CARTA MUNDIAL DAS MULHERES
PARA A HUMANIDADE
Preâmbulo
Nós, as mulheres,
há muito tempo marchamos para denunciar
e exigir o fim da opressão que vivemos
por sermos mulheres e, para afirmar que a
dominação, a exploração,
o egoísmo e a busca desenfreada do
lucro produzem injustiças, guerras,
ocupações, violências
e devem acabar.
Das nossas lutas feministas
e das lutas de nossas antepassadas de todos
os continentes, nasceram novos espaços
de liberdade para nós, para nossas
filhas e filhos para todas as crianças
que, depois de nós, caminharão
sobre a terra.
Estamos construindo um
mundo no qual a diversidade é uma virtude;
tanto a individualidade como a coletividade
são fontes de crescimento; onde as
relações fluem sem barreiras;
onde a palavra, o canto e os sonhos florescem.
Esse mundo considera a pessoa humana como
uma das riquezas mais preciosas. Um mundo
no qual reinam a igualdade, a liberdade, a
solidariedade, a justiça e a paz. Este
mundo nós somos capazes de criar.
Constituímos mais
da metade da humanidade. Damos a vida, trabalhamos,
amamos, criamos, militamos, nos divertimos.
Garantimos atualmente a maior parte das tarefas
essenciais para a vida e a continuidade da
humanidade. No entanto, nessa sociedade continuamos
sendo oprimidas.
A Marcha Mundial das Mulheres,
da qual fazemos parte, identifica o patriarcado
como sistema de opressão das mulheres
e o capitalismo como sistema de exploração
de uma imensa maioria de mulheres e homens
por parte de uma minoria.
Esses sistemas se reforçam
mutuamente. Eles se enraízam e se conjugam
com o racismo, o sexismo, a misoginia, a xenofobia,
a homofobia, o colonialismo, o imperialismo,
o escravismo e o trabalho forçado.
Constituem a base dos fundamentalismos e integrismos
que impedem às mulheres e aos homens
serem livres. Geram pobreza, exclusão,
violam os direitos dos seres humanos, particularmente
os das mulheres, e põem a humanidade
e o planeta em perigo.
Nós rejeitamos
esse mundo!
Propomos construir outro mundo, onde a exploração,
a opressão, a intolerância e
as exclusões não existam mais;
onde a integridade, a diversidade, os direitos
e liberdades de todas e todos são respeitados.
Esta Carta se baseia nos
valores de igualdade, liberdade, solidariedade,
justiça e paz.
IGUALDADE
1. Todos os seres humanos
e todos os povos são iguais, em todos
os domínios e em todas as sociedades.
Eles têm igual acesso às riquezas,
à terra, a um emprego digno, aos meios
de produção, a uma moradia adequada,
à educação de qualidade,
à formação profissional,
à justiça, a uma alimentação
saudável, nutritiva e suficiente, a
serviços de saúde física
e mental, à segurança durante
a velhice, a um meio ambiente saudável,
à propriedade, a funções
de representação política
e de tomada de decisões, à energia,
à água potável, ao ar
puro, aos meios de transporte, às técnicas,
à informação, aos meios
de comunicação, ao lazer, à
cultura, ao descanso, à tecnologia
e às inovações científicas.
2. Nenhuma condição
humana ou condição de vida justifica
a discriminação.
3. Nenhum costume, tradição,
religião, ideologia, nenhum sistema
econômico ou político justificam
que uma pessoa seja posta em situação
de inferioridade, nem permitir atos que ponham
em perigo sua dignidade e integridade física
e psicológica.
4. As mulheres são
cidadãs de pleno direito, antes de
serem cônjuges, companheiras, esposas,
mães, trabalhadoras.
5. As tarefas não
remuneradas, ditas femininas, que garantem
a vida e a continuidade da sociedade (trabalhos
domésticos, educação,
cuidado das crianças e dos familiares)
são atividades econômicas que
criam riqueza e que devem ser valorizadas
e partilhadas.
6: Os intercâmbios
comerciais entre países são
eqüitativos e não são prejudiciais
ao desenvolvimento dos povos.
7. Cada pessoa tem acesso
a um trabalho remunerado justamente, efetuado
em condições seguras e salubres
que a permitam viver dignamente.
LIBERDADE
1. Todo ser humano vive
livre de todo tipo de violência. Nenhum
ser humano pertence a outro. Nenhuma pessoa
pode ser objeto de escravidão, ser
forçado ao casamento, ser submetida
a trabalhos forçados, ser objeto de
tráfico e de exploração
sexual.
2. Cada pessoa goza de
liberdades coletivas e individuais que garantem
sua dignidade, em especial: liberdade de pensamento,
de consciência, de crença, de
religião; de expressão, de opinião;
de viver livremente e de maneira responsável
sua sexualidade, de escolher a pessoa com
quem partilhar sua vida; de votar, de ser
eleita, de participar na vida política;
de se associar, se reunir, se sindicalizar,
se manifestar; de escolher seu domicílio,
sua nacionalidade, de escolher seu estado
civil; de seguir os estudos de sua escolha,
de escolher sua profissão e exercê-la;
de se mudar, de dispor de sua pessoa e de
seus bens; de escolher seu idioma de comunicação
respeitando as línguas prioritárias
e decisões coletivas quanto à
língua de uso e de trabalho; de se
informar, de aprender coisas novas, trocar
idéias e ter acesso às tecnologias
de informação.
3. As liberdades se exercem
na tolerância e no respeito à
opinião de cada pessoa, e dentro de
parâmetros democráticos e participativos.
As liberdades acarretam responsabilidades
e deveres para com a comunidade.
4. As mulheres tomam livremente
as decisões no que se refere ao seu
corpo, sua sexualidade e sua fecundidade.
Elas decidem por si mesmas ter ou não
filhos.
5. A democracia se exerce
se há liberdade e igualdade.
SOLIDARIEDADE
1. A solidariedade internacional
é promovida entre as pessoas e os povos
sem nenhum tipo de manipulação
ou influência.
2. Todos os seres humanos
são interdependentes. Partilham o dever
e a vontade de viver juntos, de construir
uma sociedade generosa, justa e igualitária,
baseada no exercício dos direitos humanos,
isenta de opressão, de exclusões,
de discriminações, de intolerância
e de violências.
3. Os recursos naturais,
os bens e os serviços necessários
para a vida de todas e de todos são
bens e serviços públicos de
qualidade aos quais cada pessoa tem acesso
de maneira igualitária e eqüitativa.
4. Os recursos naturais
são administrados pelos povos que vivem
nos territórios onde eles se encontram,
de respeitando o meio ambiente e atuando para
sua preservação e sustentabilidade.
5. A economia de uma sociedade
está a serviço daquelas e daqueles
que a compõem. Ela é dirigida
à produção e intercâmbio
das riquezas socialmente úteis, que
são distribuídas entre todas
e todos, que garantem principalmente a satisfação
das necessidades coletivas, eliminam a pobreza
e asseguram um equilíbrio entre o interesse
geral e os interesses individuais. Ela garante
a soberania alimentar. Ela se opõe
à busca exclusiva do lucro e à
acumulação privada dos meios
de produção, das riquezas, do
capital, das terras, das tomadas de decisão
nas mãos de alguns grupos ou de algumas
pessoas.
6. A contribuição
de cada uma e de cada um para a sociedade
é reconhecida e independente da função
que ocuparem todas as pessoas gozam de direitos
sociais.
7. As manipulações
genéticas são controladas. Não
existe direito de propriedade sobre o ser
vivo nem sobre o genoma humano. A clonagem
humana é proibida.
JUSTIÇA
1. Todos os seres humanos,
independente de seu país de origem,
de sua nacionalidade e de seu lugar de residência,
são considerados cidadãs e cidadãos
com plenos direitos humanos (direitos sociais,
econômicos, políticos, civis,
culturais, sexuais, reprodutivos, ambientais)
de forma realmente democrática igualitária
e eqüitativa.
2. A justiça social
se baseia em uma redistribuição
eqüitativa das riquezas, que elimina
a pobreza, limita a riqueza e garante a satisfação
das necessidades essenciais da vida, e que
visa à melhoria do bem-estar de todas
e todos.
3. A integridade física
e moral de todas e todos é garantida.
A tortura, os tratamentos humilhantes e degradantes
são proibidos. As agressões
sexuais, o estupro, as mutilações
genitais femininas, as violências específicas
contra as mulheres e o tráfico sexual
e o tráfico de seres humanos são
considerados crimes contra a pessoa e contra
a humanidade.
4. Um sistema judiciário
acessível, igualitário, eficaz
e independente é instaurado.
5: Cada pessoa goza da
proteção social necessária
para garantir seu acesso à alimentação,
ao cuidado, à atenção
à saúde, à habitação
adequada, à educação,
à informação, e à
segurança durante a velhice. Ela tem
acesso à renda suficiente para viver
dignamente.
6. Os serviços
de saúde e sociais são públicos,
acessíveis, de qualidade, gratuitos
para todos os tratamentos, todas as pandemias,
particularmente para HIV.
PAZ
1. Todos os seres humanos
vivem em um mundo de paz. A paz resulta em
particular da: igualdade entre os sexos, da
igualdade social, econômica, política,
jurídica e cultural, do respeito aos
direitos, da erradicação da
pobreza que assegure a todas e todos uma vida
digna, isenta de violência, onde cada
pessoa tem um trabalho e recursos suficientes
para se alimentar, ter moradia, se vestir,
se instruir, estar protegido na velhice, ter
acesso aos cuidados necessários.
2. A tolerância,
o diálogo, o respeito da diversidade
são garantias da paz.
3. Todas as formas de
dominação, de exploração
e de exclusão de parte de uma pessoa
sobre outra, de um grupo sobre outro, de uma
minoria sobre uma maioria, de uma maioria
sobre uma minoria, de uma nação
sobre outra são excluídas.
4. Todos os seres humanos
têm o direito de viver em um mundo sem
guerra e sem conflito armado, sem ocupação
estrangeira nem base militar. Ninguém
tem direito sobre a vida ou morte das pessoas
ou dos povos.
5. Nenhum costume, tradição,
ideologia, religião, sistema econômico
nem político justificam violências.
6. Os conflitos armados
ou não entre os países, comunidades
ou povos são resolvidos pela negociação
que permite encontrar soluções
pacíficas, justas e eqüitativas
em nível nacional, regional e internacional.
CHAMADO
Esta Carta Mundial das
Mulheres para a Humanidade faz um chamado
a todas as mulheres e homens e a todos os
grupos oprimidos do planeta a proclamarem
individual e coletivamente seu poder para
transformar o mundo e modificar radicalmente
as relações existentes e transformá-las
em relações baseadas na igualdade,
na paz, na liberdade, na solidariedade e na
justiça.
Ela chama todos os movimentos
sociais e a todas as forças sociais
a agir para que os valores que defendemos
nesta Carta sejam verdadeiramente postos em
prática, e para que as instâncias
de poder político tomem todas as medidas
necessárias para sua aplicação.
Ela faz um chamado
à ação imediata para
mudar o mundo!