20,32; na Alemanha, US$ 22,86; no Japão,
US$ 19,59; e na Coréia, US$ 8,09, ou seja, o custo do trabalho em nosso
país só é maior que o do México (US$ 2,34). Pelos
números da CUT, com a redução da jornada o aumento ficaria
em US$ 0,30/hora, o que em parte seria compensado pelo aumento da produtividade
e pela redução dos gastos com acidentes e perdas no processo de
trabalho. Além do que, a participação dos salários
no custo total das empresas está em torno de 22%. A redução
da jornada pode, no máximo, elevar esse custo em dois pontos percentuais,
o que é pouco em relação aos benefícios sociais que
essa medida traria, como a geração de emprego, a redução
da violência, a redução dos gastos sociais em saúde
e seguro desemprego, etc. Para evitar qualquer dúvida quanto aos dados
acima utilizados, Rosane faz questão de afirmar que eles são da
CNI e do U.S. Departament of Labor, logo, são números produzidos
pelos órgãos patronais, diz. A competitividade brasileira,
segundo a sindicalista, está ligada ao alto custo do capital, à
nossa elevada taxa de juros, que faz com que grande parte do resultado da produção
vá parar nas mãos dos bancos, na ciranda financeira, na especulação,
ou seja, no setor improdutivo da sociedade.
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Sindicato
dos Trabalhadores do Judiciário Federal / RS Filiado à CUT e
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Guimarães Edição: Rosane Vargas Redação:
Marcelo Antunes e Rosane Vargas |