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D&A
Entrevista: Arthur Bloise
por Rosane Vargas
Em
defesa de um sindicalismo autônomo
Coordenador-geral da Assufrgs e diretor
de Imprensa e Formação da Fasubra,
Arthur Bloise fala, nesta entrevista, sobre a
relação dos sindicatos representativos
dos servidores com o governo Lula e com a CUT.
Bloise também avalia a greve em defesa
da Previdência e crtica grupos que usaram
o movimento para aparecer. Para o dirigente sindical,
os direitos dos trabalhadores só serão
ampliados se houver permanentes mobilização
e negociação.
Direito &
Avesso - O governo Lula assumiu sob uma grande
expectativa dos servidores públicos, depois
de oito anos de FHC. Mas então vieram um
reajuste de apenas 1% e o envio ao Congresso de
uma proposta de Reforma da Previdência considerada
pior que a de FHC. Quais são as expectativas
atualmente em relação ao governo?
Arthur Bloise Defendo o sindicalismo classista,
que é autônomo e que persegue um
objetivo claro: o socialismo. Afirmo, portanto,
que houve uma mudança qualitativa importante
no governo central do país com a eleição
de Lula. Não se conquistou o poder nem
o socialismo, mas trata-se aqui de um país
subjugado há 500 anos, onde o povo fez
uma opção clara pela esquerda, pela
mudança. Trabalhar para que ela ocorra
é dar continuidade, na prática,
à rejeição ao neoliberalismo
e seus defensores. No governo Lula, os sindicatos
devem permanecer lutando pelo aumento salarial,
pelos direitos já conquistados e por sua
ampliação. Mas também têm
que interferir na mudança do tipo de Estado,
tendo opinião sobre todas as questões.
Algum sindicato realizou manifestação
sobre a Reforma Tributária? Ali há
questões de fundo, como a taxação
das grandes fortunas, e a resistência das
classes dominantes é feroz. Quanto ao reajuste:
é absolutamente insuficiente e, em relação
à Reforma da Previdência, sou de
opinião que ela foi precipitada, acelerada,
e sou um crítico contundente dos fundos
de pensão privados. Expectativas? Se os
sindicatos se fortalecerem e acabar a divisão
artificial, com a construção de
unidade nas questões estratégicas,
vamos influir nas ruas e nas negociações
de forma decisiva para que este governo seja de
fato dos trabalhadores. Quero deixar claro que,
com todas as críticas, acredito que o sindicalismo
brasileiro foi responsável por lutas que
impediram avanços maiores do neoliberalismo
no Brasil.
Direito & Avesso - Inicialmente, a CUT mostrou-se
favorável à negociação
de emendas e reticente em relação
ao movimento grevista, o que gerou cobranças
na base em várias categorias. A greve afetou
a relação dos sindicatos com a Central?
Bloise Acompanhei o processo desde o início
e posso afirmar o seguinte: muito do que aconteceu
de fato não se publicou em nenhum veículo
da grande imprensa. A negociação
foi pífia? É fato. Houve atropelo
no envio da reforma? É fato. O conteúdo
era ruim? Evidente. Mas também houve o
seguinte: qual o problema de se apresentarem emendas
no Congresso Nacional? Todas as mudanças
favoráveis aos trabalhadores no projeto
original foram fruto de emendas e obviamente foi
decisivo o movimento grevista. Não vejo
contradição. Mas existiu o setor
do sindicalismo (e partidário) que optou
por se fortalecer na base do quanto pior,
melhor. A intenção era clara:
quanto mais o governo errar, mais a gente cresce
e aparece. E que se rale o objetivo, que é
defender os direitos dos trabalhadores. Não
compactuo com essa política. Digo mais:
o presidente nacional da CUT errou grosseiramente
diversas vezes. Estive presente em algumas e pude
fazer a crítica dentro dos fóruns
cutistas. Agora, vaiar a CUT em praça pública,
dar entrevista a jornais de direita para aparecer
na mídia e esquecer que os direitos que
temos hoje são fruto da luta dessas organizações
é fazer coro com o conservadorismo. A imprensa
deu espaço porque virou defensora dos nossos
direitos? Duvido! Ela jogou e joga no desgaste
do sindicalismo, do governo Lula e torce por um
retorno triunfal. No sindicato em que atuo, a
relação com a Central é de
crítica aos erros, mas de defesa da CUT
e manutenção da filiação
a ela. Onde o discurso foi outro, há motivos
para eu acreditar que estejam defendendo a desfiliação.
E se filiar a quê? Às centrais de
direita ou de fachada?
Direito & Avesso - A Reforma da Previdência
ainda está em debate e outras reformas
virão. Como trabalhar a unificação
de bandeiras dos trabalhadores do serviço
público e da iniciativa privada?
Bloise Esse foi um erro que critiquei na
greve. Como fazer movimento unificado se não
há bandeira unificada? Não era só
a CUT que defendia a apresentação
de emendas. Várias entidades defendiam
emendas, a minha federação (Fasubra)
apresentou um substitutivo global aos deputados
federais. Isso significa o quê? Que ainda
impera a visão simplista de que, se eu
tenho maioria no movimento, mesmo que conjuntural,
eu passo por cima de tudo e de todos sem ter a
visão de conjunto e estratégica.
Os setores do funcionalismo federal, estadual
e municipal não se unificaram. No plano
federal, não se unificou o Legislativo
e o Executivo, por exemplo. Todos os discursos
afirmavam para a sociedade que a luta não
era corporativa, mas, na hora do vamos ver,
a luta era pela manutenção dos direitos
da sua categoria. Uma luta importante como a redução
da contribuição dos autônomos
na Previdência fazia parte das propostas,
mas, ficava na prática, sempre lá
no segundo escalão, entende? Daí
não tem como pensar em unificação.
Direito & Avesso - Como os SPFs podem disputar
a opinião pública com a grande mídia,
levando-se em conta, também, o preconceito
de uma parcela da sociedade em relação
aos trabalhadores do serviço público?
Bloise Aprendi uma coisa: precisamos ter
cuidado com esse negócio de disputar com
a grande mídia. Já vi companheiro
defendendo barbaridades para aparecer nas capas
dos grandes veículos de comunicação.
E falava sério! Os grandes movimentos de
massa, os que transformam e mudam a mentalidade
de uma comunidade ou uma população
inteira são frutos de planejamento, de
trabalho árduo e paciente, pois não
vêm da noite para o dia. Nestes tempos de
individualismo, unificar as reivindicações
e unir os sindicatos são alguns exemplos
simples que derrubam preconceitos.
Direito & Avesso - Como avalias o movimento
dos SPFs depois da greve a favor da Previdência
Pública?
Bloise Com todas as críticas que
faço ao movimento, defendi as decisões
dos fóruns dos servidores federais e a
própria greve como instrumento de luta.
A chegada de um representante dos trabalhadores
ao governo, ainda mais num Estado conservador
como é o brasileiro, não significa
por si só a vitória completa e o
anúncio de direitos plenos. A disputa torna-se
imprescindível e precisamos nos qualificar
para ela, mobilizando sempre e negociando para
defender e ampliar as conquistas dos trabalhadores.
Carta
ao Leitor
Desde o momento em que
o governo apresentou o projeto de Reforma da Previdência,
o Sintrajufe assumiu uma posição
avançada. Em janeiro, durante o FSM, realizamos
o primeiro seminário sobre a reforma, entre
outros que organizamos em várias cidades
do estado. Em 13 de fevereiro definimos, em assembléia
geral, os eixos para aquele momento: retirada
do PL 9, auditoria nas contas da Previdência
e priorização, pelo governo, da
Reforma Tributária, com a taxação
do grande capital. No início de abril,
realizamos uma plenária para discutir as
reformas e decidimos buscar a unificação
da luta com todos os setores do serviço
público, acompanhando o calendário
nacional. De abril a junho, construímos
a greve realizando várias paralisações.
Aprovamos o indicativo de greve a partir de 25
de junho. Na plenária dos federais, esse
indicativo não foi aprovado, ficando o
início da greve para 8 de julho.
Apesar de nossos esforços, não conseguimos
uma campanha conjunta com a maioria do serviço
público. Cada sindicato optou por fazer
uma parte da campanha e ocupar alguns espaços
na televisão e no rádio. Infelizmente,
a falta de maturidade do movimento levou algumas
entidades a preferirem lançar campanhas
diferenciadas, a despeito da discussão
sobre a formatação da campanha unificada.
Apostamos na construção de um movimento
capaz de unificar as três esferas: União,
estados e municípios. Sabíamos da
dificuldade de construir uma greve dessa envergadura,
mas trabalhamos para tanto. Em razão dos
gastos envolvendo quatro caravanas a Brasília,
assembléias estaduais semanais e outras
tantas despesas, vimo-nos forçados a realizar
uma chamada extra. Essa chamada extra constituiu-se
em uma nova fonte de conflitos no interior da
categoria, o que acarretou um volume considerável
de desfiliações.
Quanto aos rumos que a greve tomou e os seus resultados,
podemos dizer que, se o movimento não atingiu
as três esferas, ao menos conseguimos fazer
com que o governo recuasse em alguns pontos de
sua proposta original, como no caso da paridade
e da integralidade para os atuais servidores.
No que se refere à nossa organização
interna, a despeito dos problemas enfrentados,
assistimos a uma excelente atuação
do Comando Estadual de Greve. Tal atuação
representou um significativo avanço em
nossa organização. As delegações
do interior se fizeram representar muito bem nesse
comando e os colegas souberam articular várias
atividades em suas cidades, em conjunto com outras
categorias, o que deu grande destaque ao movimento
como um todo.
Enfim, temos evoluído em nossas lutas,
mas o momento requer que estejamos atentos e preparados
para as próximas etapas. E isso exige o
fortalecimento de nossa entidade.
Reforma
da Previdência:
De marajás
a vagabundos e privilegiados (ou o que diriam
os marcianos?)
Os trabalhadores
do serviço público são usados
por governos e empresários sempre que é
necessário encontrar um bode expiatório
para a má gestão do dinheiro público,
para a ineficiência administrativa ou para
as crises geradas pelo sistema perverso em que
vivemos. Este artigo deixa mais claros esses mecanismos,
mostra quem são os responsáveis
pela situação de penúria
vivida pelo povo brasileiro e por que a Reforma
da Previdência virou a prioridade número
1.
Desde a década
de 80, a nação brasileira acompanha
a discussão da Reforma da Previdência,
que ganhou uma tônica mais acirrada no início
dos anos 90, a partir do governo de Fernando Collor.
Foram vários os argumentos utilizados para
justificar a reforma. Sendo os principais a necessidade
de acabar com o déficit que poderia levar
o país à quebra financeira e com
os marajás da era Collor, vagabundos
na era FHC e agora privilegiados no
governo Lula.
Sei que a discussão é muito séria,
mas, pedindo licença aos leitores, vou
fazer uma ironia:
Se um marciano descesse na Terra,
mais precisamente no Brasil, e saísse à
procura dos marajás, dos vagabundos e dos
privilegiados, onde os encontraria?
Vejamos algumas alternativas.
A primeira seriam os servidores públicos
federais, que:
ficaram oito anos apenas com dois reajustes,
o primeiro de 3,5% e outro de 1% mais um abono
de menos de R$ 60,00, enquanto a inflação
foi de 116%;
sofreram com uma redução
de 991 mil para 780 mil no número de servidores
ativos, enquanto as demandas por saúde,
educação, justiça, etc. só
aumentaram desde 1991 e as receitas da União,
dos estados e dos municípios tiveram grande
elevação no período;
em 1998, a chamada minirreforma
da Previdência de FHC aumentou a idade mínima
para a aposentadoria e criou uma série
de obstáculos para fazer valer esse direito;
com suas contribuições, além
de garantirem a sua aposentadoria integral, ainda
geram recursos para o Estado cobrir as aposentadorias
de outros trabalhadores;
trabalham em péssimas condições,
sem a mínima infra-estrutura, seja de ambiente,
seja de equipamentos, seja falta de materiais;
votaram em massa em Lula na esperança
de ter seus direitos respeitados e, ao contrário,
estão agora mais ameaçados ainda,
pois a reforma proposta suprime mais direitos
que todas as reformas realizadas anteriormente.
A segunda alternativa seriam os trabalhadores
do setor privado, que:
perderam 14,7% de sua renda nos últimos
12 meses, fora a redução nos salários
ocorrida desde o início da década
passada;
sofrem com o aumento do desemprego, com
recordes de desempregados desde o governo Collor,
frutos de sucessivas políticas econômicas
recessivas, ditadas pelo FMI;
a partir de 1998, com a reforma de FHC,
apesar de terem contribuído com até
20 salários mínimos, conseguem receber
no máximo em torno de 8 salários
mínimos de benefícios, pois a introdução
do fator previdenciário reduziu drasticamente
o valor das aposentadorias, além de perderem
vários direitos e terem aumentada a idade
mínima para aposentadoria;
apesar de terem votado em massa no atual
governo, estão ameaçados de perder
mais direitos, pois, com a alegação
de que há déficit nas aposentadorias
do setor privado e de que a reforma vai nivelar
e igualar os dois regimes previdenciários,
é inevitável que mais à frente
eles também sejam vítimas do desconto
para os aposentados e pensionistas, de novo aumento
na idade mínima e outras reduções
de direitos.
A terceira escolha do nosso amigo de Marte poderia
recair sobre os grandes empresários, banqueiros
nacionais e internacionais, especuladores, e outros
que:
receberam de juros da dívida da
União, de estados e municípios mais
de R$ 112 bilhões em 2002 e R$ 51 bilhões
nos primeiros quatro meses de 2003;
devem à Previdência mais de
R$ 67 bilhões; receberam uma anistia no
governo FHC, o chamado Refis I; e outra, ainda
mais vantajosa, no atual governo, o Refis II,
que lhes permite parcelar suas dívidas
no mínimo em dez anos, com juros subsidiados,
pela TJLP, em torno de 12% ao ano, enquanto o
governo paga 20%, com a taxa Selic de sua dívida,
para esses caloteiros fiscais;
também estão em débito
de outros bilhões com a Receita Federal
(é de R$ 400 bilhões o total da
dívida inscrita na Previdência e
na Receita Federal e terão também
nesses casos os benefícios do Refis II);
mesmo assim, alguns desses devedores participam
de ministério do atual governo e também
de conselhos criados, inclusive para discutir
as reformas da Previdência e Tributária,
nas quais são os principais interessados;
outras grandes empresas devedoras da Previdência
e da Receita Federal participaram das privatizações
e hoje descontam do Imposto de Renda o ágio
que pagaram à época da compra das
empresas estatais, que vêm aumentando as
tarifas de maneira abusiva, como na telefonia,
na eletricidade, etc;
são os únicos beneficiados
pelas altas taxas de juros, como a Selic, de 22%,
pois detém uma grande quantidade de títulos
públicos, fazendo explodir seus lucros,
como no caso dos bancos;
com a Reforma da Previdência receberão
o dinheiro retirado dos trabalhadores do serviço
público tanto nos fundos de pensão
privados quanto em caso de fundo de pensão
público ou fechado, pois estes têm
a obrigação de aplicar percentuais
de seus depósitos em mercados de ações
e outros papéis especulativos;
são beneficiados com a conta CC
5 do Banco Central, que possibilita o envio de
dinheiro para fora do país sem nenhum controle.
Foram US$ 107 bilhões nos últimos
dez anos (US$ 30 bilhões só pelo
Banestado).
Ou talvez os políticos, que:
aumentam seus vencimentos sem nenhum controle
do povo, como os deputados federais, que acrescentaram
em seus vencimentos mais de 50% no início
deste ano, criando um efeito cascata para deputados
estaduais e vereadores.
que em sua maioria não votaram em
Lula, pois tinham medo que ele acabasse com esses
privilégios.
Creio que não haveria nenhuma dúvida
na hora da escolha, mesmo para um ser de outro
planeta. Desde Collor, passando por Itamar, FHC
e agora com Lula, o que norteia a discussão
da reforma é o FMI, que em todas as cartas
de intenção assinadas com o governo
brasileiro exige a aceleração da
Reforma da Previdência. Essas imposição
e pressão correspondem às necessidades
do sistema financeiro internacional, que vive
uma crise profunda, em função da
especulação financeira. A relação
é de aproximadamente 1% entre a movimentação
diária de papéis e títulos
no mundo e a produção efetiva de
riqueza. Ou seja, a especulação,
em um único dia, é cem vezes maior
do que a produção de mercadorias.
É isso que explica os grandes escândalos
de falsificação de balanços,
como nos Estados Unidos, para elevar artificialmente
o patrimônio das empresas e, assim, aumentar
o valor de suas ações nas bolsas
de valores. Tal situação leva, freqüentemente,
a crises, com perda de trilhões de dólares
nas bolsas, em poucos dias, simplesmente porque
os papéis das principais empresas se desvalorizaram.
Mas alguém precisa garantir o lucro desses
senhores, colocando mais dinheiro nas bolsas e
na especulação. E a Reforma da Previdência
é, sem dúvida, a que mais rapidamente
pode destinar recursos para cobrir o rombo das
grandes empresas e dos bancos.
Não é à toa que a reforma
é, usando um jargão atual, a
mãe das reformas em todo o mundo.
Assim como no Brasil, na Europa os trabalhadores
se defrontam com os mesmos ataques a seus direitos.
Na França, na Alemanha e na Áustria,
dentre outros a enorme resistência, com
greves gerais, fez vários governos recuarem.
Na América Latina, também foram
feitas reformas em vários países.
Nenhuma delas resolveu o problema que supostamente
existia.
A criação dos fundos de pensão
não propiciou melhora nas aposentadorias.
Aconteceu o contrário, pois o fundo não
garante um benefício no final do período
de contribuição. Ele funciona como
um clube de investimento, ou fundo
de investimento. O que se tem garantido
ao final é uma quota dos investimentos
realizados. Como vimos acima, no mercado especulativo
ações, títulos que
estão em geral supervalorizados ,
cuja tendência é a queda do valor
desses papéis. Além disso, há
as taxas de administração, ou custo
operacional, que são muito altas.
Nas reformas da América Latina, verificou-se
que, no setor privado, o custo operacional é
muito maior que no setor público. Somente
essa taxa pode levar 50% das contribuições
pagas. No Chile, por exemplo, a reforma reduziu
o valor dos benefícios, que ficou em no
máximo de 50% dos salários recebidos
quando o trabalhador estava na ativa. Isso ainda
vai se agravar com a perda de rentabilidade dos
fundos de pensão no último período.
No entanto, é na Argentina que a realidade
se impôs de uma maneira mais clara e cruel.
De uma situação superavitária
em 1993, de US$ 2 ,2 bilhões ao ano, a
reforma gerou um déficit de US$ 6,9 bilhões
em 2000, o que foi um dos fatores importantes
para a quebra que houve em 2001.
No Brasil, o dinheiro que será retirado
dos servidores e do estado e enviado para os fundos
de pensão terá, de alguma forma,
que voltar para as mãos do governo, pois
o Estado brasileiro é o maior devedor
tem uma dívida em torno de R$ 1 trilhão
e necessita desesperadamente do refinanciamento.
Mesmo na lógica do pagamento da dívida,
o dinheiro que antes não tinha juros agora
terá de ser adquirido no sistema financeiro
pelo menos a 20% (taxa Selic), o que certamente
agrava a já precária situação
fiscal do país.
A reforma não é solução
nem para o governo nem para os trabalhadores.
Ela só servirá para os bancos nacionais
e internacionais, os grandes empresários
e os especuladores de plantão. Os mecanismos
de supressão de direitos previdenciários,
como a minirreforma de FHC em 1998, não
melhoraram em nada a situação da
Previdência. Ao contrário, só
fizeram agravá-la, pois é evidente
que a raiz do problema não está
no benefício que o trabalhador recebe.
O governo diz que a reforma possibilitará
uma economia de R$ 53 bilhões em 30 anos.
Independentemente de essa situação
se confirmar ou não a meu ver, não
, não seria mais lógico e
racional o governo receber esse montante, em torno
de R$ 1,8 bilhão ao ano, de outra forma?
Por exemplo:
cobrando dos devedores da Previdência,
que representam R$ 67 bilhões da dívida
atual.
cobrando os R$ 400 bilhões devidos
no total à Previdência e à
Receita Federal.
retirando do superávit primário,
aumentado no atual governo, que levou ao pagamento
recorde de R$ 51 bilhões para a dívida
em quatro meses do ano.
controlando o câmbio para impedir
a saída de dólares, que foi de US$
107 bilhões em dez anos nas contas CC-5
do Banco Central (só pelo Banestado foram
US$ 30 bilhões).
Essas medidas, feitas em conjunto ou isoladamente,
possibilitariam muito mais dinheiro do que é
pretendido na Reforma da Previdência. Essa
reforma, imposta pelo FMI, não serviu ao
país nos governos de Collor e FHC e tem
ainda menos sentido no governo Lula, razão
pela qual ela deveria ter sido retirada ou suspensa,
para que uma verdadeira discussão se fizesse
sobre a sua necessidade e sobre as medidas que
deveriam ser tomadas.
*
Assessor econômico do Sintrajud SP, especial
para o Sintrajufe RS
A
greve e a solidariedade de classe
por
Orildo Longhi, Servidor lotado na 4ª Vara
Trabalhista de Porto Alegre
Os trabalhadores
públicos brasileiros, em sua maioria, foram
surpreendidos pela Reforma da Previdência
encaminhada ao Congresso pelo governo Lula, que
se elegeu com o apoio maciço e esperançoso
da maioria destes mesmos servidores nas recentes
eleições do ano passado. Por estarem
acostumados a ver o Partido dos Trabalhadores,
juntamente com os demais partidos de esquerda,
ao lado dos servidores em suas lutas históricas
contra o desmonte do Estado promovido pelo governo
neoliberal de FHC, os trabalhadores não
esperavam que esta mesma e malfadada Reforma da
Previdência (mesma pela origem = FMI) fosse
encaminhada pelo novo governo. Este era para ser
o Governo da Esperança, da construção
de um novo modelo de país, que lutaria
pela inclusão dos desfavorecidos, nunca
para retirar direitos dos trabalhadores.
Infelizmente, o que se viu foi o novo
governo, utilizando-se de sua popularidade de
início de mandato conjugada com
a equivocada visão acerca dos servidores
públicos, que, de há muito, vêm
sendo tachados pela mídia como privilegiados
, dar o golpe fatal no pouco que ainda restava
depois do terremoto promovido pelo governo FHC,
de quem o atual tem se mostrado o mais fiel e
competente seguidor. Esqueceu-se,
parece, dos longos oito anos de vacas magras de
FHC.
Diante disso tudo, não restou outro recurso
aos servidores públicos senão utilizar-se
do mais antigo e atual instrumento de luta dos
trabalhadores, a greve. Essa greve, já
nos primeiros dias, mostrou o imponderável:
ao contrário do que afirmava equivocadamente
o governo, impôs sérias e importantes
mudanças no texto da reforma. Também
mostrou ao novo governo que ele estava equivocado
nos rumos que estava tomando, ao quase nada se
diferenciar do antigo régimen. Não
foi para isso que o povo escolheu um trabalhador
para ser seu presidente!
No entanto, nem todos os servidores públicos
entenderam a situação dessa forma.
Embora desiludidos e revoltados com o novo governo,
preferiram não reagir com uma luta construtiva.
Alguns, talvez por acharem que de nada adiantaria
a luta diante de desafio tão grande (cedo
esse equívoco foi demonstrado, pois a greve
fez o governo recuar). Outros preferiram não
acreditar na verdadeira intenção
do governo de levar adiante a reforma e ficaram
esperando uma providência dos céus
ou da magnanimidade dos políticos...
Outros, pior, preferiram esperar o resultado da
luta dos grevistas, sem nada arriscar, pois só
quem luta se expõe. Não quiseram
sequer arriscar sua cômoda situação,
suas FCs ou até seus cargos ou futuras
chances (acreditam que os bons serão
lembrados...). Esqueceram que quem não
estava na luta estava, de fato, ao lado do governo,
ajudando a implementar aquele projeto.
Por fim, alguns, acredito que poucos, não
quiseram participar da greve nem fazer a luta
porque acreditam sinceramente (embora equivocadamente,
do meu ponto de vista), que esta reforma previdenciária
é justa e correta, ou talvez apenas a possível,
segundo diz o governo.
Sejam essas as razões ou outras, o certo
é que muitos servidores não participaram
da luta.
Alguns, inclusive, negaram-se até mesmo
a apoiar aqueles que estavam lutando por todos,
inclusive por eles. Lembram o episódio
da chamada extra?! Arrisco dizer que aqueles que
resistiram à chamada extra queriam e querem
que o malfadado projeto do governo seja integralmente
vencedor. Do contrário, como explicar a
intenção de enfraquecer a luta dos
grevistas que, repita-se, estavam lutando por
todos os servidores, inclusive por aqueles que
negaram essa pequena ajuda, ainda que apenas uma
participação econômica?!
O dinheiro da chamada extra serviu para garantir
a continuidade das caravanas a Brasília,
onde os colegas iam pressionar os congressistas,
e a própria continuidade da greve em si.
Essa falta de solidariedade é inexplicável
ou não. A solidariedade e o amadurecimento
político de uma categoria não surgem
espontaneamente, não surgem ao acaso nem
se constroem de uma hora para outra, mas são
fruto de uma longa construção, engendrada
e fortalecida na luta diuturna e séria
de uma categoria ou de parte dela.
A greve é parte dessa construção,
pois ela solidifica o espírito coletivo
e aperfeiçoa a generosidade que existe
entre as pessoas.
A greve constrói cidadania, que é
o oposto do egoísmo e da mesquinhez.
Chamada
extra ou fundo de greve?
Causou-me estranheza
a atitude de alguns colegas frente à chamada
extra de 1% durante a última greve. Querer
os benefícios e não querer arcar
com os custos de uma luta que é de todos
nós é, no mínimo, uma incoerência.
Quando deliberamos pela greve, ninguém
nos disse que seria uma luta fácil. Pelo
contrário, sabíamos que teríamos
pela frente uma parada duríssima. A decisão
de se fazer uma chamada extra foi tomada em assembléia
geral, para a qual foi convocada toda a categoria.
A proposta foi aprovada por ampla maioria, com
pouquíssimos votos contra e com poucas
abstenções.
Ano passado, após a greve do PCS, também
em assembléia geral, foi criado um fundo
de greve que começou a ser constituído.
Lamentavelmente, nossa categoria foi impelida
novamente à luta muito antes do que gostaríamos
ou esperávamos. Por conta disso, não
houve tempo para que o fundo pudesse crescer o
suficiente para fazer frente às despesas
da greve. A contribuição mensal
para os cofres do Sintrajufe custeia as despesas
ordinárias de nosso sindicato, tais como
folha de pagamento, água, luz, telefone,
manutenção, repasses à Fenajufe,
à CUT, etc. Durante a greve, muitas outras
são assumidas: campanhas na mídia,
transporte das delegações do interior,
hospedagem, alimentação, caravanas
a Brasília, apenas para citar algumas.
Outras entidades sindicais, como a Associação
dos Docentes da Universidade Federal de Pelotas
(Adufpel), a Associação dos Servidores
da Universidade Federal de Pelotas (Asufpel),
a Associação dos Professores da
Fundação Universidade do Rio Grande
(Aprofurg), constroem seus fundos de greve durante
a própria greve. Nas entidades citadas,
dobra-se o valor da contribuição
sindical a cada mês em greve. Para exemplificar:
na greve contra a PEC 40, os sindicalizados sofreram
desconto em dobro nos meses de julho, agosto e
setembro, pois voltaram a trabalhar somente no
dia 4 de setembro.
Proponho que, de agora em diante, adotemos esse
método para custear nossos movimentos.
Parece-me justo que seja assim. Que paguemos um
dinheiro extra, durante a greve, para que tenhamos
um verdadeiro fundo de greve e saibamos que nossas
vitórias ou derrotas dar-se-ão apenas
no campo político.
Construímos nesse movimento uma unidade
nunca vista em nossa categoria. Devemos tratar
de mantê-la. Difícil entender que
haja pessoas contra o aporte de dinheiro e que
queiram recebê-lo de volta. Mais difícil
ainda pensar que alguns queiram a desfiliação.
Isso não significa que o Sintrajufe possa
se eximir da prestação de contas
que nos é devida. Temos a obrigação
de saber como e onde é gasto nosso dinheiro.
Cobremos, pois, de nossos dirigentes.
Sabemos que não se faz greve sem dinheiro.
Por isso devemos discutir profundamente sobre
esse tema. O que não podemos aceitar é
uma pressão descabida feita em larga medida
por colegas que não participam de nossos
movimentos, mas que se beneficiam de todas as
nossas lutas. Se tivermos de perder alguns filiados,
que seja. Paguemos o preço. Que essas pessoas
saibam que farão falta ao Sintrajufe. Que
saibam também que, mais dia menos dia,
sentirão falta do suporte que somente um
sindicato organizado pode oferecer.
por Henrique
Mascarenhas de Souza*
* Técnido
judiciário na 1ª Vara Trabalhista
de Pelotas
Uma
grande homenagem
Não pretendo
aqui tecer teses ou discursar sobre política
ou ideologia. Nem quero distinguir grevistas e
não grevistas, como duas classes distintas
na mesma categoria. Quero, sim, falar sobre esta
categoria consciente, politizada, aguerrida e
mobilizada, que merece todas as homenagens por
mais este enfrentamento com os poderosos, por
mais esta batalha pelo bem do serviço público.
Quero prestar as mais fortes homenagens aos que
tiveram a coragem necessária para integrar
a mobilização, atuando de forma
direta e exercendo seu direito constitucional
de manifestação e seu dever de reivindicar
a melhoria social e de sua carreira, mas também
àqueles que não estavam suficientemente
incentivados para participar da mobilização.
Aos que se fizeram presentes às assembléias,
às reuniões, aos que manifestaram
sua indignação, fizeram a disputa
política em Brasília, participaram
de atos e passeatas, mas também àqueles
que enviaram aerogramas e e-mails para os deputados,
trouxeram à tona na escola, no curso, na
academia e no barzinho o assunto reformas
e souberam defender o serviço público
brasileiro, suas próprias carreiras e merecidas
aposentadorias sem constrangimento.
Aos que assimilaram o golpe e se sentiram traídos
por ter dado seu voto e feito campanha para o
governo Lula, mas também àqueles
que acreditam, mesmo que minimamente, no caráter
social da reforma e na reforma possível
pregados pelo Planalto. Aos que acreditavam não
ser mais possível conviver com constantes
retiradas de direitos conquistados ao longo dos
anos de luta, mas também àqueles
que viam na greve um movimento meramente político,
sem caráter reivindicatório.
Aos que acreditavam ser possível, ainda
que difícil, a retirada da PEC 40 ou sua
derrota no Congresso Nacional, mas também
àqueles que não viam razão
para uma mobilização que já
nasceria praticamente derrotada. Aos
que tomaram a frente e foram às ruas com
coragem, mas também àqueles que,
mesmo conscientes da necessidade da luta, não
lutaram.
Não merecem, a meu ver, diferenciação
dentro da categoria profissional os que participam
ativamente e os que esmoreceram por quaisquer
motivos, pois somos todos agentes da história
e, passivos ou ativos, somos convictos e conscientes
do nosso papel no mundo e do futuro que legaremos
aos nossos filhos.
Diante da certeza da consciência de todos
os colegas, apesar da calculada inércia
de muitos, por motivos particulares aos quais
talvez não caiba contestação,
pois íntimos e inerentes ao ser humano,
é que acredito que virão dias de
maior união do que os de hoje, pois a união
é a nossa força. Não que
a mobilização que ora é suspensa
não tenha se mostrado grandiosa, mas quanto
maior, parece-me, melhor.
A exemplo de todas as mobilizações
anteriores, a categoria não foi contemplada
com a totalidade de suas reivindicações.
A proposta aprovada na Câmara dos Deputados,
ainda que maléfica para os servidores públicos
e para o conjunto da sociedade, ficou bem aquém
do estrago previsto pela proposta inicial do governo,
sendo as substanciais modificações
operadas fruto de nossa incansável mobilização.
Teríamos sido mais felizes, certamente,
se pudéssemos ter agregado mais força
e união ao movimento, o que certamente
ocorrerá em nossos próximos embates,
pois a luta pela justiça parece ser infinita.
Preparemo-nos, pois, todos os homenageados nesta
singela mensagem, para, uns, assistir de dentro
e sentir na própria carne o sabor da participação
entre amigos na construção histórica
de um mundo melhor, deixando brotar-lhe no coração
tal espírito, e outros, para não
perder jamais o espírito de reivindicação
e de luta que trazem enraizados em si mesmos.
Parabéns, a TODOS nós.
por
Sérgio Amorim dos Santos*
*
Agente de segurança judiciária em
Taquara
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a pena ver, lembrar, guardar: você faz parte
desta história
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Os
primeiros a enfrentarem o governo
Simbolizando
o anseio de mudança de milhões de
brasileiros, o governo Lula assume no início
deste ano com enorme popularidade e prestígio.
Mas, desde o começo, os compromissos que
Lula se propôs a respeitar são os
dos governos anteriores com o FMI e não
aqueles que um dia o PT assumiu junto à
classe trabalhadora deste país. Nas cartas
de intenções ao Fundo, o governo
deu satisfações dos seus primeiros
passos. O novo mundo possível arquitetado
por Lula, Palocci e Dirceu é o aprofundamento
do modelo anterior.
A primeira grande mudança priorizada pelo
novo governo é a privatização
da Previdência tão sonhada por FHC.
O projeto do governo anterior é substituído
por outro que ataca de forma mais violenta os
nossos direitos. Lula se alia aos meios de comunicação
e a setores de todos os partidos de direita do
país para empreender uma campanha de mentira
e desmoralização dos servidores,
na qual nos acusa de sermos privilegiados. Ele
se gaba, junto à burguesia e aos representantes
do imperialismo, da velocidade com que está
conseguindo levar adiante esta emenda constitucional.
Mas a força do novo governo e a voz unânime
dos grandes meios de comunicação
contra os privilégios e o
déficit da Previdência não
nos intimidou.
Fomos nós, os servidores públicos,
os primeiros a fazerem ecoar a voz contra a entrega
de nossas riquezas ao capital estrangeiro, contra
a continuidade do governo anterior e contra os
ataques à classe trabalhadora. Sabíamos,
desde o começo, que não seria fácil.
O fato de lutarmos contra um agente que sempre
se apresentou como a face oposta daquilo que é
aplicado hoje ajudou e ajuda a confundir a população.
A burguesia e a imprensa procuram legitimar seus
anseios mostrando o apoio de quem antes as criticava:
Viram, até quem era contra hoje sabe
que essa é a única saída.
O apoio popular ao nosso movimento, embora importante,
talvez tenha sido menor que nos anos anteriores.
A greve contra a Reforma da Previdência
foi a mais política dos últimos
anos. Conquistamos um grau de adesão e
de unidade inédito. Setores que não
têm tradição de greve, como
técnicos e auditores da Receita Federal,
foram fundamentais nesse movimento. Construímos
várias passeatas unificadas em Brasília
com 20, 30, 70 mil pessoas, comparáveis
às do Fora, Collor e às
do Fora, FHC.
Não deixamos que o governo saísse
ileso desse embate. Para aprovar a PEC 40 na Câmara
dos Deputados, o governo teve que mostrar sua
cara e desmascarar os seus aliados. Pela primeira
vez, pudemos ver o PT colocando a Polícia
Militar de Brasília para impedir o acesso
de manifestantes ao Congresso. A repressão
foi utilizada para nos afastar das decisões,
para agredir lideranças dentro do Congresso
e para agredir uma comissão de negociação
que esperava o ministro da Previdência,
junto com a senadora Heloísa Helena, na
sede daquele órgão. O presidente
da CUT atacou a nossa greve publicamente até
a véspera da votação. O governo
conseguiu os votos necessários para a PEC
com o tradicional é dando que se
recebe, que consiste na compra de parlamentares
em troca de verbas para o orçamento do
ano que vem.
Nossa categoria mostrou disposição,
radicalidade e firmeza ao iniciar a greve com
força na data marcada pela Plenária
da Cnesf e ao ser uma das últimas a suspendê-la.
Foi uma greve bem ativa, com a participação
em diversas manifestações, debates,
atividades culturais e de descontração.
No início, construímos diversas
atividades unificadas com outras categorias, o
que impulsionou e consolidou nosso movimento.
A dinâmica de atividades unificadas não
continuou se dando até o fim do movimento.
Nas últimas semanas, houve atos unificados
em Porto Alegre que não foram divulgados
ou foram muito pouco divulgados entre nós:
o lançamento do painel com a cara dos deputados
que votaram a PEC no Largo Glênio Peres
e um ato com servidores estaduais na Praça
da Matriz. Nas últimas semanas, as nossas
atividades passaram a não acompanhar o
tom da greve nacional, pois houve uma preocupação
de dirigentes daqui no sentido de amenizar os
termos e de suavizar a indignação
da categoria.
Lideranças históricas nossas disseram
até a última semana que tínhamos
que defender o governo e combateram a indignação
da categoria tratando-a como um simples sentimento
negativo de vingança. Cartazes
expondo a cara dos deputados foram colados em
Novo Hamburgo e Rio Grande, mas não em
Porto Alegre. Tudo isso porque dirigentes do nosso
sindicato e do grupo Justa Causa ainda não
romperam com o governo e com os seus partidos,
justificando sua postura com o discurso de que
o governo estaria em disputa.
Enquanto esperamos alguma disputa que não
seja por cargos dentro do governo, contra os projetos
da burguesia e do FMI como a Alca, a privatização
dos bancos estaduais, a reforma trabalhista, o
arrocho salarial, a Reforma Judiciária,
o acobertar dos crimes da ditadura , nós,
servidores, fazemos a verdadeira disputa dos rumos
do país na sociedade. Estamos preparando
a classe trabalhadora para as próximas
lutas e desmascarando o verdadeiro caráter
que este governo assumiu. A classe trabalhadora
acreditou na disputa que se travou nas últimas
eleições presidenciais; hoje todos
os quatro candidatos viáveis
da época estão representados por
seus apoiadores no atual governo, juntos para
nos atacar ainda mais. A consciência, a
indignação contra quem nos traiu
e a certeza da força da classe trabalhadora
para enfrentá-los é o nosso motor.
A luta continua.
* Membro eleito
do Comando Estadual de Greve e do Movimento por
uma Tendência Socialista (MTS), corrente
interna da CUT
A
cigarra e a formiga
por
Dinah Lemos
Eu sou
cigarra, defendo o direito ao ócio, ao
prazer, à alegria de viver; vou à
festa do sindicato para dançar a noite
inteira e, amanhã, volto ao trabalho dizendo:
eu sou cigarra e vim cantar pra vocês!,
foi essa a minha última intervenção
na greve dos servidores públicos, em 2003,
contra a PEC 40, proposta pelo primeiro presidente
da República eleito pelo voto da esquerda
depois da ditadura militar. Quis dizer que tinha
orgulho de nossa greve, de ser libertária
e de pertencer à esquerda brasileira. Depois
fiquei pensando em como as palavras ditas são
insuficientes para representar a complexidade
de nossos sentimentos e atitudes.
Quem nos define: a cigarra ou a formiga? A fábula
coloca duas necessidades humanas básicas
na forma de uma oposição, contradição
entre opostos, a necessidade de brincar, sonhar
e descansar contra a necessidade de proteger a
si e aos seus pares. Ela representa o esforço
da humanidade, desde seu surgimento até
meados do século XX, para superar a sua
fragilidade essencial: no mesmo instante em que
nascemos, somos imediatamente invadidos pela cultura
(Eagleton, Terry), sem a qual morreríamos
nas primeiras horas de vida. Esta criatura cósmica
única que somos, até onde vai nosso
campo de conhecimento, desenvolveu o cérebro
a ponto de adquirir a capacidade de inventar sua
própria condição de existência
e, ao mesmo tempo, controlar a existência
do restante da natureza animal e vegetal. O resultado
histórico disso foi a invenção
do trabalho como suplício para muitos e
como prazer para poucos; a criação
da ausência de prazer e do sofrimento para
a esmagadora maioria da humanidade, juntamente
com a conquista de um prazer perverso, tirânico
e culposo para um grupo pequeno de homens e mulheres
que se pensam como uma raça superior, super
e sobre-humana. Os miseráveis e os ameaçados
em geral são cigarras naquilo que têm
de dificuldade de sobrevivência e são
formigas no momento em que não são
donos de seu destino, sendo forçados a
infindos sacrifícios; os super-humanos
são cigarras no momento em que opõem
seu próprio prazer à segurança
e à preservação da espécie
humana e do planeta e são formigas no instante
em que seu prazer é perverso, solitário,
maquinal.
Na entrada do século XXI, a humanidade
está a descobrir que já inventou
o saber necessário para que todos sejam
felizes e as cigarras e as formigas
vivam a metamorfose de unir o reino da necessidade
ao reino da liberdade, para todos e para cada
um de nós. A cibernética, a alta
tecnologia em geral, a biologia, a química,
a física, a filosofia e o direito são
saberes que já inauguraram instrumentos
para viabilizar um mundo novo, no qual brincar
e trabalhar serão um só acontecimento.
O trabalho é um bem escasso e o conhecimento,
escondido e vetado para a maioria; se o trabalho
e o conhecimento forem distribuídos, com
justiça e eqüidade, todos trabalharão
pouco tempo e usufruirão a fraternidade
criativa durante a maior parte de sua existência.
A felicidade humana é possível,
tecnicamente, mas se opõe como teoria ao
holocausto concreto no qual vivemos hoje. O mundo
está mergulhado na mais completa desordem
jamais vista pela cultura humana. Um punhado de
super-humanos gasta suas 24 horas diárias
lutando para manter multidões em estado
de profundo sofrimento. As grandes corporações
se constroem e se mantêm alimentando a fome,
a dor, a drogadição, as guerras
imperialistas e fratricidas. A moeda, seja ela
o dólar, seja o euro, seja o yuan, é
utilizada na intenção de realizar
efeitos semelhantes aos da bomba atômica;
são representações das armas,
portanto, não mais símbolos de comércio
pacífico e construtivo.
Só há uma maneira de reconstruir
a ordem no planeta, de superar o apocalipse, o
caos, a barbárie: repensar o lazer e o
trabalho para reinventá-los. Precisamos
reorganizar o mundo dentro de cada um de nós
e em nosso entorno, buscar a segurança
e o prazer para todos a um só tempo. Ouvir
e falar, enfrentar e aceitar, brigar e fazer as
pazes; reconhecer a maioria, prestar atenção
à minoria e respeitar; sonhar, insistir
nos sonhos e entender a realidade com precisão;
lutar até cansar e depois descansar sem
culpa; ser para si e ser para os outros com verdadeira
intensidade, religar-nos.
Foi exatamente o que fizeram os servidores públicos
brasileiros, nesta greve de 2003, em defesa da
soberania e do Estado de direito no Brasil.
Muito humanos, os grevistas, mui lindos, mui lindos..
A luta nossa de cada dia
por
Gládis Lorinda Ludwig, servidora da 13ª
Vara trabalhista de Porto Alegre e diretora do
Sintrajufe
Voltamos ao trabalho,
depois de 55 dias de greve, de cabeça erguida,
como deve fazer todo trabalhador que vai para
a rua lutar por seus direitos. Não dá
para ser indiferente. Fazer política é
cumprir a tarefa que a vida nos impõe de
traçar nossos rumos. Certamente essa não
é uma tarefa fácil. Somos levados
a pensar a política como algo distante,
como privilégio de alguns iluminados
que pensam e decidem por nós, na institucionalidade.
A indiferença e a neutralidade ajudam,
na verdade, aos que estão no poder. Não
existe mudança por mágica. Os indiferentes
consideram-se eternos inocentes ao se excluir
dos acontecimentos. No entanto, nossa omissão,
além de ajudar aos que detêm o poder,
só serve para reforçar a teoria
de que somos conformados e nos deixamos desrespeitar.
É ridículo, ineficiente e primário
ficar protestando, reclamando, falando mal do
governo em pequenos redutos. Precisamos direcionar
nossas revoltas e energias para atitudes políticas
concretas, de forma coletiva e madura, para que
alguma mudança seja possível.
Felizmente, a maior parte da categoria entendeu
a necessidade da luta e se manteve firme o tempo
todo. Aprendemos muito nesses dias, nas discussões
que buscavam as táticas mais adequadas
a cada situação do nosso fazer político.
Convencemo-nos mutuamente de que somos verdadeiramente
capazes de mudar as circunstâncias
com as quais nos deparamos e que podemos ser educados
por meio da nossa própria e consciente
atividade coletiva, com erros, acertos, mas nunca
por omissão.
Em meio a manifestações, atos, caminhadas,
conversas com deputados, marchas, assembléias,
também nos capacitamos teoricamente, com
debates, nos quais surgiam as diferentes opiniões
e posições políticas. O tempo
todo houve a preocupação em construir
uma ponte entre o conhecimento teórico
e a nossa prática, pois entendemos que
a formação do indivíduo é
sobretudo o desenvolvimento, não apenas
do conhecimento, mas da independência intelectual,
do espírito crítico e da capacidade
de elaboração criadora e que a nossa
consciência é uma arma poderosa para
enfrentarmos a exploração que nos
açoita.
Conscientes, podemos converter em ações
práticas os nossos pensamentos e sentimentos,
sabendo que a liberdade nunca foi nem será
dada de presente, mas será obra
de nosso próprio esforço coletivo.
Já o pai da história, Heródoto,
relatava que os citas vazavam os olhos dos seus
escravos para melhor submetê-los. Por isso
devemos sempre estar com os olhos bem abertos
e sadios para saber que não há razões
para sermos escravos. Que é só com
luta que podemos mudar as coisas.
Muitas vezes não somos solidários
com nossos iguais porque pensamos que determinados
assuntos não nos dizem respeito ou que
determinadas coisas não nos atingirão
e esquecemos a regra básica: quando alguém
cala diante da violação do direito
do outro, só porque não está
sendo imediatamente atingido, abre caminho para
que o seu seja violado num futuro, às vezes
bem próximo, em que já não
haja ninguém para defendê-lo. Como
na emblemática histórica do religioso
omisso, que os nazistas foram buscar por último.
Pensando nisso, procuramos sempre relacionar a
luta dos servidores públicos à dos
trabalhadores da iniciativa privada, que já
entendem a importância de nos somarmos,
pois a Reforma da Previdência é apenas
um item no conjunto de reformas que estão
por vir. E, certamente, todos nós seremos
atingidos de uma forma ou de outra.
Nossa luta impôs uma derrota, mesmo que
parcial, ao projeto inicial, herdado de FHC e
apresentado pelo governo Lula. Levantamos o debate
sobre a Previdência e instigamos um processo
de conscientização sobre a importância
do serviço e do servidor público.
Ainda há muito que fazer.
Independentemente das diferentes avaliações
que se possam fazer da greve, dos encaminhamentos
e da conjuntura, podemos orgulhosamente dizer:
lutamos e continuaremos a lutar, pois, como disse
Bertolt Brecht, a injustiça é
humana, mas muito mais humano é o combate
contra a injustiça.
A
greve impensável
por Luiz Carlos
Temes de Quadros, Oficial de Justiça da
JT em Santa Cruz do Sul
Pois é,
o que seria impensável há até
bem pouco tempo atrás acabou acontecendo:
os servidores públicos produziram uma greve
eminentemente política em pleno governo
Lula. Aliás, ainda no começo do
governo que era para ter a nossa cara. Sabedores
da situação nacional e do quadro
de penúria herdado, sabíamos que
não era justo esperar benesses deste primeiro
governo que seria de esquerda. Mas não
sabíamos e não esperávamos
ser o primeiro alvo de ataque daqueles a quem
tanto ajudamos a alcançarem o poder e de
quem tanto imaginávamos que viriam para
promover o desenvolvimento do país, social
e economicamente.
Foram praticamente dois meses de greve, na qual,
mais uma vez, o Judiciário Federal do Rio
Grande do Sul, guiado pelo nosso bravo sindicato,
saiu na frente, liderando a greve e nela permanecendo
até o fim. Em mais uma prova contundente
da democracia que impera no órgão
que representa os trabalhadores do Judiciário
Federal, a condução da greve ficou
por conta do Comando Estadual, composto por membros
da diretoria do sindicato e por representantes
de cada unidade judiciária que se fez representar,
ocasionando, assim, que todas as deliberações
tomadas significavam o pensamento da maioria da
base ali representada. Foram várias e,
por vezes, cansativas reuniões, nas quais
as deliberações tinham que ser imediatas
para que pudessem ser levadas para às assembléias
da categoria realizadas logo a seguir. E nem sempre
o consenso era possível de forma imediata,
diante da pujança de idéias que
brotavam dos cérebros dos privilegiados
participantes do Comando de Greve.
Várias atividades foram realizadas nas
diversas cidades do interior, muitas em conjunto
com colegas servidores de outros setores do serviço
público, como forma de protestar, mas,
também, como forma de conscientizar a população
da verdade sobre a reforma previdenciária
e sobre a real situação do servidor
público, tão diferente da apregoada
pelos setores do governo e da imprensa com ele
comprometida. Assim, vimos crescer nossa união
de servidores e nascer um sentimento de síntese
sindical.
Assistimos, estupefatos, ao governo que nasceu
do movimento sindical ameaçar os grevistas
com corte de ponto e desconto de salários.
Mas não nos curvamos frente às ameaças,
as quais, a bem da verdade, jamais tiveram o endosso
das direções de nossos Tribunais
Regionais, a quem rendemos nossas homenagens.
Graças à nossa mobilização,
juntamente com os demais colegas dos outros setores,
conseguimos fazer acontecer alterações
no projeto original do governo e ainda, acreditamos,
seja possível promover mais alterações
junto ao Senado da República. Certamente,
as alterações conseguidas e as que
ainda ocorrerão não representam
o ideal, mas, diante da inicial avassaladora manifestação
de força governamental, tão bem
decantada pela mídia, é o possível
neste momento.
Lamentável que não possamos ver
uma tomada de atitude governamental no sentido
de promover uma auditoria séria nas contas
da Previdência, de buscar cobrar as dívidas
enormes que estão declaradas por grupos
financeiros e empresariais que continuam a contar
com as benesses do setor público, de acabar
com a enorme sonegação existente
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