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O
jornalista Marco Aurélio Wessheimer participou
do Encontro do NAF debatendo o tema conjuntura.
No artigo abaixo, ele expõe vários
dos temas levantandos no envento.
Qual a agenda
da esquerda hoje?
Em um mundo saturado pela
mercaodoria e completamente mediado pelo dinheiro,
a experiência do mercado é a experiência
mais imediata, diária e universal do sistema
econômico. Esse fenômeno cobra seu
preço, pago também pela esquerda.
Marco Aurélio Weissheimer
Em um artigo intitulado Socialismo
macroeconômico, o cientista político
José Luís Fiori, professor da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, diagnosticou o que
considera ser uma perda de rumo e de identidade
da esquerda em nível mundial. Um possível
resumo do ponto abordado no artigo é o
seguinte: Surpreende muito que o aumento
da desigualdade da riqueza entre as nações,
as classes sociais e os indivíduos, nas
últimas décadas do século
XX, não tenha trazido de volta os temas
da agenda clássica dos socialistas, centrada
na questão da igualdade social. Trata-se
de uma notável perda de rumo e de identidade.
O diagnóstico proposto por Fiori é
uma ótima oportunidade para pensar sobre
qual é mesmo a agenda da esquerda hoje.
Para evitar um debate interminável e inútil
sobre quem de fato seria de esquerda hoje, vamos
reconhecer como tal todos aqueles que reivindicam
a tradição socialista e pretendem
estar agindo politicamente tendo ela como referência.
Se, de fato, estão
ou não sendo coerentes com essa tradição
é algo que pode começar a ser respondido
a partir de um exame dos temas que compõem
sua agenda hoje. No artigo citado, após
fazer uma rápida retrospectiva sobre algumas
das lutas históricas da esquerda
contra a distribuição desigual da
riqueza, contra o trabalho desumano nas fábricas,
contra a guerra, apenas para citar algumas -,
Fiori observa como, nos últimos anos, as
minúcias internas da política macroeconômica
passaram a ocupar um lugar crescente e obsessivo
nas discussões da esquerda. Mais
do que isto, acrescenta, ocorreu algo
inimaginável do ponto de vista histórico:
além de definir seus inimigos externos,
a esquerda passou a se diferenciar internamente,
e a medir as distâncias entre suas tendências
reformistas ou revolucionárias, segundo
suas posições e divergências
macroeconômicas. Esse é um
cenário facilmente reconhecível
no caso da esquerda brasileira.
Ela passou, como observa Fiori,
a travar verdadeiras guerras teológicas
sobre alguns conceitos inéditos e totalmente
a-históricos, como por exemplo: qual seja
o tamanho ideal do déficit fiscal ou da
relação dívida externa/ PIB;
ou qual deva ser o crescimento possível
dentro do modelo de metas de inflação,
e a distância ideal entre as suas bandas
superior e inferior; ou ainda, de um ponto de
vista mais propositivo, o que fazer para flexibilizar
a forma pela qual o Banco Central maneja sua política
de juros, para combater a inflação,
sem tocar na própria política.
A chegada de Lula à presidência da
República, em 2002, é parte da explicação,
mas está longe de ser toda ela. Fenômenos
similares ocorreram com partidos de esquerda de
outros países também, mas o tamanho
do problema não se limita à chegada
ao poder. Mesmo fora dele, essa agenda macroeconômica
segue subordinando temas que são constitutivos
da história de lutas da esquerda.
A experiência onipresente
do mercado
Essa subordinação
costuma ser comemorada (à direita) e explicada
(à esquerda) como uma conseqüência
inevitável dos fracassos da esquerda no
século XX. Fracassos esses exemplificados
de modo paradigmático pelo fim da União
Soviética e pela derrubada do Muro de Berlim.
A vitória do mercado passou a ditar todas
as regras, com conseqüências para o
pensamento político de esquerda que ainda
não foram adequadamente analisadas. As
idéias fortes do mercado passaram a ser
amplamente hegemônicas. O jamaicano Stuart
Hall, um dos fundadores do centro que se tornou
o berço dos Estudos Culturais na Universidade
de Birmingham (Inglaterra), descreveu assim uma
dessas conseqüências: Em um mundo
saturado pela troca monetária e completamente
mediado pelo dinheiro, a experiência do
mercado é a experiência mais imediata,
diária e universal do sistema econômico
para todos. Esse fenômeno cobra seu
preço, pago também pela esquerda.
Stuart Hall fala um pouco
sobre o tamanho dessa conta: Não
é de surpreender que o mercado seja algo
gratuito para nós, que não questionemos
aquilo que o viabiliza, funda ou pressupõe.
Não é de surpreender tampouco que
as massas trabalhadoras não possuam os
conceitos que lhes possibilitem intervir no processo,
estruturar um novo conjunto de questionamentos,
trazer à luz ou revelar aquilo que a esmagadora
realidade do mercado constantemente torna invisível
(...) Dessa forma, percebemos na livre-escolha
do mercado o símbolo material de liberdades
mais abstratas; ou na competitividade egocêntrica
e intrínseca do lucro de mercado a representação
de algo natural, normal e universal na própria
natureza humana (O problema da ideologia.
Marxismo sem garantias, p. 265, in. Da
Diáspora. Identidades e Mediações
Culturais, Editora UFMG, 2006). A idéia
de fim da história é
um corolário deformado dessa percepção
(também deformada).
Nos últimos anos, importantes
setores da esquerda costumam atribuir a uma correlação
de forças desfavorável seu
recuo ideológico e programático.
Mas se as reflexões de Fiori e de Stuart
Hall são pertinentes, o problema pode ser
mais grave. O referido recuo não seria
resultado de uma correlação de forças
desfavorável, mas sim da perda de nitidez
em relação ao campo de luta. Quais
são, afinal de contas, as lutas da esquerda,
hoje? É pela redução da taxa
de juros e do superávit primário?
É o debate sobre se a taxa de crescimento
deve ser de 3% ou 4,5% ao ano? Ou pela afirmação
da necessidade da ética na política?
Todas essas questões são temas atuais
e ocupam boa parte do discurso e da prática
das maiores forças políticas da
esquerda brasileira hoje. A priorização
dessa agenda seria resultado fundamentalmente,
não custa perguntar mais uma vez, de uma
correlação de forças desfavorável
em nível mundial? Mas qual é mesmo
o estado de coisas no mundo hoje?
Como anda o mundo
A ordem econômica mundial
mata 100 mil pessoas de fome por dia, apesar de
o mundo ter hoje a capacidade de alimentar 12
bilhões de seres humanos, o dobro de sua
população atual, denunciou, no dia
21 de junho de 2006, o relator da ONU para o Direito
à Alimentação, o suíço
Jean Ziegler. Segundo dados da ONU, a cada sete
segundos uma criança menor de 10 anos morre
por problemas ligados à desnutrição,
e a cada quatro minutos uma criança fica
cega por falta de vitamina A. A ordem mundial
econômica e capitalista não é
só assassina, mas absurda, porque mata
sem necessidade. Há riquezas para alimentar
12 bilhões de pessoas, o dobro da humanidade,
protestou o relator das Nações Unidas.
A situação geral da fome é
especialmente dramática na África,
um continente onde 36% da população
é subnutrida, 186 milhões de africanos
sofrem de fome grave e, em 20 anos, o número
de famintos passou de 91 para 186 milhões.
Para Jean Ziegler, o Banco
Mundial, o Fundo Monetário Internacional
e a Organização Mundial do Comércio
são organizações mercenárias
das grandes oligarquias e do capital financeiro,
que anulam os progressos obtidos pelas 22 agências
humanitárias e de desenvolvimento da ONU.
Enquanto isso, os gastos dos Estados Unidos no
Iraque e no Afeganistão ajudaram a aumentar
as despesas militares no mundo em 3,5 por cento,
alcançando 1,12 trilhão de dólares
em 2005, segundo levantamento divulgado pelo Instituto
de Pesquisa para a Paz Internacional de Estocolmo,
em seu último anuário. Os EUA são
responsáveis por 48% dos gastos mundiais
em armamentos, seguidos por Inglaterra, França,
Japão e China, que investem de 4 a 5% cada
um. Esses cinco países totalizam 68% dos
gastos mundiais com armas. Os gastos com armas
representaram, em 2005, cerca de 2,5% do Produto
Interno Bruto Mundial, uma média de despesas
de 173 dólares per capita.
No plano ambiental, o cenário
não é menos dramático. Nos
últimos meses, diversos estudos científicos
afirmaram que o agravamento do problema do aquecimento
global está levando o planeta a um ponto
de não-retorno. A destruição
não se dá apenas pelo atual padrão
de atividade industrial e de consumo. No campo,
o estrago não é menor. A diversidade
das culturas está se reduzindo nos terrenos
agrícolas de todo o mundo a um ritmo galopante,
conforme advertência feita este ano pela
FAO. Segundo a organização, ao longo
dos últimos cem anos, perderam-se 75% das
variedades agrícolas. A agricultura mecanizada
e as exigências do mercado estão
na raiz da redução da biodiversidade.
Historicamente o ser humano utilizou entre 7 mil
e 10 mil espécies, ao passo que hoje só
se cultivam tão somente 150 espécies,
doze das quais representam 75% do consumo alimentar
humano. E desses, só quatro espécies
são responsáveis pela metade dos
nossos alimentos.
Estamos, portanto, diante
de um cenário de alta instabilidade social,
política, econômica e ambiental.
E esses grandes temas globais estão relacionados
diretamente a temas nacionais e regionais. Não
se trata de elevar o pensamento à estratosfera
e esquecer os problemas práticos do dia-a-dia.
O debate sobre qual desenvolvimento queremos,
qual matriz energética, que tipo de agricultura,
que tipo de Estado, depende de um posicionamento
claro sobre essas grandes tendências que
estão mudando a face do planeta para pior.
Assim, a resposta para a pergunta apresentada
no início desse artigo passa, necessariamente,
pelo reconhecimento da urgência de subordinar
o menor ao maior. E há algo maior, hoje,
do que enfrentar esses problemas e expressar essa
escolha na ação política?.
Há um mundo querendo ser pensado e modificado.
E essa é uma tarefa muito maior do que
simplesmente pensar e priorizar a próxima
eleição.
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