Na medida de sua publicação, traremos para este espaço artigos e entrevistas sobre assuntos inerentes à Segurança Judiciária, bem como aos projetos dos quais somos protagonistas.

Artigos e entrevistas do NAS

Que polícia é essa? - Revista Caros Amigos - maio de 2007 - formato PDF

SEGURANÇA INSTITUCIONAL - O primeiro passo para a transformação - Planejar a implementação de uma segurança orgânica

MANIFESTO DE APOIO - Assinado por aproximadamente 5/3, ou 195 delegados presentes ao 5º Congresso da Fenajufe, em 2004

O PERIGO DO ISOLAMENTO

Estruturação de uma Polícia Judicial Federal

Gratificação de Atividade de Segurança: Uma vitória emblemática

Entrevistas

REVISTA CAROS AMIGOS – Novembro de 2006 - Entrevista com Francisco Carlos Garisto - presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais

 

 

 

SEGURANÇA INSTITUCIONAL - O primeiro passo para a transformação


Planejar a implementação de uma segurança orgânica

Discutir a polícia do Judiciário passa, obrigatoriamente, por discutir a evolução do serviço de segurança judiciária. Não se pode pensar em transformar, mesmo que num futuro mais remoto, um quadro de segurança judiciária combalida por anos de descaso em um corpo policial moderno, eficiente e racional, como será exigido quando da inevitável estruturação da polícia do Judiciário. Tal não se dará num passe de mágica ou na assinatura de uma lei, mas será fruto de uma evolução profissional, racional e metodicamente planejada.

Modernamente, muito se tem avançado no estudo da segurança institucional, dignitária, patrimonial e pessoal. Segurança atualmente é uma atividade pensada cientificamente e baseada em preceitos como planejamento, organização, unidade de coordenação e controle, seguindo premissas básicas de atuação prioritária em educação e orientação, prevenção, controle e coibição. Pôr em prática, por meio de um Plano de Reestruturação da Segurança Judiciária, conceitos como inteligência preventiva e preditiva, excelência em comunicação e locomoção e instrumentalização de ponta, além de qualificação e continuado aperfeiçoamento pessoal, transformará o atual quadro da segurança judiciária em uma verdadeira segurança orgânica, capaz de prover satisfatoriamente ao Judiciário Federal sua essencialidade: a tão buscada sensação de segurança.

Cabe assim, ao conjunto dos agentes, diagnosticar, pesquisar, estudar, discutir e propor à categoria e às administrações dos tribunais um Plano Nacional de Estruturação da Segurança Judiciária, moderno e viável, a fim de corrigir as distorções que culminaram no atual quadro de fragilidade e degradação da segurança judiciária.


Núcleo dos Agentes de Segurança

Sintrajufe/RS

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MANIFESTO DE APOIO

Assinado por aproximadamente 5/3, ou 195 delegados presentes ao 5º Congresso da Fenajufe, em 2004

A categoria não pode continuar indiferente à contínua e crescente privatização que atualmente está desmantelando os setores de segurança, vigilância e transporte no Judiciário Federal.
Não pode continuar indiferente às requisições de policiais civis, militares, federais e até soldados para cumprirem funções nos tribunais típicas dos Agentes de Segurança, enquanto esses, em grande quantidade, encontram-se em desvio de função. À completa falta de treinamento, ao desaparelhamento e à quase total ausência de condições dignas de trabalho, bem como à insegurança institucional presente nas dependências dos tribunais.
Não podemos continuar indiferentes ao fato de que a exeqüibilidade das decisões do poder judiciário são hoje totalmente dependentes da estrutura policial do poder executivo, em grande maneira também precarizada e esvaziada em seus quadros.
Não pode por fim, a categoria, continuar indiferente ao fato de que, para a proteção de seus operadores (vide chacina de Unaí) e completa exeqüibilidade de suas decisões, independentemente do poder econômico (vide caso da Fazenda Souttal/RS), o poder judiciário carece de autonomia, independência, isonomia e equivalência em relação aos demais poderes.
Em que pese tudo o que já se falou e já se ouviu, tudo o que já se tentou esclarecer e o muito que ainda não está entendido, OS TRABALHADORES DA ÁREA DE SEGURANÇA, VIGILÂNCIA E TRANSPORTE do Judiciário Federal, reunidos neste 5º CONGREJUFE, conclamam a FENAJUFE para que, imediatamente, garanta o acompanhamento e promova a ampla discussão sobre a estruturação de uma Polícia Judicial, a partir da implantação de uma Comissão de Estudos da Situação da Segurança no Judiciário, bem como com a reiterada promoção de seminários e palestras sobre o tema nos diversos sindicatos filiados.


Trabalhadores da área de segurança, vigilância e transporte do Judiciário Federal

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O PERIGO DO ISOLAMENTO

Os Agentes de Segurança, nos últimos anos, vêm promovendo discussões e trazendo à tona a situação precária em que se encontra a Segurança no Poder Judiciário Federal. Por fazer parte organicamente de uma categoria de importância vital para a institucionalidade do órgão, não podemos neste momento, de formatação de políticas para o setor de segurança judiciária, deixar de lado ou isolar do debate os demais servidores, nossos colegas de serviço público, nossos companheiros de luta pelas melhorias salariais e de condições de trabalho.
Na discussão tanto dos objetivos almejados, quanto das formas para atingí-los, não podemos nos furtar de ouvir os demais servidores do judiciário federal. Nenhuma política de melhoria será ampla e facilmente posta em prática sem a compreensão e o apoio do restante da categoria. Sem que a categoria, nacionalmente representada pela Fenajufe, compreenda a necessidade dessas mudanças e apóie na prática os projetos de melhoria da segurança judiciária propostos pelo segmento, tais projetos não passarão de imposição da vontade de uma minoria à maioria, estando assim fadados ao fracasso, não pela inexistência de coerência técnica, mas pela falta de compreensão da necessidade das mudanças propostas.
As atitudes tomadas tanto de forma isolada quanto consensual, pelo movimento dos Agentes de Segurança, não terão legitimidade sem que esses projetos sejam discutidos com boa parte da comunidade para a qual a segurança é dirigida. Assim ocorreu com o PCS. Sem o convencimento do restante da categoria (patrocinado pelos próprios Agentes de Segurança, por dentro da categoria, nos Congressos e Plenárias Nacionais da Fenajufe) da necessidade de um instrumento capaz de valorizar o segmento da segurança e alavancar a qualificação deste serviço e a luta contra o desvio de função e a terceirização, não seria possível o amplo apoio do restante da categoria à implementação da GAS. E sem esse apoio, não seria possível que a Fenajufe defendesse a Gratificação específica para a segurança judiciária durante as negociações de formatação do PCS com a cúpula do judiciário.
É importante compreender, em que pese o bom e duro trabalho de nossos bravos Agentes de Segurança, organizados em torno da Associação Nacional e em permanente debate na comunidade virtual seguinfe.org, que não será possível isoladamente do conjunto da categoria, implementar as políticas importantes para o segmento, pelo simplório motivo de que não estamos isolados. Em não estando isolados, não podemos lutar isoladamente.
Não podemos esquecer de momentos, durante as negociações do PCS, em que setores da própria categoria, carentes de acúmulo da discussão e sem a compreensão correta das motivações da GAS, opinaram e posicionaram-se contra a gratificação específica para o setor de segurança. Tal posição poderia, num cenário de isolamento dos agentes, ter evoluído e inviabilizado a GAS dentro do PCS, o que só não ocorreu pois os agentes discutiram em conjunto com a categoria, dentro da Fenajufe, o projeto como um todo, e em especial as demandas específicas do setor. Nenhuma conquista, portanto, embora possa ser considerada uma vitória inicialmente, terá legitimidade e consistência de se manter como uma premissa necessária, sem que advenha do apoio amplo do restante da categoria.
Muitas são as mudanças necessárias para transformar a atual segurança judiciária. Porém a primeira precisa partir dos próprios agentes de segurança e deve ser conceitual, de convencimento do restante da categoria da importância e da necessidade das inovações propostas. Foi com este ímpeto, de discussão e convencimento, de proposição e de luta ao lado da categoria, que conquistamos a Gratificação de Atividade de Segurança, fator que será decisivo para o projeto de valorizar o cargo de Agente de Segurança e de implementar uma política de capacitação da segurança judiciária. Pondo em prática um serviço de segurança moderno, eficiente e confiável, e com o restante da categoria ao nosso lado, estaremos cada vez mais próximos da segurança orgânica que almejamos, não de uma forma imposta e artificial, mas com a confiança e o apoio sólido da categoria.

Sergio Amorim dos Santos
Agente de Segurança Judiciária

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Estruturação de uma Polícia Judicial Federal

Este documento foi elaborado pela Coordenação do Núcleo dos Agentes de Segurança Judiciária e serve de informação e subsídio de argumentação, a respeito do assunto.:

1.Inicialmente, cabe salientar ser o Poder Judiciário o único dentre os três poderes que não possui prerrogativa constitucional de organizar sua própria polícia. Apesar de o poder de polícia do judiciário ser inerente à sua atuação, em geral coercitiva, este somente pode ser exercido através das polícias constituídas pelo poder executivo (Polícia Federal, Polícia Militar, Polícia Civil);
2.Cabe informar que o Poder Legislativo, a nível federal (Câmara de Deputados e Senado Federal) teve, com o advento constituinte de 1988, reconhecido constitucionalmente esta prerrogativa, tendo estruturado seu próprio corpo policial (Polícia Legislativa) em 2002, com a transformação dos cargos de Agente de Segurança em Polícia Legislativa, advindo daí, obviamente, os benefícios e as obrigações inerentes à atividade policial;
3.O cargo de Agente de Segurança, apesar de não ser atividade-fim, pois não lida diretamente com o processo, é essencial para o legislativo, pois garante a segurança institucional de Magistrados, Servidores e demais operadores da Justiça, controlando acessos, dirigindo veículos oficiais e sendo responsável pelo controle de qualquer perturbação da ordem ou anormalidade nas dependências dos fóruns e secretarias, além de escoltas de detentos e guarda de armas de fogo. Apesar disso, não possui atualmente, salvo raras exceções, nenhum tipo de treinamento, instrumentalização, capacitação e condições de bem desempenhar suas obrigações;
4.Em todo o Brasil, as áreas não-fim dos órgãos do judiciário federal vêm sofrendo sucessivos ataques, principalmente aquelas ligadas à segurança, vigilância e transporte. Os Agentes de Segurança, em especial, sofrem preconceitos de toda ordem e acabam, em grande parte, em desvio de função, por dois motivos principais: primeiro, a maioria tem formação superior e não possui, no cargo, possibilidades de ascensão profissional. Assim, ingressam em gabinetes, secretarias, a fim de almejarem um merecido reconhecimento, inclusive pecuniário. Segundo, mesmo não sendo possível uma ascensão, livram-se das precárias condições de trabalho impostas aos Agentes pela falta de instrumentalização, treinamento, capacitação, além do preconceito quanto ao exercício da função;
5.Sabe-se que a precarização dos serviços públicos é a primeira atitude dos administradores quando a intenção é a privatização. É crescente a privatização dos setores de segurança, vigilância e transporte no judiciário federal, ocorrendo casos de tribunais em que não há mais Agentes concursados no desempenho de tais funções, estando todos desviados de suas funções e tendo sido contratadas empresas privadas de vigilância. A segurança privada é descomprometida com a instituição, seus quadros são mal remunerados, substituíveis a qualquer tempo, sendo mais facilmente corrompíveis pelo crime organizado, apesar da decência e esforço de seus humildes trabalhadores.
6.Temos vivos na memória os recentes acontecimentos de Unaí (Assassinato de Servidores Públicos, no cumprimento do dever coercitivo do Estado, por total inércia das polícias responsáveis) e da Fazenda Souttal (anulação de desapropriação do maior latifúndio do estado do RS, por falta de notificação do proprietário, o qual influiu nas polícias locais e recrutou capangas para que impedissem o acesso da Oficial de Justiça responsável pela notificação à sua propriedade que, assim, não pôde cumprir o mandado). Esses acontecimentos, reproduzidos diariamente pelo Brasil afora, e que quase nunca vêm à tona, exemplificam a precariedade da exeqüibilidade das decisões judiciais, face às mesmas estarem calcadas na força coercitiva de polícias descomprometidas, desaparelhadas e carentes de policiais, em que pese o esforço de seus quadros no cumprimento de suas obrigações. As polícias Civil (responsável principalmente pelos inquéritos criminais), Militar (pelo policiamento ostensivo) e Federal (Tráfico de drogas, fronteiras, lavagem de dinheiro, crimes federais), raramente possuem quadros e afinidade suficientes para, além de cumprirem suas atividades-fim, prestarem os auxílios solicitados pelo judiciário para o cumprimento de suas decisões;
7.A estruturação de uma polícia do judiciário solucionaria de forma definitiva os problemas de capacitação, instrumentalização e profissionalização dos trabalhadores em vigilância, segurança e transporte do judiciário federal, criando uma carreira típica de estado (afastando o fantasma da privatização), proporcionando uma significativa melhoria salarial (seja pela implantação da gratificação por atividade policial ou por equiparação salarial com as demais carreiras correlatas) e, principalmente, traria a valorização do quadro (com a obrigatória implantação de programas de treinamento, capacitação e instrumentalização). A estruturação de uma polícia judicial, enfim, viria ao encontro da valorização do próprio poder judiciário, a partir da possibilidade de pronta exeqüibilidade de suas decisões sem necessidade de dependência de polícias de outros poderes e do livre acesso ao serviço nacional de informações, a fim de agilizar execuções trabalhistas, cíveis e criminais.
8.A estruturação nacional de uma polícia do judiciário poria fim às históricas distorções funcionais da carreira de Agente de Segurança nos diversos tribunas, uniformizando a atividade e as prerrogativas da função, bem como normas e procedimento padrão. Demandas como prevenção de acidentes e incêndios e segurança do trabalho, hoje relegadas à sorte e ao descaso dos tribunais, também seriam atribuições de responsabilidade de setores específicos da polícia judicial.
9.Não procede, nem pode prosperar, o receio de alguns colegas de que a estruturação de uma polícia judicial criaria um “órgão repressivo” no seio da categoria. Não podemos esquecer que serão os próprios Agentes de Segurança atuais, colegas de anos de convivência honesta e harmoniosa, em sua maioria engajados nas lutas históricas da categoria e sempre prontos para o auxílio ilimitado aos demais servidores, juizes, partes e advogados, que comporão o futuro corpo policial do judiciário. Tal órgão, a nosso ver, deverá agir prioritariamente em inteligência, prevenção e proteção. Ademais, não será a não criação de uma polícia judicial que impedirá cúpulas autoritárias de reprimir manifestações legítimas dos servidores, ainda mais se a segurança estiver sendo exercida por seguranças privados, totalmente descompromissados com a categoria.
10.Com a estruturação de uma Polícia Judicial, cai por terra qualquer tentativa de privatização da segurança e vigilância no âmbito dos tribunais. Ao contrário, em não havendo a possibilidade constitucional de implantação de uma Polícia Judicial e estando as direções dos Tribunais convencidas da necessidade de adoção de medidas mais concretas e eficazes a fim de garantir segurança no judiciário, certamente implantariam tais medidas, provavelmente contratando segurança privada, totalmente alheia aos quadros do judiciário.
11.Mais uma polícia? Bem, sobre esse assunto cabe uma informação. Nos países mais avançados, tanto em termos de combate ao crime quanto em termos de estado democrático de direito, a força policial costuma estruturar-se em diversas polícias especializadas, porém institucional e sistematicamente integradas (sistemas, informações). Tal organização, por especialidade, restringe as competências, a fim de garantir exatamente o controle de abusos.
12.Os Oficiais de Justiça, braço do juiz no mundo real, em geral têm dificuldades no cumprimento dos mandados, quando este requer o apoio policial. Uma polícia judicial seria certamente estruturada de forma a contemplar, com boa parte de seu quadro, um núcleo de apoio policial à central de mandados, a fim de agilizar e garantir o apoio imediato, tanto ao cumprimento da ordem judicial quanto à segurança do Oficial de Justiça. Vivemos, no RS, um ambiente onde tal problema é de difícil visualização. Porém, a nível nacional, em regiões localizadas, como o Rio de Janeiro, São Paulo, Belém do Pará, cidades longínquas e fronteiriças, há um certo domínio institucionalizado do crime organizado, quase um quarto poder, onde o Oficial de Justiça, seja da justiça do trabalho ou federal criminal, vê-se quase que impedido de atuar, sem o apoio concreto e imediato de uma polícia engajada e comprometida.

NAS – Núcleo dos Agentes de Segurança Judiciário – Sintrajufe/RS

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Gratificação de Atividade de Segurança: Uma vitória emblemática

O NAS saúda toda a categoria, que com garra e determinação não se deixou esmorecer pelos imprevistos e obstáculos, conquistando o mais vantajoso Plano de Cargos e Salários da história do Judiciário Federal.
Em que pese as vantagens conquistadas por toda a categoria, nos cabe destacar especificamente a Gratificação de Atividade de Segurança. A GAS, incluída no novo PCS, como forma de garantir o aprimoramento do segmento, a melhoria das condições de trabalho e a sensível diminuição dos desvios de função e da terceirização, é uma grande vitória da categoria e dos próprios Agentes de Segurança. Este segmento, que nunca aceitou o isolamento e jamais se furtou a discutir os problemas da categoria como um todo, buscou acertadamente em conjunto com o restante da categoria as soluções viáveis, destacando as necessidades específicas inerentes às peculiaridades da função e a importância estratégica de proporcionar ao segmento uma ferramenta eficaz de aperfeiçoamento.
Comemorada a sanção e a entrada em vigor da lei 11.416/2006, agora é acompanhar de perto a importante discussão sobre a regulamentação da GAS, onde detalhes como garantia de implementação aos Agentes de Segurança efetivamente no exercício das funções do cargo, extensão da GAS aos atuais e futuros aposentados e pensionistas, detalhamentos sobre a reciclagem, entre outros objetos de discussão incial, serão acompanhados de perto pelo NAS e, em especial, por cada um dos Agentes de Segurança que acreditam na importância dessa conquista da nossa luta.
Adiante, vinculada à própria questão da GAS e da sua regulamentação, devemos nos preparar para discutir a reestruturação da Segurança Judiciária, assunto que entrará na pauta dos debates ainda neste primeiro semestre e que certamente não passará para o rol de conquistas do segmento, sem ampla discussão, estudo, debate, e muita luta.

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REVISTA CAROS AMIGOS – Novembro de 2006

Entrevista com Francisco Carlos Garisto
Entrevistadores: Marina Amaral, João de Barros, Marcos Zibordi, Renato Pompeu, Thiago Domenici, Wagner Nabuco, Sérgio de Souza.

O episódio do dossiê, ainda sob investigação da Polícia Federal, e seu impacto no primeiro turno das eleições presidenciais permanece envolto em dúvidas. Até hoje não se sabe, por exemplo, se as informações vendidas por R$ 1,7 milhão se restringem aos papéis a que a imprensa teve acesso – basicamente vídeo e fotos do governador eleito José Serra, quando ministro da saúde, em companhia de deputados implicados no escândalo dos sanguessugas –, ou se essa é apenas uma pequena parte de um dossiê de 2 mil páginas conforme anunciou à imprensa o policial federal Edmilson Bruno, delegado plantonista responsável pela prisão do empresário Valdebran Padilha e do ex-agente da polícia federal, Gedimar Pereira da Silva, que trouxe o dossiê à tona. Também se discute a atuação da Polícia Federal no caso, principalmente depois que o delegado Bruno, já fora das investigações, fotografou o dinheiro apreendido e distribuiu as fotos para sete jornalistas com as palavras: “Vamos f... o presidente Lula”. Para discutir essas e outras questões igualmente nebulosas, que prometem alimentar o lado policial da campanha eleitoral, entrevistamos Francisco Garisto, presidente da Federação Nacional dos Policiais Federais, entidade que reúne sindicatos de policiais federais de todo o Brasil.


Marina Amaral - O delegado Edmilson Bruno, que entregou a foto do dinheiro, tem ligação com políticos?
O Bruno não tem envolvimento político com ninguém, é um menino correto, ficou apavorado com a divulgação e ficou na mão, ninguém apoiou. Só nós é que estamos apoiando. Mas primeiro eu queria saber se tinha negócio de dinheiro, que é uma coisa perigosa, e se ele era ligado ao PFL, PSDB ou qualquer outro partido. Não tem nada a ver. Ele revelou aquilo ali mais no sentido de que foi pedido a ele que não revelasse, entendeu? E depois tiraram ele do caso.

Marina Amaral - Mas tiraram ele do caso? O que se sabia é que ele estava de plantão, acabou o plantão e ele foi tirado do caso.
Então, mas, quando você faz uma apreensão, pelo plantão, de uma pele de jacaré no aeroporto de Congonhas, aí ninguém tira.

Marcos Zibordi - Ah, então isso não tem necessariamente que acontecer?
Não, mas ocorre com uma alguma freqüência, sem maldade, sem interesse político. Nesse caso era o interesse de Brasília ter o controle sobre a coisa, porque é uma coisa melindrosa, politicamente falando, numa semana de eleição.

João de Barros - Mas foi ele que vazou as informações?
Foi ele que vazou as fotos.

João de Barros - Por quê?
Porque sentiu que tinha que vazar e a Polícia Federal estava apanhando. Eu dei uma entrevista na Rádio Jovem Pan, defendendo a polícia, dizendo que não podiam acusar a Polícia Federal de nada, porque estavam lá Tasso Jereissati, Bornhausen, todas as figuras que nós conhecemos de uma roubalheira clássica, acusando a Polícia Federal de que estava fazendo e aquilo.

Marina Amaral - Fazendo corpo mole?
Quem foi que iniciou a operação? Quem foi que prendeu o camarada com o dinheiro? Quem foi que prendeu o ex-agente com o dinheiro? Ele foi colocado num camburão, um cara que trabalhou trinta anos limpo, nunca foi punido. A polícia agiu energicamente contra um ex-colega. Aí, quando me perguntaram na Jovem Pan sobre a foto eu não tive o que falar. A foto não tem desculpa, porque já fizemos foto da Igreja Universal, daquela dinheirama, tinha um deputado federal preso. Fizemos foto do dinheiro na cueca, tinha o envolvimento do assessor do irmão do Genoino, que agora é deputado federal. Não é de agora, com PT ou PFL, toda vez que tem, a gente bota lá o distintivinho da polícia, bota lá o dinheiro. É comum mostrar o dinheiro, vocês vêem isso no Jornal Nacional.

Sérgio de Souza - Mas aí é a Polícia Federal, não é um delegado isoladamente, e ele diz que a foto é dele, da máquina dele. É verdade isso?
É verdade, ele que fez a foto.

Sérgio de Souza - Mas isso pode? Sem ninguém estar junto?
Pode. Pior foi o que eles fizeram. Pegaram o dinheiro, pelo que estou sabendo, preciso confirmar isso, e depositaram na Caixa Econômica. Aí, cadê o corpo de delito se você precisasse de uma prova daquele dinheiro? Se precisasse de uma impressão digital, um DNA de cabelo? Foi embora. Então existem algumas coisas, tem gente ali que... Vocês lembram quando eu denunciei, em 2002, a turma do PSDB com alguns políciais federais montando um dossiê dentro da Polícia Federal contra o Lula. Eles queriam me punir porque ficaram com raiva de mim, cassaram minha licença sindical, e eu era presidente da federação, como sou hoje. Aí fui obrigado a voltar ao serviço, e fiquei sabendo que tinha um grupo de pessoas criando esse dossiê contra o Lula, e já tinha uma revista de grande circulação pronta para sair na semana da eleição. Tipo camiseta do seqüestro do Diniz. Já estava tudo pronto e eu abortei aquilo, mas não é que eu sou petista, abortei aquilo para preservar a polícia. Então tenho moral hoje para falar desse dossiê porque na época denunciei o dossiê que seria contra o Lula. O PSDB ficou desmoralizado e não pôde usar aquilo.

João de Barros - Mas esse agora também não foi uma armação?
Aí tem duas vertentes. Tem a vertente do ódio dos Vedoin, que está até a tampa, a família toda, ninguém sabe o destino deles, se vão pegar dez, vinte ou trinta anos de cadeia, porque no Brasil você sempre pega alguém para Cristo. Está aí o Lalau. Roubou, roubou, mas tem muita gente para ser presa. O Luís Estevão foi preso ontem. Depois de três anos, e quem ficou com o dinheiro foi ele. O Lalau ficou com a gorjeta. Então, existe a vertente Vedoin, que quis detonar todo mundo porque sabia que o telefone dele estava no grampo. Assim como nós sabíamos que todo mundo está no grampo, que a Polícia Federal pegou como prática principal, e que eu às vezes condeno porque no Canadá fizeram isso e a polícia já não sabe fazer nada sem o grampo, perdeu aquele ímpeto de investigação, que sempre teve. O grampo dá resultado porque é novidade no Brasil, mas na Inglaterra eles usam hoje 10 por cento, 20 por cento de grampo. Porque lá ninguém mais fala. A gente fica cinqüenta, sessenta anos atrasado em relação a quase tudo. Nós estamos agora no estágio do grampo.

Marina Amaral - Não precisa falar com o juiz?
É claro que precisa, mas você não faz.

Renato Pompeu - Você falou que tem uma vertente do Vedoin...
O Vedoin talvez tenha feito isso não no caráter político, mas para detonar tudo, jogar tudo pro alto, para ter mais defesa. Então pode ser uma estratégia do Vedoin, porque ele falou no telefone grampeado.

João de Barros - Ele falou exatamente o quê?
Falou que ia entregar o dossiê, sabendo que a Polícia Federal estava acompanhando isso.

Marina Amaral - Então era uma armadilha?
Sim, mas não política. Se alguém do PSDB de Cuiabá, os Anteros da vida e outros, tiveram lá um contato com ele, aí é uma coisa que eu estaria inventando, eu estou falando o que eu sei.

Marina Amaral - O fato é que ele falou sabendo que o telefone dele estava grampeado, ele falou com...
Naquele telefone ele não falava nada, o pessoal que estava fazendo a escuta já estava até dormindo.

Marina Amaral - No telefone ele falou com quem? Com Gedimar, Hamilton, com o Valdebran?
Ele falou com o Hamilton e depois falou com o Gedimar. Com o Gedimar foi só para perguntar o negócio do dinheiro.

Marina Amaral - Com o Valdebran ele não falou?
Não sei. Não tenho essa informação. Sei que conversou com todas as pessoas envolvidas porque ele ficou com medo que não houvesse o dinheiro. Vocês leram a escuta: “Tenho dinheiro, sim”. “Ah, mas eu preciso ver o dinheiro”. “Ah, mas eu preciso ver o dossiê”. É que nem entrega de cocaína, eu não te dou o dinheiro se você não me mostrar o pó. Ele não me dá o pó se eu não mostrar o dinheiro. Então tem que ter uma relação de confiança, senão ninguém faz nada. Aí, conclusão: ele resolveu levar uma amostra. Cadê as 2.000 páginas que estão dizendo aí na imprensa? Estão com ele.

Marina Amaral - Mas existem?
Não sei. Ele que disse no grampo que tinha mais papel pra entregar.

Marina Amaral - O delegado disse também. Ele viu o dossiê?
O delegado está se baseando no grampo.

Marina Amaral - Ele não viu?
Não, não existe esse dossiê de 2.000 páginas, o que existe são algumas páginas que eu não sei quantas são, mais um monte de fotos. Inclusive, tem coisas do Serra, mais coisas do Lula. Agora, a grande pergunta: por que não se divulga tudo isso? Tem uma coisa chamada segredo de Estado...

Marina Amaral - O delegado disse que sumiu.
Sumiu nada. As 2.000 páginas não existem porque eles iam entregar ainda. Eles levaram algumas coisinhas pro pessoal ver que eles tinham acesso a algo e depois iriam entregar. Algo que não sabemos o que é.

Marina Amaral - Ele já tinha entregado um CD vazio, né?
Mas o CD vazio foi pra fazer um teste e ver se o dinheiro estava lá. Porque aí o cara viu o CD e falou: “O CD tá aqui, e o dinheiro tá aqui”. “Então tem outro aqui.” Porque, se fosse uma armação de polícia, flagrante: “Isso aqui não é nada, é um CD vazio”. Entendeu? E normalmente não se leva o dinheiro. O Gedimar, por exemplo, já fizemos um levantamento sobre ele, trinta anos de polícia, nunca faltou ao serviço, nunca foi punido, cara íntegro na sua profissão de agente policial federal. E policial, quando se aposenta, de modo geral, ou vai ser segurança ou advogado. Noventa por cento dos nossos policiais são bacharéis em direito, todos, delegados, agentes. E o que ele fez? Foi trabalhar para o PT, com carteira assinada. E quem apresentou ele pro PT? O Freud, porque ele, Gedimar, já trabalhou na segurança do Lula e conhecia o Freud, que estava em todas.

Marina Amaral - E o Freud está envolvido?
Veja bem, do mesmo jeito que a gente não pode dizer que ele está envolvido, também não pode dizer, como foi dito ontem (4 de outubro), que ele não está. Colocou a minha polícia, de novo, falo como defensor dessa instituição, colocou a minha polícia no descrédito. Eu vim lendo no avião agora o Correio Brasiliense, a Folha de S. Paulo e o Estadão, esculhambando a polícia de novo, porque absolveram o Freud, que não tem envolvimento com nada simplesmente porque o nome dele não constou das ligações do celular. Acho a maior irresponsabilidade absolver ou acusar alguém no calor de eleição. A eleição tem um calendário, a polícia tem que ter outro.

Marina Amaral - Se fosse uma operação de rotina, você estranharia alguma coisa?
Essa pergunta... vou ter que esculhambar todo mundo. Porque uma operação de rotina, pela minha experiência, que trabalhei infiltrado, é o seguinte: você está com o Vedoin no grampo, aí ele vai vender um dossiê, falso, estamos falando agora, né? Por 1,7 milhão, parece que começou com 10, 15 milhões. Aí o que a polícia tem? Tem um camarada envolvido em sanguessuga, ambulância, já entrou em cana, saiu, ele filho, irmão, cunhado, papagaio, tudo aí ele vem a São Paulo entregar esse dossiê. Eu estou comandando, e qualquer policial com a experiência que eu tenho faria o que vou dizer, é isso que a Polícia Federal vem fazendo com aqueles vampiros, gafanhotos, etc., essas duzentas e poucas operações que foram todas feitas desse jeito, o Paulo Lacerda deu uma entrevista falando isso que vou dizer, que é assim que a Federal trabalha agora. Não mete mais o pé na porta, é inteligência que faltou agora, que não foi só pros aloprados que faltou inteligência. Então, o cara vem entregar um negócio... O que eu faço? Pô, já estou com ele no grampo, sei o hotel onde ele está, meus meninos estão na portaria, tenho uma menina que está de recepcionista, tenho um camareiro, tenho uma camareira, então tenho o controle, aquele dossiê eu pego a hora que eu quiser. O Vedoin eu pego a hora que eu quiser, ele vai sair correndo pela rua? Eu tenho três, quatro viaturas no bairro. Estou no controle. Você viu a pantera quando pega a presa? Fica só seguindo, porque já é dela. Aí vem o comprador... Isso serve pra qualquer coisa ilícita, cocaína, dossiê, vocês já viram em filme isso. O cara vem: “Dossiê!” Como é que eu sei que aquele dossiê não é um CD vazio? Mete a cana num CD vazio, o cara me processa por abuso, é como eu invadir a casa de alguém. Se eu não acho nada, é invasão de domicílio. Se acho, é flagrante. Esse é um risco nosso. Aí, conclusão: deixo o cara entregar, não vi o dinheiro, espero o dinheiro. Iam fazer o que, a troca? Um ia ficar com o dinheiro e o outro com o dossiê, não é? Eu tenho as mesmas coisas, vocês repararam. Só tenho as pessoas com o material trocado, mas tenho os dois e o material. Vamos supor que o Gedimar pegue o dossiê, junto com o Valdebran. Os dois concluem a operação, pegam o material. O Vedoin ia sair com o dinheiro. Podia até meter a cana no Vedoin e esconder com ele. Acabou o serviço em cima dele. O dinheiro ia virar o quê? Dinheiro vira outro dinheiro ou depósito. O dossiê, não. Eu quero saber quem encomendou, quem pagou. Então eu ia querer monitorar aquela turma, deixar o dossiê caminhar...

Marcos Zibordi - Deveria.
Deveria, nós não fizemos isso em todas as operações? Aí é que vem a ordem de Brasília para o delegado de plantão fazer o serviço.

Marcos Zibordi - Mas não tinha um outro delegado?
Sabe de quantas operações delegado de plantão participou nessas duzentas e poucas do Brasil inteiro? Nenhuma. Quando a operação é no Mato Grosso, você pega dois delegados do Mato Grosso que acompanham isso por um mês, dois meses. O delegado de plantão não participa de nada. Então alguém de Brasília mandou o delegado de plantão aqui fazer esse serviço: “Ah, então você vai lá em tal lugar”. O interesse dele era tão forte em fazer...

Wagner Nabuco - Isso não é uma ordem oficial? Não tem registro dessa ordem?
Não, isso que estou dizendo pra vocês é normal. Não tem ilegalidade. Só que é anormal policialmente falando, tecnicamente falando, porque o delegado de plantão... vem cá, você está falando de assessor do Lula, está falando do coordenador da campanha do Lula, está falando do presidente do PT... Está me entendendo? O Gedimar é um pobre-diabo ali. Não é porque é meu colega, não. Um pobre-diabo mesmo. Falaram pra ele que o dinheiro era legal, depois ele viu que não era. Devia ter saído, é aí que ele chora: “Falaram pra mim que era legal, aí eu forcei pra ver o documento e eles não me mostraram, e a burrice é que eu fiquei, já estava lá”.

Marcos Zibordi - Mas quem deu a ordem pro delegado de plantão fazer a prisão?
Foi o pessoal da escuta, a inteligência da Polícia Federal, que faz o grampo em Brasília. O grampo é todo concentrado em Brasília. A ordem veio da direção geral, do coordenador da inteligência. Talvez o Renato da Porciúncula, que é o delegado encarregado. Não sei se foi ele, eu não estava lá no dia, não posso precisar porque às vezes tem o substituto dele, de quem eu não sei nem o nome. Aí, o que acontece? Vem a ordem de Brasília: em hotel tal vai ter um cara com dinheiro e vão comprar um documento. O delegado de plantão nem sabia que era um dossiê, por isso cheguei na inocência dele, se ele está na armação, ele sabe de tudo. Então ele foi pra lá fazer a apreensão do dinheiro e de documentos, e de repente deparou com documentos que seriam contra o Serra. Quer dizer, se é uma armação, são todos uns aloprados mesmo, o presidente tem razão. Agora, se não foi uma armação, eles devem ter feito esse serviço pensando que iam se dar bem.

Sérgio de Souza - Mas esse suposto dossiê andou um pouco na mão de alguém?
Eu estava em Cuiabá, falei com o presidente do sindicato (dos policiais federais) de Cuiabá, o Elon, até a lanchonete da esquina tinha oferecido dossiê pra eles.

Sérgio de Souza - Dizem que o diretor do Banco do Brasil que depois foi afastado afirmou que viu, só que ele sumiu e não falou mais nada pra ninguém.
Lá em Cuiabá falam isso, mas eu não posso afirmar. Estão dizendo aí que tem coisa lá que derruba a República. E hoje ouvi de novo, de pessoa que sabe o que está falando, que tem coisa que derruba a República e coisa que causa o impeachment do Serra.

Marcos Zibordi - Por quê? Todo mundo está envolvido?
Eu acho que tem coisa ruim ali. Por que estaria em segredo de justiça?

Wagner Nabuco de Araújo - Você ouviu lá em Cuiabá que o Vedoin teria pedido 20 milhões ao Abel Pereira e o Abel Pereira acabou pagando 10 milhões?
O Abel não sei se viu, sei que o ex-diretor do Banco do Brasil teve conhecimento antes, e talvez ele tenha conversado com os outros, o Barjas Negri colocaram aí, mas ele não teria visto nessa situação da prisão, teria quando ofereceram pra ele e parece que não topou muito. Agora, acho que, se aconteceu uma armação maior, foi de uma primariedade de execução... porque seria preciso que envolvesse todo mundo, até o pessoal do PT na segunda linha, tinha que estar envolvido até o Gedimar, seria uma engenharia de alto risco. Se a Federal está envolvida pelos tucanos, de que serve o Gedimar? E agora, com segredo de justiça, não podemos mais falar sobre investigação. Botar a culpa no delegado de plantão por causa da foto, isso é uma burrice jurídica.

João de Barros - Mas o delegado teria xingado, teria dito: “Eu vou ferrar o Lula”.
Parece que ele falou isso aí, mas não porque fosse de outro partido, falou numa revolta, porque o superintendente não queria falar com ele, ninguém queria dar atenção a ele, já o estavam acusando de um monte de coisas: “Por que ele não fez isso?” “Por que prendeu?” “Porque ele fez aquilo?” Ia sobrar tudo pra ele, e ele sabe quem pediu pra ele. Proibiram a entrada dele no prédio, ele se sentiu meio perdido. E aí o que aconteceu? Ele não tem experiência nenhuma de imprensa, vai fazer um off com sete! Estadão, Folha, Globo, JB...

Marina Amaral - O grande enigma é por que ele não foi atrás do dossiê.
Ele fez tudo errado, mas não foi por coisa política, “ah, ele é ligado aos tucanos”. É até engraçada a vida desse delegado, assim, profissionalmente, passa muito longe disso tudo.

João de Barros - Engraçado por quê?
Porque ele não mexe com política, não liga pra isso não tem aspiração de carreira, não quer complicação. Conheço pessoas que são carreiristas, fazem qualquer coisa pra subir de cargo, passam por cima do outro, pisam na cabeça, 90 por cento dos cargos de chefia fazem isso, tanto é que normalmente não são ocupados por pessoas técnicas, são ocupados por indicação. Ele não é esse caso, mas então aparece um caso famoso, entre aspas, que ele foi, e vocês começam a estourar os flashes na cara dele, quem não gosta? Herói, está prendendo, dossiê, candidato, ele se sentiu o Tuma naquela época da repressão pendurando todo mundo. Aí, ele achou que não deviam tirar dele o caso. Por que achou isso? Porque ele já tinha até atendido a ordem pra não divulgar a foto: “Já faço parte do negócio, por que vão me tirar agora?”

Marcos Zibordi - Mas você falou que ele não tinha ambições, por que ele brigaria pra ficar no caso?
Você não tem ambição até a hora que ela não cai no seu colo, todos nós somos ambiciosos. Um caso desses aparece pro policial uma vez em trinta anos.

Sérgio de Souza - Os tucanos chamam esse dinheiro do suposto dossiê de “dinheirama”, 1,7 milhão – e o dinheiro das contas CC-5 você lembra quanto era? Um escândalo que envolveu o nome do Bornhausen.
Não quiseram mais discutir o CC-5 porque é a mesma coisa que esse caso aqui, se você tiver Palmeiras e Corinthians envolvidos, não tem final de campeonato, vai fechar os dois times? Acaba com o campeonato paulista, acaba com o campeonato brasileiro?

João de Barros - Qual é a relação do poder com a Polícia Federal?
Num país de corruptos, é o instituto principal. Tem uma PEC pra transformar a Polícia Federal em Ministério da Polícia, por quê? É o ministério principal, você pega o Jornal Nacional, você vê estrada trinta segundos, criança morrendo na fila mais trinta segundos, e Polícia Federal...

Marina Amaral - E no TSE houve grampo ou não?
Nós fomos lá fazer o teste e não deu grampo nenhum.

Sérgio de Souza - E por que o ministro Mello ia denunciar isso?
O rapaz que trabalhou pra ele nisso é conhecido dos mecanismos de arapongagem e quis fazer sucesso lá, entendeu? Agora, se a Federal pega o grampo lá, fala que tinha mesmo. Perito não vai mentir.

Marina Amaral - O ministro foi enganado, acreditou na palavra do araponga?
Não vou dizer que foi enganado, é porque o rapaz não tinha um equipamento tão preciso quanto o nosso. Porque, se você faz o grampo de hoje, digital, não cai nada. Não tem como saber se está grampeado.

Marina Amaral - Então ele poderia estar grampeado?
Poderia, mas lá na central, porque grampo de central ninguém pega. De celular ninguém pega. Porque nós fazemos grampo onde? Fazemos na célula, não tem uma torrezinha aí por perto? É ali que grampeamos. Quando você muda dessa, eu grampeio a outra, porque tenho um escâner que me diz onde você está. Esses filmes que falam que se identifica onde você está pelo celular é verdade. Onde você estiver com o celular, eu sei onde você está, porque o celular tem um GPS interno. Agora, o equipamento que o rapaz usou pra falar que tinha grampo poderia ser uma queda de energia. E vai grampear o Marco Aurélio pra quê também?

Marina Amaral - Voltando à questão de a Polícia Federal ser ligada sempre ao poder...
Desde que ela foi fundada, no mundo inteiro...

Marina Amaral - Então você concorda com a idéia de que a polícia estava embaçando as investigações pra não descobrir a origem do dinheiro antes da eleição?
Não vou dizer embaçando, mas poderia dizer pra você que estão trabalhando num ritmo que não quer problema nem com um, nem com outro, porque se você revela... Agora, se você quer acabar com isso aí, não briga com a polícia, não, briga com o Marco Aurélio, briga com o Supremo, briga com o juiz que decretou o segredo de justiça. Se você tem Lula e Alckmin, você tem um dossiê que pode acabar com a vida dos dois candidatos, não tem esse papo aí que acaba com a República? Aí você tem um documento que pode esclarecer isso, pô, vai pra televisão e fala o seguinte: “Eu não estou com Lula, com Alckmin, não estou com ninguém”. Pega esse troço e dá uma coletiva. “Aí, vocês votam em quem vocês quiserem”. Isso é país sério, na minha opinião.

Sérgio de Souza - Garisto, seguramos a edição pra sair antes do segundo turno e uma das entrevistas importantes era você, por causa do aspecto policial que vem envolvendo a campanha. Além do dossiê, tem o caso do “departamento de inteligência do PT”. O Berzoini...
Eu fui convidado pra esse troço. Eles me convidaram pra fazer parte de um grupo.

Thiago Domenici - Eles quem?
Pessoal do PT. Conheço muita gente do PT, como conheço dos outros partidos. E eles me sondaram: “Garisto, o pessoal está querendo montar um grupo pra evitar aquelas coisas, que chega isso contra um, chega isso contra outro, ou mesmo contra o Lula, aquilo que você fez na Federal aquela vez, você se antecipou, aquilo ia causar um prejuízo pra nós...” Na época. eles queriam me botar de diretor-geral da Policia Federal, por causa desse favorzinho. Não fui por causa de uma armação interna que acabou me derrubando. E também, se eu vou, duro seis meses.

Sérgio de Souza - E agora?
Agora, eles fizeram isso pra evitar problemas pro candidato. O que é problema? O cara me empresta um jato. “Ó, o cara quer te emprestar um jatinho, você está sem avião, pô, me levanta quem é esse cara aí, meu”.

Marina Amaral - Você disse que a Polícia Federal sempre agiu ligada ao poder. Nesse governo também, ou ela agiu atrelada ao poder ou ela agiu com liberdade?
Noventa por cento com liberdade. Mas, quando a coisa é muito terrível, eles interferem. Mas, se você é delegado, não tem que obedecer ninguém. Hoje, graças a Deus, existe uma geração de policiais, não porque é novo, uma mentalidade dos velhos também, que não obedece mais o diretor, nem o superintendente.

Wagner Nabuco - Vocês têm a liberdade funcional: abriu o inquérito, está na sua mão, ninguém pode mexer mais.
Os que têm coragem.

Wagner Nabuco - Eu estava relendo a sua entrevista em 2000 para a Caros Amigos, uma das coisas que você falava era a capacidade de interferir fortíssima dos organismos americanos na Polícia Federal.
Acabou isso aí.


Marcos Zibordi - Não tem mais agente norte-americano treinando policial brasileiro, por exemplo, na fronteira do Paraguai?
Não, não tem. Estão treinando os paraguaios. Eu vim de Foz do Iguaçu semana passada, de um congresso.

Marcos Zibordi - Estão treinando os paraguaios?
E tem muito americano lá, tem uma base lá que o governo brasileiro devia chiar e não está chiando. A coisa está feia lá, a interferência americana é total.

Wagner Nabuco - Uma coisa que você falava na entrevista era a interferência na Polícia Federal...
Fui depor no Congresso sobre isso, dinheiro do DEA, dinheiro disso, dinheiro daquilo, isso aí acabou.

Marcos Zibordi - E o Comando Delta?
O Comando Delta está mais vivo do que nunca, mas todo mundo fala que eu sou da teoria da conspiração...

Wagner Nabuco - Você acha que nessa eleição o Comando Delta agora começou a agir mais forte?
Claro que sim. O Comando Delta está com medo que o Lula resolva ser o Lula no segundo mandato e fazer umas coisas sociais que ele não fez, isso aí eu ouvi de um cara que faturou mais de 1 bilhão. Falou pra mim dentro de um avião. O cara faturou mais de 1 bilhão o ano passado.

Sérgio de Souza - O que ele falou?
Falou que o pessoal está cabreiro, e eu sei que ele faz parte desse tipo de rolo. E vocês podem me chamar de doido, mas existe isso.

João de Barros - Composto por quem?
O Comando Delta é o quê? É o cara que fatura 3 bilhões por ano. Que tem lá uma privatização que ele pegou de graça com o dinheiro do governo e fatura 3 bilhões por ano. Esses são os caras que se reúnem e que não deixam mudar.

Sérgio de Souza - O Ciro Gomes diz que eles se reúnem uma vez por mês em São Paulo.
Só que eles não ficam com quem vai perder e me parece que eles estão indo pro lado do Alckmin, por isso que é perigoso o Alckmin. Porque o Alckmin já era membro. A turma do tucanato é membro. E o negócio deles é grana, só grana. São esses malditos que tocam esse país, foram eles que chegaram pro Lula e: “Você pode isso, pode isso, pode isso, se fizer assim, estamos com você”. E os estudiosos da economia do Lula falaram para ele: “Se você mexer nisso, cai o castelo de cartas”. E cai, não adianta você querer ser petista ou outra coisa, cai mesmo.

Marina Amaral - E o Comando Delta atua nessa área de dossiês?
Eles fazem tudo. A Kroll era o braço de investigação deles, vocês não viram aí? Pega os clientes da Kroll.

Thiago Domenici - Tem gente da mídia no Comando Delta?
Eles interferem no mecanismo de comunicação, sim, é muito claro isso. Você viu, por exemplo, a explicação que a Globo deu quando foi dizer que o Lula não ia comparecer. O Bonner ficou meia hora falando: "Ele não vai porque vai ser atacado, porque vai ser esculhambado, se fosse ele também não viria. E você, telespectador, você viria? Não viria. Então o Lula está certo, não deve vir mesmo”. E outra, é um apoio que, se eu fosse o Lula, também ia querer. Que é da maior emissora de televisão do país. Mas todo mundo sabe que é um apoio eventual. Amanhã, quando o interesse dela não for atendido, ela muda de lado.

Thiago Domenici - Voltando ao dossiê, não é estranho acontecer justamente na semana em que o povo vai votar?
Tudo no período eleitoral é estranho. Até a demora do DNA, que demora mesmo, é estranha. Agora foi a Polícia Federal que descobriu, bem ou mal, armação ou não, foi ela que descobriu. E a Polícia Federal hoje é isenta, somos atacados de ser petistas e tucanistas. Quando a gente faz um negócio que pega mal pro PT, somos tucanos. Quando prejudica os tucanos, somos PTpongas. Está ótimo, não estamos agradando ninguém, polícia não foi feita para agradar. Nós temos que agradar o juiz, a opinião pública, o Estado. Os governos passam e a gente fica.

Marina Amaral - O que fica esquisito é que o dinheiro estava lá e as provas não estavam...
As provas estavam, mas os caras pensavam que era coisa muito melhor. Porque são estelionatários. Eu não acredito nem que tenha 2.000 páginas de dossiê. Aqueles aloprados daqueles Vedoin, o negócio deles é dinheiro, o tanto que eles roubaram das ambulâncias, não tinha tempo pra ficar correndo atrás de dossiê. Eles formaram 2.000 páginas em dez dias!

Marina Amaral - Ninguém nunca viu esse dossiê?
Não, ninguém nunca viu.

Marina Amaral - O delegado Bruno deu uma entrevista dizendo: “Ah, compromete gente, partidos de A a Z”. Falou tudo isso baseado no testemunho do Gedimar?
Não, falou isso baseado no que já existe. No que já foi apreendido.

Marcos Zibordi - Mas nesse pedaço que foi apreendido tem coisa?
Não foram apreendidas só duas fotos, não. Foi um monte de coisinha. E tem papel também, tem coisa lá que ninguém viu ainda. E está fechado.

Sérgio de Souza - Você também não?
Não, agora, eu sei que tem essa frase que eu estava repetindo que diz que derruba a República e causa o impeachment do Serra...

Marina Amaral - Mas é isso que está lá?
É. Que está na polícia.

Marina Amaral - Mas é muito esquisito, porque o delegado falou que nada comprometia o Serra.
Segredo de justiça. Como é que a Justiça decretou rapidinho segredo de justiça? Se eu falar para você o que tem lá agora, é de três a seis anos de prisão.

Renato Pompeu - Voltando à minha pergunta no começo: você disse que tinha uma vertente Vedoin e uma outra vertente. Qual é a outra?
A outra é armação. Do jeito que vocês estão falando, só que pra essa armação aí vamos ter que ter o comprometimento, inclusive das pessoas do próprio PT. O que dizem é que o negócio foi feito pra favorecer o Mercadante. Por isso que o Lula está chutando as cadeiras lá. Se esse pessoal do tucano armou isso, é uma possibilidade, não posso eliminar isso, estamos falando de conjeturas. Não tenho informação sobre isso. Mas é possível. Agora, existem coisas ali também contra o Serra, de acordo com as informações também, que eu não vi. Então, aí, o cara vai armar para ele mesmo?

Thiago Domenici - Segundo turno agora dia 29, você acha que essa história vai durar quanto? Vai ter uma solução antes ou depois?
A pressão está muito forte. Agora, uma investigação é que nem uma corrida de Fórmula 1. Você não pode andar a 400, você tem que andar a 300, se você andar a 400 vai capotar na curva, se andar devagar todo mundo passa você. A investigação policial não pode se atrelar à vontade do Alckmin nem do Lula, ela tem que se atrelar, e aí com isenção, em cima do tempo que leva para fazer as coisas.

Sérgio de Souza - Mas a investigação estaria continuando?
Claro, claro. A origem do dinheiro. Está.

Sérgio de Souza - Além da origem do dinheiro, o que mais?
Investigando tudo que tem ali dentro, agora, com que pressa? Acho que a Polícia Federal chegou a uma conclusão ali, através da direção, que eles não vão divulgar mais nada, vão ficar é na deles, porque, se pega um, pega outro, ela pode interferir no processo. Agora, a Polícia Federal é uma coisa complicada, ali tem muito tucano. Se tem coisa contra o Lula ali, talvez seja mais fácil vazar contra o Lula do que contra o outro.

Marina Amaral - O procurador desse caso é o mesmo do caso da Roseana, né? O Avelar?
O Avelar é o seguinte: é um garoto. Eu conheço o Avelar. Ele é muito competente, inteligente, trabalha dia e noite, levanta de madrugada para relatar, mas ele é que nem pintinho de chocadeira: vê uma luz, corre pra baixo dela. Não pode ver um holofote. E esse é o problema do Ministério Público e alguns delegados nossos. E eles ficam disputando esse holofote, e quem ganha com isso é o crime.

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